Helena

Part 5

Chapter 53,966 wordsPublic domain

--Quer lel-a? perguntou Helena apresentando-lh'a.

Estacio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A innocencia não teria mais puro rosto; a hypocrisia não encontraria mais impassivel máscara. Estacio contemplava-a a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cocegas; seu olhar ambicionava ser como o da Providencia que penetra nos mais intimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Ursula lhe pedia fôsse ter com ella. Estacio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquerito mental sôbre a procedencia da mysteriosa missiva. Um indicio havia de que podia conter alguma cousa secreta; era o gesto com que ella a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do collegio, que lhe confiava segredos seus? Estacio abraçou com alvorôço ésta hypothese. Depois, occorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idyllio de collegio, em que Helena fosse protagonista, idyllio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha elle com isso?

Fazendo ésta ultima reflexão, Estacio sacudiu do espirito o assumpto e seguiu a examinar as novas obras da chacara, entre as quaes figurava um vasto tanque. Ja alli estavam os operarios; ia começar o trabalho do dia. Estacio viu a obra feita e deu várias indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observação, Estacio rectificou-as. Depois admirou-se de não ver um vaso, que alias dous dias antes mandara remover; emfim recommendou a rega de uma planta, ainda humida da agua que o feitor lhe deitára nessa manhã.

D. Ursula não estava de todo boa, mas pôde almoçar á mesa commum. O sobrinho appareceu aborrecido; a sobrinha triste; o dialogo foi mastigado como o almôço. No fim deste, recebeu Estacio uma carta de Eugenia. Era uma tagarelice meia frivola, meia sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objecto definido, a não ser pedir-lhe que escrevesse, se não pudesse ir vel-a.

Acabava elle de ler a carta, quando Helena lhe appareceu á porta do gabinete. Não a escondeu; teve um pensamento singular: mostral-a à irmã, na esperança de que ésta, pagando-lhe com egual confiança, lhe mostrasse a sua,--ideia que revellava o seu nenhum conhecimento do espirito das mulheres, porquanto só a indiscrição masculina era capaz de cahir em semelhante laço. Helena percorreu com os olhos a carta de Eugenia e esteve algum tempo silenciosa.

--Permitte-me um conselho? perguntou ella.

E como Estacio respondesse com um gesto de assentimento:

--Va ter com Eugenia, solicite licença para ir pedil-a a seu pai, e conclua isso quanto antes. Não é verdade que se amam? della creio poder affirmar que sim; de voce...

--De mim?

--Penso que é mais duvidoso; ou voce é mais habil. Hade ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar,--isto é, a cousa mais natural do mundo,--a mais bella,--não direi a mais sublime. Os homens serios tem preconceitos extravagantes. Confesse que ama,--que não é indifferente a esse sentimento inexprimivel que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas creaturas humanas.

--Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estacio.

E éstas quatro palavras tão naturaes e tão communs tinham ares de uma revellação nova no estado de espirito em que elle se achava. Se Helena tivesse proposito de lhe lançar a perplexidade na alma não empregaria mais efficaz conceito. Sería na verdade aquelle amor tão travado de desanimos, dissentimentos e alternativas, tão discutido em seu proprio coração, seria uma affeição destinada a perecer no occaso da primeira lua matrimonial?

--Pois bem, concordou elle, ao cabo de alguns instantes; é verdade. Eugenia não me é indifferente; mas poderei estar certo dos sentimentos della? Ella mesma poderá affirmar alguma cousa a tal respeito? Ha alli muita frivolidade que me assusta; illude-a talvez uma impressão passageira.

--Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão passageira... O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O marido fara a mulher. Convenho que Eugenia não tem todas as qualidades que voce desejaria; mas não se póde exigir tudo; alguma cousa é preciso sacrificar, e do sacrificio recíproco é que nasce a felicidade doméstica.

As reflexões eram exactos: por isso mesmo Estacio as interrompeu. O filho do conselheiro achava-se n'uma posição difficil. Caminhara para o casamento com os olhos fechados; ao abril-os viu-se á beira de uma cousa que lhe pareceu abysmo, e era simplesmente um fôsso estreito. De um pulo poderia transpol-o; mas, se não era irresoluto nem debil, tinha elle acaso vontade de dar esse salto?

Insistindo Helena, prometteu elle que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde desabou um temporal violento. A fôrça do vento e da trovoada abrandou; mas a chuva continuou a cahir com a mesma violencia; era impossivel ir ao Rio Comprido. Estacio estimou aquelle obstaculo; era melhor adorar de longe a imagem da moça do que ir colhêr algum desgôsto juncto della.

De pe, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via elle cahir os grossas toalhas de agua. A seu lado estava sentada Helena, não alegre, mas taciturna e melancholica.

--É tão bom ver chover quando estamos abrigados, exclamou elle. Tenho la na estante um poeta latino que diz alguma cousa neste sentido... Que tem voce?

--Estou pensando nos que não tem abrigo, ou o tem mau; nos que não tem neste momento nem tectos solidos nem corações amigos ao pe de si.

A voz da moça era trémula; uma lagryma lhe brotou dos olhos, tão rapida que ella não teve tempo de a dissimular. Sorprehendida nessa manifestação de sensibilidade, inexplicavel talvez para o irmão, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O riso parecia uma cristalisação da lagryma; e o gracejo tinha ares do responso. Estacio não se illudiu; nada daquillo era claro,--ou era tão claro como a carta. Seu olhar, severo e frio, interrogou mudamente a moça. Helena, que tivera tempo de tranquillisar-se, voltou o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na vidraça.

CAPITULO IX

Naquella mesma noite D. Ursula, que não havia de todo melhorado, adoeceu devéras. A familia, mal convalecida da perda de seu velho chefe, via-se agora ameaçada de uma nova dor, em todo o caso exposta a novos receios. O Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e deu principio a rigoroso tratamento.

Helena era naquella occasião a natural enfermeira. Pela primeira vez patenteou-se em todo o explendor a dedicação filial da moça, sua constancia, solicitude e tino. As horas do dia, e não poucas noites inteiras, passava-as na alcova de D. Ursula, attenta a todos os cuidados que a gravidade da enfêrma exigia. Os remedios e o pouco alimento que ésta podia receber não lhe eram dados por outras mãos. Helena velava á cabeceira durante o somno leve e interrompido da doente, achando em suas proprias fôrças a resistencia que a natureza confiou especialmente ás mães. Quando dava algum repouso ao corpo, não era elle ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta noite, erguia-se do leito, collocado provisoriamente no quarto contiguo, para ir espreitar a mucama que em seu logar acompanhava a enfêrma. As prescripções do médico era ella quem as recebia e cumpria. A voz dura e sêcca com que Camargo lhe falava não era propria a tornal-o amavel e aceito, mas Helena cerrava os ouvidos á antipathia do homem para só obedecer ao médico. Este não tinha outra pessoa a quem interrogasse acerca dos phenomemos da doença; nem podia achar quem melhor os observasse e referisse; fôrça lhe era acceital-a. Assim que, essas duas pessoas que se repeliam e detestavam, iam de accordo desde que se tratava da vida de um terceiro.

O que completava a pessoa de Helena e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos é que, no meio das occupações e preocupações daquelles dias, não fez padecer um só instante a disciplina da casa. Ella regeu a familia e serviu a doente, com egual desvello e beneficio. A ordem das cousas não foi alterada nem esquecida fóra da alcova de D. Ursula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se nada extraordinario se houvesse dado. Helena sabia dividir a attenção sem dispersal-a, que é o principal segrêdo do trabalho fecundo.

De si é que ella não curou muito. A _toilette_ era singella e descuidada. Os cabellos, colhidos á pressa e presos por um pente no alto da cabeça, não receberam de sua dona, em todo aquelle tempo, a fórma elegante e graciosa, com que ella os saiba realçar. Accrescia o abatimento e pallidez, que era impossivel evitar no meio de tanta fadiga, certo cançasso dos olhos, que os fazia molles e talvez mais adoraveis, um rosto sem riso nem viveza, um silêncio attento e laborioso.

A doença durou cêrca de vinte dias. Afinal, triumphou a sciencia e a propria natureza de D. Ursula, robusta apezar dos annos. A convalecença começou; com ella volveu a satisfação da familia. O papel de Helena não estava acabado; diminuia, contudo, e Estacio interveio para que a irmã tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ella recusou, dizendo que o repouso perdido aos poucos seria aos poucos recuperado.

Havia no coração de D. Ursula uma fonte de ternura, que Helena devia tocar, para jorrar livre e impetuosamente. Sua dedicação, em tal crise foi a vara mysteriosa daquella Oreb. A affeição da tia era até então frouxa, voluntaria e deliberada. Depois da molestia, avultou expontanea. A experiencia do caracter da moça dera esse resultado inevitavel. Toda a prevenção cessou; a gratidão da vida ligou fortemente o que tantas circumstâncias anteriores pareciam separar. Não o occultou a irmã do conselheiro; suas maneiras não tinham ja acanhamento nem reserva; as palavras subiam do coração á boca sem atenuação nem cálculo; fez-se carinhosa e mãe.

No dia em que ella pôde sahir do quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o braço e levou-a até á sala de costura e das reuniões íntimas. Estacio amparou-a do outro lado. Alli chegando, foi ella sentada n'uma poltrona. Estacio abriu um pouco a janella, para penetrar além da luz, um pouco de ar. D. Ursula respirou á larga, como lavando o pulmão cora aquella primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficára de pe a seu lado, fel-a inclinar a fronte e imprimiu-lhe um beijo longo e verdadeiramente maternal. Estacio approximara-se; aquella manifestação encheu-o de júbilo.

--Bem merecido beijo!--exclamou elle. Helena foi um anjo em todo este tempo.

--Bem sei,--retorquiu D. Ursula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Póde ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal merito é só teu.

Helena abraçou a convalecente.

--Estacio,--disse ésta; agradece a tua irmã, como eu fiz.

Estacio inclinou-se para Helena afim de lhe pousar na fronte o casto ósculo de irmão. Não o conseguiu, porque Helena desviando o busto e reclinando a cabeça para traz, estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda e disse:

--Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um apêrto de mão e o affecto de todos.

Estacio apertou-lhe a mão, e sentiu-lh'a trémula. Aquelle movimento de castidade não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bella. Uma creatura tão ciosa de si mesma que nem admittia a caricia do irmão, não era digna de honrar o nome da familia?

A convalecença de D. Ursula foi lenta, e não a houve mais rodeada de cuidados e attenções. Os dous sobrinhos não a deixaram um instante sosinha, e inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distrahil-a: jogos de familia ou leitura, musica ou simples palestra íntima. Uma vez lembraram-se de representar, só para ella, uma comedia de duas pessoas. Outra vez, Helena organizou um sarau musical, em que tomaram parte Eugenia Camargo, e mais tres moças da visinhança. Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O successo não podia ser mais completo. Como o applauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco a filha do médico, Helena preparou-lhe habilmente um triumpho, fazendo-a executar ao piano uma composição brilhante, sua favorita. Estacio, que quasi não tirava os olhos da irmã, percebeu-lhe a intenção, e disse-lh'o. Helena esquivou-se à allusão; mas, insistindo elle:

--Não ha nada que admirar, disse ella; Eugenia toca perfeitamente; ora justo que tambem fosse applaudida. Se ha arte no que fiz, parece-me que é a mais singella do mundo. O melhor modo de viver em paz, é nutrir o amor proprio dos outros com pedaços do nosso. Mas, olhe; Eugenia nem precisa disso; tem a primazia da belleza. Veja se ha creatura mais deliciosa.

Estacio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de duas moças e dous rapazes. Eugenia pelo braço de um delles, estava de pe, ouvindo sem attender as palavras, que alli diziam, por que seus olhos inquietos derramavam-se por toda ella e pela sala. Admirava-se e espreitava a admiração dos outros. A figura era realmente graciosa; mas Estacio quizera-a mais inconsciente, menos preoccupada do effeito que produzia.

--Ha cem bellezas como aquella, disso elle.

--Estacio! exclamou Helena com ar de reprehensão.

--A belleza é como a bravura; vale mais se não a mettem á cara dos outros.

--Voce é um ingrato!

Naquella noite ficou mais patente que nunca a preponderancia ganha por Helena, que se tornara a verdadeira dona da casa, a directora ouvida e obedecida. D. Ursula cedêra, em poucas semanas, o que lhe negára durante mezes.

Por que razão, pensando em todas as cousas, não conseguíra ella apressar o casamento de Estacio? Estacio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para reflectir. Suas ausencias no Rio Comprido iam-se tornando mais longas; os dias, quasi todos, eram desfiados no remanso da familia. Mas Helena insistiu tanto que elle prometteu fazer o solemne pedido no primeiro dia do anno.

Estacio não havia esquecido a carta lida pela irmã; mas por mais que a espreitasse e a estudasse nada descobria que lhe fizesse suppor affeição encoberta. Nenhum dos homens que iam alli,--e eram poucos,--parecia receber de Helena mais do que a cortezia commum. D. Ursula, a quem elle incumbira de interrogar a irmã acerca das palavras que ésta lhe dissera na manhã do primeiro passeio, não obteve resposta mais decisiva.

A promessa de ir pedir Eugenia, fel-a Estacio na segunda semana de Dezembro, em uma noite sem visitas que eram as melhores noites para elle. No dia seguinte de manha, erguendo-se tarde, soube que Helena sahíra a cavallo logo cedo.

--Sosinha?

--Com o Vicente.

Vicente era o escravo que, como sabemos, se affeiçoára, primeiro que todos, a Helena; Estacio designara-o para servil-a. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo andava com o mesmo passo de costume; mas á anciedade do mancebo affigurava-se que era mais longo. Estacio chegava á janella, ia até o portão da chacara, cora ar de apparente indifferença, que a todos illudia, a começar por elle proprio. N'uma das vezes em que voltou a casa, achou levantada D. Ursula; falou-lhe; D. Ursula sorriu com tranquillidade.

--Que tem isso? disse ella. Ja uma vez sahiu a passeio com o Vicente e não aconteceu nada.

--Mas não é bonito, insistiu Estacio. Não está livre de um acto de desattenção.

--Qual! Toda a visinhança a conhece. Demais, Vicente ja não é tão creança. Tranquillisa-te, que ella não tarda. Que horas são?

--Oito.

--Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que ja ouço um tropel.

Os dous estavam na sala de juntar: passaram á varanda, e viram effectivamente entrar no terreiro Helena e o pagem. Helena deu um salto e entregou a redea de _Moema_ ao pagem que acabava de apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao collocar o pe no primeiro degrau, deu com os olhos nu irmão e na tia. Fez-lhes um comprimento com a mão, e subiu a ter com elles.

--Ja de pe! exclamou abraçando D. Ursula.

--Ja, para lhe ralhar,--disse ésta sorrindo. Que ideia foi essa de bater a linda plumagem? É a segunda vez que voce se lembra de sahir sem o urso do seu irmão.

--Não quiz incommodar o urso, replicou ella voltando-se para Estacio. Tinha immensa vontade, de dar um passeio, e _Moema_ tambem. Apenas hora e meia.

Aquelle dia foi o de maior tristeza para a moça. Estacio passou quasi todo o tempo em seu gabinete; nas poucas occasiões em que se encontraram, elle só falou por monosyllabos, ás vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estacio desceu á chacara. Ja não era só o passeio de Helena que o mortificava; ao passeio jantava-se a carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnancias? Como elle fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atraz de si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.

--Está mal commigo? perguntou Helena com doçura.

Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a colera do mancebo. Voltou-se; Helena estava deante delle, com os olhos submissos e puros. Estacio reflectiu um instante.

--Mal? disse elle.

--Parece que sim. Não me fala, não se importa commigo,--anda carrancudo... Seria por que eu sahi do manhã?

--Confesso que não gostei muito.

--Pois não sahirei mais.

--Não; póde sahir. Mas está certa de que não corre nenhum perigo indo só com seu pagem?

--Estou.

--E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?

--Não sei se poderei obedecer. Nem sempre voce poderá acompanhar-me; além disso, indo com o pagem, é como se fosse só; e meu espirito gosta ás vezes de trotar livremente na solidão.

--Naturalmente a pensar de cousas amorosas... acrescentou Estacio cravando os olhos interrogadores na irmã.

Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dous seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estacio sentou-se; Helena ficou de pe diante delle. Olharam um para outro sem proferir palavra; mas o labio de Estacio tremêra duas ou tres vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim, o moço venceu-se.

--Helena, disse elle, voce ama.

A moca estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si como assustada e pousou as mãos nos hombros de Estacio. Reflectiu ella no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa occasião parecia concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente:

--Muito! muito! muito!

Estacio empallideceu. A moça recuou um passo, e, trémula, poz o dedo na boca como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava em seu rosto; Helena deu as costas ao irmão e affastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era agitada com fôrça, e uma voz atroava a chacara:

--Licença para o amigo que vem do outro mundo!

CAPITULO X

Estacio dirigiu-se ao portão. Abria-o; um moço que alli estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dous mancebos lançaram-se nos braços um do outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquella effusão, e não lhe foi difficil adivinhar quem era o recem-chegado.

A effusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dous rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante delles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estacio, Mendonça ficou naturalmente espantado. Cortejou ceremoniosamente a moça, e os dous seguiram até a casa, onde pouco depois entrou Helena.

Mendonça era da mesma estatura que Estacio, um pouco mais cheio, hombros largos, physionomia risonha e franca, natureza mobil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao _boulevard_ de Gand, ao cafe Tortoni e ás recitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva côr de palha, e sôbre o cabello, penteado a capricho, pousava um chapeu de fabrica recente.

Estacio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas qualidades e educação louvou, com o fim de lhe fazer comprehender o respeito e a affeição que ella de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatorio do irmão logo que entrou na sala.

Mendonça divertiu a familia uma parte da noite contando os melhores episodios da viagem. Era narrador agradavel, fluente e pitoresco, dotado de grande memoria e certa fôrça de observação. Seu espirito galhofeiro achava mais facilmente o lado comico das cousas; e mais se comprazia em dizer os accidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de theatro que em descrever as bellezas da Suissa ou os destroços de Roma.

A visita durou pouco mais do hora. Estacio quiz acompanhal-o até a cidade; elle não consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chacara, falaram do passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a occasião lhes permittiam. Mendonça, vendo que Estacio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.

--Fallaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugenia...

--A filha do Camargo.

--Justo. Negocio roto?

--Quasi terminado.

--Terminado... na egreja, supponho?

--Tal qual.

--Quando?

--Brevemente.

--Marido, emfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.

--Talvez ambos.

--Creio que sim. Tudo depende do gôsto de cada um. O casamento é a peor ou a melhor cousa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça; era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...

--É um anjo.

--Como todas as noivas. Feliz Estacio! Segues a carreira de tua vocação, em quanto que eu...

--Tu?

--Interrompo a minha e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou capitalista, nem meu pae tão pouco. Adeus, viagens!

--Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação, mas não serás o primeiro que a erre, sim que dahi venha mal ao mundo.

--Pois arranja la isso. Em todo caso não será tua irmã.

--Oh! não, disse vivamente Estacio.

--Na verdade, é bonita; mas... se permittes a franqueza de outr'ora, acho-lhe uma costella de desdem...

--Que ideia! É a mais affavel creatura do mundo. Veras mais tarde; hoje estava talvez preoccupada. Em todo o caso, não havias de querer que ella saltasse a dansar contigo na sala, de mais a mais sem musica.

Mendonça acabava de accender um charuto; apertou a mão de Estacio e sahiu. Estacio accordou de um sonho. A realidade poz-lhe suas mãos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a confissão interrompida de Helena. Ancioso por saber o resto, entrou elle immediatamente em casa. A diligencia foi esteril, por que a irmã recolhera-se a seu aposento. Estacio imitou-a. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora que o affligia, porque, dizia elle consigo mesmo, cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de familia, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fôsse melhor. Uma noite não em muito; comtudo, a preoccupação retardou-lhe o somno. A confissão subita, laconica e eloquente da irmã ficara-lhe no espirito como se fôra o echo perpétuo de uma voz extincta.

Nem no dia seguinte nem nos subsequentes alcançou o que esperava. Helena, ou evitava ficar a sos com elle, ou esquivava-se a maior explicação. Nos passeios matinaes, que eram frequentes, procurou Estacio mais de uma vez enterreirar a conversa no assumpto que, mais que nenhum outro, o preoccupava. Helena ouvia com um sorriso, e respondia com uma gracejo; depois dava de redea á conversação e galopada na direcção opposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva trazel-a ao ponto de partida.

Um dia, a insistencia de Estacio teve tal caracter de autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena. Ella replicou com remoque; elle redarguiu com uma advertencia aspera. Iam ambos a pe, levando os animaes pela redea. Ouvindo a palavra do irmão, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares que parecem vir das estrêllas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estacio possuia essas duas cousas que nunca hão de conhecer corações mediocres: a nobre retratação do êrro e a generosidade do perdão. Viu que cedêra a um mau impulso, e confessou-o; mas confessou-o com palavras taes, que Helena travou-lhe da mão e lhe disse:

--Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-hia desparar por este caminho fóra até o fim do mundo ou até o fim da vida.

--Helena!