Helena

Part 10

Chapter 103,925 wordsPublic domain

--Ha muita flor nesse ramalhete de rhetorica, interrompeu benevolamente o padre. Falemos linguagem singella e nua. Não creia litteralmente o que lhe diz este philosopho, proseguiu elle voltando-se para Mendonça; elle ama-os e quer vel-os felizes; é o proprio zêlo quem lhe faz falar assim. N'uma palavra; deseja que o senhor a conquiste depois de campanha formal...

Mendonça respondeu ao capellão com um sorriso pallido, que lhe arrebitou um pouco as pontas do bigode, recolhendo-se logo medroso e frio. Seu rosto ficára carregado e pensativo; a lingua de Estacio tocara-lhe o coração. Disposto a aceitar a estima e a sympathia de Helena com a esperança de converter esse pequeno dote em avultado capital, não lhe occorrêra que a olhos extranhos podia parecer que seu fim exclusivo era a riqueza da moça. Estacio rompêra o veu a essa probabilidade. Uma só palavra desfizera a illusão de poucos dias.

--Vamos la,--disse o padre,--abracem-se como irmãos.

Nenhum delles se mexeu, Melchior sentiu toda a gravidade da situação; viu perdidos seus esforços, desfeita a união assentada, um abysmo cavado entre os dous amigos, incerto o destino de Helena. Interveiu outra vez com palavras de brandura, que os dous ouviram sem interromper. Quando acabou:

--O Estacio tem razão, disse Mendonça; meu crédito padecerá desde que alguem se lembre de dizer que o casamento foi arranjado sem nenhuma preoccupação das preferencias de D. Helena. Ella me desobrigará, em troca da palavra que lhe restituo.

A phrase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitação nem fraqueza. Estacio olhava para elle e sentia alguma cousa semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-lhe:--«Somnambulo, abre os olhos, tem consciencia de tuas acções; teu abraço enforca; teus escrupulos fazem-te odioso; tua solicitude é peor do que a colera.» Via o mancebo cortejar o padre; deteve-o pelo braço.

--Onde vaes? disse elle.

--Vou aonde me leva o pundonor, disse singellamente Mendonça.

--Pobres rapazes! exclamou o padre. São dous estouvados, nada mais; um quer catar argumentos onde sua irmã só achou nobre o franca resolução; o outro rompe de coração leve uma promessa feita em presença de um sacerdote! Estouvados disse eu? São mais do que isso; são dous dementes. Ora, como só eu tenho juizo e consequente autoridade, digo que nem um ha de sahir assim desenganado, nem o outro ha de recusar a acquiescencia que lhe peço em nome de seu finado pae.

Estacio estremeceu; Mendonça conservou-se frio. A arma era rija, mas o golpe excedia a necessidade; Mendonça não quereria dever a espôsa á evocação do nome do conselheiro: equivalia a um rapto. Percebeu-o Melchior, quando viu Estacio estender a mão ao amigo, mão que este recebeu com dignidade e frieza. Contaria Estacio com essa mesma repulsa do pretendente? O certo é que lhe disse sem a menor sombra de hesitação:

--Meu zêlo foi talvez excessivo; mas a intenção é boa e pura. Que posso eu desejar senão ver felizes os meus? Amem-se; será a remate de minhas aspirações. Promettes fazel-a feliz?

--Não prometto nada, disse Mendonça; o casamento é ja impossivel. Tu abriste-me os olhos; não te quero mal por isso. Perco muito, é certo; mas não me exponho á lingua dos maus.

Mendonça foi buscar o chapeu e dispoz-se a sahir, não obstante a intervenção de Melchior, que procurou trazel-o a sentimentos de reconciliação. Não insistiu o padre; viu no rosto do mancebo uma resolução digna e firme, que era impossivel dobrar naquelle momento. Quando Mendonça, lhe estendeu a mão em despedida, elle apertou-lh'a com ternura e esperança. Estacio tentou ainda retel-o; foi inutil; Mendonça sahiu dalli sem rancor, mas sem pezar. O coração sangrava-lhe; mas a consciencia ia contente.

Melchior foi até á porta, a despedir-se do Mendonça. Quando este sahiu, elle voltou o rosto para dentro, cruzou os braços e fitou o sobrinho de D. Ursula. O moço desviou as olhos; não foi o medo que os torceu, mas a vergonha.

--Viu? perguntou o padre. Não sei qual seja a sua resolução; mais prometto-lhe que serei como Mahomet,--Deus me perdoe!--ainda que veja o sol á minha direita e a lua á minha esquerda, não deixarei de executar o meu designio. Va ter com sua familia; deixe-me alguns instantes com o meu breviario.

Estacio não pôde resistir á intimação do sacerdote; não achou uma palavra para lhe dizer. Sahiu aturdido, desconsolado, colerico. Na rua e na chacara, ia pensando na scena daquella ultima hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se, apalpava a intelligencia, chamava em seu auxilio todas as fôrças da realidade; olhava para o chão suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razão tomou pe no meio de lembranças tão desconcertadas, elle viu claramente o resultado de suas acções: perdia um amigo de longos annos e abdicava a direcção da familia, pelo menos em relação ao casamento da irmã. Se ésta lhe agradecesse a resistencia, Estacio dar-se-hia por bem pago de tudo. Não era em seu favor que elle conspirara? Este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse a approvação de Helena, pouco lhe importaria o resto.

Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passára em casa de Melchior. Ouviu-a commovida; no fim reprovou tudo o que elle fizera.

--Mendonça é ja o fructo prohihido, concluiu a moça; começo a amal-o. Se ainda assim me obrigar a desistir do casamento, adoral-o-hei.

--Chegamos ao capricho! exclamou elle; é o fundo do coração de todas as mulheres.

Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu a seu quarto, travou de uma penna e escreveu um bilhetinho. A tinta seccou primeiro que duas grossas lagrymas cahidas no papel; mas as lagrymas seccaram tambem. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena a mostral-o ao irmão.

Quando a moça entrou no gabinete, Estacio ia ter com ella. Sua resolução estava assentada. Uma vez que a irmã aceitava de boa feição o casamento, não havia mais que approval-o e celebral-o. Encontraram-se na porta; Estacio recuou para dentro.

--Helena, disse elle, faça-se a tua vontade.

--Consente?

Estacio fez um gesto affirmativo.

--Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará ca depois do que se passou. Peço-lhe a remessa deste bilhete.

Estacio abriu o bilhete; continha éstas poucas palavras: «Venha hoje a Andarahy; é o meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.» Cinco minutos gastou o moço a ler as duas linhas; leu o que estava escripto e o que não estava. Helena desarmava os escrupulos de Mendonça, tirando á futura união qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.

--Approva? perguntou a moça.

--Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse homem venha ca, que te cases com elle, que nos fujas? Não te basta a familia, a affeição de nossa tia, a minha propria affeição? Estes mezes de doce intimidade vão ser esquecidos em um só instante, sacrificados aos pes do primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma cousa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa familia completou-se; nossos corações receberam um sentimento ultimo. Pensavamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fôra não ter vindo!

Helena quiz responder; mas a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra retrocedeu ao coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe ainda uma vez que o enviasse e saiu.

De tarde, appareceu Melchior; ia tranquillo e e resoluto a dar um golpe decisivo. Estacio rendeu-se antes que elle falasse.

--Padre-mestre, disse o moço logo que o viu; a reflexão venceu-me; faça-se a vontade de todos.

--Fala de coração?

--De coração.

--Pois bem, seja completo; tomou o padre. Sou ministro de uma religião que condemna o orgulho. Não ha dezar em curar as feridas de um amigo; va ter com o seu amigo; traga-o a esta casa como irmão.

--Irei amanhã.

--Não; va hoje mesmo.

A noite cahiu logo; Estacio foi dalli vestir-se. Não tendo enviado o bilhete de Helena, metteu-o na algibeira para entregal-o elle proprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o relido, fez um gesto para rasgal-o, mas conteve-se e perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mão, á semelhança de mariposa indiscreta, parecia attrahida pela luz; resistiu, resistiu algum tempo; emfim chegou o bilhete, á vela e queimou-o.

CAPITULO XX

A visita de Estacio não causou nenhum espanto a Mendonça; elle a esperava com a confiança das indoles ingenuas e avessas ao odio. Não era crivel que um amigo de longos annos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que Estacio procurou o pretendente de Helena.

Entrou elle naturalmente em casa de Mendonça; sem expansão nem secura. A entrevista foi breve, mas cordial; houveram-se os dous com affectuosa dignidade. Estacio explicou seus escrupulos; declarou-se contente com a alliança. O contentamento podia existir; todavia a manifestação foi parca e sêcca. Houve mais calor e expansão quando elle lhe pediu que désse vida feliz á irmã.

--Sera para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse elle. Não tivemos o mesmo berço; vivemos nossa infancia debaixo de tecto differente; não aprendemos a falar pelos labios da mesma mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pae recommendou-a a nossa familia e ella correspondeu ao sentimento que dictou essa ultima e solemne vontade.

Mendonça nas respondeu nada; elle reflectira durante a noite nas palavras que ouvira a Estacio no dia anterior;--palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros, talvez por todos, logo que soubessem de seu casamento. Helena viria a amal-o, talvez; mas desde logo lhe levava para casa a chave da independencia. Mendonça recuou. Quando o padre Melchior o soube, não pode conter um gesto de admiração; mas se louvou o escrupulo, não approvou a resolução, que vinha derrubar tudo.

--Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; elles acharão meio de envenenar sua propria generosidade.

--Paciencia! tornou o moço; é menor esse perigo. Se casar, dirão que faço uma operação vantajosa; talvez sua familia o supponha; talvez ella propria o pense.

Helena teve noticia dos receios de seu pretendente e da resolução a que parecia inclinar o coração. Foi a elle; perguntou-lhe se era verdade. Mendonça affirmou que sim. Ella contemplou-o longamente sem dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com effusão; elle persistiu.

No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de faceirice,--dessa que rara vez deixa de enfeitar os mais puros e nobres sentimentos. A moça o percebeu, mas nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Creu; tentou dissuadil-o; e posto nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de que triumpharia afinal do derradeiro obstaculo. Seus olhos seriam mais habeis e felizes que os labios do padre. Foi o que ella disse ao capellão.

--Tomo á minha conta effectuar este casamento, continuou Helena.

--Resolvida a tudo?

--A tudo.

--Mas se elle insistir...

--Se elle insistir, vencel-o-hei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que quer ser noiva vale por um exercito; eu sou um exercito.

--Muito bem! Contudo, sua dignidade.

--Oh! em último caso abro mão da herança.

--Era capaz disso? perguntou Melchior.

--Se era capaz? Desejo-o até,--disse a moça com vehemencia.

E accrescentou em tom mais brando:

--Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a minima desconfiança.

Tal era a situação, dous dias depois da volta de Estacio. O casamento podia contar-se feito. Mendonça não resistiu ao nobre desinteresse de Helena. D. Ursula approvou tudo com effusão e amor, nada sabendo das incertezas e contradições dos ultimos dias.

Na noite desse dia, Estacio escreveu para Cantagallo dando notícias suas. Do casamento de Helena falou pouco; quasi nada. Tudo o descontentava: tanto o que elle fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não soubera oppor-se com efficacia nem applaudir opportunamente.

Posto fôsse tarde o somno teimava em fugir-lhe dos olhos e elle velou até muito além de meia noite. Occupado, sem dúvida em adormecer organisações menos sensiveis e existencias menos complicadas, o somno fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco horas de manhã, Estacio accordou e ergueu-se. A manhã estava fresca; quasi toda a familia dormia. Estacio desceu; o unico escravo que achou levantado preparou-lhe uma chicara de cafe. Não tendo ainda chegado os jornaes, bebeu-a sem a leitura do costume.

Quem sabe o que é fortuito ou providencial, e por que fios tenues se prendem muitas vezes os acontecimentos humanos? Estacio ouviu o som longinquo de um tiro; era algum caçador, talvez; a supposição deu-lhe ideia de ir caçar. Elle não era um Nemrod na habilidade, mas era-o na vocação. Foi buscar a espingarda, proveu-se de polvora e chumbo, e sahiu.

Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda diminuido naquella manhã, ou por que a mão estivesse menos firme, ou por que a vista andasse menos segura. Estacio caminhára longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia absorto,--alheio ao logar e ás cousas. Fez algumas tentativas de caça; mas deixou de mão o recreio. Quando cançou de errar, consultou o relogio e viu que não era cedo. Tinha o braço cançado de suster a espingarda; só então reparou que uso trouxera cm pagem consigo. Dispoz-se a voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a intenção de a dar a Helena, como seu primeiro presente de nupcias. Depois desceu, em caminho para casa.

Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, e os olhos no chão, a passo lento, apezar de serem oito horas dadas. De uma vez que ergueu os olhos viu um caso extranho que lhe fez deter o passo. Um pouco abaixo, sahia de traz de uma casa velha, o pagem de Helena, conduzindo a mola e a egua. Estacio não soube que pensar daquillo; mas, cedendo a um impulso que não pôde dominar, deu um salto por cima de uma cêrca do espinhos, agachou-se e esperou o resto.

O resto não se demorou muito. Assomou á porta da frente a figura de Helena. Depois de olhar cautellosamente para um e outro lado, sahiu e montou na egua; o pagem cavalgou a mula e os dous desceram a trote.

Estacio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo apertava o primeiro objecto que achou debaixo das mãos; era a cêrca de espinhos. A dor fel-o voltar a si; tinha a mão ensanguentada. Ao longe cavalgavam Helena e o pagem. Logo que os viu desaparecer, Estacio saltou de novo á estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em direcção á casa d'onde vira sahir a irmã. Era a mesma da bandeirinha azul, que Helena comprimentá-la de longe, alguns mezes antes, e não esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos annos delle. Estas circumstâncias, antes indifferentes, appareciam-lhe agora como outros tantos artigos de um libello.

O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a caliça das paredes e das columnas ia cahindo, e o esqueleto de tijolo estava a nu em mais de um logar. Alguma herva mofina brotava a custo juncto ás paredes, cobrindo com suas folhas descoloridas o chão desegual e humido. Por baixo de uma das janellas havia um banco de pau, gretado pelo tempo, com as bordas roliças do longo uso. Tudo alli respirava penuria e senilidade.

--Não, dizia Estacio consigo, não é este o asylo de um Romeo de contrabando. Mora aqui alguma familia pobre, que a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em longe.

A solução do enigma pareceu-lhe tão natural, que o moço resolveu parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para traz. Mas a suspeita é a tenia do espirito; não perece em quanto lhe resta a cabeça. Estacio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquillo era, e voltou sôbre seus passos. Para entrar alli era necessario um motivo ou ura pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos. Olhou para a mão ferida e ensanguentada, e foi bater á porta.

CAPITULO XXI

Poucos instantes esperou Estacio. Veiu um homem abrir-lhe a porta; era o mesmo que elle vira alli uma vez. Entre ambos houve meio minuto de silêncio, durante o qual nem Estacio se lembrou de dizer o que queria, nem o desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam um para o outro.

--Que desejava? disse enfim o dono da casa.

--Um favor, respondeu Estacio, mostrando-lhe a mão ferida. Ia a cahir ha pouco; procurando amparar-me, n'uma cêrca de espinhos, feri-me, como ve. Podia dar-me um pouco d'agua para lavar este sangue, e...

--Pois não, interrompeu o outro. Queira sentar-se ahi no banco,--ou, se prefere, entrar... É melhor entrar, concluiu abrindo-lhe caminho.

Em qualquer outra occasião, Estacio teria recusado o convite, porque o expectaculo da miseria repugnava aos olhos saturados de opulencia. Agora, ardia por haver a chave do enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma das janellas para dar mais alguma luz, offereceu ao hóspede a melhor cadeira e foi por um instante ao interior.

Estacio pôde então examinar, á pressa, a sala em que se achava. Era pequena e escura. A parede, pintada a colla, ja de longa data, tinha em si todos os signaes do tempo; primitivamente de uma só côr, a pintura apresentava agora uma variedade triste e desagradavel. Aqui o bolor, alli uma grêta, acola o rasgão produzido por um movel; cada accidente do tempo ou do uso dava áquellas quatro paredes o aspecto de um asylo da desgraça. A mobilia era pouca, velha, mesquinha e desegual. Cinco ou seis cadeiras, nem todas sãs, uma mesa redonda, uma commoda e uma marqueza, um aparador com duas mangas de vidro cobrindo castiçais de latão, sôbre a mesa um vaso de louça com flôres, e na parede dous pequenos quadros cobertos de escomilha encardida, taes eram as alfaias da sala. So as flôres davam alli um ar de vida. Eram frescas, colhidas de pouco. Atentando nellas, Estacio estremeceu: pareceu-lhe reconhecer uma acacia plantada em sua chacara. Quando a suspeita germina na alma, o menor incidente assume um aspecto decisivo. Estacio sentiu um calafrio por todo o corpo.

Voltou o dono da casa, trazendo nas mãos uma bacia, e nos braços uma toalha, cuja alvura contrastava singularmente com a côr da parede e o aspecto senil da casa. Estacio ergueu-se.

--Deixe-se estar, disse o desconhecido.

--Estou perfeitamente bem.

--Nesse caso, faça o favor de chegar á janella.

A bacia foi posta na janella; o desconhecido quis lavar elle proprio a mão do hóspede; mas o moço não lh'o consentiu.

--Ao menos, disse o dono da casa, hade consentir que a enxugue. Eu entendo um pouco disto; infelizmente, não tenho aqui nenhum medicamento caseiro para applicar.

Estacio aceitou o offerecimento. O dono da casa abriu a toalha e começou cuidadosamente a operação. O sobrinho de D. Ursula pôde então examiná-lo á vontade.

Era um homem de trinta e seis a trinta e oito annos, forte de membros, alto e bem proporcionado. Uma cabelleira espessa e comprida, de um castanho escuro, descia-lhe da cabeça até quasi tocar nos hombros. A fronte elevada, tinha um ar de serenidade olympica. Os olhos eram grandes, e geralmente quietos, mas riam-se, quando sorriam os labios, animando-se então de um brilho intenso, ainda que passageiro. Havia naquella cabeça,--salvo as suiças,--certo ar de tenor italiano. O pescoço, cheio e forte, surgia d'entre dous hombros largos, e, pela abertura da camisa, que um lenço atava frouxamente na raiz do colo, podia Estacio ver-lhe a alva côr e a rija musculatura. Vestía pobre, mas limpamente, um rodaque branco, calça de ganga e collete de brim pardo. A _toilette_ mas que disparatada e mesquinha, não diminuia a belleza mascula da pessoa; accusava somente a penuria de meios.

Quando elle acabou de lavar os arranhões de Estacio,--eram pouco mais do que isso,--propoz-se a ir buscar um pedaço de panno afim de atar-lhe a mão; Estacio, com a outra mão e os dentes, rasgou o lenço que trazia, e o dono da casa completou o summario curativo.

--Prompto! disse elle. Se tiver em casa algum medicamento apropriado, será conveniente applical-o. Toda a cautella é pouca; convem evitar alguma inflammação.

--Obrigado, respondeu Estacio. Realmente, vim dar-lhe uma massada, sem grande necessidade talvez.

--Porque?

--Podia fazer isto mesmo quando chegasse a casa.

--Mora perto?

--Um pedaço abaixo.

--Foi conveniente curar ja; nenhuma precaução é inutil em cousa, nenhuma da vida.

--Maxima de prudencia, observou Estacio procurando sorrir.

--Que só aprende tarde quem não a traz na massa do sangue, replicou o outro suspirando.

A não ser indiscreto ou fallador, era difficil levar a conversa por diante. O favor estava feito, o assumpto exgotado. Restava agradecer, despedir-se e sahir. Estacio, entretanto, tinha necessidade de mais tempo; queria arrancar áquelle homem uma palavra menos indifferente á situação, ou conhecer-lhe, se fôsse possivel, o caracter e os costumes. Para isso havia talvez um meio; contrafazer-se, affectar maneiras extranhas ás suas, apegar-se á occasião por todas as bordas. Estacio determinou-se a isso, confiando o resto do acaso. Voltou á cadeira e sentou-se.

--Consente que descance um pouco? Estou fatigadissimo.

--Não pelo que caçou, disse o desconhecido rindo.

--Volto com as mãos abanando. Nunca fui bom caçador; e tenho, não obstante, a mania de atirar aos passaros.

--Não é esse o defeito de muita outra gente, em mais elevada ordem de cousas? Eu fui victima desse defeito mortal.

--Ah! exclamou Estacio com certa entonação interrogativa.

O dono da casa sorria levemente; mas não pareceu molestal-o a curiosidade do hóspede;--talvez mesmo não desejasse outra cousa.

--É verdade,--disse elle; devo a minha actual penuria ao erro de teimar em cousas extranhas á minha indole e aptidão, extranhas e totalmente oppostas...

--Hade perdoar-me,--interrompeu Estacio com um ar de familiaridade indiscreta, que lhe não era habitual; eu creio que um homem, forte, moço e intelligente não tem o direito de cahir na penuria.

--Sua observação,--disse o dono da casa sorrindo,--traz o sabor do chocolate que o senhor bebeu naturalmente ésta manhã antes de sahir para a caça. Presumo que é rico. Na abastança é impossivel comprehender as lutas da miseria; e a maxima de que todo o homem póde, com esfôrço, chegar ao mesmo brilhante resultado, hade sempre parecer uma grande verdade á pessoa que estiver trinchando um peru. Pois não é assim; ha excepções. Nas cousas deste mundo não é tão livre o homem como suppõe; e uma cousa, que uns chamam mau fado, outros concurso de circumstâncias, e que nós baptisámos com o genuino nome brazileiro de caiporismo, impede a alguns ver o fructo de seus mais herculeos esforços. Cesar e sua fortuna! toda a sabedoria humana está contida nestas quatro palavras.

O desconhecido proferiu isto com o tom mais simples e natural do mundo, e uma facilidade de elocução, que Estacio mal lhe podia suppor. Era aquillo uma comedia ou a expressão da verdade? Estacio olhou fixamente para elle, como a querer penetral-o. Ao mesmo tempo ouviu-se um rumor na parte da casa que ficava além da sala; Estacio voltou a cabeça com um gesto de desconfiança. A porta abriu-se e appareceu uma preta velha trajando nas mãos uma bandeja. A creada estacou a meio caminho.

--Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almôço,--continuou elle, voltando-se para Estacio; almôço parco e hygienico. Ousarei offerecer-lh'o?

Estacio fez um gesto negativo, e dispoz-se a sahir.

--Ja! Não é meu intento despedil-o; almoçarei conversando. Vivo tão solitario, que a presença de alguma pessoa é para mim um encanto.

Estacio aceitou sem difficuldade o convite; sentou-se defronte do homem, ao pe da mesa, e assistiu ao almôço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas hostias de queijo duro, e uma chavena de cafe. O que mais valia era o contentamento do dono da casa e a franqueza com que ostentava aos olhos de um extranho a simplicidade de seus habitos.