Part 9
Ouvindo éstas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe chegava ás mãos, quando elle menos esperava, mas até escolhêra um caminho desusado e extranho. A realidade confundia-se alli cora o sonho. A presença de um terceiro era sufficiente motivo para acanhar os mais resolutos; accrescia a veste sacra do sacerdote que dava aquillo um ar de solemnidade e consagração. Mendonça recobrou enfim o uso dos sentidos; sua resposta unica e eloquente, foi estender a mão a Helena, gesto a que a moça correspondeu com simplesa e naturalidade.
--Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e póde dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ella. Tambem Helena o fara venturoso, não? perguntou elle voltando-se para á moça.
--Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
--A vida não é outra cousa, retorquiu o capellão; velho pensamento e velha verdade. Façamos por que o sonho seja agradavel e não arido ou triste. Promettem-me que se farão felizes?
--Não ambiciono outra cousa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha glória.
--Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes, e li em seu coração. Elege-o com prazer, embora sem enthusiasmo. Não é a paixão cega que a faz falar é um sentimento brando e singello, por isso mesmo duradouro. A reflexão de um corrigirá a violencia do outro, e os dous sentimentos se completarão pela virtude especial de cada um.
Ésta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradavel aos dous. Helena estimou que elle nem lisonjeasse as illusões de Mendonça, nem a désse como acceitando indifferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte, Mendonça viu nas palavras do padre um indicio da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco offerecido, com a certeza de multiplical-o. O caracter de Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças de veracidade e davam ao acto singello que alli se passava um forte cunho de santidade e elevação. Não era uma vulgar declaração de amor, sugeita ás variações do espirito ou do interesse; mas verdadeiros esponsaes, em que a religião era inspiradora e testemunha.
CAPITULO XVII
Aquelle dia foi marcado no calendario de Mendonça com lettras de ouro e setim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Elle viveu essas horas todas n'um estado de somnambulismo e extasis. Tencionava referir tudo á mãe, logo que entrou em casa ao meio dia; mas não se atreveu, porque elle mesmo não estava certo se vivia a realidade ou se voava nas azas de uma chimera. De noite voltou a Andarahy; achou em Helena o mesmo modo affectuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada; um meio termo que o continha a elle proprio, e não era menos aprazivel ao coração. A nova situação era, entretanto, sensivel, porque os vigilantes de fóra, trocaram entre si olhares profundos e inundados de graves descobertas; um delles, o coronel-major, chegou a proferir uma allusão, que os interessados fingiram não perceber.
Quando Mendonça chegou a casa, nessa noite, ia mais que nunca cheio de commoção e nadando em plena glória. A cidade, apenas ahi entrou, pareceu-lhe transformada por uma vara magica; elle viu-a povoada de seres phantasticos e rutilantes que iam e vinham do ceu á terra e da terra ao ceu. A côr deste era unica entre todas as da palheta do divino scenographo. As estrêllas, mais vivas que nunca, pareciam saudal-o de cima com ventarolas electricas, ou fazerem-lhe figas de inveja e despeito. Azas invisiveis lhe roçavam os cabellos, e umas vozes sem boca lhe falavam ao coração. Seus pes como que não pousavam no solo; elle ia extatico e sem consciencia de si. Era aquelle o galhofeiro de ha pouco? O amor fizera esse milagre mais.
Um dos theatros estava aberto; comprou um bilhete e entrou. Não era desejo de divertir-se ou interessar-se pelo drama, que alias expirava de parceria com o protagonista; era necessidade de ver gente, de ater-se á realidade das cousas, tão chimerico se lhe affigurava tudo o que se passára desde manhã.
Um expectador,--o filho do coronel-major,--viu-o a alguma distância e foi sentar-se ao pe delle.
--O senhor que tem melhor vista,--disse o academico--desengane-me; aquella moça que alli está, naquelle camarote, não é a andorinha viajante?
--A andorinha viajante? repetiu Mendonça olhando para elle; que quer dizer esse nome?
--É a alcunha da irmã de Estacio. Sera ella que está alli, com uma senhora edosa?
--Mas porque lhe chamam assim?
--Eu sei! Naturalmente porque sae á rua todos os dias. Na verdade, é um passear! Mal amanhece, la vae trepada no cavallinho, com o pagem atraz...
--Quem lhe poz essa alcunha?
--As alcunhas são como as mofinas; não tem autor.
Cahíra o panno; Mendonça despediu-se alli mesmo e sahíu. Na rua repetiu mentalmente as palavras do joven academico. Ao cabo de alguns minutos sorriu; comprehendêra que, apenas suspeitada a sua felicidade, ja a inveja lhe deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os hombros, resoluto a supportar tranquillo essa livida companheira do successo.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvêra a occupal-o exclusivamente. So, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquelle dia e achou-se morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguem, escreveu uma longa carta a Estacio, narrando-lhe toda a história do seu coração, suas esperanças e a prompta realisação dellas. A alma derramou-se no papel impetuosa e exhuberante. O estylo era irregular, a phrase incorrecta; mas havia alli a eloquencia e a sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que ella lhe chegasse ás mãos, levando a notícia de que as vinculos atados na aula iam apertar se na familia. «Vem quanto antes, dizia elle ao terminar a missiva; tenho ancia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o consentimento que me fara o mais feliz dos homens!»
Quando esta carta chegou a Cantagallo, Estacio voltava de uma pequena excursão, que fizera com o pae de Eugenia. Conheceu a letra do sobrescripto; abriu negligentemente a carta; leu-a com assombro. Á impressão foi tão visivel, que Camargo lhe perguntou de que se tratava.
--Recebo uma noticia que me obriga a partir amanhã, disse elle.
--Negocio grave?
--Grave.
--Ainda assim, nesta occasião.
--Que tem? D. Clara póde ainda resistir á morte alguns dias; e posto que a minha ausencia não prejudique nada do facto a que alludo, comtudo é mister que me informe e providencie.
--Algum negocio relativo ao inventário?--aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.
--Justamente, respondeu machinalmente Estacio.
Camargo consolou a filha do desgôsto que lhe causava a partida do noivo; falou-lhe a linguagem da razão; disse que havia assumptos praticos, a que os sentimentos tinham de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã partiu Estacio na direcção da Corte, não sem prometter que voltaria, se a molestia ou qualquer outro motivo obrigasse a familia a demorar-se em Cantagallo.
Ninguem esperava por elle em Andarahy. Entrando na chacara,--era de noite,--viu Estacio que a sala que ficava no angulo esquerdo da frente da casa estava allumiada e tinha gente. A sala ficava ao rez do chão, e as janellas estavam abertas. Elle parou a pouca distância, e pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Mattos a jogarem o gamão; a mulher do advogado falava a D. Ursula e Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo Mendonça deante de si.
Estacio deu volta aos fundos da chacara, e entrou pela varanda. Os escravos que o virara chegar deram signal da novidade, com vozes de alegria, que alias não chegaram até ás pessoas da sala. Estas só souberam do recem-chegado quando este assomou á porta. A satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estacio distribuiu abraços e apertos de mão. Melchior, que se deixára ficar de lado, foi o último com quem elle falou.
--O Dr. Camargo veiu? perguntou D. Ursula ao sobrinho logo depois que este comprimentára a todos.
--Não, respondeu Estacio, a doente não póde escapar, mas ainda a deixei com vida.
--Imagino a impaciencia dos herdeiros.
Ésta observação philosophica do coronel-major não teve nenhum effeito. Melchior, que a reprovára anteriormente, fez mudar a conversa, informando-se da familia de Camargo. Estacio deu todas as notícias que podiam interessar; depois falou de alguns incidentes da viagem; afinal obteve licença para ir mudar de _toilette_.
Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na escada. Subiram junctos e junctos entraram no quarto.
--Agora que estamos sos, perguntou Mendonça, houve por la alguma cousa?
--Nada.
--Tanto melhor!
Um escravo entrou no quarto, afim de servir a Estacio; Mendonça, ancioso por lhe falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicações.
--Recebeste a minha carta? disse elle.
--Recebi.
--Não esperavas por ella, aposto?
--Não.
--Como eu não esperava escrevel-a. Estás aborrecido, continuou elle depois de um silêncio.
--Estou cançado.
--Naturalmente, assentiu Mendonça abrindo um livro que achou sobre a mesa e tornando-o a fechar.
O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quaes Mendonça tornou a abrir o livro, examinou uma espingarda de caça, preparou um cigarro e fumou. O escravo servia o senhor com a pontualidade de quem lhe conhecia os costumes. Estacio continuava mortalmente silencioso; Mendonça falou algumas vezes, sobre cousas indifferentes, e o tempo não correu, andou com a lentidão que lhe é natural quando trata com impacientes. Logo que Estacio se deu por pro rapto, e o escravo sahiu, Mendonça voltou directamente ao assumpto que o preoccupava.
--Estava ancioso por ver-te, disse elle. Não nos é possivel falar agora: não temos tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela felicidade...
--Parece que só esperavas a minha ausencia?
--Creio que não. Ja antes de seguires, começava a sentir alguma cousa nova, que vim a descobrir ser paixão violenta.
--Helena ama-te?
--Com egual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum affecto.
--Tratarei de consultal-a.
Mendonça não pôde continuar, por que Estacio descia a escada ao dar-lhe a ultima resposta. Mendonça desceu tambem. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de uma janella conversava Helena com o padre. O cha foi logo servido; e a conversa tornou-se geral, mas sem grande animação. Melchior falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que sahiu; foi o último. Na chacara, dirigindo-se ao portão, ergueu os olhos ao firmamento, não para ver a lua e as estrêllas, mas para subir a região mais alta. O que disse ninguem o soube; mas o anjo das rogativas humanas por ventura colheu em seu regaço os pensamentos do ancião e os levou aos pes do eterno e casto amor.
CAPITULO XVIII
--Helena, disse Estacio no dia seguinte, logo que pôde falar a sos á irmã,--sabes porque vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me dizendo haver alcançado de ti uma promessa de casamento.
--É verdade.
--É verdade?
--Até o ponto em que a minha vontade tem um limite, que é a sua. Por mim só nada posso decidir; mas não creio que voce se opponha de nenhum modo. Não é certo que deseja a minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte do grande tanque. Estacio ficou algum tempo a olhar para a agua.
--Não entendo, disse elle enfim.
--Porque?
--Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão violenta, paixão que parecia conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor unico e forte, uma mulher despose um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não vulgar e muita vez justificavel. Mas que este casamento seja para ella a felicidade, confesso que não o poderei entender nunca.
--Recusa então o seu consentimento?
--Não recuso; desejo comprehender.
--Nada mais simples, retorquiu a moça.
--Ah!
--Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extincto naquelle tempo, mas totalmente sem esperança. Que moça não tem dessas phantasias uma vez ao menos? A phantasia passou. Ou eu não devo casar nunca, ou posso desposar um homem digno, que me ame. Não casar, foi algum tempo o meu desejo; não o é hoje, desde que voce, titia e o padre Melchior ambicionam ver-me casada e feliz. Para obter a felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me parece capaz de dar a paz doméstica e os melhores affectos de seu coração.
--De maneira que sacrificas-te a um desejo nosso?
--Quando fôsse sacrificio, fal-o-hia de boa cara; mas não é.
--Não se trata do um sacrificio repugnante e odioso; mas cumpre examinar o que perdes. Dizes que a phantasia passou; não creio. Helena, não creio que ella passasse. Tu amas de certo; amas violentamente alguem; amas sem esperança nem futuro; isto é, levas para casa do teu marido um coração que te não pertence, um sentimento intruso e inimigo...
Helena quiz interrompel-o.
--Ouve, continuou Estacio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se, e se fôr substituido pela affeição que creares a teu marido, não te fara desventurosa; mas suppõe que não morre esse amor, qual será a tua situação?
--Tudo isso é um castello no ar,--disse Helena sorrindo; eu amei, não amo; ou amo somente a meu futuro marido.
Estacio abanou a cabeça com ar de incredulidade. Seus olhos pousaram no rosto placido da irmã, como tentando arrancar-lhe uma confissão silenciosa. Os della, firmes e tranquillos, crusavam o olhar com os delle. Estacio conhecia ja o dominio que a moça exercia sôbre si mesma; sua tranquillidade não o convenceu. Assim o pensava, assim o disse--sem rebuço.
--Por que razão negaria eu a verdade? retorquiu Helena.
Estacio ergueu os hombros.
--Suppondo que voce tenha razão, tornou ella; não deverei casar nunca?
--Não digo isso; mas ha dous caminhos para a felicidade, além de Mendonça.
--Não os vejo.
--Esse amor mysterioso será realmente sem esperança? Nada ha definitivo no mundo, nem o infortunio nem a prosperidade. O que a tua imaginação suppõe estar perdido, acha-se apenas transviado ou occulto...
--Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; não casando agora, posso vir a amar um dia, mais do que a Mendonça, algum homem tão digno como elle.
--Parece-te absurdo isso?
--Não, mas é uma loteria; perco um bem certo, por outro duvidoso. O jogador não faz cálculo differente. Essa felicidade póde não vir; eu contento-me com a que me cabe agora. Mendonça ama-me devéras; senti-o desde algum tempo. O padre Melchior abriu-me os olhos; aceito o destino que os dous me offerecem. Ésta é a razão e a realidade; o mais é illusão e phantasia.
Em quanto ella falava, Estacio, que tirára o chapeu de Chile, occupava-se em fazer circular na copa a fita larga que o cingia. Houve entre ambos grande silêncio. Pela beira do tanque seguia uma longa carreira de formigas, conduzindo as mais dellas trechos de folhas verdes. Com um galho sêcco, Estacio distrahia-se em perturbar a marcha silenciosa e laboriosa dos pobres animaes. Fugiam todas, umas para o lado da terra, outras para o lado da agua, era quanto as restantes apressavam a jornada na direcção do domicilio. Helena arrancou-lhe o galho da mão; Estacio pareceu accordar de largas reflexões; ergueu-se, deu alguns passos e voltou a ella.
--Helena,--declarou elle,--não creio nada do que voce me diz; voce sacrifica-se sem necessidade e sem glória. Não consinto; é meu dever oppor-me a semelhante cousa...
Helena ergueu-se tambem.
--Mendonça começa a ser o fructo prohibido, observou ella sorrindo; é o meio seguro de o fazer amado.
A moça affastou-se na direcção da casa. Estacio via-a desaparecer por entre as árvores, e ficou algum tempo entre o banco e o tanque. As formigas, dispersas alguns minutos antes, tinham agora entrado no primeiro caminho, com a mesma ordem anterior. Viu-as o moço, e comparou-as a suas ideias, tambem necessitadas de que um galho, invisivel as não dispersasse e confundisse. No meio de suas reflexões lembrou-lhe o padre; Estacio atravessou a chacara, sahiu á rua e dirigiu-se á casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um jardim diminuto, a algumas braças da residencia de Estacio. Tinha duas salas o predio, janellas por todos os lados, uma porta na frente e outra nos fundos. A da frente abria entre duas janellas de venezianas. A sala de visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e de trabalho. Simples era a mobilia, nenhuns adornos, uma estante de jacaranda, com livros grossos in-quarto e in-folio; uma secretária, duas cadeiras de repouso, e pouco mais.
Na occasião em que Estacio alli entrou, Melchior passeava de um para outro lado, com um livro aberto nas mãos, algum Tertuliano ou Agostinho, ou qualquer outro da mesma estatura, por que o padre amava contemplar os grandes espiritos do passado, quando não encarava os mysterios do futuro. Naquelle corpo mediano havia uma aguia captiva. Entre as quatro paredes da casa, limitada a vista pelos arbustos e as flores do jardim, Melchior olvidava o tempo e eliminava o espaço, vivendo a vida retrospectiva ou prophetica, doce e mysteriosa volupia das almas solitarias. Melchior era um solitario; sem embargo das relações sociaes, que elle cultivava, amava sobretudo estar separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior parte do tempo, lia ou meditava, esquecido ou extranho a todas as cousas do seu seculo.
Naquella occasião lia. Vendo assomar á porta o vulto de Estacio, Melchior fechou o rosto; contudo, recebeu-o affavelmente.
--Vim interrompel-o, disse Estacio; mas era preciso.
Melchior depoz o livro sôbre a mesa redonda que havia no meio da sala, marcando a lauda com uma telha estampa. Depois sentaram-se ao pe de uma das janellas lateraes. Então não se atreveu a dizer logo o motivo que o levara alli; mas de sua propria hesitação, deduziu Melchior qual era elle.
--Era preciso? repetiu o padre.
--Trata-se de Helena. Sei que é nosso amigo; confio em seu conselho e discrição. Como deseja a felicidade da minha familia, buscou facilitar o casamento de Helena e Mendonça...
--Contando com a sim approvação, explicou o padre.
--Hesito em dal-a.
--Por que?
Estacio explicou que Helena não tinha inclinação ao noivo que se lhe propunha, ao que Melchior respondeu referindo singellamente a verdade.
--É certo que o não ama ardentemente; concluiu elle, mas aceita-o, aprecia-o, está a meio caminho da felicidade que lhe devemos dar.
--Ha uma difficuldade, padre-mestre; é que ella ama a outro.
Melchior empallideceu; seu olhar escrutador, como o de um juiz, cravou-se immovel e afiado no rosto de Estacio. A fronte severa do moço não se alterou, nem seus olhos baixaram a terra.
--Ama a outro, continuou elle; paixão violenta, mas sem esperança, e tão real qual mysteriosa. Uma ou duas vezes alludiu a ella; mas nada mais lhe pude arrancar. Agora mesmo, quando lhe falei a tal respeito, desviou dahi o sentido e a conversação. Nada mais sei; sei porém que ama, e casar com outro em taes circumstâncias, dá dous inconvenientes egualmente graves: priva-se da possibilidade de uma união feliz com o homem que interiormente elegeu, e leva para casa do marido um sentimento de pezar e de remorso. Parece-lhe isso toleravel?
--Não ha remorso não ha pezar, onde não ha esperança, redarguiu o padre. Helena aceita o Mendonça por expontanea vontade; e conheço-a tanto que não acho ja possivel que ella recuse.
--Salvo o meu consentimento.
--É claro; mas por que o não daria?
--Porque não desanimo de descobrir a pessoa a quem Helena entregou seu coração. Talvez ella ache impossivel aquillo que é simplesmente difficil. Demais, não esqueçamos que Helena mal tem dezesete annos.
--Valem por vinte e cinco.
--Pode ser; mas convem não aceitar de coração leve uma condescendencia ou um capricho, ou qualquer outro motivo occulto que a inspira nesta resolução.
--Que motivo seria?
--Eu sei! Talvez a suspeita de que estimassemos vel-a affastar-se de casa.
--Não a calumnie; Helena tem perfeita sciencia e consciencia dos affectos que a rodeam e da estima em que é tida. Suas objecções não valem nada deante da declaração que ella propria fez. Não compliquemos uma situação simples e definida.
Melchior proferiu éstas palavras com voz branda, mas em tom firme; Estacio não se animou a responder logo. Voltou porém ao primeiro argumento; depois aventurou uma objecção nova.
--Mendonça é bom coração, disse elle; mas não possue as qualidades que, em meu entender, devem distinguir o marido de Helena. Nunca exercerá, sôbre ella a influência que deve ter um marido. Entre os dois inverte-se a pyramide. Mas isto, ao menos, se destruia uma das condições do casamento, podia conservar a felicidade doméstica. O perigo maior é outro; é vir elle a perder a estima da mulher. Nesse caso que lhe dariamos nós a ella? Um casamento apparente e um divorcio real.
Não olhava pura elle o padre, mas para fóra, com uns olhos dolorosos e o gesto impaciente. Quando elle acabou, fitou-o com resolução; disse-lhe que se tratava de casar Helena, não com um marido especial, mas com o que ella propria escolhêra de sua vontade livre; casamento que cumpria fazer sem demora. Era certo que, como chefe de familia, Estacio podia oppor-se ao casamento ou marcar-lhe condições; mas nem convinha isso ao interesse de Helena nem ao proprio interesse da familia.
Estacio ergueu-se quando o padre acabou; percorreu a sala, calado e pensativo. No fim de alguns segundos, o padre foi a elle.
--Va contar tudo a sua tia, disse; approve sua irmã; casal-os-hei a todos no mesmo dia.
--Pois bem, disse Estacio como concluindo um raciocinio interior; consinto em que Helena se case; procuremos outro marido. Mendonça. não; hade ser outro. Vou casar tambem; receberei todas as semanas; algum rapaz apparecerá que a mereça e de quem ella venha a gostar seriamente... é a minha ultima resolução.
CAPITULO XIX
No momento em que Estacio proferia éstas palavras, transpunha Mendonça a porta do jardim do capellão. Preoccupado com a frieza de Estacio, lembrara-lhe expor a Melchior suas impressões e pedir-lhe conselho, Melchior ia responder ao sobrinho de D. Ursula, quando ouviu rumor de passos na areia do jardim.
--Ahi vem o noivo, disse elle.
Estacio deu dous passos para pegar no chapeu; mas reconsiderou e foi sentar-se ao pe da mesa redonda. Havia alli um exemplar das Escripturas. Abriu-as ao acaso; a página acertou ser um capítulo dos _Proverbios_; seus olhos cahiram neste versiculo: «Quem quer abrir mão de seu amigo, busca-lhe as occasiões; elle será coberto de opprobrio.» Envergonhado, voltou a folha. Mendonça, entrára na sala. Não contava com Estacio, mas estimou vel-o alli.
--Venha, disse Melchior; tratavamos justamente seu casamento.
Estacio lançou ao padre um olhar de exprobação. O padre não o viu; olhava para Mendonça, que immediatamente lhe respondeu:
--Não venho ca para outra cousa. Uma vez que a fortuna o fez nosso confidente, desejo constituil-o meu conselheiro e director.
--Antes de tudo sou advogado de sua causa, disse Melchior: estava expondo agora as vantagens della.
Mendonça olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta pausa:
--Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou elle.
Posto entre a espada e a parede, Estacio não soube logo que respondesse; ficou a olhar para a lauda aberta, receioso de encontrar a vista dos dous. O silêncio era peor que a resposta; e nem o caso nem as pessoas permittiam tão grande pausa. Estacio fechou do golpe o livro e ergueu-se.
--Discutia somente as vantagens do casamento, disse elle.
--E qual é a tua opinião?
--Minha opinião é que Helena está ainda muito menina. Mas não é só essa, nem é a principal; o uso em todo o caso é a favor do casamento. A principal razão é o teu proprio crédito.
--Meu crédito?
--Helena póde vir a amar-te como lhe mereces: mas a verdade é que não sente ainda hoje egual paixão á tua; foi o padre-mestre que m'o disse. Estima-te, é certo; mas a estima é flor da razão; e eu creio que a flor do sentimento é muito mais propria no canteiro do matrimonio.