Helena

Part 11

Chapter 113,898 wordsPublic domain

--Não é refeição de principe,--dizia elle,--mas satisfaz todas as ambições de um estomago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cosinha é contigua; além, ficam duas braças de quintal; para la do quintal... o infinito da indifferença humana.

E depois de um silêncio:

--Não digo bem, emendou elle; nem sempre acho indifferença. Meu trabalho não me dá mais do que o escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.

Dizendo isto, o desconhecido exgotou a chavena, e reclinou-se sôbre a cadeira, fitando em cheio a cara do hóspede. Estacio reflectiu nas últimas palavras, e um raio de esperança veiu rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dous homens pareciam interrogar-se. O filho do conselheiro saccou do bolso um charuto e offereceu-o ao dono da casa.

--Obrigado, disse este.

--Não fuma?

--Ja fumei; hoje economiso esse vicio. Nem por isso faço mais lentamente a digestão.

--Mora só?

--Só.

--Não tem familia?

--Nenhuma.

--Hade achar-me singularmente indiscreto.

--Não; supponho que sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.

--Acertou; sua pessoa inspira-me sympathia; e se eu conhecesse alguma dessas mãos puras, que lhe emendam as lacunas da sorte...

--Dar-me-hia, por intermedio dellas, o seu obolo?...

--Se o não offendesse...

--Não offendia, mas eu recusava, se soubesse; e peço-lhe desde ja que o não faça ás escondidas...

Estacio fez um gesto de assentimento.

--Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto de pudor que a pobreza me não tirou ainda. Fiz-lhe agora um obsequio, um simples dever de visinho... Pareceria que o senhor m'o pagava com um beneficio. O beneficio seria menos expontaneo de sua parte, e menos agradavel para mim. Agradavel não exprime, talvez, toda a minha ideia; mas o senhor facilmente comprehenderá o que quero dizer.

--Entendeu-me mal; o meu obolo não seria na especie a que o senhor allude. Tenho amigos, e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição.

O desconhecido reflectiu um instante.

--Aceitaria? perguntou Estacio.

--Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro vale, Eu vexar-me-hia eternamente de dever qualquer melhoria da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.

--Ja me não admira a vida pobre que tem tido.

--Excessivo escrupulo, talvez?

--Escrupulo desarrazoado.

--Antes de mais que de menos.

--Nem de menos nem de mais; mas só a porção justa.

--A porção varia conforme as necessidades moraes de cada um. Mas, eu mesmo, que lhe estou a falar nem sempre tive ésta virtude intratavel; e por ventura alguma vez fraqueei.

A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos labios, e os olhos cahiram naquella atonia que exprime uma grande concentração de espirito. Era occasião de interrogal-o directamente ou sahir. Estacio preferiu o último alvitre.

--Não o quero demorar mais,--disse o dono da casa quando o mancebo proferiu as palavras de despedida. Ja é tarde, e sua mãe talvez esteja anciosa...

Estacio limitou-se a olhar para elle em cheio,--dizendo:

--Se alguma vez resolver dar de mão a seu a escrupulos, mande procurar-me. Minha casa é conhecida em todo Andarahy pela--casa do Conselheiro Valle...

O desconhecido, era cujo rosto Estacio esperou ver um signal qualquer de abalo ou sorpresa, conservou-se impassivel e risonho. Curvou-se em signal de agradecimento; e como Estacio hesitasse em estender-lhe a mão, elle metteu as suas nas algibeiras.

--Talvez nos vejamos ainda, disse Estacio ja fóra da porta.

--Sim?

--Passeio algumas vezes por estes lados.

--Nem sempre estou em casa; mas ainda estando, conservo fechadas as cousas. Quando quizer descançar, bata; a casa é pobre, mas será amiga.

Estacio affastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; elle não deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio de uma seiva escura, a egual distância da estrada recta,--_diritta via_--e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as esperanças. Nada sabia; nada conjecturava; eram tudo novas dúvidas e oscillações. O homem com quem acabava de conversar parecia-lhe sincero; sua pobreza era authêntica; sensivel a nota de melancholia que por vezes lhe afrouxava a palavra. Mas onde cessava alli a realidade e começava a apparencia? Vinha de tratar com um infeliz ou um hypocrita? Estacio rememorou todos os incidentes da manhã, e todas as palavras do desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondiveis. Seu espirito repellia com horror a ideia do mal; mas custava-lhe a acceitar a ideia do bem; e a peor das angústias,--a dúvida,--continha-o todo e agitava-o, em suas mãos felinas. O sol e a agitação alastravam-lhe a testa de perolas de suor; ao offego da marcha apressada juntava-se o da violenta commoção. Estacio não via os objectos que ia costeando, nem as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, até que o choque da realidade o despertasse.

Chegou enfim a casa. Ao portão estava um escravo, a quem deu a espingarda. Sua demora causára alguma inquietação á familia; logo que as duas senhoras souberam de seu regresso correram a recebel-o, ficando D. Ursula a uma janella, e descendo Helena até meio caminho. A apparição subita da moça, a alegria e o amor, que pareciam impelli-la, como duas azas sanctas, a perfeita ingenuidade de seu gesto, tudo produziu nelle a necessaria reacção,--reacção de um instante,--mas salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estacio apertou as mãos da moça com a energia do náufrago. Um fluido subtil percorreu as fibras de Helena; e aquelle rapido instante teve toda a doçura de uma reconciliação.

Estacio contava recolher-se ao quarto para pôr em ordem suas ideias, comparal-as, extrahir uma conjectura pelo menos, e verifical-a ou desmentil-a. Mas nem a tia nem a irmã haviam almoçado, á espera delle; e forçoso lhe foi acompanhal-as na satisfação de uma necessidade que não sentia. Durante o almôço, Estacio procurou observar Helena; trabalho ocioso, porque o rosto da moça, se alguma cousa trahia nessa occasião, eram as alegrias ineffaveis da familia. Ella propria servia por suas mãos a Estacio e D. Ursula; inexcedivel na attenção com que sabia repartir-se entre os convivas não o era menos no carinho e na graça. Nos olhos parecia estampada a ignorancia do mal, e o sorriso em o das almas candidas. Poder-se-hia attribuir áquella creatura de dezesete annos corrupção e hypocrisia? Estacio envergonhou-se de tal ideia; sua alma sentiu as vertigens do remorso.

Mas o almoço acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo recolheu-se ao gabinete, e, desfeita a visão, voltou a suspeita. Estacio buscou dominar a situação. Elle não ia ao ponto de suppor em Helena a completa perversão dos sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia attribuir, era o de uma culposa leviandade. Se em vez de um acto leviano, fôsse aquillo um simples estratagema de caridade, Helena não mereceria menos uma advertencia, mas a pureza da intenção salvava tudo, e a paz da familia, não menos que o seu decoro, se restabeleceria inteira. Estacio examinou um por um todos os indicios de culpabilidade e de innocencia; buscou sinceramente os elementos de prova; não esqueceu um só argumento de inducção. Nesse trabalho despendeu longas horas, sem resultado apreciavel, pela razão de que, se a sentença era difficil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a affeição, seu espirito balouçava incerto.

Quasi á hora do jantar, Estacio, que não sahira uma só vez do gabinete, chegou a uma das janellas, e viu atravessar a chacara a mais humilde figura daquelle enigma, humilde e importante ao mesmo tempo: o pagem. O pagem appareceu-lhe como uma ideia nova; até aquelle instante não cogitára nelle uma só vez. Era o confidente e o complice. Ao vel-o recordou-se que Helena lhe pedira uma vez a liberdade daquelle escravo. A ameaça rugiu-lhe no coração; mas a colera cedeu á angústia, e elle sentiu na face alguma cousa semelhante a uma lagryma.

Nesse momento duas mãos lhe taparam os olhos.

CAPITULO XXII

Não era preciso grande esfôrço para adivinhar a dona das mãos. Estacio, com as suas, affastou as mãos de Helena, segurando-lhe os pulsos de modo que lhe arrancou um leve gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irmã, que lhe disse em tom de gracioso reproche:

--Voce é muito mau! Pagou-me a caricia com um apertão. Deixe estar que nunca mais cahirei em outra. Vim vel-o, por que voce hoje não se lembrou ainda de dar á gente um ar de sua graça... Doeu-me!--continuou ella olhando para os pulsos.--Mas... tenho os dedos molhados; seria... voce estaria... que é? que foi?

Estacio, que ouviu a discurso da irmã, com o rosto desfeito e o olhar ancioso, não lhe respondeu ás últimas interrogações, e continuou a olhar para ella, como a querer ler na physionomia da moça a explicação do enigma que o atordoava. Helena ainda insistiu, atterrada e afflicta. Indo pegar-lhe nas mãos, Estacio desviou o corpo, dirigiu-se á parede, despendurou o desenho que Helena lhe dera no dia de seus annos, e approximou-se da moça.

--Que é? repetiu ésta admirada.

A unica resposta de Estacio foi estender o dedo sôbre a mysteriosa casa reproduzida na paisagem. Helena olhou alternadamente para o desenho e para o irmão. A expressão interrogativa e imperiosa deste, fel-a attentar no ponto indicado. Subito empallideceu; seus labios tremeram como a murmurar alguma cousa, mas a alma falou tão baixo que a palavra não chegou á boca. Durou aquillo poucos instantes. A angústia lia-se no rosto dos dous; a moça, para occultar a sua, cobriu os olhos com as mãos. O gesto era eloquente; Estacio lançou para longe de si o quadro, com um movimento de colera. Helena atirou-se para o corredor.

D. Ursula aguardava os sobrinhos para jantar. Demorando-se estes, dirigiu-se ella propria ao gabinete de Estacio. A porta estava aberta; D. Ursula entrou e deu com elle, sentado n'uma poltrona, com o lenço na cara, como a soluçar. A tia correu com a velocidade que lhe permittiam os annos. Estacio não a ouviu entrar; só deu por ella quando as mãos da boa senhora lhe arrancaram as suas dos olhos. O assombro de D. Ursula foi indescriptivel, sobretudo quando Estacio, erguendo-se, atirou-se-lhe aos braços, exclamando:

--Que fatalidade!

--Mas... que é?... explica-te.

Estacio enxugou as faces molhadas do longo e silencioso pranto, com o gesto decidido de um homem que se envergonha de um acto de debilidade. O vestigio das lagrymas dava-lhe aquelle cunho tocante e severo, que as grandes dores imprimem no rosto humano. A explosão desabafara-lhe o espirito; elle podia enfim ser homem, o era preciso que o fôsse. D. Ursula pediu e ordenou que lhe confiasse a causa da inexplicavel afflicção em que viera achal-o. Estacio recusou dizel-a.

--Saberá tudo amanhã, ou logo. Agora só poderia dar-lhe um enigma, e eu sei o que elle me ha custado. Algumas horas mais, e precisarei de seu conselho e apoio.

D. Ursula resignou-se á demora. Quando chegou á sala de jantar achou um recado de Helena; mandava-lhe dizer que se sentira repentinamente incommodada e que a dispensasse naquella tarde e noite. D. Ursula suspeitou logo que o recado de Helena tivesse relação com a afflicção de Estacio, e correu ao quarto da sobrinha. Achou-a meia inclinada sobre a cama, com o rosto na almofada e o corpo tranquillo e como morto. Ao sentir os passos de D. Ursula, ergueu a cabeça. A pallidez era grande e profundo o abatimento; mas não houvera lagrymas. A dor, se a houve, e houve, parecia ter-se petrificado naquella face immovel e fria como o granito. O que restava ainda vivo na figura da moça eram os olhos, que não perderam o fulgor natural. Ella ergueu-os a medo, e abraçou a tia com um olhar de súpplica e de amor. D. Ursula travou-lhe das mãos, encarou-a silenciosamente, e murmurou:

--Conta-me tudo.

--Saberá depois! suspirou a moça.

--Não tens confiança em tua tia?

Helena ergueu-se e lançou-se-lhe nos braços; duas lagrymas rebentaram-lhe dos olhos, e foram as primeiras que elles verteram naquella meia hora. Depois beijou-lhe as mãos com ternura:

--Póde receber estes beijos,--disse ella,--os anjos não os tem mais puros.

Foram as últimas palavras que D. Ursula pôde arrancar-lhe; a moça recolheu-se ao profundo silêncio em que ella a encontrou. D. Ursula sahiu; e foi dalli ter com Estacio. O sobrinho encaminhava-se para a sala de jantar.

--Vamos para a mesa, disse elle,--não convem que os escravos saibam de taes crises.

D. Ursula referiu o estado em que achára Helena e as palavras que trocára com ella. Estacio ouviu-a sem nenhuma expressão de sympathia. O jantar foi um simulacro; era um meio de illudir a perspicacia dos escravos, que alias não cahiam naquelle embuste. Elles conheceram perfeitamente que algum acontecimento occulto trazia suspensos e concentrados os espiritos. As iguarias voltavam quasi intactas; as palavras eram trocadas com esfôrço entre a sinhá velha e o senhor moço. A causa daquillo era com certeza nanhã Helena, que estava ausente.

Estacio deu ordem para que a todas as pessoas extranhas se declarasse estar ausente a familia. A unica excepção era o padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fôsse ver.

--Não posso esperar até amanhã, disse D. Ursula; se tens de revellar alguma cousa a um extranho, por que o não fazes a mim primeiro? Dize-me o que ha. Não posso ver padecer Helena; quero consolal-a e animal-a.

--O que tenho para dizer é longo e triste,--retorquiu Estacio; mas, se deseja sabel-o desde ja, peço-lhe ao menos que espere a presença do padre Melchior. Eu não poderia dizer duas vezes as mesmas cousas; seria revolver o punhal na ferida.

A curiosidade de D. Ursula cresceu com éstas meias palavras do sobrinho; mas era forçoso esperar e esperou. Foi dalli ao quarto de Helena, Como a porta estivesse fechada, espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Ésta nova circumstância veiu complicar as impressões de D. Ursula.

--Helena está encerrada no quarto, e escreve, disse ella ao sobrinho.

--Naturalmente, respondeu este com sequidão.

O padre Melchior não se demorou em acudir ao chamado de Estacio. O bilhete era instante e a letra febril. Algum acontecimento grave devia ter-se dado. A reflexão do padre era justa, como sabemos; elle o reconheceu desde logo, não só no aspecto lugubre da familia, como na ancia com que era esperado. Os tres recolheram-se a uma das salas interiores.

--Helena? perguntou Melchior.

--Vamos tratar della, respondeu Estacio.

Referir o que se passára naquella fatal manhã era mais facil de planear que de executar. No momento de expor a situação e as circumstâncias della, Estacio sentiu que a lingua rebelde não obedecia á intenção. Achava-se n'um tribunal doméstico, e o que até então fôra conflicto interior entre a affeição e a dignidade, cumpria agora reduzil-o ás proporções de um libello, claro, sêcco e decidido. Innocente ou culpada, Helena apparecia-lhe naquelle momento como uma recordação das horas felizes,--doce recordação, que os successos presentes ou futuros podiam somente tornar mais saudosa, mas não destruiriam nunca, porque é esse o mysterioso privilegio do passado. Reagiu, entretanto, sôbre si mesmo; e ainda que a custo referiu minuciosa e sinceramente o que se passára desde aquella manhã.

Não fôra talhado para tão melindrosas revellações o coração de D. Ursula. Desde o princípio da conversação sentiu o atordoamento que dão os grandes golpes. Esperava, de certo, um grande infortunio de Helena, um episodio de sua familia anterior, alguma cousa que desafiasse a compaixão, sem diminuir o sentimento da estima. Acontecia justamente o contrário; a estima era impossivel e a compaixão tornava-se apenas provavel.

--Mas não! é impossível! exclamou ella dahi a pouco, logo que a razão obscurecida pelo abalo, pôde readquirir alguma luz--não! eu a vi ha pouco; senti-lhe as lagrymas na minha face, ouvi-lhe palavras que só a innocencia póde proferir. E, além disso, seu procedimento irreprehensivel, um anno quasi de convivencia sem mácula, a elevação de seus sentimentos... não posso crer que tudo isso... Não! pobre Helena! Vamos chamal-a; ella explicará tudo. Interroguemos o Vicente.

Um gesto dos dous homens mostrou que nenhum delles julgava digno este último recurso para conhecer a verdade.

D. Ursula cahíra em prostração, recordava suas apprehensões do primeiro dia, e recuava com horror á ideia de ter acertado. Defronte della, Estacio occupava uma poltrona rasa, em cujos braços fincava os cotovellos, apoiando nas mãos a cabeça ardente e abatida. A alma ruminava a dor.

Um só dos tres vingada a dignidade da situação. O padre Melchior não sentira menor assombro que os dous parentes de Helena, nem padeceu menos profundo golpe; mas reergueu-se de um e outro; pôde vencer-se e conservar a razão clara, fria e penetrante. Entre os dous corações ulcerados e sem fôrça, comprehendeu Melchior que lhe cabia a principal acção, e não recuou ante a responsabilidade que dahi poderia deduzir. Viu de um lance a extensão possivel do mal, a desunião da familia, os desesperos da occasião, os odios do dia seguinte, as amarguras indeleveis e talvez as indeleveis saudades; mas nem este quadro o aterrou, nem elle o aceitou sem exame. Melchior não condemnava nem absolvia; esperava. Elle pertencia ao numero dessas virtudes singellas para as quaes o vicio é uma rara excepção; natureza sincera e franca, era-lhe difficil crer na hypocrisia. Em quanto Estacio proseguia calado e pensativo, e D. Ursula, ora sentada, ora de pe, intercalava o silêncio com exclamações de dor, Melchior observava-os e reflectia tambem comsigo. Emfim, proferiu éstas palavras de animação:

--Socegue, D. Ursula; a verdade hade apparecer, e não estamos certos que seja o que nos parece. Em todo o caso não antecipemos a afflicção. Seria padecer duas vezes. Ha tempo de chorar á larga.

Melchior levantou-se:

--Convem sacudir o abatimento, continuou dirigindo-se a Estacio; é a hora da acção e do vigor. Sobretudo é necessario não boquejar de semelhante assumpto por agora; daria azo ás vozes extranhas e seus naturaes commentarios. Eu tomarei nesta collisão o logar que me compete, se m'o não contestam...

--Oh! exclamou Estacio.

--... Mas desejo que desde ja se compenetrem bem de que, se a dignidade pede uma cousa, a caridade pede outra, e que o dever stricto é concilial-as. Nada do odios; perdão ou esquecimento.

--Mas, padre-mestre, que lhe parece? perguntou D. Ursula com anciedade.

--D. Ursula, disse o padre; é preciso agora que a razão fale e trabalhe; o sentimento deve retrahir-se e esperar. Examinarei o caso, e aconselharei o necessario remedio. Talvez estejamos a debater-nos no vacuo; quem sabe? trata-se de um equívoco, de uma apparencia...

--Oh! ella confessou tudo! interrompeu Estacio. Vi-lhe a expressão da culpa nos olhos. Mas, emfim, estou prompto para tudo, continuou elle erguendo-se. Não foi o senhor um dos melhores amigos de meu pae? Não o é ainda nosso? Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o que lhe parecer melhor. Na singular situação em que nos achamos nenhum de nós temos o espirito bastante senhor de si para colhêr os elementos da verdade, apural-a e resolver. Esse papel é seu.

Vieram trazer a Estacio uma carta. Era do Dr. Camargo, annunciando-lhe que a madrinha do Eugenia fallecêra, e que elle no prazo de alguns dias estaria na Corte. Era o peor momento para semelhante vinda; Estacio não pôde reprimir um gesto de desgôsto. O padre, dizendo-lhe o mancebo de que tratava a carta, observou que nenhum inconveniente podia haver no regresso do Camargo, uma vez que, sem demora, ficasse liquidado o assumpto que os affligia.

--D. Ursula,--continuou elle,--deixe-nos agora sos alguns instantes; va tranquilla, confie em Deus, e não faça suspeitar a ninguem o que se passa nesta casa.

D. Ursula obedeceu. Logo que ella sahiu. Melchior fechou a porta. Estacio sentou-se de novo, disposto a ouvir o capellão. Este deu alguns passos entre a porta e uma das janellas. Ia anoitecendo; Estacio accendeu um candelabro. Melchior sentou-se ao pe delle, sem lhe falar nem voltar-lhe sequer os olhos. Meditava ou luctava comsigo mesmo; a fronte pesada e merencoria traduzia a agitação interior. Ja não era a inalteravel placidez, reflexo de uma consciencia religiosa e pura. Se a consciencia era a mesma, não o era o coração, a braços com uma crise nova. Apos dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o padre falou.

CAPITULO XXIII

--És forte? perguntou o padre.

--Sou.

--Cres em Deus?

Estacio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder. Melchior insistiu:

--Cres?

--Essa pergunta...

--É menos ociosa do que parece. Não basta suppor que se cre; nem basta crer á ligeira, como na existencia de uma região obscura da Asia, onde nunca se pretende pôr os pes. O Deus de que te fallo não é só essa sublima necessidade do espirito, que apenas contenta alguns philosophos; fallo-te do Deus creador e remunerador, do Deus que le no fundo de nossas consciencias, que nos deu a vida, que nos hade dar a morte, e além da morte o premio ou o castigo. Cres?

--Creio.

--Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei humana, sem o saber. Teu coração é um grande inconsciente; agita-se, murmura, rebella-se, vaga á feição de um instincto mal expresso e mal comprehendido. O mal persegue-te, tentaste, envolve-te em seus liames dourados e occultos; tu não o sentes, não o ves; tens horror de ti mesmo, quando deres com elle de rosto. Deus que te lê, sabe perfeitamente que entre teu coração e tua consciencia ha com o um veu espesso que os separa, que impede esse accôrdo gerador do delicto.

--Mas que é, padre-mestre?

Melchior inclinou-se e encarou o moço. Seus olhos, fitos nelle, eram como tum espelho polido e frio, destinado a reproduzir a impressão do que lhe ia dizer.

--Estacio,--disse Melchior pausadamente,--tu amas tua irmã.

O gesto mesclado de horror, assombro e remorso, com que Estacio ouvira aquella palavra, mostrou ao padre, não só que elle estava de posse da verdade, mas tambem que acabava de a revellar ao mancebo. O que a consciencia deste ignorava, sabia-o o coração, e só lh'o disse naquella hora solemne. A consciencia, depois de tactear nas trevas, recuou apavorada, como affastando de si o clarão subito que accendêra nella a palavra do sacerdote. Estacio não respondeu nada: não podia responder nada. Com que vocabulo e em que lingua humana esprimiria elle a commoção nova e terrivel que lhe abalára a alma toda? que fio podéra atar-lhe as ideias rôtas e dispersas? Nem falou, nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como estupido e morto, Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e compassivo. Seus olhos, que eram de aguia para os mysterios da vida, eram de pomba para os grandes infortunios. Abaixo da cabeça mascula, havia um coração feminino.

A mudez de Estacio cessou emfim; o corpo agitou-se; o labio articulou algumas phrases desconcertadas. Vago era o sentido dellas; podia concluir-se que elle não cria na revellação de Melchior, que o supposto sentimento era tão absurdo e desnatural, que só a maus instinctos devia ser attribuido. Melchior ouviu-o e sorriu com satisfação. Não era aquillo mesmo um protesto de consciencia honrada?

--Maus instinctos, não,--respondeu Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estacio; revolve-lhe os mais intimos recantos, e la acharás esse germen funesto: lança-o fóra de ti, que é o preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste nunca: a tentação usa essa tactica serpentina e dolosa; é insinuante, como a calúmnia, e pertinaz, como a suspeita. Mas eu sou a verdade, que affirma, e a caridade, que consola. Digo-te, não que peccaste, mas que ficaste á beira do peccado; e estendo-te a mão para que recues do abysmo.

--Padre-mestre! murmurou Estacio cujo coração recebia a influência da palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.