Chapter 7
O que é? Que rumor é esse? (Entra Ophelia estranhamente enfeitada com flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabellos.) (Continuando.) Meu pobre cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes corrosivas, queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido da vista! Por Deus! A tua demencia será paga com usura, até que o nosso peso faça baixar uma das conchas da balança. Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irmã, boa Ophelia! Oh! ceus! pois será possivel que a rasão de uma jovem mulher seja tão fragil como a vida do ancião! A natureza tem no seu amor um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram no objecto amado.
OPHELIA
Levaram-no em mesquinha padiola E foram-no enterrar! Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola De lagrimas um mar.
LAERTE
Possuisses tu toda a tua rasão, animasses-me tu á vingança, não conseguias crear em mim uma emoção.
OPHELIA
Forçoso é que eu cante e tu tambem:
Abaixo! Abaixo! Lançae-o abaixo!
Devias ouvir cantar ás fiadeiras; é a canção do intendente desleal, que raptou a filha de seu amo.
LAERTE
Estes nadas tudo me dizem.
OPHELIA (a Laerte, dando-lhe uma flor)
Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de mim, peço-t'o, meu querido; estes são amores perfeitos, é para que sempre viva no teu coração de irmão.
LAERTE
Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente a lembrança e o pensamento.
OPHELIA (ao rei)
Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. (Á rainha) Para vós, senhora, é arruda e tambem para mim; para vós será a herva da ventura, para mim a da dor. Eis um malmequer. Queria dar-vos violetas, mas feneceram todas quando meu pae morreu; dizem que teve o fim do justo.
Porque era o bom Robim minha alegria
LAERTE
A melancolia, a afflicção, a colera, o proprio inferno, tudo é divino proferido por ella.
OPHELIA
E nunca mais virá?! Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia! Não mais! não voltará! Era a barba tão branca como a neve: Partiu! foi para os céus. Perdida, inutil dor! Breve, até breve, Tem dó d'elle, meu Deus!...
Assim como de todas as almas christãs, assim o peço a Deus, e elle seja comvosco. (Sáe.)
LAERTE
Vêem? Meu Deus!...
O REI
Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio; é um direito que me pertence e que me não pódes negar sem injustiça. Reune em particular os teus amigos mais assisados; elles nos ouçam, e depois julguem entre nós dois. Se culpado me acharem, directa ou indirectamente, entrego-te, em expiação da minha culpa, reino, corôa e vida, e tudo quanto possa dizer meu; no caso contrario, peço-te só paciencia, e de accordo obraremos para te alcançar uma completa satisfação.
LAERTE
Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral obscuro, em que nem trophéus, nem espada, nem brazão figuraram, a ausencia de toda a ceremonia funebre no saímento do seu corpo, são como um aviso do céu, que me clama pela voz celeste: Indaga como foi.
O REI
Faça-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado. Agora peço-te, Laerte, que me sigas. (Sáem ambos.)
SCENA VI
Um quarto no castello de Elsenor
Entram HORACIO e um CREADO
HORACIO
Quem é que me pretende fallar?
O CREADO
Marinheiros... e dizem que têem cartas que lhe são dirigidas.
HORACIO
Que entrem pois; (o creado sáe) (só) não percebo de que canto do mundo se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet.
Entram os MARINHEIROS
PRIMEIRO MARINHEIRO
Guarde-o Deus, senhor!
HORACIO
Igualmente a ti!
PRIMEIRO MARINHEIRO
Fal-o-ha, se for da sua vontade. (Entrega uma carta) Aqui tem esta carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra; o senhor, segundo me asseguraram, chama-se Horacio, não é verdade? (Dá-lhe outra carta.)
HORACIO (abrindo a carta, lendo)
«_Horacio, quando receberes esta carta, proporciona a estes homens o fallarem ao rei; têem cartas para lhe entregar. Mal tinhamos dois dias de viagem, um corsario armado até aos dentes deu-nos caça; vendo nós que elle era mais veleiro, fizemos das fraquezas forças, e encetámos combate. Na abordagem, saltei-lhe na tolda, mas n'aquelle momento afastaram-se os dois navios, e eu achei-me só e prisioneiro. Comportaram-se commigo como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam, porque contam pedir avultado resgate. Faze chegar ás mãos do rei a carta que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade que porias em evitar a morte. Tenho que confiar aos_ _teus ouvidos palavras que te emudecerão de espanto, e comtudo ainda são fracas para a gravidade do assumpto que devem exprimir. Estes marinheiros te conduzirão ao sitio onde me acho. Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra. Tenho muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes ser teu do coração==Hamlet._» Venham, vou facilitar-lhes a entrega das cartas, depois conduzam-me o mais prompto que podérem junto d'aquelle que lh'as entregou. (Sáem todos.)
SCENA VII
Outro quarto no castello
Entram o REI e LAERTE
O REI
Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um amigo sincero, agora que já deves ter percebido que o assassino de teu pae tambem queria a minha morte.
LAERTE
Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos tão graves e criminosos por sua natureza, não perseguiu o auctor, como era obrigado a fazel-o, por sua dignidade, pela sua salvação, pela sua prudencia, por tudo emfim?
O REI
Ah! por duas rasões, que provavelmente acharás sem valia, mas que a meus olhos têem toda a gravidade. A rainha sua mãe idolatra-o, é a existencia d'ella esse filho; eu por minha parte não sei se deva considerar isto como virtude ou como desgraça; mas ella está tão intimamente ligada á minha alma, qual satellite ao seu planeta, que só por ella e para ella vivo. O outro motivo que me impede de formular contra elle uma accusação publica, é a immensa affeição que o povo lhe consagra; affeição que desculpa todas as suas faltas, e similhante a essas fontes que transformam em pedra a madeira, converteria as suas cadeias em aureola de gloria. N'estas circumstancias, pois, as minhas frechas demasiado tenues para romperem tão forte vento, em vez de tocarem no alvo, voltando-se, feririam só o que as despediu.
LAERTE
Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irmã na mais desordenada demencia! Mas se é permittido elogiar o que já passou, ella excedia em perfeições as creaturas da sua idade, e não me hei de eu vingar?
O REI
Essa mágua não te perturbe o somno; não me julgues de um caracter tão pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto me impressionou, seja por mim tratado de bagatella. Brevemente saberás ainda mais. Eu estremecia o teu pae; nós somos devéras amigos, agora deves acreditar que...
Entra um MENSAGEIRO
O REI
Que queres? que ha de novo?
O MENSAGEIRO
Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra para a rainha.
O REI
De Hamlet!! quem as trouxe?
O MENSAGEIRO
Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas foram-me entregues por Claudio, que as recebeu do portador.
O REI (pegando na carta)
Ouvirás, Laerte, o seu conteúdo. (Ao mensageiro) Retira-te (o mensageiro sáe) (abre a carta e lê): «_Alto e poderoso monarcha, depozeram-me em territorio vosso, nú; ámanhã solicitarei o comparecer na vossa presença, e então se me for permittido referir-vos-hei o que deu causa ao meu estranho e inesperado regresso.==Hamlet_». Que significa isto? voltariam todos, será engano, será tudo falso?
LAERTE
Conhece a sua letra?
O REI
É a letra de Hamlet. _Nú_, e n'um post-scriptum acrescenta _só_. Poderás tu dizer-me o que tudo isto significa?
LAERTE
Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma no meu coração abatido, pensando que lhe poderei dizer cara a cara: Foste tu o assassino de meu pae.
O REI
Se assim é, Laerte, não póde nem poderia ser de outra maneira; queres tu seguir um meu conselho?
LAERTE
Sim, comtanto que não me aconselhe a paz.
O REI
Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero: se é verdade que regressou, o que indica que Hamlet recúa diante da viagem e renuncia a ella, suggerir-lhe-hei uma aventura, cujo plano está maduro no meu espirito, e em que não poderá deixar de succumbir, e sem que a sua morte possa ser attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua propria mãe limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo só uma fatalidade.
LAERTE
Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor vontade, se podér combinar de modo que eu seja o agente principal.
O REI
Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. Frequentemente, desde as tuas viagens, têem-me gabado por excederes a todos no exercicio de uma arte. Todas as tuas qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos ciumes do que esta só; é comtudo talvez a menos importante.
LAERTE
E qual é essa qualidade?
O REI
Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite necessario; porque não lhe fica menos bem um ornamento um pouco frivolo mesmo, do que convem á idade madura as vestes encorpadas e serias que lhe impõem a saude e a gravidade. Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando; tenho visto francezes e combatido com elles, e são devéras habeis, mas a habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia. Parecia arroscado á sella, e guiava o cavallo tão prodigiosamente, que pareciam um só e o mesmo animal intelligente. Excedeu tudo quanto se póde imaginar na arte de cavallaria e volteio, tão perfeita era a execução.
LAERTE
Um cavalleiro normando, disse?
O REI
Um normando.
LAERTE
Então era Lamond; não póde ser outro.
O REI
Elle mesmo.
LAERTE
Bem o conheço, é a phenix, a perola da sua patria.
O REI
Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua pericia no manejo das armas, sobretudo da espada, declarando ser impossivel achar outro igual, e jurando que os jogadores de espada francezes perderam agilidade, posição e golpe de vista depois que comtigo se mediram. Estes elogios que elle te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de Hamlet, que anhelava só pelo teu regresso para comtigo combater, e transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas circumstancias...
LAERTE
Que partido poderemos nós tirar?
O REI
Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou não era a tua dor senão um simulacro, toda exterior e nada interior?
LAERTE
Porque esta pergunta?
O REI
Longe de mim o pensar que não amavas teu pae; mas a affeição é um sentimento que se gera em nós, e a experiencia de todos os dias nos faz ver que o tempo destempera a sua vivacidade e o seu ardor. Mesmo na chamma do amor ha ás vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se conserva permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento degenera em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrição. O que pretendemos fazer, devemos fazel-o na occasião propria, porque a vontade tambem muda; tantas são as suas mudanças, quantas as linguas, mãos e outros accessorios que se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado frequentes suspiros, nos magôa, alliviando-nos. Mas entremos francamente na questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto a fazer, para te mostrares digno filho de teu pae, não com palavras, mas com obras?
LAERTE
Assassinal-o-ía mesmo no templo do Senhor.
O REI
Effectivamente o assassino não recúa perante o santuario, quando pretende saciar a vingança. Mas, querido Laerte, queres seguir o meu conselho? Encerra-te nos teus aposentos. Hamlet, regressando, saberá da tua estada n'estes logares; farei com que exaltem na sua presença os teus talentos, e que encareçam os elogios mais que os francezes o fizeram; por este meio seguir-se-hão um desafio e apostas sobre a pericia dos contendores. Elle que está desprevenido e é generoso e de nada desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem botão, e por meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar a morte de teu pae.
LAERTE
Como o rei disse, Laerte o fará; mesmo envenenarei a ponta do meu florete. Comprei a um empirico uma droga mortal. Por pouco que a ponta de um punhal esteja n'ella banhada, por leve que seja o ferimento, não ha balsamo precioso, embora composto dos mais energicos contravenenos, que possa salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim, prepararei a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura lhe seja fatal.
O REI
Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira mais facil e favoravel para a sua execução. Se tivesse que falhar este nosso plano, mais valeria nada tentar. Mas é necessario que esta primeira combinação se firme n'uma segunda, que a substitua, no caso da arma se quebrar no primeiro encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no calor do combate, estiverem afogueados e sedentos, para conseguir o intento não poupes o teu adversario, ataca-o com vigor. Hamlet, sem duvida, pedirá uma bebida; ser-lhe-ha então apresentada uma, de antemão preparada, e uma só gota bastará, se a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim desejado. Mas silencio! Que rumor é este? (Entra a rainha.) Que ha de novo, querida Gertrudes?
A RAINHA
Accumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte, tua irmã suicidou-se, afogando-se.
LAERTE
Onde?
A RAINHA
Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irmã approximou-se d'aquelle sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos, ortigas, malmequeres, e d'essas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas que as nossas castas donzellas denominam poeticamente _dedo da morte_. Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as argenteas frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de corôa virginal. Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se á sereia, cantando incoherentes trechos, inconsciente do proprio risco, como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e tornou-se cadaver levado pela corrente.
LAERTE
Oh! desgraçada! afogada!!
A RAINHA
Sim, Laerte!
LAERTE
Sequem-se as minhas lagrimas; já tiveste agua em demasia, infeliz Ophelia! Mas porque? Mais força tem a natureza do que a vontade; todos lhe devemos obediencia. Para que uma falsa vergonha? Rolem, pois pelas faces lagrimas santas, e arrebatem na sua corrente a minha ultima fraqueza. Adeus, senhor! As minhas palavras de fogo tornar-se-íam embravecido vulcão, se as lagrimas do coração o não apagassem. (Sáe.)
O REI
Sigâmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua colera! Receio bem que estas novas desgraças lhe despertem em toda a sua plenitude a sanha da vingança. Sigâmol-o, pois.
Fim do acto quarto
ACTO QUINTO
SCENA I
Um cemiterio
Entram DOIS COVEIROS com enxadas
PRIMEIRO COVEIRO
Dever-se-ha enterrar em chão sagrado aquelle que voluntariamente procurou a sua salvação no suicidio?
SEGUNDO COVEIRO
Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado viu e decidiu que aqui fosse sepultada.
PRIMEIRO COVEIRO
Isso não póde ser, a menos que não se afogasse involuntariamente.
SEGUNDO COVEIRO
Já está reconhecido e decidido.
PRIMEIRO COVEIRO
As probabilidades todas são que pereceu _se offendendo_. Ninguem é capaz persuadir do contrario. Vê tu como eu o provo. Se me afogar voluntariamente existe um acto; ora, um acto subvide-se em tres ramos: a acção, o cumprimento e a execução; ergo, afogou-se voluntariamente.
SEGUNDO COVEIRO
Assim será, mas escuta-me ao menos.
PRIMEIRO COVEIRO
Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente morre por seu motu proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a agua que vem encontrar o homem, e elle se afoga, então já não é elle que procura a morte; ergo, aquelle que não é culpado na sua morte, não poz termo voluntariamente á vida.
SEGUNDO COVEIRO
Mas será lei?
PRIMEIRO COVEIRO
É a lei que preside ao inquerito do magistrado.
SEGUNDO COVEIRO
Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse senhora de qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado.
PRIMEIRO COVEIRO
É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade tenham, a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito de se afogarem e de se enforcarem. Vamos sempre cavando! Não ha nobreza mais antiga que a dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profissão de Adão!
SEGUNDO COVEIRO
Pois Adão era nobre?
PRIMEIRO COVEIRO
O primeiro que usou armas!
SEGUNDO COVEIRO
Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse!
PRIMEIRO COVEIRO
Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura sagrada? A escriptura diz que Adão trabalhava o solo; como poderia elle trabalhar sem pá ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta, se não me responderes com acerto, não és mais que um....
SEGUNDO COVEIRO
Asno! continúa.
PRIMEIRO COVEIRO
Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e constructor de navios?
SEGUNDO COVEIRO
O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros hospedes.
PRIMEIRO COVEIRO
Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; mas para quem se fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer que o cadafalso é mais solido que a igreja, logo merecias o cadafalso. Vamos, procura e responde.
SEGUNDO COVEIRO
Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que o pedreiro, carpinteiro e constructor de navios?
PRIMEIRO COVEIRO
Dize tu primeiro, eu cá já sei.
SEGUNDO COVEIRO
Tambem eu.
PRIMEIRO COVEIRO
Vejamos.
SEGUNDO COVEIRO
Nada, não atino.
HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo
PRIMEIRO COVEIRO
Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde: «É o coveiro; as moradas que construe duram até ao dia de juizo». Agora vae a casa de Vaughan e traze-me um copo de licor.(O segundo coveiro sáe, cantando.)
Quando eu era mancebo e quando amava Tudo era para mim rapido goso, Sómente noite e dia andava ancioso Por o tempo matar que me matava.
HAMLET
Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo, cantando assim, quando cava uma sepultura?
HORACIO
O habito tudo póde.
HAMLET
E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado!
PRIMEIRO COVEIRO (cantando)
Mas a idade chegou, passo furtivo Nas gastadoras garras me ha tomado, E assim, mau grado meu, me ha condemnado A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.)
HAMLET (apontando para uma caveira)
Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava; agora este rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a mandibula de Caim, o primeiro homicida. O craneo que este imbecil trata com tão pouco respeito, era talvez de algum profundo politico, que se julgava até capaz de impor a sua opinião ao proprio Deus, não é verdade?
HORACIO
Tudo póde ser, senhor.
HAMLET
Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir: «Deus seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez o craneo do sr. fulano, que gabava o cavallo do sr. cicrano, com a idéa que este lh'o désse, não é verdade, Horacio?
HORACIO
Sim, meu senhor!
HAMLET
Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem pelle, nem sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma estranha revolução, assim a comprehendessemos bem. Joga-se a bola com esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os meus só pensando-o.
PRIMEIRO COVEIRO (cantando)
Uma enxada e uma pá logo em seguida, Um lençol que amortalha o corpo todo, Um buraco depois feito no lodo, Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.)
HAMLET
Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. Agora acabaram as trapaças, as distincções subtis, as causas, as auctoridades legaes e as finuras. Em vida, de certo não consentia sem um processo que este imbecil lhe percutisse o craneo com a enxada. Porque não lhe intenta agora uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez fosse um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, rendas, privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora elle mesmo hypothecado, tem o privilegio commum a todos os mortaes, de ver a sua cabeça coberta de pó e terra. Pois que! todas as acquisições tão bem garantidas, não terão outro complemento senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á superficie de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade. Ah!
HORACIO
Unica, senhor!
HAMLET
Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é verdade?
HORACIO
Tambem de bezerro.
HAMLET
São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos. Vou interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?
PRIMEIRO COVEIRO
A mim!
(Cantando)
Um buraco depois feito no lodo, Eis ao que se reduz a humana vida.
HAMLET
Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella.
PRIMEIRO COVEIRO
O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não me ser destinada, é comtudo minha.
HAMLET
Mentes, é para um morto, e não para um vivo.
PRIMEIRO COVEIRO
Eis um desmentido prompto e que não admitte replica.
HAMLET
Para que homem cavas essa cova?
PRIMEIRO COVEIRO
Senhor, não é para um homem!
HAMLET
Para que mulher então?
PRIMEIRO COVEIRO
Nem tão pouco para uma mulher!
HAMLET
Quem será pois depositado n'esta cova?
PRIMEIRO COVEIRO
Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça da sua alma.
HAMLET
Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com toda a clareza, para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, que noto ha tres annos que o mundo se torna retrogrado, e o rustico se approxima tanto do cortezão, que quasi se confundem. Ha quanto tempo és coveiro?
O COVEIRO
Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a Fortimbraz.
HAMLET
Quanto tempo haverá?
O COVEIRO
Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no mesmo dia em que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, e foi mandado para Inglaterra.
HAMLET
É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?
O COVEIRO
Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão, e se não a recuperar, tambem não se perde muito.
HAMLET
E porque?
O COVEIRO
Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle.
HAMLET
Como enlouqueceu elle?
O COVEIRO
De um modo bem estranho, segundo dizem.
HAMLET
Mas de que modo?
O COVEIRO
É claro, perdendo a rasão.
HAMLET
E qual foi o motivo?
O COVEIRO
Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou coveiro desde a infancia, ha trinta annos.
HAMLET
Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado, antes de apodrecer?
O COVEIRO
Se não está já podre antes de morrer (porque temos n'esta epocha muito corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação), póde conservar-se de oito a nove annos; um surrador conserva-se nove annos.
HAMLET
Porque mais tempo que os outros?
O COVEIRO
O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle, que fica impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a agua é o mais activo destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira? Ficou vinte e tres annos debaixo da terra.
HAMLET
De quem era?
O COVEIRO
De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?
HAMLET
Como posso eu sabel-o?
O COVEIRO
Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou sobre a cabeça um frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do rei.
HAMLET
Este craneo?
O COVEIRO
Sim, este mesmo.
HAMLET (pegando na caveira)