Chapter 8
Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, era uma mina inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda! quantas vezes me levou aos hombros! agora ao pensal-o annuvia-se-me o coração. Aqui estavam os seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde estão agora os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Que! pois ninguem já póde rir com as tuas facecias? Descarnadas estão as faces. Vae, entra como agora estás, na alcova de alguma beldade da moda; dize-lhe então que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia será igual a ti. Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...
HORACIO
O que, meu senhor?
HAMLET
Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick?
HORACIO
De certo!
HAMLET
E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! (Deita fóra o craneo.)
HORACIO
Sem duvida alguma, senhor.
HAMLET
A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio? Quem sabe se, proseguindo nas suas successivas transformações, as cinzas de Alexandre não estão hoje empregadas em tapar um barril?
HORACIO
Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.
HAMLET
Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre está morto, Alexandre está sepultado, Alexandre tornou-se pó; o pó é terra, da terra tira-se argilla, e quem impede que esta argilla, ultima metamorphose de Alexandre, seja empregada como batoque n'um barril de cerveja? O imperial Cesar, morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava o terror sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir que o vento passe. Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: (Entram processionalmente padres, levando á mão o caixão de Ophelia; segue-se Laerte e o cortejo funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte) e tambem a rainha! toda a côrte! A quem prestarão os ultimos deveres? De quem será este funeral incompleto? Tudo denuncia um suicidio. Deve porém ser pessoa de categoria! Occultemo-nos e observemos, Horacio. (Afastam-se um pouco Hamlet e Horacio.)
LAERTE
Que ceremonias falta cumprir?
HAMLET
Olha, é Laerte, um nobre mancebo.
LAERTE
Ha mais alguma cousa que fazer?
PRIMEIRO PADRE
Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; a sua morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores não tivessem imposto silencio aos canones da Igreja, teria sido sepultada em chão profano, onde teria ficado até que a acordasse o clarim do juizo final. Em vez de orar por ella, teriamos lançado sobre o seu corpo tições, entulho e pedras; e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á sua ultima morada.
LAERTE
Então nada mais se póde fazer?
PRIMEIRO PADRE
Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos um _requiem_, ou se implorassemos para ella o repouso destinado ás almas que voaram ao céu santamente.
LAERTE
Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle e da sua carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que t'o digo, padre sem alma, minha irmã gosará no céu a bemaventurança eterna, emquanto que tu extorcer-te-has no inferno nas convulsões do supplicio dos condemnados.
HAMLET
Que? É pois a bella Ophelia?
A RAINHA (lançando flores sobre a campa)
Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu leito nupcial; nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.
LAERTE
Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre a cabeça do scelerado que commetteu tão negra acção, e provocou a perda da sua rasão. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez nos meus braços (salta para dentro da cova). Agora enterrem conjunctamente vivos e mortos, elevem sobre nós uma montanha que exceda em altura o antigo Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as nuvens.
HAMLET (adiantando-se)
Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase; cuja voz detem os astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquez! (Arremessa-se á cova.)
LAERTE (lançando-se a elle)
O inferno se apodere da tua alma!
HAMLET
É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as mãos, abaixo, aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado, mas é perigoso excitar-me, e obrarás assisadamente pensando assim. Abaixo as mãos!
O REI
Separem-os.
A RAINHA
Hamlet! Hamlet!
TODOS
Senhores!
HORACIO
Contenham-se.
HAMLET
Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até ao ultimo alento.
A RAINHA
Meu filho, qual é o motivo?
HAMLET
Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos não poderiam igualar a minha; (a Laerte) e que serias tu capaz de fazer por ella?
O REI
Deixa-o, Laerte, está louco.
A RAINHA
Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.
HAMLET
Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, jejuar, rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar um crocodilo? Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, para me desafiar, precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te vivo com ella, outro tanto farei; e já que fallaste em montanhas, accumulem ellas sobre nós tanta terra, que o cume da nossa pyramide tumular toque a zona ardente, e ao pé d'ella o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Pódes encolerisar-te, que não me assustam os teus furores.
A RAINHA
É um accesso de loucura que durará algum tempo; depois, similhante á meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso e immovel.
HAMLET (a Laerte)
Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. Mas não importa. Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato miasse, o cão havia de ladrar (afasta-se).
O REI
Siga-o, peço-lhe, meu caro Horacio. (Horacio segue Hamlet) (a Laerte) Tem paciencia, lembra-te da nossa conversação de hontem, (Á rainha) Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet; (á parte) é preciso dar como monumento a este tumulo uma victima humana. Cedo estarei descansado; até então, paciencia! (Sáem todos.)
SCENA II
Uma sala no castello
Entram HAMLET e HORACIO
HAMLET
Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te bem de todas as circumstancias?
HORACIO
Se me lembro, meu senhor!
HAMLET
Uma especie de lucta apoderára-se do meu coração, vedava-me o somno, sentia-me peior que um facinora acorrentado! Adoptando comtudo uma resolução temeraria, achei na temeridade a minha força; lembremo-nos sempre, Horacio, que a imprudencia é muitas vezes o nosso prestante auxiliar, quando os nossos mais profundos calculos são impotentes, e isto deve-nos ensinar que ha uma Providencia que aperfeiçoa e completa os projectos que imperfeitamente esboçâmos.
HORACIO
Não ha cousa mais certa!
HAMLET
Saí pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas de viagem procurei e encontrei pelo tacto, ás escuras, a sua mala; abri-a e revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao meu aposento; então o perigo baniu todo o escrupulo, abri o despacho rompendo o sêllo real! Escuta o que li, Horacio. Oh! perfidia real! Apoiando-se em differentes motivos, a salvação da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para elle havia em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que depois da leitura d'essa carta, sem demora alguma, nem mesmo a necessaria para afiar o cutello, eu fosse decapitado.
HORACIO
Será possivel?
HAMLET
Aqui tens a carta, lê-a á tua vontade. Mas queres tu saber o que eu então fiz?
HORACIO
Diga, senhor; que foi?
HAMLET
Para saír salvo dos laços d'esta infame traição, appellei para a minha intelligencia, e depressa formei o meu plano. Sentei-me, e redigi um despacho com a melhor letra que pude fazer. Antigamente, assim como os nossos homens d'estado considerava uma vergonha ter boa letra; e se soubesses quanto eu desejei perdel-a! mas n'esta occasião foi-me maravilhosamente util. Queres saber o que escrevi?
HORACIO
Com todo o gosto, senhor.
HAMLET
Dirigindo-se ao monarcha inglez como seu fiel tributario, dizia-lhe o rei de Dinamarca, se queria que se conservasse virente a palma da amisade, a paz se coroasse de espigas e se estreitassem os laços de uma união duradoura, lhe ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem outro exame, sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse suppliciar os portadores do despacho.
HORACIO
Mas com que sêllo fechou esse escripto?
HAMLET
A Providencia não me desamparou ainda n'essa occasião; tinha na minha bolsa o sêllo de meu pae, reproducção exacta do sêllo do estado. Dobrei pois o meu despacho na fórma do estylo, subscriptei-o e sellei-o, depois colloquei-o no logar em que estava o outro: o engano não foi descoberto. No dia seguinte, em vez de combate sabes o que houve.
HORACIO
Assim, Rosencrantz e Guildenstern, vão receber o seu justo castigo?
HAMLET
Procuraram-n'o por suas proprias mãos; não me peza na consciencia. Só de si se podem queixar. É sempre uma desgraça para vis subalternos acharem-se envolvidos nas contendas de dois poderosos adversarios.
HORACIO
E é rei? meu Deus!
HAMLET
O meu dever está agora claramente indicado. Áquelle que assassinou meu pae, deshonrou minha mãe, que se interpoz entre a escolha da nação e as minhas esperanças, que attentou contra a minha vida traiçoeira e perfidamente, é justiça que o meu braço o puna. E não seria um crime digno da condemnação eterna, deixar continuar esta ulcera no seu trabalho corrosivo?
HORACIO
Mas dentro em pouco saberá de Inglaterra o desenlace de todo este negocio?
HAMLET
Em breve o saberá, é verdade, mas o tempo que até então decorrer, pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em menos tempo do que o preciso para contar até dois. O que me peza, meu caro Horacio, é ter desattendido Laerte, porque eu tambem sinto o que elle deve sentir. Sempre prezei a sua estima; mas a emphatica exaltação da sua dor exacerbou-me.
HORACIO
Silencio, principe; approxima-se alguem.
Entra OSRICO
OSRICO
Alegro-me, principe, que tenha regressado á Dinamarca.
HAMLET
Obrigado, senhor. (A Horacio) Conheces tu esse insecto?
HORACIO
Não, meu senhor.
HAMLET
És pois um homem moral, é um vicio conhecel-o. É verdade que possue muitas e ferteis propriedades, mas é um estupido animal, que tem mando sobre os outros, seguro de achar a sua mangedoura na mesa real; é um ente desprezivel, mas, como disse, é senhor de vastos dominios.
OSRICO
Meu bom senhor, se não incommodo vossa alteza, alguma cousa tinha que lhe communicar da parte de sua magestade.
HAMLET
Escutal-o-hei com prazer. Mas cubra-se já, que o chapéu foi feito para estar na cabeça.
OSRICO
Obrigado, senhor, mas faz muita calma.
HAMLET
Faz muito frio, não acha? O vento está norte.
OSRICO
Effectivamente, faz bastante frio.
HAMLET
Não sei se é effeito de uma predisposição particular, mas acho um calor abrasador.
OSRICO
Não ha duvida, faz tanto calor, que nem posso quasi respirar. Mas, meu senhor, sua magestade encarregou-me de lhe dizer que fez uma aposta consideravel, de que vossa alteza é o motivo.
HAMLET (fazendo-lhe signal de se cobrir)
Faz favor.
OSRICO
Perdão, senhor, mas não me incommoda. Vossa alteza de certo é sabedor que chegou a esta côrte Laerte, um joven mui dextro, dotado das mais raras qualidades, agradavel no trato, um perfeito moço. Para fallar d'elle como merece, póde-se dizer que é o espelho e o almanach do bom tom, porque n'elle estão reunidas todas as qualidades que deve possuir um perfeito cavalheiro.
HAMLET
Senhor, não encareceu o retrato que d'elle fez; não é sufficiente toda a arithmetica da memoria para redigir o inventario especificado de todas as suas perfeições, e ainda assim o juizo ficaria áquem da verdade. Fallando conscienciosamente, tenho-o na conta de um cavalheiro distincto e de raro merecimento; digo-o sinceramente; para achar outro igual, forçoso é que se olhe no seu espelho: os outros não seriam senão a sua sombra.
OSRICO
O principe falla d'elle com a convicção da estima.
HAMLET
De que se trata, pois? Escusâmos embaçar as suas qualidades com o nosso juizo.
OSRICO
Senhor!
HORACIO
Não seria possivel fallar uma lingua mais intelligivel? É-o por certo, senhor.
HAMLET
Com que fim pronunciou o nome d'aquelle cavalheiro?
OSRICO
De Laerte?
HORACIO
Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que ha de responder.
HAMLET
É verdade.
OSRICO
Sei que não ignora...
HAMLET
Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse, fraco elogio para mim seria. Continue agora.
OSRICO
Vossa alteza não ignora a superioridade de Laerte?
HAMLET
É o que não affirmo, com o receio de me comparar a elle. Para conhecer um homem a fundo era necessario vestir a sua pelle.
OSRICO
Quero fallar da sua superioridade em manejar as armas; gosa da reputação de não ter rival.
HAMLET
Quaes são as suas armas de predilecção?
OSRICO
Florete e adaga.
HAMLET
São só duas! prosiga.
OSRICO
O rei apostou seis bellos cavallos da melhor raça, contra seis espadas e seis adagas francezas de Laerte, sem contar os cinturões, talabartes e tudo o mais. Tres dos accessorios sobretudo são dignos da aposta e de um trabalho maravilhoso, no estylo mesmo das armas.
HAMLET
Que chama accessorios?
HORACIO
Bem sabia eu que antes de terminar era infallivel algum reparo do principe.
OSRICO
Os accessorios, senhor, são os enfeites dos cintos e talabartes em que se suspendem as espadas.
HAMLET
A expressão seria mais exacta se em vez de espada usassemos um canhão; sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade. Prosiga. Seis bellos cavallos contra seis espadas e seus pertences, incluindo tres cintos, obra prima da arte franceza; é pois a França contra a Dinamarca. Mas qual é o motivo d'esta aposta?
OSRICO
O rei apostou que em doze golpes, Laerte não tocaria o principe senão tres vezes. Laerte apostou que seriam nove em doze. A questão será promptamente decidida se vossa alteza se dignar responder.
HAMLET
E se eu responder negativamente?
OSRICO
Quer dizer, se o principe convier em combater.
HAMLET
Senhor, vou agora passeiar n'esta sala; costumo todos os dias a esta hora, entregar-me a esses exercicios: depois estou ás ordens do rei. Tragam floretes com a annuencia de Laerte; e se o rei persistir no seu empenho far-lhe-hei ganhar a aposta se podér; no caso contrario restam-me os golpes recebidos e a vergonha.
OSRICO
Deverei dar ao rei a sua resposta?
HAMLET
Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saberá completar a resposta.
OSRICO
Um servo dedicado de vossa alteza. (Sáe.)
HAMLET
Muito agradecido, obrigado (a Horacio); fez bem de o dizer elle mesmo, ninguem se encarregava por certo de tal missão.
HORACIO
Finalmente, estamos sós!
HAMLET
Estou certo que ao collo da ama, antes de o sugar, elogiava a alvura do seu seio; similhante a tantas pessoas da sua tempera, que são o encanto dos ignorantes, abraçam as modas do dia, e revestem-se de um falso verniz de polidez, e, graças a essa mascara, são escutados pelos sensatos; mas experimentem-os, são como bolas de sabão, que se desvanecem ao menor sopro.
Entra UM SENHOR
O SENHOR
Senhor! o rei mandou o joven Osrico cumprimentar vossa alteza da sua parte, o qual lhe disse que o principe esperava n'esta sala. El-rei envia-me para saber se é intenção de vossa alteza combater já, ou adiar o combate.
HAMLET
Tomei já a minha resolução, e concorda com os desejos de sua magestade. Se Laerte está prompto, tambem eu o estou; immediatamente, ou quando quizer, comtanto que me sinta sempre tão bem disposto como agora o estou.
O SENHOR
Em breve chegarão o rei e a rainha, e toda a côrte.
HAMLET
Bemvindos sejam!
O SENHOR
É pedido da rainha que receba cordialmente Laerte, antes de dar principio á contenda.
HAMLET
É justo o seu conselho. (O senhor sáe.)
HORACIO
Receio que o principe perca a aposta.
HAMLET
Não creias tal; depois que elle partiu, tenho-me continuamente exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida a victoria é certa. Se tu soubesse que dor sinto no coração! Não importa.
HORACIO
Comtudo, senhor!
HAMLET
É uma loucura, uma leve apprehensão, que apenas poderia influenciar uma fraca mulher.
HORACIO
Se sente alguma repugnancia no seu espirito, obedeça-lhe. Vou prevenil-os que não venham, que o principe se sente indisposto.
HAMLET
De modo nenhum! Luctarei com os meus presentimentos; a Providencia tem já escripto o meu destino. Se tenho de morrer, nada o evitará, forçoso é obedecer aos seus decretos; que seja hoje ou ámanhã, estou prompto; tenho dito. Poisque o homem não é senhor do seu destino, que importa que seja mais tarde ou mais cedo? Será o que Deus quizer.
Entram o REI, a RAINHA, LAERTE, OSRICO, SENHORES e CREADOS trazendo floretes e luvas e uma mesa com frascos e taças
HAMLET (a Laerte)
Perdoe-me, se o offendi, mas perdoe-me como cavalheiro. Os que nos cercam, sabem-o, e creio que tambem deve saber, que um terrivel desvairamento se apossou de mim. Se alguma cousa fiz que podesse irritar o seu caracter e a sua honra e melindre, proclamo-o bem alto: «Loucura!» Seria ainda Hamlet que offendeu Laerte? Nunca, nunca poderia ser Hamlet. Então não era elle, e não sendo elle, como offenderia Hamlet a Laerte? É claro, não era elle; renego todos esses actos. Quem foi então? a loucura. Sendo assim, Hamlet abraça o offendido; o verdadeiro inimigo do desditoso Hamlet é a sua loucura. Senhor, depois d'esta confissão, em que perante todos renego toda a má intenção, poderá ainda a sua generosidade condemnar-me? É como se inconscientemente despedisse por cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmão.
LAERTE
Meu coração está satisfeito; era elle que mais me excitava á vingança; mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliação, até que arbitros mais idosos e de provada lealdade, me imponham, fundados em precedentes, uma sentença de paz, que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita. Até então acceito a amisade que me offerece, e nada farei em seu detrimento.
HAMLET
Acceito francamente essa promessa, e a lucta fraternal que vamos encetar. Venham os floretes, comecemos.
LAERTE
Dêem-me um florete!
HAMLET
Vou ser o seu alvo, Laerte; ao pé da minha inexperiencia vae sobresaír a sua pericia, como um astro brilhante em noite escura.
LAERTE
Zomba de mim?
HAMLET
Juro que não!
O REI
Dá-lhes floretes, Osrico, Primo Hamlet, conheces a aposta?
HAMLET
Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o mais fraco.
O REI
Nada receio; já os conheço ambos, e poisque Hamlet é quem mais avantajado está, a sorte está pelo nosso lado.
LAERTE (examinando um florete)
Este não, que é muito pesado; outro!
HAMLET
Este convem-me; os floretes são todos iguaes, não é verdade?
OSRICO
Sim, meu bom senhor. (Collocam-se.)
O REI
Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira e segunda vez, ou se elle aparar o terceiro golpe, que as baterias rompam uma salva geral; beberei á saude de Hamlet, e lançarei na taça uma perola mais preciosa que as que usavam nos seus diademas os quatro reis meus predecessores. Venham as taças. Que os timbales annunciem aos clarins, os clarins aos canhões, os canhões aos céus, os céus á terra que o rei brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem começar, e vós juizes, attenção!
HAMLET
Em guarda!
LAERTE
Em guarda, principe! (Começam.)
HAMLET
Uma!
LAERTE
Não tocou.
HAMLET
Os juizes que decidam!
OSRICO
Tocou, não ha duvida.
LAERTE
Recomecemos.
O REI
Esperem, encham as taças. Hamlet, dou-te esta perola, brindo por ti. Offereçam-lhe a taça. (Clarins e salvas.)
HAMLET
Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos, Laerte. Uma! que diz agora?
LAERTE
Fui tocado, confesso-o.
O REI
Hamlet ganha.
A RAINHA
Estás fatigado, falta-te o fôlego. Limpa a fronte com o meu lenço. A rainha bebe á tua victoria, Hamlet.
HAMLET
Minha senhora!
O REI
Não bebas, Gertrudes.
A RAINHA
Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o.
O REI (á parte)
Era a taça envenenada, já não ha remedio.
HAMLET
Ainda não bebo, mais tarde, senhora.
A RAINHA
Deixa-me limpar tua fronte, filho!
LAERTE (ao rei, á parte)
Senhor, agora verá.
O REI
Já não creio.
LAERTE (á parte)
E, comtudo, diz-me a consciencia que não.
HAMLET
Vamos, Laerte, a terceira prova; não me poupe, peço-lh'o; desenvolva toda a sua pericia, não me trate como creança.
LAERTE
Que diz? em guarda, pois.
OSRICO
Ainda nada.
LAERTE
Agora toquei. (No encarniçado da lucta trocam os floretes, e Hamlet é ferido e fere Laerte.)
O REI
Separem-nos, estão desesperados.
HAMLET
Não, recomecemos. (A rainha cáe)
OSRICO
Acudam á rainha; acudam!
HORACIO
Feridos ambos!! que é isto, senhor?
OSRICO
Como está Laerte?
LAERTE
Colhido no meu proprio laço, morro pela minha traição.
HAMLET
Que tem a rainha?
O REI
Desmaiou á vista do sangue.
A RAINHA
Não, não! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a bebida! envenenada... (Morre.)
HAMLET
Oh! infamia! fechem as portas, traição! quero conhecel-a.
LAERTE
Eu t'o digo, é esta: Hamlet, morres assassinado, nada te póde salvar; meia hora, quando muito, te resta de vida, na tua mão ainda conservas a arma da traição afiada e envenenada; tambem sou victima da minha perfidia. Escuta, já sinto a morte, tua mãe envenenada... morro, Hamlet! o rei... só o rei culpado... (Desfallecendo.)
HAMLET
A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. (Fere o rei.)
OSRICO e SENHOR
Traição! traição!
O REI
Defendam-me, é apenas leve ferimento.
HAMLET
Bebe os restos d'esta taça, incestuoso assassino, damnado dinamarquez. Procura a perola, achal-a-has seguindo minha mãe. (Vasa á força o resto da taça pela bôca do rei, que cáe e morre.)
LAERTE (n'um ultimo alento de vida)
É justo o castigo; morre pelo veneno que preparáras. Hamlet, perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer reciproco remorso subam nossas almas abraçadas ao céu. (Morre.)
HAMLET
Absolva-te o céu, como eu te perdôo; sigo-te, Laerte (a Horacio) morro, Horacio. Rainha desgraçada, adeus. A vós todos, que ao ver esta catastrophe empallideceis, mudos espectadores d'este drama, se tivesse tempo ainda, se esta ancia terrivel não m'o vedasse, poderia dizer... agora, resignação. Eu morro, Horacio, tu viverás, justifica-me, explica o meu odio aos que o ignoram.
HORACIO
Isso nunca! sou mais romano que dinamarquez, e n'esta taça ainda ha liquido.
HAMLET
Se és homem, dá-m'a; larga-a, por Deus, quero-a. Vive para revelar um tão infame crime. Se alguma vez foste meu amigo, não apresses a tua felicidade celeste e permanece n'este mundo odioso, conta a minha historia. (Ouve-se uma marcha) Que rumor marcial é este?
HORACIO
É o jovem Fortimbraz, que regressa victorioso da Polonia, e que saúda os embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira. (Ouvem-se tiros.)
HAMLET
Morro, Horacio, triumpha o veneno poderoso; nem já as noticias de Inglaterra me é dado saber, mas predigo que Fortimbraz ha de reinar; morrendo, voto por elle; conta-lhe mais ou menos os pormenores da causa da minha morte. O resto... é... silencio... (Morre)
HORACIO
Que nobre alma! Adeus, meu adorado principe, os anjos do céu o embalem com os seus canticos divinos. Mas porque é esta marcha? (Ouve-se uma marcha militar.)
Entram FORTIMBRAZ, os EMBAIXADORES a outras pessoas
FORTIMBRAZ
Que vejo?
HORACIO
Vae sabel-o. Desgraça ou prodigio, está patente a seus olhos.
FORTIMBRAZ
Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento preparavas tu, para precisar de uma só vez tanto sangue real?
PRIMEIRO EMBAIXADOR
Que horrivel espectaculo! tarde chegâmos de Inglaterra. Já não nos póde ouvir aquelle de cujas ordens annunciavamos o cumprimento, trazendo a nova da execução de Rosencrantz e Guildenstern. Quem nol-o agradecerá agora?
HORACIO