Hamlet: Drama em cinco Actos

Chapter 6

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É elle! Elle! Como está pallido! O seu aspecto, e o motivo que aqui o traz, commoveriam as proprias pedras. (Á sombra) Descrava de mim os teus olhos, receio que me feneça a resolução, vendo teu triste e commovente olhar; que se transforme o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em vez de sangue.

A RAINHA

Mas, filho, a quem fallas assim?

HAMLET

Não vê nada, minha mãe?

A RAINHA

Nada, senão tudo quanto existe n'esta camara.

HAMLET

E nada ouviu?

A RAINHA

Cousa alguma, a não ser as tuas palavras.

HAMLET

Mas olhe, minha mãe, não vê como elle se afasta, triste e pensativo? É meu pae, vestido como trajava em sua vida. Eil-o, transpõe agora mesmo a porta. Saíu. (A sombra sáe.)

A RAINHA

É á exaltação da tua imaginação e ao delirio que de ti se apoderou, que são devidas estas creações phantasticas.

HAMLET

O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que não está menos tranquillo que o seu. Não fallei influenciado pelo delirio. Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei textualmente as minhas palavras; não estou louco; engana-se, minha mãe. Por Deus, não se embale, no pensamento falso, que é o meu delirio e não a sua culpa que me faz fallar! Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia nunca deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao céu, arrependa-se do passado, premuna-se para o futuro, e não dê pasto ao verme do remorso, que acabará por totalmente corroer o seu coração e obliterar a sua consciencia. Perdoe á minha virtude, porque n'este mundo sordido e venal a virtude deve implorar o perdão do vicio e pedir o favor de poder fazer o bem.

A RAINHA

Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração.

HAMLET

Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva tranquilla e pura. Boa noite; evite meu tio, e se não podér ser virtuosa, ao menos pareça-o. O habito, esse monstro, que destroe e neutralisa em nós toda a sensibilidade, esse demonio do habito, é anjo n'isto, porque consente á virtude e ás boas acções as suas vestes proprias. Não veja hoje o seu esposo, tornar-lhe-ha mais facil a abstenção futura; o habito tudo póde, muda a natureza individual, doma o demonio, e expulsa-o com o seu maravilhoso poder. Boas noites mais uma vez! e quando sentir a necessidade da benção divina, então pedir-lhe-hei a sua. (Mostrando Polonio.) Quanto a este homem, arrependo-me do que fiz; mas obedeci ao céu; assim o quiz tornando-me instrumento das suas vinganças, punindo-o por mim, a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que lhe dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; o primeiro mal está feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra ainda.

A RAINHA

Que devo fazer?

HAMLET

Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado monarcha, preste as suas faces aos seus osculos, ouça-lhes as palavras de amor; então n'um diluvio de ardentes osculos, entre as mais lubricas caricias, confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe que nunca estive louco, que o fingi, faça-lhe essa confidencia. Qual seria a rainha, bella, sensata e honesta, que hesitasse em confiar áquelle animal immundo e repellente, asqueroso reptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silencio? Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra a gaiola e deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do bugio da legenda, por simples experiencia, introduza-se na gaiola e rompa o pescoço caíndo!

A RAINHA

Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de fôlgo e o fôlgo de vida, eu não teria vida para articular as que tu me disseste.

HAMLET

Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha mãe?

A RAINHA

Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente determinado?

HAMLET

Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quaes me fio tanto como na innocencia dos envenenados dardos das viboras, são os portadores da ordem! São elles que me hão de aplanar o caminho, e se encarregarão de me conduzir ao laço armado pela mais negra traição. Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem preparava. Nada ha, senhora, que nos dê mais gosto do que combater a traição, contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polonio apressará a minha partida. Levemos o seu cadaver para a camara vizinha. Boas noites, minha mãe. Este conselheiro está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto e grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, acabemos por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. (A rainha sáe por um lado, Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)

Fim do acto terceiro

ACTO QUARTO

SCENA I

Um quarto no castello de Elsenor

Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter uma causa. Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está nosso filho?

A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern)

Deixem-nos sós um momento. (Os dois sáem.) (Ao rei) Ah! senhor, que noite esta!

O REI

Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?

A RAINHA

Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando entre si luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos do delirio, ouvindo mexer atrás de uma cortina, exclamou: _Um rato, um rato_, e desembainhando a espada, cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião.

O REI

Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse; livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. Que rasões daremos para explicar este acto sanguinario? Taxar-nos-hão de imprevidentes, a responsabilidade toda caírá sobre nós; dirão que deviamos ter isolado esse insensato, mas era tão grande a nossa affeição, que não comprehendemos o que a prudencia nos aconselhava. Obrámos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde está Hamlet?

A RAINHA

Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a morte. No meio mesmo da sua demencia, conserva-se pura e intacta a sua intelligencia, como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao lembrar-se da acção que commetteu.

O REI

Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, já Hamlet deverá ter embarcado; logo em seguida partirá para Inglaterra. Quanto a esta odiosa acção precisâmos achar na nossa auctoridade e no nosso engenho alguma desculpa que a releve aos olhos do mundo. Olá, Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)

O REI (continuando)

Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou para fóra da camara de sua mãe. Tratem de descobrir onde o occultou, encarrego-os d'esta missão. Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio para a capella; peço-lhes só que se aviem. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)

O REI (continuando)

Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, demos-lhe a conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida. Precavendo-nos d'este modo, talvez a calumnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma extremidade do mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os do mais perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto senão perturbação e terror! (Sáem.)

SCENA II

Outro quarto no castello

Entra HAMLET

HAMLET

Duvido que o encontrem.

VOZES DE FÓRA

Hamlet? senhor Hamlet?

HAMLET

De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! eil-os que chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)

ROSENCRANTZ

Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?

HAMLET

Entreguei-o ao pó de que saíu.

ROSENCRANTZ

Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na capella?

HAMLET

Não pensem em tal.

ROSENCRANTZ

Que devemos, pois, pensar?

HAMLET

Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com a minha. Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe póde dar o filho de um rei?

ROSENCRANTZ

É a mim que chama esponja?

HAMLET

A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes prestam ao monarcha relevantes serviços, são para elle como o fructo que o bugio conserva na bôca para depois o engulir; quando necessitar do que tem arrecadado, espreme-os como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.

ROSENCRANTZ

Não comprehendo, senhor!

HAMLET

Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio os ouvidos do tonto.

ROSENCRANTZ

Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei.

HAMLET

Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse corpo. O rei é uma creatura.

ROSENCRANTZ

Uma creatura, senhor?

HAMLET

Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença. Vamos jogar as escondidas. (Sáem todos.)

SCENA III

Uma sala no castello

Entra o REI com a sua comitiva

O REI

Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo deixar livre um tal homem; mas não podemos fazer pesar sobre elle todo o rigor das leis. A multidão insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela rasão; n'estas circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos culpados, nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer descontentamento é forçoso que este precipitado exilio pareça consequencia de madura reflexão. Para males desesperados remedios energicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Então que aconteceu?

ROSENCRANTZ

Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver.

O REI

Onde está Hamlet?

ROSENCRANTZ

No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de vossa magestade.

O REI

Que venha á nossa presença.

ROSENCRANTZ

Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e Guildenstern.)

O REI

Hamlet, onde está Polonio?

HAMLET

N'um banquete.

O REI

N'um banquete?! onde?

HAMLET

Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes politicos disputa o seu cadaver. O verme é o monarcha dos comedores. Engordâmos todas as creaturas para nos engordarmos, e engordâmo-nos para pasto dos vermes. Um rei gordo e um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo hão de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade.

O REI

Infelizmente assim é!

HAMLET

É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver real, um peixe, e que se coma depois o peixe que enguliu o verme.

O REI

Que significam as tuas palavras?

HAMLET

Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar um rei para penetrar nos intestinos do pobre.

O REI

Onde está Polonio?

HAMLET

No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o achar, procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso se não o acharem até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará junto á escada da galeria.

O REI (á sua comitiva)

Procurem-o já.

HAMLET

Esperal-os-ha com certeza. (Sáe a comitiva do rei.)

O REI

Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto dolorosa a acção que commetteste, é forçoso que partas com a maior brevidade; vae, pois, preparar-te. O navio está prompto e o vento sopra propicio; os teus companheiros esperam-te, e tudo está disposto para a tua viagem a Inglaterra.

HAMLET

A Inglaterra?

O REI

Sim, Hamlet.

HAMLET

Está bem.

O REI

O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.

HAMLET

Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra. Adeus, minha querida mãe.

A RAINHA

E teu pae que te estremece?

HAMLET

Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido e mulher são uma e mesma carne. Assim, pois, adeus, minha mãe. Vamos para Inglaterra. (Sáe.)

O REI (a Rosencrantz e Guildenstern)

Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente, não ha tempo que perder. Quero que já esta tarde esteja afastado d'estes sitios. Vão! Tudo quanto respeita a este negocio foi já expedido e sellado com as nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o. (Sáem.) (Continuando) Rei de Inglaterra, sabes até onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo ferro dinamarquez ainda sangram, e teu respeito nos presta livre homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolencia, não receberás friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet é febre que requeima o meu sangue, e tu é que me deves curar d'ella. Não terei um dia de prazer e descanso emquanto não souber a completa execução das minhas ordens, aconteça o que acontecer. (Sáe.)

SCENA IV

Uma planicie na Dinamarca

Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas

FORTIMBRAZ (a um dos seus officiaes)

Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em conformidade com a sua promessa, Fortimbraz lhe pede livre passagem pelo seu territorio; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se sua magestade desejar fallar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens. Diga-lh'o da minha parte.

O OFFICIAL

As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!

FORTIMBRAZ (ás suas tropas)

Avancemos em attitude pacifica. (Fortimbraz e as suas tropas afastam-se. O official fica.)

Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas

HAMLET (ao official)

Que tropas são essas, meu amigo?

O OFFICIAL

É o exercito norueguez, senhor!

HAMLET

Qual é o seu destino?

O OFFICIAL

Um ponto do território da Polonia.

HAMLET

Quem o commanda?

O OFFICIAL

Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.

HAMLET

É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado da fronteira que marcham?

O OFFICIAL

Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma parte da Polonia, cuja conquista será para nós gloria, sem proveito algum. Estou certo que a sua renda não vale cinco ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.

HAMLET

Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia?

O OFFICIAL

Pelo contrario, até já o guarneceram.

HAMLET

Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para tão futil empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma demasiada e prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique exteriormente a sua acção mortal. Obrigado, amigo.

O OFFICIAL

Deus seja comvosco, senhor. (Afasta-se.)

ROSENCRANTZ

O principe quer que continuemos o nosso caminho?

HAMLET

Póde ir indo, em breve o alcançarei. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.) (Continuando.) Como sempre tudo me accusa e me excita á tardia vingança. O que é o homem, se o seu primeiro bem, o maior negocio da sua vida, consiste em comer e dormir! É um animo brutal, nada mais. Seguramente, que aquelle que nos dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar o passado e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito demasiado na acção que tenho que commetter, pensamento composto de uma quarta parte de siso e tres quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando repito: _Eis o que devo fazer_, já que me sobram os motivos, tenha eu ao menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os mais irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, capitaneado pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, soprado por uma ambição divina, affronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisivel, expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna, a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira grandeza consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas rasões, mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto, cuja verdadeira causa é o pundonor. Que posição pois a minha, eu que tenho um pae assassinado, uma mãe deshonrada; eu que tenho tantos motivos de colera e que tudo deixo adormecer, emquanto que para minha vergonha vejo vinte mil homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte, caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; irem combater para conquistar um quinhão de terra insufficiente para caberem n'elle, e cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se revelam sanguinarios os meus pensamentos, ou então nada. (Afasta-se.)

SCENA V

Uma sala no castello de Elsenor

Entram HORACIO e a RAINHA

A RAINHA

Não lhe quero fallar.

HORACIO

Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão; o seu estado é digno de compaixão.

A RAINHA

O que pretende ella?

HORACIO

Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este mundo se commettem bem más acções, suspira, bate no peito, exaspera-se sem motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. Nada diz, comtudo quem ao ouvil-a não teria vontade de a comprehender. Aquelles que a ouvem procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar o sentido das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um sentido, e provavelmente tem-no, mas de certo bem sinistro.

A RAINHA

É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola e perigosamente os espiritos. Que venha. (Horacio sáe.) (Continuando) Ah! minha alma enferma! Será uma condição do crime, que a menor bagatella pareça sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal é a desconfiança em uma consciencia culpada, que se trahe a si mesma com o receio de se trahir.

HORACIO entra com OPHELIA

OPHELIA

Onde está a bella rainha de Dinamarca?

A RAINHA

Ophelia?

OPHELIA

Como hei de eu conhecer o bem amado Por entre a multidão? Pelo chapéu de conchas enfeitado E pelo seu bordão.

A RAINHA

Infeliz Ophelia! Que significam esses versos?

OPHELIA

Pergunta-mo? Escute então...

Levaram-no bem morto ao cemiterio! O que tu foste e és!... Sob a fronte senil myrto funereo, E fria pedra aos pés!

Ai de mim! (Chora.)

A RAINHA

Ophelia, querida Ophelia?

OPHELIA

Ouça mais, peço-lh'o...

Branca de neve a frigida mortalha...

Entra o REI

A RAINHA

Veja, senhor!

OPHELIA

É como um prado em flor Baixou á campa a fronte e não a orvalha Com lagrimas o amor!!

O REI

Como está bella, Ophelia?

OPHELIA

Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fôra outr'ora filha de um padeiro. Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser. Que Deus abençôe a sua mesa.

O REI

Recorda-se do pae?

OPHELIA

Não fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa, dir-lhes-hei o que é. Respondam.

São Valentim! dizes-me a minha sina? A pé já todos são. Queres que eu seja a tua Valentina? Sou virgem, sim ou não? Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente Do quarto a porta abriu; E virgem ella entrou... mas tão sómente Mulher quando saíu.

O REI

Encantadora Ophelia!

OPHELIA

Em verdade vou terminar sem juramento.

Por Jesus! pela santa caridade! Quem vale á infeliz?! Ai! são todos assim na mocidade, A sorte é quem n'o quiz! Antes da minha quéda prometteste Conduzir-me ao altar: Por Deus o houvera feito... não quizeste. Quem te mandou entrar?

O REI

Ha quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou d'ella?

OPHELIA

Tudo vae bem! É preciso ter paciencia; não posso reter o pranto, pensando que está debaixo da terra fria e humida. Meu irmão ha de sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a minha carruagem. Boa noite, minhas senhoras, boa noite, bellas senhoras, Adeus, boas noites! (Sáe correndo.)

O REI (a Horacio)

Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lh'o eu! (Horacio sáe.) (Continuando) Oh! é aquelle o veneno de uma dor profunda, causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes, quando as dores nos assaltam, nunca é isoladamente, é como se viessem em tropel. Primeiro a morte do pae, depois a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou o proprio exilio; o povo alvoroçado e descontente, commenta malevola e insidiosamente a morte de Polonio, e nós obrámos pouco assisadamente ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente do seu estado, está privada da rasão, sem a qual somos simples estatuas, creaturas brutas. Para cumulo de desgraça esta vale todas as outras, seu irmão voltou secretamente de França, embrenha-se no labyrintho de noticias, e mantem-se occulto. Não deixará por certo de haver bôcas malevolas, que por occasião da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos com insinuações perfidas, e a calumnia, na carencia de outro assumpto, não nos poupará com os seus dardos envenenados e mortiferos. Ah! querida Gertrudes; tudo isto, similhante a um instrumento de morte, vibra-me mais golpes que os necessarios para pôr termo á minha vida. (Ouve-se um grande rumor fóra da sala.)

A RAINHA

Que rumor é esse?

O REI

Olá, venha alguem. (Entra um official do palacio.)

O REI (continuando)

Onde estão os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me já o que ha.

O OFFICIAL

Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade com mais violencia a campina, do que o joven Laerte, á frente da rebellião, derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo chama-lhe soberano, e como se fosse no começo do mundo, sem tradições, nem passado, nem usos, sobre que tudo se firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejâmos um rei! Laerte será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros, todas as mãos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte será rei. Viva o rei Laerte!

A RAINHA

Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se! Dinamarquezes ingratos!

O REI

Entraram á força. (Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito povo dinamarquez.)

LAERTE

Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fóra.

O POVO

Nada! Queremos todos entrar.

LAERTE

Façam o que lhes peço.

O POVO

É justo! é justo! (Sáem.)

LAERTE

Obrigado, senhores; guardem as portas. (Ao rei.) Infame! entrega-me meu pae.

O REI

Socegue, meu caro Laerte.

LAERTE

Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ía bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria na casta fronte de minha adorada mãe um estigma indelevel de infamia.

O REI

O que deu azo, Laerte, a uma rebellião, que assumiu proporções tão colossaes? Está tranquilla, Gertrudes, por nós nada receies; graças ao caracter sagrado que protege os reis, a traição não lança senão um olhar timido e incerto para o resultado que anhelam os seus desejos, e os effeitos estão longe de corresponder á sua esperança. Dize-me, Laerte, o motivo d'esta irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla, Laerte.

LAERTE

Onde está meu pae?

O REI

Morreu.

A RAINHA

Mas o rei está innocente.

O REI

Deixa-me interrogal-o á minha vontade.

LAERTE

Como morreu elle? Não admitto duvidas, dispenso juramentos; leve o demonio a fé jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia e a fidelidade. Affrontarei a condemnação, declaro-o formalmente; renuncio a tudo n'este e no outro mundo, aconteça o que acontecer, comtanto que vingue de um modo bem patente a morte de meu pae.

O REI

E quem t'o impede?

LAERTE

A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto aos meios de que disponho, empregal-os-hei de modo que com recursos limitados tire d'elles o maior proveito.

O REI

Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade toda a respeito da morte de teu estremecido pae. Mas estás tu resolvido a confundir amigos e inimigos, aquelles que perderam e aquelles que ganharam com a sua morte?

LAERTE

Unicamente os inimigos quero punir.

O REI

E queres conhecel-os?

LAERTE

Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço; e similhante ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue alimentar os filhos, estou prompto a por elles dar o meu sangue todo.

O REI

Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado. Sou innocente na morte de teu pae, e deploro-a amargamente; demonstral-o-hei á tua rasão com provas tão claras como a luz do dia.

O POVO (de fóra)

Deixem-a entrar.

LAERTE