Fábulas—folhas cahidas

Part 5

Chapter 53,659 wordsPublic domain

Macia--deve a relva luzidia Do leito--ser porcerto em que me deito. Mas quem, ao pé de ti, quem poderia Sentir outras carícias, Tocar n’outras delicias Senão em ti--em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos Todos n’um confundidos, Sentem, ouvem, respiram; Em ti, por ti deliram. Em ti a minha sorte, A minha vida em ti; E quando venha a morte, Será morrer por ti.

XVII.

ROSA E LIRIO.

A rosa É formosa; Bem sei. Porque lhe chamam--flor D’amor, Não sei.

A flor, Bem de amor É o lirio; Tem mel no aroma,--dor Na côr O lirio.

Se o cheiro É fagueiro Na rosa, Se é de belleza... mor Primor A rosa,

No lirio O martyrio Que é meu Pintado vejo:--côr E ardor É o meu.

A rosa É formosa, Bem sei... E será de outros flor D’amor... Não sei.

XVIII.

COQUETTE DOS PRADOS.

Coquette dos prados, A rosa é uma flor Que inspira e não sente O incanto d’amor.

De purpura a vestem Os raios do sol; Suspiram por ella Ais do rouxinol:

E as galas que traja Não as agradece, E o amor que accende Não o reconhece.

Coquette dos prados Rosa, linda flor, Porquê, se o não sentes, Inspiras amor?

XIX.

CASCAES

Acabava alli a terra Nos derradeiros rochedos, A deserta arida serra Por entre os negros penedos Só deixa viver mesquinho Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados Sopravam rijos na rama, E os ceos turvos, annuviados, O mar que incessante brama... Tudo alli era braveza De selvagem natureza.

Ahi, na quebra do monte, Entre uns juncos mal-medrados, Sêcco o rio, sêcca a fonte, Hervas e matos queimados, Ahi n’essa bruta serra, Ahi foi um ceo na terra.

Alli sós no mundo, sós, Sancto Deus! como vivemos! Como eramos tudo nós E de nada mais soubemos! Como nos folgava a vida De tudo o mais esquecida!

Que longos bejos sem fim, Que fallar dos olhos mudo! Como ella vivia em mim, Como eu tinha n’ella tudo, Minha alma em sua razão Meu sangue em seu coração!

Os anjos aquelles dias Contaram na eternidade: Que essas horas fugidias, Seculos na intensidade, Por millenios marca Deus Quando as dá aos que são seus.

Ai! sim foi a tragos largos, Longos, fundos que a bebi Do prazer a taça:--amargos Depois... depois os senti Os travos que ella deixou... Mas como eu ninguem gosou.

Ninguem: que é preciso amar Como eu amei--ser amado Como eu fui; dar, e tomar Do outro ser a quem se ha dado, Toda a razão, toda a vida Que em nós se annulla perdida.

Ai, ai! que pesados annos Tardios depois vieram! Oh, que fataes desinganos, Ramo a ramo, a desfizeram A minha choça na serra, Lá onde se acaba a terra!

Se o visse... não quero vê-lo Aquelle sítio incantado; Certo estou não conhecê-lo, Tam outro estará mudado, Mudado como eu, como ella, Que a vejo sem conhecê-la!

Inda alli acaba a terra, Mas ja o ceo não começa: Que aquella visão da serra Sumiu-se na treva espessa, E deixou nua a bruteza D’essa agreste natureza.

XX.

ESTES SITIOS!

Olha bem estes sitios queridos, Vê-os bem n’este olhar derradeiro... Ai! o negro dos montes erguidos, Ai! o verde do triste pinheiro! Que saudades que d’elles teremos... Que saudade! ai, amor, que saudade! Pois não sentes, n’este ar que bebêmos, No acre cheiro da agreste ramagem, Estar-se alma a tragar liberdade E a crescer de innocencia e vigor! Oh! aqui, aqui só se ingrinalda Da pureza da rosa selvagem, E contente aqui só vive Amor. O ar queimado das salas lhe escalda De suas azas o niveo candor, E na frente arrugada lhe cresta A innocencia infantil do pudor. E oh! deixar taes delicias como ésta! E trocar este ceo de ventura Pelo inferno da escrava cidade! Vender alma e razão á impostura, Ir saudar a mentira em sua côrte, Ajoelhar em seu throno á vaidade, Ter de rir nas angústias da morte, Chamar vida ao terror da verdade... Ai! não, não... nossa vida acabou, Nossa vida aqui toda ficou. Diz-lhe a adeus n’este olhar derradeiro, Dize á sombra dos montes erguidos, Dize-o ao verde do triste pinheiro, Dize-o a todos os sitios queridos D’esta ruda, feroz soledade, Paraizo onde livres vivemos... Oh! saudades que d’elle teremos, Que saudade! ai, amor, que saudade!

XXI.

NÃO TE AMO.

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma. E eu n’alma--tenho a calma, A calma--do jazigo. Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida. E a vida--nem sentida A trago eu ja commigo. Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração.

Não te amo. Es bella; e eu não te amo, ó bella. Quem ama a aziaga estrêlla Que lhe luz na má hora Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau feitiço azado Este indigno furor. Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror... Mas amar!... não te amo, não.

XXII.

NÃO ES TU.

Era assim, tinha esse olhar, A mesma graça, o mesmo ar, Corava da mesma côr, Aquella visão que eu vi Quando eu sonhava de amor, Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo, O semblante pensativo, E uma suave tristeza Que por toda ella descia Como um veo que lhe involvia, Que lhe adoçava a belleza.

Era assim; o seu fallar, Ingenuo e quasi vulgar, Tinha o podêr da razão Que penetra, não seduz: Não era fogo, era luz Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume, No seio o mesmo perfume, Um cheiro a rosas celestes, Rosas brancas, puras, finas, Viçosas como boninas, Singelas sem ser agrestes.

Mas não es tu... ai! não es: Toda a illusão se desfez. Não es aquella que eu vi, Não es a mesma visão, Que essa tinha coração, Tinha, que eu bem lh’o senti.

XXIII

BELLEZA.

Vem do amor a Belleza, Como a luz vem da chamma. É lei da natureza: Queres ser bella?--ama. Fórmas de incantar, Na tella o pincel As póde pintar; No bronze o buril As sabe gravar; E estátua gentil Fazer o cinzel Da pedra mais dura... Mas Belleza é isso?--Não; só formosura.

Surrindo entre dores Ao filho que adora Inda antes de o ver, --Qual surri a aurora Chorando nas flores Que estão por nascer-- A mãe é a mais bella das obras de Deus, Se ella ama!--O mais puro do fogo dos ceus Lhe ateia essa chamma de luz crystallina:

É a luz divina Que nunca mudou, É luz... é a Belleza Em toda a pureza Que Deus a creou.

XXIV.

ANJO ES.

Anjo es tu, que esse podêr Jamais o teve mulher, Jamais o hade ter em mim. Anjo es, que me domina Teu ser o meu ser sem fim; Minha razão insolente Ao teu capricho se inclina, E minha alma forte, ardente, Que nenhum jugo respeita, Covardemente sujeita Anda humilde a teu podêr. Anjo es tu, não es mulher.

Anjo es. Mas que anjo es tu? Em tua frente annuviada Não vejo a c’roa nevada Das alvas rosas do ceo. Em teu seio ardente e nu Não vejo ondear o veo Com que o soffrego pudor Vela os mysterios d’amor. Teus olhos têem negra a côr, Côr de noite sem estrêlla; A chamma é vivaz e é bella, Mas luz não tem.--Que anjo es tu? Em nome de quem vieste? Paz ou guerra me trouxeste De Jehovah ou Belsebú?

Não respondes--e em teus braços Com phreneticos abraços Me tens apertado, estreito!... Isto que me cai no peito Que foi?... Lagryma?--Escaldou-me... Queima, abraza, ulcéra... Dou-me, Dou-me a ti, anjo malditto, Que este ardor que me devora É ja fogo de precito, Fogo eterno, que em má hora Trouxeste de lá... De donde? Em que mysterios se esconde Teu fatal, estranho ser! Anjo es tu ou es mulher?

XXV.

VIBORA.

Como a vibora gerado, No coração se formou Este amor amaldiçoado Que á nascença o espedaçou.

Para elle nascer morri; E em meu cadaver nutrido, Foi a vida que eu perdi A vida que tem vivido.

FOLHAS CAHIDAS.

LIVRO SEGUNDO.

I.

BARCA BELLA.

Pescador da barca bella, Onde vas pescar com ella, Que é tam bella, Oh pescador?

Não ves que a última estrêlla No ceo nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador!

Deita o lanço com cautella, Que a sereia canta bella... Mas cautella, Oh pescador!

Não se inrede a rede n’ella, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Oh pescador.

Pescador da barca bella, Inda é tempo, foge d’ella, Foge d’ella Oh pescador!

II.

A COROA.

Bem sei que é toda de flores Essa coroa d’amores Que na frente vais cingir. Mas é coroa--é reinado; E a pôsto mais arriscado Não se póde hoje subir.

N’esses reinos populosos Os vassallos revoltosos Tarde ou cedo dão a lei. Quem hade conter, domá-los, Se são tantos os vassallos E um só o pobre do rei?

Não vejo, rainha bella, Para fugir essa estrella Que os reis persegue sem dó, Mais que um meio--fallo serio: É pôr limites ao imperio E ter um vassallo só.

III.

SINA.

Por todas quantas estrêllas Tem o ceo que possam mais, Pelas flores virginaes De que se c’roam donzellas, Pelas lagrymas singellas Que o primeiro amor derrama, Por aquella etherea chamma Que a mão de Deus accendeu E que na terra allumia Quanto ha na terra do ceu! Por tudo quanto eu queria Quando eu sabia querer, E por tudo quanto eu cria Quando me era dado crer! Bem fadada seja a vida Que por éstas folhas brancas[11] Sua historia hade escrever! Que as dores lhe venham mancas E com azas o prazer!

Ésta sina que lhe dou, Bruxa não n’a adivinhou, Nem duende m’a insinou: Li-a eu por meu condão Em seus olhos innocentes, Transparentes--transparentes Até dentro ao coração.

NOTAS DE RODAPÉ:

[11] As folhas do album em que se escreveram estes versos.

IV.

AI HELENA!

Ai Helena! de amante e de espôso Ja o nome te faz suspirar, Ja tua alma singela presente Esse fogo de amor delicioso Que primeiro nos faz palpitar!... Oh! não vas, donzellinha innocente, Não te vas a esse ingano intregar: É amor que te illude e te mente, É amor que te hade mattar! Quando o sol n’estes montes desertos Deixa a luz derradeira apagar, Com as trevas da noite que espanta Véem os anjos do inferno incubertos A sua victima incauta affagar. Doce é a voz que adormece e quebranta, Mas a mão do traidor... faz gelar. Treme, foge do amor que te incanta, É amor que te hade mattar.

V.

THE ROSE--A SIGH.[12]

If this delicious, grateful flower, Which blows but for a little hour, Should to the sight so lovely be, As from it’s fragrance seems to me, A sigh must then it’s colour show, For that is the softest joy I know. And sure the rose is like a sigh, Borne just to soothe and then--to die.

NOTAS DE RODAPÉ:

[12] By a young lady born blind.

V.

A ROSA--UM SUSPIRO[13]

Se ésta flor tam bella e pura, Que apenas uma hora dura, Tem pintado no matiz O que o seu perfume diz, Porcerto na linda côr Mostra um suspiro d’amor: Dos que eu chego a conhecer É este o maior prazer. E a rosa como um suspiro Hade ser; bem se discorre: Tem na vida o mesmo gyro, É um gôsto que nasce e--morre.

NOTAS DE RODAPÉ:

[13] Por uma menina cega de nascença.

VI.

RETRATTO.

(N’UM ALBUM)

Ah! despreza o meu retratto Que lhe eu queria aqui pôr! Tem medo que lhe desfeie O seu livro de primor? Pois saiba que por despique Eu sei tambem ser pintor: Co’esta penna por pincel, E a tinta do meu tinteiro, Vou fazer o seu retratto Aqui ja de corpo inteiro.

Vamos a isto.--Sentada Na cadeira ‘moyen-âge,’ O cabello en ‘chatellaines,’ As mangas sôltas.--É o traje.

Em longas pregas negras Caia o velludo e arraste; De si com desdem regio Com o pésinho o affaste...

N’essa attitude! Está bem: Agora mais um geitinho; A airosa cabeça a um lado E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes, Nem Daguerre lh’os tira melhor. Este é o ar, ésta a ‘pose,’ eu lh’o juro, E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difficil: Tirar feição por feição; Intendê-las, que é o ponto, E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são côr da noite, Da noite em seu começar, Quando inda é joven, incerta, E o dia vem de acabar;

Têem uma luz que vai longe, Que faz gôsto de queimar: É uma especie de lume Que serve só de abrazar.

Na bôcca há um surriso amavel. Amavel é... mas queria Saber se é todo bondade Ou se meio é zombaria.

Ninguem m’o diz? O retratto Incompleto ficará, Que n’estas duas feições Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho É tudo o que n’elle fiz; E o que lhe falta--que é muito, Tambem o espelho o não diz.

VII.

LUCINDA.

Ergue a frente, lirio, Ergue a branca frente! O astro do delirio Ja surgiu no oriente.

Ves, o sol ardente Lá cahiu no mar; A frente pendente Ergue a respirar!

Alvo é o luar, Teu alvor não cresta; A hora de gosar, De viver é ésta.

Longa foi a sésta Longo o teu dormir; Ergue a branca testa, Tempo é de surgir!

Ja se abre a surrir Tua bôcca linda... Despertar, sentir Ou sonhar é ainda?

Sonho que não finda Será o teu sonhar, Se a dormir, Lucinda, Te sentes amar.

VIII.

AS DUAS ROSAS.

Sôbre se era mais formosa A vermelha ou branca rosa, Ardeu seculos a guerra Em Inglaterra.

Paz entre as duas, jamais! Reinar ambas as rivais, Tambem não; e uma ceder Como hade ser?

Faltei eu lá na Inglaterra Para acabar com a guerra. Ei-las aqui bem eguaes, Mas não rivaes.

Atei-as em laço estreito: Que artista fui, com que geito! E oh! que lindas são, que amores As minhas flores!

Dirão que é cópia;--bem sei: Que todo inteiro o roubei Meu pensamento brilhante Do teu semblante...

Será. Mas se é tam bello Que lhe deem esse modello, Do meu quadro, na verdade, Tenho vaidade.

IX.

VOZ E AROMA.

A brisa vaga no prado, Perfume nem voz não tem; Quem canta é o ramo agitado, O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores Que uma a uma eu vi murchar, Restituam-me os verdores Aos ramos que eu vi seccar...

E em torrentes de harmonia Minha alma se exhalará, Ésta alma que muda e fria Nem sabe se existe ja.

X.

SEUS OLHOS.

Seus olhos--se eu sei pintar O que os meus olhos cegou-- Não tinham luz de brilhar, Era chamma de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como o facho do Destino.

Divino, eterno!--e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tam fatal podêr, Que, um só momento que a vi, Queimar toda alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi.

XI.

A DÉLIA.

Cuidas tu que a rosa chora, Que é tammanha a sua dor, Quando, ja passada a aurora, O sol, ardente de amor, Com seus bejos a devora? --Feche virgineo pudor O que inda é botão agora E ámanhan hade ser flor; Mas ella é rosa n’esta hora. Rosa no aroma e na côr. --Para ámanhan o prazer Deixe o que ámanhan viver. Hoje, Délia, é nossa a vida; Ámanhan... o que hade ser? A hora de amor perdida Quem sabe se hade volver? Não desperdices, querida, A duvidar e a soffrer O que é mal gasto da vida Quando o não gasta o prazer.

XII.

A JOVEN AMERICANA.

Donde é que te eu vi, donzella, E o que eras tu n’esta vida Quando não tinhas vestida A fórma de virgem bella Que ora te vejo trajar?

Estrêlla foste no ceo, Serias no prado flor? Ou, no diaphano splendor De que Iris faz o seu veo, Estavas, Silpha, a bordar?

Não houve poeta ainda Que te não visse e cantasse, Mulher que não te invejasse, Nem pintor que a face linda Te não fôsse copiar.

Seculos tens.--E ah!... ja sei Quem es, quem foste e hasde ser: Bem te eu estava a conhecer Quando primeiro te olhei Sem te podêr estranhar.

Com Deus e co’a Liberdade De nossas terras fugiste Quando perdidos nos viste, E te foste á soledade Do novo-mundo acoitar.

Pois que ora piedosa vens E nos sentes resurgir, Oh! não tornes a fugir, Que melhor patria não tens Nem que mais te saiba amar.

Teu natal celebraremos Hoje e sempre: teus amigos Somos na lealdade antigos, E no ardor novos seremos, No desvéllo em te adorar:

Porque tu es o Ideal Da só belleza--do Bem; Não es estranha a ninguem, E de ti só foge o mal Que te não póde incarar.

XIII.

ADEUS, MÃE!

--‘Adeus, mãe! adeus, querida, Que eu ja não posso co’a vida, E os anjos chamam por mim. Adeus, mãe, adeus!... Assim, Juncta os teus labios aos meus, E recebe o último adeus

N’este suspiro... Não chores, Não chores: aquellas dores Ja sinto accalmar em mim. Adeus, mãe, adeus!... Assim, Juncta os teus labios aos meus... Um bejo--um último... Adeus!’

E o corpo desanimado No collo da mãe cahia; E ella o corpo... só pesado, Só mais pesado o sentia! Não se lamenta, não chora, E quasi a surrir, dizia: --‘Que tem este filho agora, Que tanto pésa? Não posso...’ E uma a uma, osso por osso, Com a mão trémula tenta As mãosinhas descarnadas, As faces cavas, myrradas, A testa inda morna e lenta. --‘Que febre, que febre!’ diz; E em tudo pensa a infeliz, Tudo que ha mau lhe occorreu, Tudo--menos que morreu. Como nos gelos do norte O somno traidor da morte Ingana o desfallecido Que imagina adormecer, Assim cançado, esvahido De tam longo padecer, Ja não ha no coração Da mãe fôrça de sentir; Não tem ja lume a razão Senão só para a illudir.

Acorda, ó mãe desgraçada, Que é tempo de despertar! Anda ver a eça armada, As luzes que ardem no altar. Ouves? É a rouca toada Dos padres a psalmear?... Vamos, que a hora é chegada, É tempo de o amortalhar.

E os anjos cantavam: ‘Alleluia!’ E os sanctos clamavam: ‘Hosanna!’

Ao triste cantar da terra Responde o cantar do ceu; Todos lhe bradam:--‘morreu!’ E a todos o ouvido cerra.

E os sinos a tocar, E os padres a rezar, E ella ainda a accalentar Nos braços o filho morto, Que ja não tem mais confôrto, Mais socêgo n’este mundo Que o jazigo humido e fundo Onde hade ir a sepultar.

Levae, ó anjos de Deus, Levae essa dor aos ceus. Com a alma do innocente Aos pés do Juiz Clemente Ahi fique a sancta dor Rogando á Eterna Bondade Que extenda a immensa piedade A quantos peccam d’amor.

XIV.

AVE, MARIA!

Maria, doce mãe dos desvalidos, A ti clamo, a ti brado! A ti sobem, senhora, os meus gemidos, A ti o hymno sagrado Do coração de um pae voa, ó Maria, Pela filha innocente. Com sua debil voz que balbucia, Piedosa mãe clemente, Ella ja sabe, erguendo as mãos tenrinhas, Pedir ao Pae dos ceos O pão de cada dia. As preces minhas Como irão ao meu Deus, Ao meu Deus que é teu filho e tens nos braços, Se tu, mãe de piedade, Me não tomas por teu? Oh! rompe os laços Da velha humanidade; Despe de mim todo outro pensamento E van tenção da terra; Outra glória, outro amor, outro contento De minha alma desterra. Mãe, oh! mãe, salva o filho que te implora Pela filha querida. Demais tenho vivido, e só agora Sei o preço da vida, D’esta vida, tam mal gasta e prezada Porque minha só era... Salva-a, que a um sancto amor está votada, N’elle se regenera.

XV.

OS EXILADOS.

Á SENHORA ROSSI-CACCIA.[14]

Elles tristes, das praias do destêrro, Os olhos longos e arrazados de agua Estendem para aqui... Cravado o ferro Da saudade têem n’alma; e é negra mágua A que lhes ralla os corações afflictos, É a maior da vida--são proscrittos. Dor como outra não ha, é a dor que os matta! Dizer eu: ‘Essa terra é minha... minha, Que nasci n’ella, que a servi, a ingrata! Que lhe dei... dei por ella quanto tinha, Sangue, vida, saude, os bens da sorte... E ella, por galardão, me intrega á morte!’

Morte lenta e cruel--a de Ugolino![15] Bem lhes quizeram dar... Mas não será assim: sôpro divino De bondade e nobreza Não o póde apagar Nos corações da gente portugueza Esse rancor de fera Que em almas negras, negro e vil impera.

Tu, genio da Harmonia, Tu sólta a voz em que triumpha a glória, Com que suspira amor! Bella d’enthusiasmo e de fervor, Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia: A tua voz divina Hoje um echo immortal deixa na historia.

Inda no mar d’Egina Soa o hymno d’Alceu; E atravessaram seculos Os cantos de Tyrtheu. Mais poderosa e válida A tua voz será; A tua voz etherea, Tua voz não morrerá.

Nós no templo da patria pendurâmos Ésta c’roa singela Que de myrtho e de rosas intrançâmos Para essa fronte bella: Aqui, de voto, ficará pendente, E um culto de saudade Aqui, perennemente, Lhe daremos no altar da Liberdade.

NOTAS DE RODAPÉ:

[14] Cantando em um baile de subscripção que se deu em Lisboa em 29 de Março de 1845 a favor dos que n’esse anno estavam emigrados por fugir ás perseguições do Govêrno.

[15] Foi morto á fome com os filhos.

XVI.

PREITO.

É lei do tempo, Senhora, Que ninguem domine agora E todos queiram reinar. Quanto vale n’esta hora Um vassallo bem sujeito, Leal de homenage e preito E facil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora: E aqui juro e firmo agora Que a um despotico reinar Me rendo todo n’esta hora, Que a liberdade sujeito... Não a reis!--outro é meu preito: Anjos me hãode governar.

XVII.

NO LUMIAR.