Part 4
Os cantos que formam ésta pequena collecção pertencem todos a uma epocha de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras collecções.
Essas mais ou menos mostram o poeta que canta deante do público. Das FOLHAS CAHIDAS ninguem tal dirá, ou bem pouco intende de stylos e modos de cantar.
Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gósto mais d’elles do que de nenhuns outros que fizesse. Porque? É impossivel dizê-lo, mas é verdade. E como nada são por elle nem para elle, é provavel que o público sinta bem diversamente do auctor. Que importa?
Apezar de sempre se dizer e escrever ha cem mil annos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que póde ter um escriptor, é elle proprio, quando o não cega o amor proprio. E eu sei que tenho os olhos abertos, aomenos agora.
Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.
Emfim, eu não queimo estes. Consagrei-os _ignoto deo_. E o deus que os inspirou que os anniquille se quizer: não me julgo com direito de o fazer eu.
Ainda assim, no _ignoto deo_ não imaginem alguma divindade meia-velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia paraque todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquelle mysterioso, occulto e não-definido sentimento d’alma que a leva ás aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.
Imaginação que porventura se não realisa nunca. E d’ahi quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta demais. Saude, riqueza, miseria, pobreza, e ainda coisas mais materiaes, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, approximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a elle.
Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossivel. Não sei. Essa é uma disputação mais longa.
Mas sei que as presentes FOLHAS CAHIDAS representam o estado d’alma do poeta nas variadas, incertas e vacillantes oscillações do espirito que, tendendo ao seu fim unico, a posse do IDEAL, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a elle--ora ri amargamente porque reconhece o seu ingano--ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade van.
Deixae-o passar, gente do mundo, devotos do podêr, da riqueza, do mando, ou da glória. Elle não intende bem d’isso, e vós não intendeis nada d’elle.
Deixae-o passar, porque elle vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis d’elle, que o callunieis, que o assacineis. Vai, porque é espirito, e vós sois materia.
E vós morrereis, elle não. Ou só morrerá d’elle aquillo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta que é a mesma de Adam, tambem será punida com a morte.
Mas não triumpheis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quasi nada no poeta.
Janeiro--1853.
NOTAS DE RODAPÉ:
[10] Do auctor na primeira edição.
FOLHAS CAHIDAS.
LIVRO PRIMEIRO.
I.
IGNOTO DEO
D. D. D.
Creio em ti, Deus: a fe viva De minha alma a ti se eleva. Es:--o que es não sei. Deriva Meu ser do teu: luz... e treva, Em que--indistinctas!--se involve Este espirito agitado, De ti vem, a ti devolve. O Nada, a que foi roubado Pelo sôpro creador Tudo o mais, o hade tragar. Só vive de eterno ardor O que está sempre a aspirar Ao infinito d’onde veio. Belleza es tu, luz es tu, Verdade es tu só. Não creio Senão em ti; o ôlho nu Do homem não ve na terra Mais que a dúvida a incerteza, A fórma que ingana e erra. Essencia! a real belleza, O puro amor--o prazer Que não fatiga e não gasta... Só por ti os póde ver O que inspirado se affasta, Ignoto Deus, das ronceiras, Vulgares turbas: despidos Das coisas vans e grosseiras Sua alma, razão, sentidos, A ti se dão, em ti vida, E por ti vida teem. Eu, consagrado A teu altar, me prostro e a combatida Existencia aqui ponho, aqui votado Fica este livro--confissão sincera Da alma que a ti voou e em ti só spera.
II.
ADEUS!
Adeus! para sempre adeus! Vai-te, oh! vai-te, que n’esta hora Sinto a justiça dos ceus Esmagar-me a alma que chora. Chóro porque não te amei, Chóro o amor que me tiveste; O que eu perco, bem n’o sei, Mas tu... tu nada perdeste: Que este mau coração meu Nos secretos escaninhos Tem venenos tam damninhos Que o seu podêr só sei eu.
Oh! vai... para sempre adeus! Vai, que ha justiça nos ceus. Sinto gerar na peçonha Do ulcerado coração Essa vibora medonha Que por seu fatal condão Hade rasgá-lo ao nascer: Hade sim, serás vingada, E o meu castigo hade ser Ciume de ver-te amada, Remorso de te perder.
Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, Que sou eu capaz agora De te amar.--Ai! se eu te amasse! Vê se no arido pragal D’este peito se ateasse De amor o incendio fatal! Mais negro e feio no inferno Não chammeja o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso?--Ai, triste! Não sabes o que pediste. Não te bastou supportar O cepo-rei; impaciente Tu ousas a deus tentar Pedindo-lhe o rei-serpente!
E cuidas amar-me ainda? Inganas-te: é morta, é finda, Dissipada é a illusão. Do meigo azul de teus olhos Tanta lagryma verteste, Tanto esse orvalho celeste Derramado o viste em vão N’esta seara de abrolhos, Que a fonte seccou. Agora Amarás... sim hasde amar, Amar deves... Muito embora... Oh! mas n’outro hasde sonhar Os sonhos de oiro incantados Que o mundo chamou amores.
E eu réprobo... eu se o verei? Se em meus olhos incovados Der a luz de teus ardores... Se com ella cegarei? Se o nada d’essas mentiras Me entrar pelo vão da vida... Se, ao ver que feliz deliras, Tambem eu sonhar... Perdida, Perdida serás--perdida.
Oh! vai-te, vai, longe, embora! Que te lembre sempre e agora Que não te amei nunca... ai! não; E que pude a sangue frio, Covarde, infame, villão, Gosar-te--mentir sem brio, Sem alma, sem dó, sem pejo, Commettendo em cada bejo Um crime... Ai! triste, não chores, Não chores, anjo do ceu, Que o deshonrado sou eu.
Perdoar-me tu?... Não mereço. A immundo cerdo voraz Essas perolas de preço Não as deites: é capaz De as desprezar na torpeza De sua bruta natureza. Irada, te hade admirar, Despeitosa, respeitar, Mas indulgente... Oh! o perdão É perdido no villão, Que de ti hade zombar.
Vai, vai... para sempre adeus! Para sempre aos olhos meus Sumido seja o clarão De tua divina estrêlla. Faltam-me olhos e razão Para a ver, para intendê-la: Alta está no firmamento Demais, e demais é bella Para o baixo pensamento Com que em má hora a fitei; Falso e vil o incantamento Com que a luz lhe fascinei. Que volte a sua belleza Do azul do ceu á pureza, E que a mim me deixe aqui Nas trevas em que nasci, Trevas negras, densas, feias, Como é negro este aleijão D’onde me vem sangue ás veias, Este que foi coração, Este que amar-te não sabe Porque é só terra--e não cabe N’elle uma idea dos ceus... Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!
III.
QUANDO EU SONHAVA.
Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar. Agora que estou desperto, Agora a vejo fixar... Paraquê?--Quando era vaga, Uma idea, um pensamento, Um raio de estrêlla incerto No immenso firmamento, Uma chymera, um vão sonho, Eu sonhava--mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas dor, não n’a conhecia... .............................
IV.
AQUELLA NOITE!
Era a noite da loucura, Da seducção, do prazer, Que em sua mantilha escura Costuma tanta ventura, Tantas glórias esconder. Os felizes... e ai! são tantos!... --Eu por tantos os contava! Eu que o signal de meus prantos Do afflicto rosto lavava-- Os felizes presumpçosos Iam nos coches ruidosos Correndo aos salões doirados De mil fogos alumiados, D’onde em torrentes sahia A clamorosa harmonia Que á festa, ao prazer tangia.
Eu sentia esse ruido Como o confuso bramar De um mar ao longe movido Que á praia vem rebentar: E disse commigo:--‘Vamos, Os luctos d’alma dispamos, Á festa heide ir tambem eu!’
E fui: e a noite era bella. Mas não vi a minha estrêlla Que eu sempre via no ceu: Cubriu-a de espesso véo Alguma nuvem a ella, Ou era que ja vendado Me levava o negro fado Onde a vida me perdeu?
Fui; meu rosto macerado, A funda melancholia Que todo o meu ser revia, Qual o atahude levado A egypcio festim, dizia: --‘Como vós fui eu tambem; Folgae, que a morte ahi vem!’ Dizia-o, sim, meu semblante, Que, onde eu chegava, o prazer Cessava no mesmo instante; E o labio, que ia a dizer Doçuras de amor, gelava; E o riso, que ia a nascer Na face linda, expirava. Era eu--e a morte em mim, Que só ella espanta assim!
Quantas mulheres tam bellas Ebrias de amor e desejos, Quantas vi saltar-lhe os bejos Da bôcca ardente e lasciva! E eu, que ia chegar-me a ellas... Para logo a fronte esquiva De recatos se involvia E, toda pudor, tremia.
Quantas o seio anhelante, Nu, ardente e palpitante Andavam como intregando Á cubiça mal-desperta, Gasta ja e desdenhosa, Dos que as estavam mirando Com vaga luneta incerta Que diz:--‘Aquella é formosa, Não se me dava de a ter. E esta? É só baroneza, Vale menos que a duqueza: Não sei a qual attender.’
E a isto chamam prazer! A grande ventura é ésta? Vale a pena vir á festa E vale a pena viver. Como então quiz á tristura Do meu viver isolado! Fique-se embora a ventura, Que eu quero ser desgraçado.
Levantei alto a cabeça. Senti-me crescer--e a frente Desanuviar-se contente Do feio negrume espesso Que assustava aquella gente. Logo os surrisos cabiam Para o meu lado tambem: Ja como um dos seus me viam, Que em mim não viam ninguem. Eu, de olhos desincantados, A ellas, como as eu via! Meus enthusiasmos passados. Oh! como eu d’elles me ria!
Frio o sarcasmo sahia De meus labios descorados, E sem dó e sem pudor A todas fallei de amor... Do amor bruto, degradante Que no seio palpitante, Na espadua nua se accende... Amor lascivo que offende, Que faz corar... Ellas riam E oh que não, não se offendiam!
Mas a orchestra bradou alta: --‘Festa, festa! e salta, salta!’ Os seus guizos delirantes Sacode louca a Folia... Adeus, requebros de amantes! Suspiros, quem n’os ouvia? As palavras meias dittas, Meias nos olhos escrittas, Voavam todas perdidas Dispersas, rotas no ar; Que se foram almas, vidas, Tudo se foi a walsar.
Quem é ésta que mais voltas Gyra, gyra sem cessar? Como as roupas leves, sôltas, Aerias leva a ondular Emtôrno á fórma graciosa, Tam flexivel, tam airosa, Tam fina!--Agora parou, E tranquilla se assentou. Que rosto! Em linhas severas Se lhe desenha o profil; E a cabeça, tam gentil, Como se fôra devéras A rainha d’essa gente, Como a levanta insolente! Vive Deus! que é ella... aquella, A que eu vi na tal janella, E que triste me surria Quando passando me via Tam pasmado a olhar para ella. A mesma melancholia Nos olhos tristes--de luz Oblíqua, viva mas fria; A mesma alta intelligencia Que da face lhe transluz; E a mesma altiva impaciencia Que de tudo, tudo cança, De tudo o que foi, que é, E na erma vida só vê O raio da vaga espr’ança.
--‘Pois isto sim que é mulher’ Disse eu--‘e aqui ha que ver.’
Ja vinha a pallida aurora Annunciando a manhan fria, E eu fallava e eu ouvia O que até áquella hora Nunca disse, nunca ouvi...
Toda a memoria perdi Das palavras proferidas... Não eram d’estas sabidas, Nem quaes eram não n’o sei... Sei que a vida era outra em mim, Que era outro ser o meu ser, Que uma alma nova me achei Que eu bem sabia não ter.
E d’ahi?--D’ahi, a historia Não deixou outra memoria D’essa noite de loucura, De seducção, de prazer... Que os segredos da ventura Não são para se dizer.
V.
O ANJO CAHIDO.
Era um anjo de Deus Que se perdêra dos ceus E terra a terra voava. A setta que lhe acertava Partira de arco traidor, Porque as pennas que levava Não eram pennas de amor.
O anjo cahiu ferido, E se viu aos pés rendido Do tyranno caçador. De aza morta e sem splendor O triste, peregrinando Por estes valles de dor, Andou gemendo e chorando.
Vi-o eu, o anjo dos ceus, O abandonado de Deus. Vi-o, n’essa tropelia Que o mundo chama alegria. Vi-o a taça do prazer Pôr ao labio que tremia... E só lagrymas beber.
Ninguem mais na terra o via, Era eu só que o conhecia... Eu que ja não posso amar! Quem n’o havia de salvar? Eu, que n’uma sepultura Me fôra vivo interrar? Loucura! ai, cega loucura! Mas entre os anjos dos ceus Faltava um anjo ao seu Deus; E remi-lo e resgatá-lo, D’aquella infamia salvá-lo Só fôrça de amor podia. Quem d’esse amor hade amá-lo, Se ninguem o conhecia?
Eu só.--E eu morto, eu descrido, Eu tive o arrôjo atrevido De amar um anjo sem luz. Cravei-a eu n’essa cruz Minha alma que renascia, Que toda em sua alma puz. E o meu ser se dividia,
Porque elle outra alma não tinha, Outra alma senão a minha... Tarde, ai! tarde o conheci, Porque eu o meu ser perdi, E elle á vida não volveu... Mas da morte que eu morri Tambem o infeliz morreu.
VI.
O ALBUM.
Minha Julia, um conselho de amigo; Deixa em branco este livro gentil: Uma só das memorias da vida Vale a pena guardar, entre mil.
E essa n’alma em silencio gravada Pelas mãos do mysterio hade ser; Que não tem lingua humana palavras, Não tem lettra que a possa escrever. Por mais bello e variado que seja De uma vida o tecido matiz, Um só fio da tella bordada, Um só fio hade ser o feliz.
Tudo o mais é illusão, é mentira, Brilho falso que um tempo seduz, Que se apaga, que morre, que é nada Quando o sol verdadeiro reluz.
De que serve guardar monumentos Dos inganos que a espr’ança forjou? Vãos reflexos de um sol que tardava Ou vans sombras de um sol que passou!
Crê-me, Julia: mil vezes na vida Eu co’a minha ventura sonhei; E uma só, d’entre tantas, o juro, Uma só com verdade a incontrei.
Essa entrou-me pela alma tam firme, Tam segura por dentro a fechou, Que o passado fugiu da memoria, Do porvir nem desejo ficou. Toma pois, Julia bella, o conselho; Deixa em branco este livro gentil, Que as memorias da vida são nada, E uma só se conserva entre mil.
VII.
SAUDADES
Leva este ramo, Pepita, De saudades portuguezas; É flor nossa, e tam bonita Não n’a ha n’outras devezas.
Seu perfume não seduz, Não tem variado matiz, Vive á sombra, foge á luz, As glórias d’amor não diz; Mas na modesta belleza De sua melancholia É tam suave a tristeza, Inspira tal sympathia!..
E tem um dote ésta flor Que de outra egual se não diz: Não perde viço ou frescor Quando a tiram da raiz.
Antes mais e mais floresce Com tudo o que as outras matta; Até ás vezes mais cresce Na terra que é mais ingrata.
Só tem um cruel senão, Que te não devo esconder: Plantada no coração, Toda outra flor faz morrer.
E, se o quebra e despedaça Com as raizes mofinas, Mais ella tem brilho e graça, É como a flor das ruinas. Não, Pepita, não t’a dou... Fiz mal em dar-te essa flor, Que eu sei o que me custou Trattá-la com tanto amor.
VIII.
ESTE INFERNO DE AMAR.
Este inferno de amar--como eu amo! Quem m’o pôs aqui n’alma... quem foi? Ésta chamma que alenta e consome, Que é a vida--e que a vida destroi-- Como é que se veio a atear, Quando--ai quando se hade ella apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que d’antes vivi Era um sonho talvez...--foi um sonho-- Em que paz tam serena a dormi! Oh! que doce era aquelle sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos gyravam, Em seus olhos ardentes os puz. Que fez ella? eu que fiz?--Não n’o sei; Mas n’essa hora a viver comecei...
IX.
DESTINO.
Quem disse á estrêlla o caminho Que ella hade seguir no ceu? A fabricar o seu ninho Como é que a ave apprendeu? Quem diz á planta:--‘Florece!’ E ao mudo verme que tece Sua mortalha de seda Os fios quem lh’os inreda?
Insinou alguem á abelha Que no prado anda a zumbir Se á flor branca ou se á vermelha O seu mel hade ir pedir? Que eras tu meu ser, querida, Teus olhos a minha vida, Teu amor todo o meu bem... Ai! não m’o disse ninguem.
Como a abelha corre ao prado, Como no ceo gyra a estrêlla, Como a todo o ente o seu fado Por instincto se revella, Eu no teu seio divino Vim cumprir o meu destino... Vim, que em ti só sei viver, Só por ti posso morrer.
X.
GÔSO E DOR.
Se estou contente, querida, Com ésta immensa ternura De que me enche o teu amor? --Não. Ai! não; falta-me a vida, Succumbe-me a alma á ventura: O excesso do gôso é dor.
Doe-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou. Absorto em tua belleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou.
É que não ha ser bastante Para este gosar sem fim Que me inunda o coração. Tremo d’elle, e delirante Sinto que se exhaure em mim Ou a vida--ou a razão.
XI.
PERFUME DA ROSA.
Quem bebe, rosa, o perfume Que de teu seio respira? Um anjo, um sylpho? Ou que nume Com esse aroma delira?
Qual é o deus que, namorado, De seu throno te ajoelha, E esse nectar incantado Bebe occulto, humilde abelha?
--Ninguem?--Mentiste: essa frente Em languidez inclinada, Quem t’a pôs assim pendente? Dize, rosa namorada.
E a côr de purpura viva Como assim te desmaiou? E essa pallidez lasciva Nas folhas quem t’a pintou?
Os espinhos que tam duros Tinhas na rama lustrosa, Com que magos esconjuros T’os desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástea sentida Tremes tanto ao pôr do sol? Porque escutas tam rendida O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro Sussurrar-te na folhagem? Nas aguas d’esse retiro Não espreitei a tua imagem? Não a vi afflicta, anciada... --Era de prazer ou dor?-- Mentiste, rosa, es amada. E também tu amas, flor.
Mas ai! se não for um nume O que em teu seio delira, Hade mattá-lo o perfume Que n’esse aroma respira.
XII.
ROSA SEM ESPINHOS.
Para todos tens carinhos, A ninguem mostras rigor! Que rosa es tu sem espinhos? Ai, que não te intendo, flor!
Se a borbuleta vaidosa A desdem te vai beijar, O mais que lhe fazes, rosa, É surrir e é corar.
E quando a sonsa da abelha, Tam modesta em seu zumbir, Te diz:--‘Ó rosa vermelha, Bem me pódes acudir:
Deixa do caliz divino Uma gotta só libar... Deixa, é nectar peregrino, Mel que eu não sei fabricar...’
Tu de lástima rendida, De malditta compaixão, Tu á súpplica atrevida Sabes tu dizer que não?
Tanta lástima e carinhos, Tanto dó, nenhum rigor! Es rosa e não tens espinhos! Ai! que não te intendo, flor.
XIII.
ROSA PALLIDA.
Rosa pallida, em meu seio Vem, querida, sem receio Esconder a afflicta côr. Ai! a minha pobre rosa! Cuida que é menos formosa Porque desbotou de amor.
Pois sim... quando livre, ao vento, Sôlta de alma e pensamento, Forte de tua isempção, Tinhas na folha incendida O sangue, o calor e a vida Que ora tens no coração.
Mas não eras, não, mais bella. Coitada, coitada d’ella, A minha rosa gentil! Coravam-n’a então desejos, Desmaiam-n’a agora os bejos... Vales mais mil vezes, mil.
Inveja das outras flores! Inveja de quê, amores? Tu, que vieste dos ceus, Comparar tua belleza Ás filhas da natureza! Rosa, não tentes a Deus.
E vergonha!... de quê, vida? Vergonha de ser querida, Vergonha de ser feliz! Porquê?... porquê em teu semblante A pallida côr da amante A minha ventura diz?
Pois quando eras tam vermelha Não vinha zangão e abelha Emtôrno de ti zumbir? Não ouvias entre as flores Historias dos mil amores Que não tinhas, repetir?
Que hãode elles dizer agora? Que pendente e de quem chora É o teu languido olhar? Que a tez fina e delicada Foi, de ser muito bejada, Que te veio a desbotar?
Deixa-os: pallida ou corada, Ou isempta ou namorada, Que brilhe no prado flor. Que fulja no ceo estrêlla, Ainda é ditosa e bella Se lhe dão só um amor.
Ai! deixa-os, e no meu seio Vem, querida, sem receio Vem a frente reclinar. Que pallida estás, que linda! Oh! quanto mais te amo ainda Des que te fiz desbotar.
XIV.
FLOR DE VENTURA.
A flor de ventura Que amor me intregou, Tam bella e tam pura Jamais a creou:
Não brota na selva De inculto vigor, Não cresce entre a relva De virgem frescor;
Jardins de cultura Não póde habitar A flor de ventura Que amor me quiz dar.
Semente é divina Que veio dos ceus; Só n’alma germina Ao sôpro de Deus.
Tam alva e mimosa Não ha outra flor; Uns longes de rosa Lhe avivam a côr;
E o aroma... Ai! delirio Suave e sem fim! É a rosa, é o lirio. É o nardo, o jasmim;
É um philtro que apura, Que exalta o viver, E em doce tortura Faz de âncias morrer.
Ai! morrer... que sorte Bemditta de amor! Que me leve a morte Bejando-te, flor.
XV.
BELLA D’AMOR.
Pois essa luz scintillante Que brilha no teu semblante D’onde lhe vem o splendor? Não sentes no peito a chamma Que aos meus suspiros se inflamma E toda reluz de amor?
Pois a celeste fragancia Que te sentes exhalar, Pois, dize, a ingenua elegancia Com que te ves ondular, Como se baloiça a flor Na primavera em verdor. Dize, dize: a natureza Póde dar tal gentileza? Quem t’a deu senão amor?
Vê-te a esse espelho, querida, Ai! vê-te por tua vida, E diz se ha no ceo estrêlla, Diz-me se ha no prado flor Que Deus fizesse tam bella Como te faz meu amor.
XVI.
OS CINCO SENTIDOS.
São bellas--bem o sei, essas estrêllas, Mil côres--divinaes têem essas flores; Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas: Em toda a natureza Não vejo outra belleza Senão a ti--a ti!
Divina--ai! sim, será a voz que affina Saudosa--na ramagem densa, umbrosa. Será; mas eu do rouxinol que trina Não oiço a mellodia, Nem sinto outra harmonia Senão a ti--a ti!
Respira--n’aura que entre as flores gyra, Celeste--incenso de perfume agreste. Sei... não sinto: minha alma não aspira, Não percebe, não toma Senão o doce aroma Que vem de ti--de ti!
Formosos--são os pomos saborosos, É um mimo--de nectar o racimo: E eu tenho fome e sêde... sequiosos, Famintos meus desejos Estão... mas é de bejos, E so de ti--de ti!