Part 3
Ei-las, breve, a caminho: E a deusa obediente Submissa e reverente, A sua mestra seguia Como ao guardião faria Um timido noviço capuchinho. Mas, alguns passos dados, A magra Medicina Prega na outra os olhos incovados, De admiração malina Franze o sobrôlho esguio, E tomando-lhe o pulso, em ar sombrio, Com palavras que ignoras, Profano vulgo, graves e sonoras, Disse--‘que a robustez ja muito athletica Que lhe achava, a fazia mui plethorica, E daria em pleuritica ou phrenetica. Provou-lhe mais com medica rhetorica Que um excesso mui rude Soffria de saude; E para que o morboso estado mude, E ella possa viver seguramente, De todo era forçoso Que tivesse o seu tanto de doente.’ Disse, impunha a lanceta, Fere um vaso venenoso, E á pobre da pateta Tres libras de sadio e generoso, Vermelho sangue puro lhe sacou: Muito menos a muitos ja mattou!
Mas era a paciente Tam pouco natural a estar doente, Que á sua directora vigilante De melhorar não deu signal bastante: Pelo que foi gramando, ás ordens d’ella, Nogenta beberagem amarella, Fedorenta, asquerosa Em dóze prodigiosa!.. Tanto, tanto bebeu, Que a rebelde natura emfim cedeu. O appetite, o vigor Iam diminuindo; E a brilhante côr, A frescura das faces vai fugindo. --‘Bravo,’ gritava a outra em ledo aspeito ‘Bravo, que a arte vai fazendo effeito!’
E temendo funesta recahida Em quanto de uma vez Não tinha debellada e bem vencida Do morbo a robustez, Manda avançar as horridas catervas Dos xaropes, conservas, Seguros laxativos, Fortes aperitivos... Com tal fôrça e podêr, que a desgraçada Em sua consciencia De todo em todo se sentiu curada. Mas com tanta sciencia Tam eruditamente era trattada, Por via de tam graves aphorismos E agudos sylogismos, Lardeados de Grego e de Latim, Que até, morrer assim, Morrer n’esta doçura, Morrer tam sabiamente era ventura.
Da nossa boa alumna, por má sorte. Era estupida um tanto a natureza, E romba de agudeza: Graça a mais superfina Que nos póde fazer a mão divina! De tam ditosa morte Não pôde comprehender toda a belleza. Cobrou medo a mofina Da sciencia divina, E, sem mais Deus-te-salve ou mais embora, Desanda-me a fugir, dando á canella Por esse mundo fóra. Larga a outra atrás d’ella A correr... e correu, e correrá... Mas nunca a apanhará. E d’então para ca Ninguem mais se gabou De que junctas ou perto as incontrou. Tal medo uma da outra concebeu, Que aonde a Medicina appareceu, É logo--n’um momento Foge a Saude mais veloz que o vento.
Coimbra--1821.
NOTAS DE RODAPÉ:
[6] O Dr. João Eloy Nunes Cardoso, de Monte-mór-o-Novo, outro amigo velho e verdadeiro, da Universidade.
VII.
O GALLEGO E O DIABO.
Eu por mim gósto de contos, Diga o mundo o que quizer; E para mattar o tempo Um conto quero escrever.
Mattar o tempo é preciso Aos ignorantes--dirão; Ao sabio sempre elle corre Voando, que lento não.
Porêm, amigo censor, E quem me fez sabio a mim? Sou eu lente ou academico, Prégador ou coisa assim?
Verdade é, no Quebra-costas Minha vez escorreguei, Fui prêso por Verdeaes, E á porta Ferrea m...ei.
Mas que doutor fiquei eu, Se nunca o Martini li, Se, o que sube da instituta E do digesto, esqueci?
Sabenças para que servem? Brucharia, eu t’arrenego! Vou-me contar o meu conto; E o meu conto é de um Gallego.
Era uma vez um Gallego Boçal, felpudo e lanzudo, Um Gallego em corpo e alma. Em chancas, juizo e tudo.
Nunca lá das Gallileas[7] Sahiu cabeça tam romba A alistar-se nas companhas Dos bravos heroes da bomba.
Melena loira e comprida, Azeitada e corredia, Ôlho azul, pasmado e parvo, Bôcca aberta, a barba esguia;
Calção de abanante orelha, Por onde fura o quadril, Nos pés a fragante chanca, Ás costas sacco e barril;
Eis-aqui a vera effigie De Thiago Manuel Juan, O mais fiel dos Gallegos Que jamais _comieron pan_.
Em devoção não fallemos, Que nisso era exemplar; Deixára um prato de tripas Para á missa não faltar.
A miudo ia a confêsso; E nunca o somno o pilhou Senão a rezar o terço, Que--nunca mais acabou.
Em duas ou tres egrejas Era freguez de _basar_; O seu barril tinha a honra De agua benta ás pias dar.
Tam devoto, tam modesto Nunca houve outro Thiago; Não ha memorias de ouvir-lhe Nem uma só vez um _ajo_.
Um dia, á volta das onze, Cançado de apregoar, --Era em Julho, que escaldava, Um calor mesmo de assar!--
N’uma egreja de capuchos O bom de Thiago entrava; E a egreja tam fresquinha, Que á oração convidava.
Por tendencia natural, Instincto de chafariz, Ajoelhou aopé da pia, Herdeira de seus barris.
Mal se tinha _santiguado_,[8] Isto é, se persignou, Um berreiro destampado Detrás de si escutou:
Era um membrudo capucho, Destemido Ferrabraz Que, a duros botes d’estolla, Brigava com Satanaz.
Tinha-se o demo incaixado No bôjo de uma beata, E d’alli se defendia Como de uma casa-matta.
Arripiaram-se as melenas A Thiago no toitiço, Pôz-se-lhe em pé no cachaço Até o próprio choiriço.[9]
Mas o ôlho arregallado Em ponto de admiração, Não se attrevia a tirá-lo D’aquella horrivel visão.
Travava a descompostura Do dize-tu, direi-eu... Fallava o frade latim Que nem o demo intendeu.
Satanaz é bom latino; Ninguem lh’o póde negar: As syllabadas do frade Faziam-n’o blasphemar.
Grita o frade:--‘_Abrenuncí-ò!_’ E o cachorro do Asmodeu: --‘Assim não me deitas fóra; Dize _abrenún-cio_, sandeu.’
--‘Latim sabe elle, o malditto...’ Disse o frade aos seus cordões; Que os frades, como os não usam, Não fallam c’os seus botões:
‘No Latim me venceu elle, E não fez grande façanha; Elle é o diabo, e eu sou capucho! Veremos se o faz na manha.’
Ria o demo ás gargalhadas Por ter o frade incovado; E o capucho, de velhaco, Dava-se ja por cangado,
Mas co’a mão á caldeirinha, Sem que o pesque Satanaz, Vai mansinho... e de repente Prega-lhe a hyssopada--zaz!
Deu tal estoiro a beata, Que parecia uma bomba ... Não era ella, era o demo: Cheira a enxophre que tomba.
--‘Eu te esconjuro, malditto!’ Brada o frade em Portuguez (Que não quiz comprometter O seu Latim d’esta vez)
‘Eu te esconjuro, malditto, Que d’este corpo te vas, E não tornes a entrar nelle, Negregado Satanaz.’
--‘Vou-me’ disse o porco-sujo ‘Vou-me embora, Fr. Sandeu, Que me escalda essa agua benta. Mas para onde heide ir eu?’
--‘Para onde?...’ E deitando os olhos A um lado d’improviso, Deu o frade com Thiago Que rebentava de riso.
Thiago, de um grande medo Passára a grande alegria; E, esfregando as mãos no sacco, Como um perdido se ria.
Leitor não te escandalizes; Que o ver logrado o demonio Até fez perder de riso, N’um sermão, a Sancto Antonio.
--‘Para onde?...’ repete o frade ‘Que me importa a mim, pespêgo? Vai-te metter, se quizeres, No c... d’aquelle Gallego.’
Conhecem-se os grandes homens Nas grandes occasiões: Thiago, sem mais demora, Deitou abaixo os calções;
E, em menos tempo ainda Do que o demo esfrega um ôlho, Ja na pia da agua benta Tinha elle o seu de môlho.
Batte-me quatro palmadas No rechonchudo do traz, E diz-lhe:--‘Agora, só diabo, Venha p’ra ca, se é capaz.’
Havre de Graça--1824.
NOTAS DE RODAPÉ:
[7] Terra de Gallegos, em dialecto scholastico.
[8] Feito o signal da cruz.
[9] O non-descriptum de trapo e cordagens que o gallego põe no cachaço quando carrega o pau e corda.
VIII.
O Casquilho.
(JANOTA)
FÁBULA.
Quem de Ovidio os contos leu Certo inda tem na memoria A mais curiosa historia Que elle em seus contos metteu: --De como Jove indignado C’uma nação de velhacos, Para os não fazer em cacos Os converteu em macacos. Vendo-se assim humilhado, Veio o povo castigado, De contricto coração A pedir perdão Ao deus que fulmina o raio e o trovão.
Fazendo caretas, ganindo e guinchando Lhe vinham bradando Em mona e bugia: --‘Restaura-nos, ó padre soberano, O antigo vulto humano Co’a perdida razão.’
O Tonnante, a quem passado Era o primeiro furor, Dos bugios ao clamor Prestou ouvido apiedado; Mas do macaco requerimento Não despachou senão ametade, E o resto a deidade Mandou dispersar nas azas do vento.
Mal o acceno omnipotente Troou na celeste abobeda, A monaria contente Se ergueu altiva, impavida; Toda se impavesou E repimpou; E como gente A andar por esse mundo se deitou.
O pêllo esfarripado. Que as cabeças télli lhes ouriçava, Em lindos caracoes se debruçava Agora pelo rosto transmudado. Não mudou por dentro o caco, Que ficou sempre macaco; E a cara por fóra Tambem não mudou muito do que fôra. Os mesmos focinhos, As mesmas caretas, E os parvos risinhos E as fofas e as tretas.
Assim meio mudados, meio não, Lhes fez o padre Jove um bom sermão, E lhes mandou tomar Aopé da raça humana o seu logar. O homem com desprêzo o bicho olhou, Nem siquer nome para dar-lhe achou; Mas a mulher gostou Da tal farofia de apparente brilho, E á _coisa_ pôz o nome de--CASQUILHO.
Londres--1829.
IX.
OS AMANTES GENEROSOS.
CONTO.
A. J. LARCHER.
Pois os mimosos sons da branda musa Do tam gentil Bernard, na patria lyra Queres ouvir suave modulados, E em luso trajo disputar-se um beijo De Tempe os generosos amadores, As cordas ferirei por comprazer-te, Cortar-lhe-hei galas dos pastores nossos: Na lingua de Camões, se posso tanto, Virão aqui a suspirar d’amores; E os echos d’estes valles mais sinceros Te dirão suas fallas namoradas. Tu, que es meio francez, meio germano, Que á meiga Deshouliers canções tam finas, Que a Gesner mais singelo ouviste o canto Na propria avena de seus tons cantado, Se os teus pastores nas ribeiras nossas, N’estas suaves margens do Mondego Vires diff’rentes, demudada a graça, E alternando sem arte a cantilena Que em seu patrio idioma foi tam bella, A ti só, que o quizeste, imputa o êrro, Nem acoimes á lingua tam formosa O desprimor e as faltas do poeta.
Juncto aos valles de Tempe, amena estancia, Mansão querida de Pomona e Flora, O joven Hylas, Égle inda mais joven, Ambos loucos d’amor, o amor se occultam. A um terno olhar suas fallas se limitam, Sua chamma constrangida não se exhala: O innocente pastor fallar não ousa, Nem, que fallasse, a simples o intendêra. Mas tarde ou cedo, se o desejo a inflamma, Amestram a innocencia amor e a edade. Tirou-os d’este nada em que jaziam O acaso um dia. Á sombra da espessura, Tam bella, ou mais que amor, Égle dormia, Hylas a incontra, e os olhos namorados Para admirá-la não lhe bastam ambos. --‘Vénus’ exclama ‘eu tibio em teu serviço Ouso implorar-te: dá-me que estes labios, Em quanto aqui na relva Égle descança, Possam nos seus colhêr suave beijo. E eu te juro, ó divina Cytherea, Que em trôco lhe darei dois mansos pombos Muito mais lindos que os que tens em Chypre.’
O voto fez-se; o beijo foi colhido: Fingido somno approveitou á bella, E, á noite o preço recebeu do voto.
Veio outro dia, e Égle a dormir sempre... Mas não dorme o pastor:--‘Deus dos amores, Ves alli quanto adoro n’este mundo. Ah, de tanta belleza, tantas graças Consente que uma só eu gose ao menos. Se eu podesse--sem que Égle o presentisse, Sob o lenço invejoso ir co’a mão trémula Tocar n’aquelles candidos thesoiros, Dar-lhe-hia pelo roubo--tam secreto! O cordeirinho que entre os meus mais quero. Oh! adormece, amor, Égle formosa!’
O mais profundo somno Hylas incontra. Viu, tocou, apalpou, beijou cem vezes O seio d’Égle, que retem manhosa Até o respirar, e a somno sôlto Mais dormia... quanto elle mais velava.
Custou-lhe no outro dia a vir ao bosque, Timida ainda e vergonhosa a bella; Mas veio emfim... Foi só curiosidade, Tinha curiosidade--era o que tinha-- De saber que presente aquelle dia Lhe faria o pastor; veio. Após ella Hylas veio também:--‘Eternos deuses, Aqui a incontro! Oh concedei-me agora Um último favor, que nos seus braços Eu gose emfim dos seus incantos todos. Ah! vós bem o sabeis: eu nada tenho, Mais nada ja do que o meu cão--e dou-lh’o.’
Oh que pesado somno Égle dormia! E é bem de crer que o instante em que o mancebo No extasi do prazer fechára os olhos, Os lindos olhos d’Égle não se abriram. Mas o sonho acabou... e despertaram. O pastor imbrenhou-se na espessura E o cãosinho fiel ficou co’a bella.
Incontraram-se á tarde, invergonhados... A pastora corou, elle suspira... Sós se achavam, sem medo, sem receios... Ao amante acordada Égle se intrega, Acha mais doce não dormir agora, E toda a imbriaguez do amor conhece: Quantos dons do pastor Égle recebe, Com dulcissima usura os restitue.
Mas as antigas dadivas pesavam Á pastora gentil:--‘Sei que te devo Duas pombinhas que uma vez me déste. E se me ellas fugirem! vivo sempre N’este receio! Toma-as lá, e o preço Que por ellas te dei também m’o torna.’ Surriu-se o joven, e pagou-as... ambas.
Um momento depois o cordeirinho Á pastora lembrou:--‘Tanto te quero, E heide-te privar do que mais amas? Tam bonito! era a tua companhia, Comia-te nas mãos! Nada, não quero: Recebe-o, que t’o dou.’ E o cordeirinho Foi restituido.--O cão só lhe restava: Novas razões, e emfim ordem por fôrça De acceitar outra vez o seu rafeiro: --‘Não tens mais que um, é o guarda do rebanho, Recebe-o, doce amante, e ainda emcima, De fóraparte te heide dar um beijo. Eu não quero mais dadivas, querido; Com o teu coração estou contente.’
Oh! taes dons para dar custaram pouco. Mas o preço da intrega era dobrado... O pastor affroixou, negocio serio Veio porfim a ser o tal brinquedo. Aopé de Égle acordada Hylas dormia... E ella, que mais pretextos ja não tinha, A suspirar dizia tristemente: --‘Não me dar elle todo o seu rebanho!’
Coimbra--1821.
SONETOS.
I.
PORFIA D’AMOR.
D’emtorno á arvorezinha que murchára Se affadiga o cultor esperançoso; Invisca as varas caçador teimoso Armando ao passarinho que escapára;
Porfiado rompe com a dextra avara As intranhas da terra o cubiçoso; Sua co’a bomba o nauta pressuroso Por estancar a nau que lhe arrombára.
Mas larga cadaqual desesperado, Quebra furioso o inutil instrumento Se o continuo trabalho ve baldado.
Só eu, com desinganos cento e cento, Só eu, por Délia sempre desprezado, Teimo cadavez mais no meu tormento.
Angra--1814.
II.
CAMÕES NÁUFRAGO.
Cedendo á furia de Neptuno irado Sossobra a nau que o gran’thesoiro incerra; Lucta co’a morte na espumosa serra O divino cantor do Gama ousado.
Ai do canto mimoso a Lysia dado!... Camões, grande Camões, embalde a terra Teu braço forte, nadador afferra Se o canto lá ficou no mar salgado.
Chorae, Lusos, chorae! Tu morre, ó Gama, Foi-se a tua glória... Não; lá vai rompendo Co’a dextra o mar, na sestra a lusa fama.
Eterno, eterno ficará vivendo: E a torpe inveja, que inda agora brama, No abysmo cahirá do Averno horrendo.
Angra--1815.
III.
A UMA FEIA COM LINDA VOZ.
Quando Orpheu pela espôsa suspirada Desceu co’a maga lyra ao reino escuro, Incantado Plutão ferrenho e duro De júbilo exultou na atroz morada.
--‘Furias,’ clamou ‘e turba condemnada, Quero tudo a cantar; do mais não curo. Ralhe Jove ou não ralhe, eu voto e juro Que não heide ouvir mais ésta assoada.’
Eis impunhando o açoite crepitante Rege Megera o condemnado côro, Cantando em doce voz pura e tocante.
Ah! quando te oiço, ó N--y, o som canoro, E arrebatado attento em teu semblante, Um milagre d’Orpheu no Averno adoro.
Lisboa--1816.
IV.
‘SUFFOQUE AS ÍRAS, CALLE E SINTA E GEMA’
Se d’uns olhos gentis, d’um gesto brando, D’um surrir desdenhoso innamorado, Imprega o triste amante o seu cuidado Em quem das leis d’amor se vai zombando;
De tormento em tormento variando, Té o proprio queixume lhe é vedado: Ri-se a bella do mal que lhe ha causado, Dos ferros mofa que lhe vai forjando.
Pene emtanto o infeliz, suspire ao vento, Té de que o saiba a perfida se tema, Não lhe assome no labio um só lamento;
E ao som da ferrea, da cruel algema, Martyr de seu inutil soffrimento ‘Suffoque as íras, calle e sinta e gema.’
Porto--1817.
V.
‘É DOS OLHOS GENTIS DA MINHA AMADA.’
Um prodigio d’incantos, de belleza Es, ó mãe dos ternissimos amores, Que, em teus labios, seus aureos passadores Hervam, seguros de acertar a prêza.
Fulge em teus olhos divinaes accesa A tocha dos desejos seductores; Em ti de seus esmeros, seus primores, O thesoiro esgotou a natureza.
Mas oh, por mais que arte divina estude, Não te dá da innocencia a flor nevada Que se não finge, nem fingida illude!
Esse dom virginal que tanto agrada É só mimo da candida virtude, ‘É dos olhos gentis da minha amada.’
Porto--1817.
VI.
‘NAS FROIXAS, DEBEIS AZAS DA SAUDADE.’
Esses muros que amor, razão despreza, Que ergueu do fanatismo a voz trovosa, Deixa, ó Nise gentil, deixa-os, vaidosa De escutares a voz da natureza.
Crê no teu coração; não é fraqueza Fugir aos males para ser ditosa: Ja nos meus braços a ventura anciosa Espera, com amor, tua belleza.
Vem, não oiças conselhos fementidos, Ouve amor, a razão, a liberdade, E a virtude e o prazer verás unidos.
Farás minha cabal felicidade, Nem teus votos verás sempre perdidos ‘Nas froixas, debeis azas da saudade.’
Porto--1817.
VII.
O CAMPO DE SANCT’ANNA.
Longe, hypocritas vis, longe, impostores, O mentido apparato religioso! Que um deus d’amor, o nosso Deus piedoso Abomina, detesta esses horrores.
De atrozes leis cruentos guardadores, Vós curvais ante o despota orgulhoso, E o sangue da patria precioso Torpemente vendeis por seus favores.
Geme sem proctetor a humanidade: E vós, juizes, vós, tigres humanos, A immolais sem remorso e sem piedade.
Ah! tremei, sanguinarios deshumanos; Que ella hade vir, tremei, a Liberdade Punir despotas, bonzos e tyrannos.
Coimbra--1817.
VIII.
‘VIRTUDE SEM PRAZER NÃO É VIRTUDE’
Deixa, eu t’o rogo, deixa, Annalia minha, Duros preceitos de moral sombria; Fingiu-os a traidora hypocrisia Que detrás d’elles, a zombar, se aninha.
Leis de tartufos, invenção danninha Que protege a impostura e o vício cria, O egoismo as dictou, funesta harpia Que as horas do gosar nos amesquinha.
A mão da natureza, a mão sublime O gran’sêllo forjou na eterna incude Com que o signal de falsas lhes imprime.
O coração m’o diz, que não illude: Crime sem dor, Annalia, não é crime, ‘Virtude sem prazer não é virtude.’
Coimbra--1818.
IX.
A FLOR SÊCCA.
Vai, flor gentil, vai prenda suspirada, Doce mimo d’amor terno e fagueiro, Vai, que elle mesmo grato e prazenteiro Elle te hade levar á minha amada.
Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada: Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro, Se o viço, a gala do verdor primeiro Em tuas pallidas folhas vir crestada,
Diz-lhe que mais que a ti, mais me queimára O intenso ardor d’aquella saudade Que a ambos n’este estado nos deixára.
Oh! se um benigno influxo de piedade De seus formosos olhos te orvalhára... Qual de nós ambos reviver não hade?
Porto--1819.
X.
A CERTA TRAGEDIA.
Mil parabens á musa portugueza Que do padre José fulgiu na penna! Cai a velha Melpomene da scena, Foi-se a tragedia grega e a franceza.
Sóphocles pôz-se a dar voltas d’Andreza, Euripedes está de quarentena, Corneille indoudeceu de inveja e pena, Crebillon foi queimar o Atreu e a mesa;
Racine professou nos Mariannos, Voltaire está a leites de jumenta, Alfieri vai fazer sonetos de annos.
Victorioso o padre a Branca ostenta: Só por vencer lhe restam dois maganos... Mas temiveis rivaes--Paiva e Pimenta.
Coimbra--1819.
XI.
MARIA E CAROLINA.
Que hade brindar á amavel Carolina Pelos seus annos a gentil Maria? Tam franca de seus dons, ao dar-lhe o dia, Não deixou que outorgar-lhe a mão divina.
Qual de ambas póde haver offerta dina De quantas liberal natura cria? Que gera o loiro sol ou que allumia Que encha os desejos d’alma peregrina?
A amigas taes, ao par que me innamora Ja não tem que lhes dar a humanidade, Por mais que seus thesoiros aprimora.
Amor, divino amor, doce amizade, Numes do coração, valei-me agora: Dae-lhes, pois deuses sois, a eternidade.
Porto--1819.
XII.
SAUDADE.
Seculos são, na vida que infastia, Estes dias de exilio amargurados; Um por um, mágoa a mágoa, vão contados Em lenta e cruellissima agonia.
Oh! roubemos-lhe aomenos este dia, Ao padecer que todos trás roubados; Sejam pela amizade consagrados Ao casto amor instantes de alegria.
Tem prazeres tambem a desventura: A propria carrancuda adversidade Surri co’a esp’rança que lhe luz futura.
Vem, amigo, no seio da amizade Festeja a espôsa, sonha co’a ventura Que um dia hade mattar tanta saudade.
Londres--1828.
ULTIMOS VERSOS.
FOLHAS CAHIDAS.
DOS EDITORES.
Cumpre-se a promessa feita no primeiro volume d’esta collecção reunindo aqui, em segunda edição muito augmentada e correcta, as FOLHAS CAHIDAS.
Apezar de estarem no prelo desde 1851, o auctor tinha descuidado na primeira edição o seu habitual escrupulo de rever e corrigir; e não teve paciencia para as augmentar com muitas peças que agora vão, e que então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais serios o distrahiram durante os dois annos que levaram a imprimir tam poucas paginas.
Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim augmentado, ficaria demaziado para um só.
Maio--1853.
ADVERTENCIA.[10]
Antes que venha o hynverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por ahi cahiram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memoria.
A outros versos chamei eu ja as últimas recordações de minha vida poetica. Inganei o público, mas de boa fe, porque me inganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro--ás vezes imaginario, porque ninguem os coroa.
Eu pouco mais tinha de vinte annos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os ultimos versos que fazia. Que juramentos!
Se dos meus se rirem, teem razão; mas saibam que eu tambem primeiro me ri d’elles. Poeta na primavera, no estio e no outomno da vida, heide sê-lo no hynverno se lá chegar, e heide sê-lo em tudo. Mas d’antes cuidava que não, e n’isso ia o êrro.