Part 2
Era uma vez: diz mestre Lafontaine, Que lh’o dissera Phedro seu amigo, Que lh’o dissera um grego corcovado... Pois tudo n’este mundo vai por dittos, Tudo se diz porque outros o disseram... E talvez que não fôsse Lafontaine, Mas foi outro que tal, que vale o mesmo: Um dia... mas o fio á minha historia Não o tórno a quebrar por coisa alguma; Poema que tem muitos episodios Nunca póde ser bom, nem bons ser elles: Diz padre Horacio ou outro tal como elle D’estes que intentam accanhar o genio Com leis servis por elles arranjadas Que, segundo a moderna guapa eschola, As não póde soffrer de taes birbantes. Um dia pois o pae d’homens e numes, Como eu ia contando aos meus leitores... --Se é que a sorte, que os nega a bons poetas, M’os deparar a mim, chulo trovista-- A rogos, mas de quem ja me não lembra, Asno felpudo de orelhões cahidos Quiz transformar em fervido ginete; E ao bom Mercurio, seu fiel ministro, Manda que o longo pêllo lhe tosquie E um bom naco cerceie das orelhas.
Era grande o burrico, nedeo e gordo, E por milagre do supremo Jove, Que sempre faz como este bons milagres, Ei-lo desimpennado e mui lampeiro, Qual andaluz corcel ou egua arabia, A par d’outros corceis se vai trotando. O povo cavallar na fórma nova Não reconhece a burrical maranha. Como elles folgazão retouça e pulla, Ladeia, faz corcovos, trava o passo, Emfim parece--Tanto podem numes E tal é o podêr de um bom milagre!-- Cavallo mestre e feito em picaria. --Qual rustico peão de bronca aldea De tamancos nos pés, no sacco a broa, Que vem para imbarcar lá da provincia, E para um tio, que é senhor d’ingenho, Ricasso em pretos, em arroz, mellaço, Ingoiado apprendiz vai ser caixeiro: Morre-lhe o tio, eis o rapaz n’um sino, Vende pretos e pretas e mellaço, E vem, Cresso de cocos e patacas, Metter toda Lisboa n’um chinello; Ja por boas, luzentes amarellas Serodeo compra fidalguesco fôro... D’antes--que hoje a visita da saude, Em cheirando a caturra, a bordo o prende, E é ja barão quando põe pé em terra. Ei-lo que alteia os hombros incolhidos, Intufa em vento as bochechudas belfas, Impina a pansa, ingrossa a voz pausada, E no tropel dos nobres involvido, Se o não conheces, crêra-lo provindo Dos que nos velhos pergaminhos vivem. Tal ja desorelhado e uffano o burro Entre altivos ginetes campeava. Mas, oh fado infeliz, mesquinha sorte! Quando entre os novos ledos companheiros Se vai trotando com pimpão meneio, Ei-lo depara com villan jumenta De hirsuta felpa e de costado esguio, Que os fios corta d’alma a quem a via, Como bem diz Latino-luso vate De mui gaiata e festival memória. Subito esquece o recem-nobre estado, Lembram-lhe antigos, burricaes requebros E o tom gallanteador de asnal namôro: Estira amante o beijador focinho, E em notas de invejar por um Lablache, Psalmeia airoso, compassado orneio, Deixa os amigos e a azzurrar se fica!
Ora pois, como fez o senhor Jove, Fez certo gran’senhor de lettras gordas E protector das magras.--Foi milagre Que pela intercessão foi operado De uma a que chamam deusa da Sandice, De outra Impostura e de outra Pedantice.
Começa o caso c’o outro parecido.
Havia em certa terra muito longe, Lá nas pontas dos pés d’este hemispherio, Que dizem fôra outr’ora povoada Por certo beberrão feitor de Baccho, Havia uma familia de animalculos, Zoophytos, e quasi mycroscopicos, Aos quaes Lineu, que achou nomes a tudo, Nunca deu nome, nem especie ou genero, Nem eu lh’o sei tambem, só sei que arrotam Textos, medalhas, chymicas rançosas, Que trazem n’algibeira um compassinho, Muito accanhado, curto e pequenino, Talhado ao molde dos miollos d’elles, Com que querem medir todo este mundo. D’estes pois--e aqui vai o gran’milagre-- Burros na fórma, na sciencia burros, Mas burros mais que tudo na cacholla, Quiz o tal gran’senhor citado acima Fazer--ó musa o quê?--Dize, não temas, Não fujas, dize e vai-te.--‘Uma académia’ Disse a musa e safou-se ás gargalhadas. Mas que académia!--Oh! venham as brilhantes De Londres, de Paris, de Petersburgo Beber aqui sciencia não sabida De assopradas, pomposas ninharias. Que producções, que producções! Oh quanto Quanto seria mais se um deus maligno, Inimigo dos guapos academicos, Das tres que Deus nos deu potencias d’alma Lhes não saccasse duas á surrelfa, Deixando só memorias e memorias... Quanto sería mais, quanto fulgira Em gordos, grossos, grandes calhamaços A portugueza, majestosa lingua, Se os novos sabios, no comêço á emprêsa, A antigas manhas não perdendo o affinco, Não incontrassem por desgraça nossa C’um perfido _azzurrar_--zurrar malditto!... Ficaram no azzurrar sempre zurrando.
Coimbra--1818.
III.
AMOR E VAIDADE.
FÁBULA.
Ja mais veloz corria o espaço usado Que as horas marca ao dia O deus que atrás de Daphne --Infructuoso trabalho!--dera ás gambias; E aos braços d’Amphitrite ia mais cedo Dos trabalhos da luz gosar nas trevas Desejado descanço. Iam seccando pelo prado as hervas, E o verde-escuro dos frondosos montes Amarello cahia; Sentado aopé da magustal[5] fogueira, Vermelho e rubicundo O bemdito e louvado San’ Martinho, --Que a cega antiguidade, Por não tomar a bulla da cruzada, Nem jejuar aos dias de jejum, Baccho chamava em sua escandalosa E misera ignorancia-- Bastas fazia navegar, nos máres Da barriga sanctissima, As puchantes castanhas; Banhos e quintas ao socêgo antigo Despovoados tornavam; Voava a folha, sibilava o vento, E em fim, sem metaphoricas periphrases, Era ja meio outomno. Amor, Cupido, ou Ero, ou qual mais gostem Dar-lhe baptismo ou chrisma, Comtanto que não chegue A tanto o desafôro Que ousem--como eu ouvi, por meus peccados, Co’estes que a terra um dia Ou mar tem de comer-- Por louca affectação de Anglo-mania, (O que não farão modas!) Chamar-lhe em Portuguez... chamar-lhe _Love_! Amor pois ou Cupido, --Que assim nossos avos sempre disseram Em tempos venturosos Que tudo se chamava por seu nome, Que ás bellas se dizia Em Portuguez sincero e sem malicia O que hoje é fôrça rebuçar no manto De alegoria equivoca-- Amor, do rebulicio da cidade, Do barulho infastiado, Farto ja de frexar c’os aureos tiros Os corações tam gastos, Usados, velhos, estropiados, frouxos Da gente que a povoa, Para o campo fugiu d’onde ella foge. Lá nos singelos bosques, Nas simplices cabanas Singelos corações, simplices almas Espera achar ainda Em Daphnis e Amaryllis.
Por um ameno solitario valle, Em seus projectos imbebido o numen, Caminhava... eis da incosta d’um outeiro Ve descendo gentil, esbelta dama Que bem, no airoso infeite, No perluxo das modas, Conheceu que não era habitadora Da rustica espessura. Fugi-la quer; mas sentimento occulto, Que entre nós ca na terra Se diz curiosidade, --Não sei como no ceo lhe chamam numes!-- Sentimento imperioso No sexo lindo que nos doira a vida... --Que a doira se gosar sabemos d’elle, Que aos parvos a invenena-- Este o reteve, suspendeu-lhe os passos. Quem será? Quer sabê-lo. Ei-los junctos; e Amor que á bella dama Cortezmente sauda: --‘No campo ainda e só, quando á cidade Apressurada corre toda a gente! Tam delicada, tam formosa dama Da quadra desabrida Os insultos não teme? Foge acaso o prazer da sociedade, E n’estas mudas selvas Vem porventura, desgraçada amante, Chorar na soledade?’
Não gostou do cortejo e cumprimento A nympha bella, desdenhosa e dengue; Offendida que o nome lhe ignorassem, Orgulhosa responde: --‘Conhece-me o universo; em toda a parte Templos, altares tenho; Domino os corações, govérno as almas, Sou uma deusa, e chamo-me Vaidade. Por mim co’a morte, c’os revezes lucta O guerreiro no campo; E ante o espelho traidor consomme a vida A belleza que aos annos se não rende: Por mim o litterato sôbre os livros Curva a frente abrazeada; Por mim nos gestos, no fallar se estuda O adamado peralta; Por mim vivem contentes satisfeitos Os que menos razão têem de viverem; E o mago meu podêr se estende a tanto, Que entro no seio mesmo aos que me offendem, Desprezam e injuriam. Por meu influxo, n’esse proprio escripto Em que me insulta o sabio, Corrige e apura o sabio o stylo, a penna, Aos louvores armando. Eu as suberbas, elevadas cupulas Ergo de vãos palacios; E até na estancia gellida da morte, Nas mentirosas lapidas Lavro pomposas lettras Que a inganado porvir levam memorias De parvos, de maus reis, sanctões Tartufos, De tonsuradas bêstas. Eu em certa famosa academia As charamellas tanjo, As conclusões defendo, Em vandalo Latim peroro ás turbas, Tufo a brilhante borla Com que as caveiras jumentaes adórno. Emfim até d’amor perturbo o imperio: Por mim, por meus auspicios, A parvoa chusma dos galans mais parvos, Dos fofos petimestres Ja do sexo gentil não quer favores: Indiff’rentes ao gôso e á ventura, Basta que o mundo os tenha por felizes... Por mim a dama desdenhosa e bella Ja não procura amores, Nem de Venus suavissimos deleites, Mas o gaudio maior, mais lisongeiro De que os outros a creiam Cercada de servis adoradores, De humildosos escravos’...
Ia por diante; mas o deus zangado, Furioso a interrompe: --‘Basta; o numen d’amor sou eu: não entra Tam facil em meu reino Teu sacrilego pé: sobejas vezes De muitos corações tenho extirpado Teu petulante vício. Em vão esse Hymeneo, que deus se chama E egual amim se inculca. Ousa pleitear commigo: Os nós lhe quebro que appellida sanctos, E em seu templo introduzo --Embora a testa doia Aos miseros maridos-- Quem me apraz, quem me segue, e a quem eu quero. Por mim se eguallam desvairadas sortes, Que as baixas condições uno ás mais altas. Lidia, a orgulhosa Lidia Que a ladaínha dos avós impurra A todo o instante e a todos, Lidia que nunca ri... c’um tiro as pompas E as sombras dos avós lhe desfiz n’alma: Puni-a, fi-la escrava, Fi-la escrava... e de quem!... do seu lacaio. Togas, aureos bastões, borlas, espadas, Mittras, coroas, toucas e capuzes Ao meu imperio tudo está sujeito.’
Desdenhosa e surrindo ouviu a deusa, E em submissa ironia lhe responde: --‘Pois bem: assim será; não valho nada No coração das bellas. Mas expliquem sem mim seu vário peito; Isso que o mundo appellidou capricho, Que em sua alma domina, Dize-me o que é? será sem causa o effeito? Suas obras tam variaveis, tam confusas, Com que os amantes pasmam, Não as deciphro eu só, de mim não partem?’
Esquentou-se a questão: denovo os deuses Pro e contra razões allegam, mostram. É cabeçudo Amor, ella teimosa... Não acabavam nunca. Ficariam na mesma, Se o meio de findar contendas tantas Não acordasse á deusa: --‘Prescindamos’ clamou ‘de vans palavras, Argumentos deixemos; Vamos a factos, e de nossas armas Façamos experiencia.’
Sahia a ponto do vizinho bosque Pastorella innocente: Alma inda nova, coração ingenuo, No simples do vestido, No mal composto dos cabellos louros, De sobejo mostrava: Era toda ao pintar para a exp’riencia. Consentem ambos em provar, na bella E timida pastora, O podêr de suas armas. Jurou Amor de dar-se por vencido Se de seus magos tiros Podésse defendê-la a Vaidade.
Com lisonjeiro, placido semblante E com doces palavras, Tomando-a pela mão, a affaga a deusa; Pungente frexa Amor no arco imbebe, E mostrando-lhe a um tempo Joven pastor que dera inveja a Páris, O tiro lhe dispara. Voa a setta fatal... mas no momento Em que lhe toca o peito, Subito a deusa aos olhos lhe apresenta No mesmo instante crystallino espelho... Pasma extasiada e fixa A simplice donzella, O semblante gentil contempla immovel; Nem um só volver d’olhos para o bello Mancebo lhe escapou.
Sorriu-se a deusa; Amor de invergonhado, De corrido fugiu.
Coimbra--1818.
NOTAS DE RODAPÉ:
[5] Magusto, no dialecto da minha provincia, é a fogueira em que se assam as castanhas nos dias marcados pelo ritual minhoto.
IV.
ESOPO E O BURRO.
FÁBULA.
A. TH. DA SILVA QUINTANILHA.
Foi grande tempo, amigo, Aquelle tempo antigo: Eram maiores peras e mellões... Pois uma melancia? Por essa casa dentro não cabia. Bem o mostram as sábias conclusões Do famoso Gil-Braz de Santilhana: Guardadas proporções, Se a conta não ingana, Certamente sería A maçan com que a Adão Eva inganou, Maior do que uma abobora-menina: E então ja bem se atina Como ella lhe incalhou No gargallo do pae da humanidade; Cuja enorme hombridade, Segundo o mesmo cálculo constante, Devia ser maior que a d’um gigante.
N’esse tempo feliz da carochinha, Em que pato e peru, porco e gallinha, Burros e burras--e o rhynoceronte-- Cabreavam, ahi por esse monte, Com toda a mais canalha Que era da sua egualha, Toda essa corja dizem que fallava, Como nós, na sua lingua-mistiforio. Não sei se Deus fez bem no seu decreto Que a mercê lhe tirou do fallatorio; Pois, segundo mui douto me insinava Meu mestre José-Vaz, homem discreto E de saber profundo, Em toda a sociedade d’este mundo Por fôrça hade reger O famoso _direito de accrescer_. Accresceu para nós, tristes humanos, Toda a loquacidade De quantos bicharrões, bichos, bichanos D’este universo á grande sociedade Veio a perdas e damnos: E assim vemos fallar moços e môças, Velhos e velhas, sabios e tarellos, Com vozes finas e com vozes grossas, O gentio, o christão, moiro e judeu, Por quantos cotovellos Deus e o _direito de accrescer_ lhes deu.
N’esse tempo feliz então havia Em Grecia um corcovado Que de todo o animal, ave ou pescado Intendia e fallava a algaravia. Muitas ja tinha em Grego traduzido Das famosas comedias, Altisonas tragedias, Entremezes chistosos e ingraçados, A que tinha assistido, Dos bichassos auctores mais fallados. Um dia passeando Por juncto de um ribeiro, --Talvez algum dialogo pilhando De bichitos de couve ou formigueiro-- Eis-ahi senão quando Direito a elle em frente Orelhudo jumento vem trotando; E depois de o saudar mui cortezmente Com uma cavatina Em notas que nem ja Lablache affina, Findado o ritornello, Assim o nosso burro, Em sua lingua asinina De mui pullido zurro, Ao corcunda fallou, Quero dizer--orneou: --‘Tenho um favor que te pedir, Esopo: No apologo primeiro Que em lingua traduzires da tua gente, Não me faças tam zôpo Como, useiro e veseiro, Fazes constantemente. Em meus discursos mette alguma graça E pilherias com sal e com finura, Que eu, a zurrar, sou forte na chalaça.’
O bom do Esopo olhou para a figura Do elegante orelhudo, E com tam destampada, Tremenda gargalhada Lhe respondeu ao animal felpudo, Que elle, de orelha murcha e mui trombudo, Se foi sem dizer nada.
Do sincero de Esopo quam diff’rentes Andam certos auctores Que altisonantes fallas farfalhudas Imprestam a patetas gran’senhores, Excelsos presidentes De pedantes reaes academias, Illustres senadores Que as cachollas vazias Inchados ornam de compradas flores! Quantos ha ahi garraios descarados Que vão pimpar, sem pejo, pelos pulpitos Com os sermões espurios Que aos padres mestres da ordem são furtados! Quantos vates servís, lamosos gansos Que, em vis dedicatorias campanudas, De podres versos ranços, Na linguagem da Phenix-renascida, Vão dar ethica vida A Zenobias barbudas; E a Mecenas palhaças De sabichões da Grecia dão fumaças!
Mas Esopo ficou qual d’antes era, E o burro, burro estreme; Mas aos nossos Mecenas sécca e treme Na frente o loiro, a hera Com que venaes poetas Lhes coroaram as testas de patetas, Em trovas semsabôres; Mas os nossos modernos escriptores Ficam asnos sem sizo Para os homens de bem e de juizo.
Coimbra--1820.
V.
O MENINO E A COBRA.
C’uma cobra doméstica folgava Criança innocentinha, E--‘Meu bicho’ dizia a criancinha ‘Comtigo tam seguro eu não brincava Se primeiro, o veneno refalsado Não te houvessem tirado. Que vós sois muito más, muito ingratonas, Minhas serpentezonas. Oh! nunca a tal historia me esqueceu D’aquelle homem que a cobra achou na rua --Talvez fôsse avó tua-- E tanto se doeu De a ver toda de frio retransida. Que no seio a metteu E comsigo a aqueceu. Que fez a bicha mal-agradecida? Apenas se recobra A traidora da cobra Vai, e zaz!--e mordeu O pobre homem, que logo da ferida Venenosa morreu.’
--‘Bem parciaes’ responde-lhe a serpente ‘São as vossas historias; Recontam-nos o caso mui diff’rente Lá as nossas memorias. O teu homem, que tens por charidoso, Creu realmente a cobra ja finada, E foi, por cubiçoso Da pelle, que era linda e mosqueada. Que o teu santinho d’home’ a quiz salvar: Era para a esfollar.’
--‘Vai-te’ responde em cholera o menino ‘Vai-te, bicho mofino: Todo o ingrato é ladino Para se desculpar, E ao seu bemfeitor calumniar.’
O pae da criancinha, mui contente. Toda ésta conversa ouvindo esteve; E--‘Pois, meu filho’ disse ‘honradamente Julgaste como deve Todo homem de bem: Mas é preciso em tudo ser prudente, E injusto com ninguem. Ha casos de tam feia ingratidão. Que a razão Não se atreve A crê-los, sem exame, assim de leve. Raras vezes a ingratos obrigaram Os que são verdadeiros bemfeitores; Mas o mundo, meu filho, por desgraça, Harto está cheio de ruins Mecenas, De falsos protectores, Que a detestavel raça Dos ingratos no mundo propagaram. Arrastados favores, Inda menos baratos Que interesseiras sordidas onzenas, O que hãode produzir, senão ingratos?’
Coimbra--1821.
VI.
A SAUDE E A MEDICINA.
Ja tenho, meu Eloy,[6] tudo inmallado; Fica até no bahu o estro fechado. Mas antes de partir, Quero contar-te um conto, que hasde rir. Hontem o incontrei N’aquelle teu Pignotti tam magano; E, se em meu Portuguez não desbotei As côres do Italiano, Hasde-lhe achar a graça que eu lhe achei. Vou abrir o bahu, e venha o estro! Sôbre o canhão da bota. Como dizer se usa, Farei regrinhas curtas e compridas. Botas... e esporas tenho ja cingidas, Montarei o Pégaso, que nem trota Commigo, de esfalfado. Eu muito descançado Ahi me vou choitando, O meu conto contando. O conto é da Saude e Medicina... E tracta de te rir, Que, se não ris, serviu-te a carapuça, É um reles doutor de mula ruça Doutor que se amoffina E não quer consentir Que a pobre, atormentada humanidade Se desforre uma vez co’a faculdade.
Jove, esse Jove em Grecia tam temido, Que imperava nos ceos, nos elementos, Nos raios e nos ventos, De moda emfim cahido, O credito perdeu e está fallido. Mas quando elle reinava Viam-se casos n’este baixo mundo Que o vulgo parvo assegurar ousava Desdizerem de seu saber profundo: E n’este ponto a grega theologia Por desculpa dizia Que, ao dar ordem a coisa tam soez Como é d’esta vida o entremez, Lhe cahem muita vez Os oc’los do nariz; E que n’estes momentos Tudo o que faz e diz É asneira--sandice por um triz. Em um d’estes accessos mazelentos, Em que de facto, do nariz divino, E sem elle dar tino, Tinham cahido os seus oculos bentos, Á terra nos mandou, Só para nosso bem, como julgou, Duas boas divindades companheiras, Ambas riccas herdeiras De sua graça divina: A saber, a Saude e a Medicina. Na fôrça juvenil tinha uma d’ellas Ageis e vigorosos Fortes os membros, cheios, musculosos, Tintas de côr rosada, Florida e ingraçada As frescas faces bellas; E nos olhos tranquillos e gozosos Tinha a indolência com a paz pintada. A outra, de gesto magro e macilento, Cabello pouco, e o pouco de alvo argento, Com as faces rugosas descahidas, As carnes resequidas, E em círculos de chumbo incaixilhados Os olhos incovados Remelosos, vidrados. Intrançada de malva e de chicoria Ampla coroa a frente lhe cingia, Como um splendor de glória; E a negra sotana que vestia Rota, e cossado o pêllo, lhe luzia Com erudita e sábia porcaria. Aos hombros alquebrados, Que a muita edade impêna, Em fórma de capuz, juncto ao toitiço Assim como uns calções esfarrapados De antigo, velho riço, E da côr de bandeira em quarentena. N’um frangalho da tal coisa amarella Lhe pendia, á feição de bambinella, Não Tusão de Oiro ou a Pollar estrêlla, Vermelho Christo ou roxo San’ Thiago, Mas o instrumento aziago... Certo tubo que todos conhecemos, Que no lúbrico pau escorregando, Emquanto vai e vem assim brincando, Ao nobre officio serve que sabemos... Cingida era de emtòrno A venera pendente De um magnífico adôrno De pilulas, lancetas em pingente, Sinapismos, ventosas, Com que, a modo de pedras preciosas, A nova ordem militar fulgia, De Esculapio em memoria e honraria.
A este sabio Mentor, Jove intregára Em guarda a bella deusa das rotundas Bochechas rubicundas, E mui severamente Que em tudo a governasse, lhe mandára.