Part 9
Os editores não dão nada por um livro de versos. Não sei se conhecem, ou se se lembram daquele editor, Dauriat, o Dauriat das _Ilusões Perdidas_, de Balzac, que recomendava ao Gabusson--chamava-se Gabusson o caixeiro:--«A todo e qualquer que venha oferecer manuscriptos, pergunte-lhe se é verso ou prosa. Se fôr verso, ponha-o logo a andar. Estes poetas são a perdição dos editores!» Isto no tempo de Balzac, vejam os senhores!
Prosa, tudo prosa. Nada mais existe do que a prosa. E que seja bem fresca, catita, com meias abertas para se ver as pernas, hein! Senão, nada feito.
Tambêm a prosa começa a estar pela hora da morte. O que se vende não é a _Ressurreição_ nem as _Memórias do Príncipe Kropotkine_, nem a _História de Portugal_ do Herculano. O que se vende é a _Tuberculose Social_ pela pornografia, não pela parte documental, os livros franceses que trazem estampas do nu, e pouco mais.
Tudo isto está desabante. Não há poetas, não há artistas, nem prosadores, nem músicos, nem dramaturgos, visto que tôdas as formas de arte tomaram um papel secundário na vida do homem de hoje. Que o homem está descendo, isto é, que o homem se está aproximando da Vida, e a Vida não é senão brutalidade, não há dúvida, porque à medida que é menor o número de criaturas intelectuais, é maior o número de gatunos de carteiras e burlões professos.
Que está desabante não resta dúvida pois. E se buscarmos a razão disso, acharemos recônditamente, pelo menos no que se refere aos poetas, que, sendo o poeta uma criatura cheia de sonhos, de utopias, cheia de bondade, mixto de super-homem e super-fêmea,--o verdadeiro poeta,--essas criaturas vão rareando a pouco e pouco, e a pouco e pouco se extinguirão, para se tornarem lembradas na memória dos vélhos, senão lendárias na fantasia dos novos.
Nós assistimos aos últimos poetas. E agora, que restam sete ou oito, dez ou doze, ou quantos são, náufragos da poesia sôbre o oceano enorme das ambições humanas, do ódio, da indiferença e da cólera humana, justo é que se lhes reze o responso final, e se admire a persistência dos que, como capitães heróicos, vão ao fundo sem abandonar o seu ideal, um triste ideal na verdade. ¿Pois não é triste escrever cousas que ninguêm lerá, para que todos teem olhos indiferentes e o coração endurecido?
¿Tocar sem que ninguêm escute, gastar a vida sem que a ninguêm aproveite, e para quê? Há já tanto poeta, tanto! ¿Que resta ao fim de séculos dum poeta? Um nome, nada mais. ¿E quantas vezes, na lápide que êsse nome grava, o sol não veio bater até o comer de todo, o apagar, o sumir no olvido de sempre? Depois, essa lápide é como a memória das gentes: uma pedra branca, nada mais.
Vão-se os poetas, mau sinal. Ainda os que restam formam quadrado, novos granadeiros em Waterloo, mas debalde. Quando sucumbirem, não virão outros tomar o logar dêstes. Estamos no fim.
O poeta de há muito tendia a desaparecer. ¿A vida é luta, não é verdade? Mas luta de hipocrisias em que os maus vencem e os bons sucumbem. ¿Nestas condições, que há de o poeta cantar? ¿A hipocrisia, o mal vencedor e tirano, a astúcia esmagando com o seu coturno de sêda o arnez brunido da fôrça? Não.
Vão-se-lhe os motivos. O poeta já cá não tem nada que fazer. Já não há que cantar, cala-se o cantor. É o caso.
A poesia tem que render-se. É como rainha exilada sem reino e sem vassalos. Todos a abandonaram. Só um ou outro dedicado, fiel, intemeratamente fiel, fiel até ao sacrifício, espera e morre como êsse Eliseu Méraut de _Les Rois en exil_ de Daudet, crendo ainda e bradando no limiar da Morte um último viva a uma soberania que morreu à muito.
E eram, afinal, tão interessantes, os poetas.
O Tempo
Representavam os antigos, o Tempo por um velhote de barba branca... Não é com isto positivamente que eu queria começar. O _Tempo_ era um jornal de José Dias Ferreira, e _Tempo_ se chama um jornal inglês de que os inglêses dizem que é o maior do mundo. Será. Mas para bem informar os leitores cumpre-me dizer-lhes que se é ou não, não sei. Nunca o li. À uma, dizem que é muito maçador, muito grave, tão grave que até parece feito por juízes do Supremo; à outra, eu não sei o inglês. Talvez isto pareça ignorância. Pois não é. Aí está o Marquês de Pombal, que, vivendo um ror de anos em Inglaterra, nunca passou do _Yes_, do artigo _The_ e dos verbos _to be_ e _to have_.
Mas do Tempo diz o Padre António Vieira que «tudo cura, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba». Não há soberano que tanto poder tenha como êle. A própria Morte é da sua côrte e sua subalterna. «Nada se faz sem tempo», diz-se. Tudo o tempo acaba, direi. Assim, temos, que o tempo faz e desfaz, cria e destrói, forma e arruína. As fortunas gastam-se, a formosura envelhece, a sorte muda, os anos passam, os dias voam e a morte chega. As flores murcham, as ilusões caem, as esperanças dissipam-se, os amores esquecem e de tudo só ficou o Tempo, sombra de tempo, memória de tempo, que até a própria memória o tempo apaga e confunde!
A sabedoria de Salomão, a bondade de Cristo, a dignidade de Catão, a valentia de Cesar e o amor de Jacob, são do tempo. O tempo é que as lembra, o tempo é que as esquece. O tempo é o maior amigo, o tempo é o maior inimigo. Porque se tudo traz, tudo leva; porque se tudo aproxima, tudo afasta; porque se tudo nos dá, tudo nos tira.
Ama-se uma mulher que nos ama. O tempo passa e em breve a sua beleza será fealdade; a sua mocidade será velhice. Culpa de quem? Do tempo. Ama-se uma mulher que nos despreza. Em breve o tempo levará os seus adoradores e transformará as suas faces em rugas e os seus beijos em flores sêcas. O tempo nos trouxe o castigo, o tempo nos deu satisfação. As rosas murcham, e não há grande obra que não esqueça.
Invejas para quê? Ódios para quê? «_Sic transit gloria mundi_». Oh quão passageira e falsa é a glória do mundo! ¿Quem se recorda hoje do segundo ministro dum rei de há três séculos--um cargo tão invejado!--e do general favorito de Breno--um cargo tão merecido? Quem? Quem hoje lê os vélhos? Quem hoje os aprecia? Vélhos, sombras do que foram. O tempo é velhice e Morte. Mas consolemo-nos. O meu vizinho, homem célebre, tambêm há-de morrer e ser esquecido como eu. Todos serão esquecidos. E se a alguns parece escolher o tempo, deixai. Dai o tempo ao tempo. Êle os esquecerá....
* * * * *
Ora, sendo o tempo uma cousa tão preciosa que cumpria não esperdiçar, antes conservar avara e egoístamente, roubar tempo é um crime, alêm de ser roubo. Os inglêses, dizem que tempo é dinheiro. Eu direi que roubá-lo é uma grande pouca vergonha, digna de muito cacete ou de fôrca, se quiserem. Não há país onde se roube tempo como em Portugal. Em Portugal, país do Amanhã, não há a noção do tempo. Ninguêm sabe o que seja pontualidade. Prometer e cumprir caso é de estranhar, agora prometer e faltar é caso trivial. Senão vejam os senhores em tudo e por tudo. Faz-se um pedido, qual é a resposta? Deixe para amanhã. Procura-se um devedor; amanhã paga. Pede-se fiado: «Hoje não se fia; amanhã sim». Tudo é amanhã, tudo é no outro dia, um amanhã que nunca chega e que só é pretexto para nos extorquir tempo e paciência.
¿Os senhores nunca foram registar uma carta ao correio geral? Pois vão, mas vão com pressa. Isso é que é pândego! Uma pessoa chega: há 15 pessoas agarra-das a um postiguinho muito pequenino, um daqueles postigos que através da distância de quinze pessoas só se vê por óculo. A gente chega e sossega. Póde sossegar à vontade. Ainda agora chegou. Se dá mostras de impaciência, o que está à frente abespinha-se e redargúi: «¿Que está o cavalheiro a fungar? Há uma hora estou cá eu». E a gente curva-se. Passa a olhar o sujeito respeitosamente. Caramba! «uma hora!» E tudo são cogitações. ¿Mas não há quem nos atenda? ¿Não há quem nos despache? Há sim, senhores. Há um tipo que está lá ao fundo chupando uma beatazinha, mãos nas algibeiras e dizendo, para outro matuto sorna como êle: «O cházinho era delicioso! E então os bolos. Os bolos, menino!...»
«Eu estou aqui há duas horas!» diz um escanifrado que agita uma carta. «Espere se quiser, diz o dos bolos. Há muito mais tempo estou eu cá e não faço tanta chiada!»
¿Os senhores nunca foram pagar a décima? Não foram? Felicito-os.
Pagar a décima é tambêm uma cousa divertida, para quem não é cardíaco, nem tem aneurisma nenhum. Eu fui uma ocasião, mas à cautela levei _lunch_, um _couvre-pieds_ e um romance para ler. Não foram prevenções inúteis. Fui para lá ao amanhecer e havia candieiros acesos. Li o romance todo e comi até as migalhas do _lunch_. Comeria outro, se o levasse ou não receiasse perder o logar. Porque aquilo é à vez. Uma pessoa, munida do competente papel intimativo e do dinheiro para a ressalva, apresenta-se. Quando chega, há já uma linha de pessoas que vem até à rua. Umas ficaram de véspera, outras foram ainda de noite e as que foram assim quando os galos cantam e a aurora rompe, já encontraram três dúzias delas à espera. Outras vão chegando,--já se sabe, o competente farnel, o cobertor e o livreco--e tomam logar. Ás onze e meia--a repartição abre às 10--chega o garimpo que varre a casa. E é um tropel de gente que se empurra, que toma logar, que se instala. Neste apertão é vulgar perder a carteira ou ficar com um calo esborrachado. Mas tudo vai bem. A gente sentou-se, apara a paciência, abre o livro. Meio dia. Entra o pastinha. Depois entra o outro, depois o recebedor. São as feras. Há uma grade entre elas e o público, e um postiguinho, por onde a gente lhe mete a massa, que é como quem diz o sustento.
Começa a chamada. O patife parece que está a entoar cantochão. Vem ainda estremunhado. Entretanto os que não levaram livro vão contando a vida aos vizinhos. «Eu moro na rua da Ametade. O meu nome é Simão. O meu pai é timbaleiro. Minha mãe era parteira...» Ah!... O meu vizinho ressona de assobio. Um velhote quere dormir mas a conversa dos dois grulhas não o deixa pegar no sono. Bem: ainda há 44 adiante de mim. Eu volto à leitura. «José Ferreira Casmurro!» Pronto, diz o outro. É a chamada que continua. E os outros pensam: «Aquilo é que é um Casmurro com sorte». Ah! quanto falta para lá chegar?!
Aqueles bandidos não teem nenhuma pressa. Vão tranqùilamente zombando do tempo e da paciência dos outros. Passa uma hora, passam duas, passam três. Ao meu lado havia um petiz de ano e meio que mamava como um danado na têta da mãe, quando eu entrei. Quando se chega quási à minha altura alguêm do lado toca-me no ombro. Volto-me. É o petiz que interroga e pede: «¿O cavalheiro não tem por aí um cigarrinho que me dê?» Como êle cresceu, o brejeiro!
Emfim, na rua! Caramba, mas é de noite! Como o tempo passa! E aquilo lá dentro continua. Uff!
Quem diz registos e décimas diz tudo. «Olhe, venha amanhã! Olhe, espere! Se tem pressa, vá andando». Emfim é um nunca acabar. O que se resolveria em qualquer parte num quarto de hora, em Portugal leva um dia, uma semana, um mês, um ano, uma eternidade. Isto é o país das eternidades. Primeiro que as cousas cheguem...
Eu jogo não sei há quanto tempo com uma cautela de três na lotaria. Sempre o mesmo número. Pois para verem como Portugal é o país do amanhã, só lhes direi que é rara a lotaria em que a cautela me não sai branca. Ora não sei se os senhores estão a ver que se fôsse em qualquer outra parte já me teria saído a sorte grande...
Mas o que me consola é que o tempo virá e acabará com o meu dinheiro, com a minha vida, com o número em que jogo, com a grande, com a lotaria, com a Santa Casa e até com a lembrança de tudo isto.
E não sei se os senhores estão a ver que isso será uma felicidade...
A decadência do jornalismo em França
Um articulista parisiense, parisiense pela finura da sua expressão, pelo subtil da sua análise e sobretudo pela leveza scintilante da sua prosa, Ibels, acaba de declarar decadente o jornalismo francês. E vem, com uma santa ingenuidade, uma destas ingenuidades para medalha de ouro, e um espanto nada correcto, nem do mundo, dizer que o jornalismo francês decai porque o que lhe falta são jornalistas; porque os artigoleiros são muitos e os articulistas são poucos e porque finalmente êle é o eco de tôdas as _chantages_, o eco de tôdas as calúnias, o gramofone de tôdas as mentiras e o acusador de tôdas as reputações. E, indignado, prossegue: «O periódico moderno pratica a medicina ilegal, recomenda venenos, serve de intermediário entre donas de casas suspeitas e jovens de menor idade. Insere e entretêm a correspondência amorosa e adúltera e vai mais longe, publicando um boletim financeiro em que milhares de môscas caem prisioneiras vendendo os seus títulos porque acreditam na sinceridade do periódico que lêem». E diz mais, que isto, que aquilo, resumindo que é tudo uma pouca vergonha desaforada. A propósito, para não perder pitada, ferra uma tunda no _Le Matin_, que na sua opinião é um intrujão que já de há muito deveria ter a redacção instalada numa das celas da Penitenciária de lá.
Eu não conheço Ibels. As suas conclusões parecem-me acertadas. Mas o que acho interessante são os seus espantos. Admira-se. Admirar-se a gente é mau sinal. O Eclesiastes tinha dito que nada de novo há debaixo do sol. Ora a pouca vergonha é mais velha do que o Eclesiastes. É talvez mais vélha do que o sol. Mais vélha do que o sol, do que os deuses, do que a terra e do que tudo quanto existe. A pouca vergonha é eterna. Não tinha pois de que se admirar. Eu é que me admiro (oh, santa incoerência!) do seu espanto.
A decadência do jornalismo em França vem de longe. Balzac já lhe estudou as causas nas _Ilusões Perdidas_. E caso curioso, nas _Ilusões_ havia tambêm um Luciano que se admirava. O articulista de agora é o Luciano de ontem. Está escrito: «Hão de existir Lucianos em todos os tempos!»...
Quem quiser saber destas cousas sem o tom acre de censura e lamento que perfuma o artigo de Ibels, antes com o tom risonho de quem está muito à sua vontade--como quem está em sua casa, por exemplo--deve ler um curioso artigo em tempos publicado na imprensa espanhola. Chama-se _Esplendores y miserias del periodismo_. Assina-o Gomez Carrillo, cronista do _Liberal_, creio eu, literato de Espanha vivendo em Paris e artista _urbi et orbi_ onde vá a língua de Quichote ou a respectiva tradução. Aí é que se diz tudo! Tudo e ainda mais o que disse Paul Pottier, homem lido e sabedor.--Ora diz Carrillo, e escreveu Paul Pottier, que «para 600 empregos no jornalismo há 3.000 jornalistas». ¡E se êles, todos êsses pobres concorrentes, soubessem o que os espera! Uma vida sugante e angustiosa. Nem horas de comer. Dormir incerto. São os cavalos de posta da notícia. É preciso lutar, lutar sempre. O que chega a Paris cheio de vontade leva um dêstes abanões que quási o deitam a terra. O jornalismo é uma luta. Não há jornalistas, há cavalos de corrida. ¿Qual dará o artigo, a notícia, o comentário mais desenvolvido, mais agaçante de pormenores, mais chorudo de minudências, mais dramatizado de bagatelas? O público quere. O público aguarda. Quere cousas novas, cousas inéditas, cousas imprevistas. Um assassínio? Isso é vélho. É preciso achar novo. Não há? inventa-se. Saber inventar, eis a questão em ocasiões difíceis.
Ao cabo de três anos num logar subalterno, tendo dado tudo o que trazia na cabeça, tendo gasto todos os seus nervos, puido tôda a sua vontade, sem nada no estômago porque se alimentou mal e irregularmente, com uma neurastenia aos ombros e o vácuo no cérebro, a criatura é corrida a pontapé do jornal e vai direitinha a um manicómio onde nunca mais a endireitam.
Os grandes jornais baixam as suas tarifas de pagamento. Quási todos desceram a linha a 15 cêntimos, com excepção de _Le Temps_ que paga 30, _Le Figaro_ que dá 25 e _Le Gaulois_ e _Gil Blas_ que não dão mais do que 20. É certo que Catulle Mendés cobrava de _Le Journal_ quarenta mil francos anuais, sejam sete contos e tal. Mas _Le Figaro_, que ontem dava a Huret 2:000 francos, não dá hoje a Serge Basset pelos teatros senão 1:000.
Harduin no _Le Matin_ recebe 1:500 francos, com obrigação de escrever todos os dias um minúsculo artigo. Sarcey recebia de _Le Temps_ 1:000 francos mensais pelos seus artigos. Octave Mirbeau e Severine, que no _Le Petit Parisien_ recebiam importantes honorários, foram dispensados da sua colaboração. E os contos que Fernand Xau pagava a 300, 250 e 150 francos baixaram a 25, e últimamente a 15 francos. E isto em jornais que tiram milhões de exemplares.
Os nomes cotados fazem-se pagar bem. Porêm para os que veem sem nome, para êsses, o caminho da imprensa é um calvário. São recebidos com duas pedras na mão; exactamente como no tempo em que Luciano queria o logar de redactor no periódico que tinha por Cerbero o vélho militar. E devemo-nos lembrar de que todos os citados são os bem pagos: os da fôrça de Mirbeau, por exemplo, que só com um artigo fêz o nome a Maeterlinck...
Considerai o que não será agora nos subalternos?!...
Um escritor que viva de escrever e que tenha já uma pequena voga vê-se obrigado a rebentar com trabalho para cobrar um estipêndio rasoável. As revistas não lhe publicam um artigo senão de três em três meses pelo menos, para não repetirem o nome do colaborador; os grandes jornais, de que êle vive, baixam-lhe dia a dia a tarifa. Os artigos reunidos em livro dão uma bagatela. Os livros que são enviados ao periódico, para criticar, vendidos e regateados não dão para o alfaiate. De maneira que a criatura vê-se e deseja-se.
Isto é tendo certo nome, porque de contrário nem as revistas lhe aceitam artigos, nem os grandes jornais lhe abrem a porta, nem os livros lhe chegam à mão.
E a tanto chega o descaramento que Magnier, senador, que largos anos possuiu _L’Evenement_, dizia aos seus redactores: «O que preferem os senhores? ¿Que lhes marque um ordenado de 500 francos por mês e não o pague ou que lhes dê 250 para os pagar?»
Quer o redactor aceitasse uma ou outra proposta, sabido era que não via cinco réis. E a maneira de alguma cousa receber era negociar com êle uma parte da página dos anúncios. Se não andava depressa na cobrança ficava sem real, porque o director mandava tambêm cobrar. E quantas vezes o redactor ao chegar não soube que os anúncios já estavam pagos...
Êste Magnier era caloteiro contumaz. Conta-se que Aurelien Scholl, a quem êle devia certa soma e não tinha maneira de a receber, uma ocasião ao ver passar o seu trem correu para êle, desprendeu os cavalos e foi vendê-los ao _Tattersall_. Foi uma inspiração divina. Senão podia dizer adeus ao débito.
A imprensa francesa explora o escândalo, explora o público, explora todo o explorável. Até aqui muito bem! Que há nisto de estranho? ¿Pois não é natural que meio mundo explore a outra metade? E Ibels, indignado, cita o Panamá, cita mil casos em que o «periodismo» tem sido nefasto. E deixa, o maroto, ficar no tinteiro a questão Dreyfus.
O jornalismo tem bons e maus. Que êle esteja decadente, não acredito. Êle é o reflexo do seu tempo. Exigir jornais sãos numa sociedade podre parece-me exigir de mais. De acôrdo que os maus sejam mais do que os bons! Mas isso que importa? Se às vezes um jornal só, um homem com uma pena na mão, fica nos séculos, sobreleva acima de tôda essa podridão, de todo êsse enxurro, de tôda essa vaza, cujo mau cheiro só o tempo purificará?!
Que importa, se um brado de Justiça vale mais do que uma multidão berrando, e se um jornalista de consciência vale mais, tem por si só mais fôrça do que um grande exército?!...
Que o jornalismo está decadente? Embora. Êle é ainda a árvore onde de tempos a tempos se empoleira uma criatura para dizer que o manto, o celebrado manto de el-rei da fábula não passa duma hipocrisia ou duma cegueira.
O Carnaval
Eu não posso folhear atentamente a obra de Rafael Bordalo sem me demorar nessa página suprema, traçada num minuto de tédio e feita num instante de aborrecimento: _A última máscara_. A última máscara é, escusado dizê-lo, a máscara da Morte. Se a do feto é a primeira máscara, a da caveira é a última. _A última máscara_, de Rafael Bordalo, representa pois a caveira.
Esta vida são três dias, diz-se. Êsses três dias simbolizam as três idades. O Carnaval são três dias, que tantos são os da vida. Esta vida é pois um carnaval. Murger chamou-lhe uma «máscara de forçados» outros lhe teem chamado o que melhor lhes tem parecido. Não inquiramos. Assunto complexo, se se quiser explicar, traz consigo complexas deduções. E não há assunto mais complexo do que a Vida.
O carnaval que a gente vê, ou por outra que a gente viu, é bem pior do que aquele de que a gente se lembra e bem melhor do que aquele que se verá. O carnaval tende a desaparecer. A graça foliona, travêssa, doudejante, morreu. O que por aí anda é outra graça, uma graça que sorri nos intervalos de tosse e nos intervalos do riso mendiga dez-reisinhos.
Se não, é ver-se como a fôlha mais bem escrita do Carnaval é a de quarta-feira de cinzas, esta quarta-feira em que vos escrevo, satisfeitíssimo por ter visto as ruas despejadas de mendigos enfarinhados, mendigos _pierrots_, mendigos _chechés_, e mendicidades ambulantes, danças, paródias, filarmónicas e _tutti quanti_. Passou a época das tremoçadas. Chapéu alto que passava era penante dado ao criador. Ninguêm se aventurava a sair. Despejavam-se barricas de tremoço sôbre o desventurado que ia assim mais asseadinho.
Uma criatura saía. Á saída da porta levava logo com uma luva cheia de areia pela cara que ficava azul. Andava mais um minuto e era uma assuada. Cada minuto cada nova aventura. Algumas de que saía mal-ferido. Á hora de jantar, quando a criatura recolhia e se inventariava, via com desgôsto que o chapéu estava inconcertável. A farpela cheia de farinha, com um ovo feito em estrêla nas costas, seis farpões de rabos postos e arrancados. Um ôlho a menos. O colarinho zebrado com uma longa lista de pós de sapatos. A camisola cheia de areia, a guedelha cheia de farinha e as botas--ah! as botas!--cheias de lama--porque soe chover quási sempre pelas entrudadas,--e a chuva é o protesto do infinito.
Vejam lá hoje. Tantas são as leis publicadas sôbre o Carnaval que a gente se vê na absoluta necessidade de consultar um advogado sôbre se será prejudicial atirar uma serpentina.
O advogado consultado promete estudar. Estuda e apresenta a sua resposta quarta-feira de trevas, ao mesmo tempo que apresenta a conta da consulta. São pelo menos 2$500. Vejam lá se há cousa mais interessante.
Antigamente a criatura, depois de borrifada com urina, zurzida de tremoços, mascarrada de pós de sapatos, enfarinhada, maçada e enlameada, recolhia num bolo, mas alegre. E resumia para a família:--Aquilo é que foi divertir! Agora não. Sai de chapéu alto, escovada, correcta, exactamente como se fôsse para aquelas
recepções da embaixada
em que há uma duqueza que sorri, «tão branca, tão decotada» que até dá vontade de a gente resumir, ao recolher a casa:--Ai, filha, que papança, o que traduzido em vulgar quere dizer:--Ai, filha, que maçada!
Ah! o Carnaval civilizado! ¿Já viram maior pouca vergonha? Antigamente a gente não saía. Agora, sabendo que volta com o arranjinho como foi, sai. Sai, e volta abrindo a bôca, espreguiçando-se, moída, sem ânimo, farta de ouvir baboseiras e de ver misérias ambulantes. As ruas são tristes. Os bailes são quási macabros. As mascaradas são lúgubres:--¿O cavalheiro dá licença que eu lhe atire êste saquinho de bombons?--Pois não! ora essa! O cavalheiro atira. A gente guarda. Chegando a casa abre o saquinho. Não são tal bombons. São feijões, são tremoços, é grão de bico. Comentário--Que intrujice!