Crónicas imorais

Part 10

Chapter 103,965 wordsPublic domain

Se abstrairmos do Carnaval e volvermos os olhos misericordiosos sôbre esta mascarada em que todos entramos, uns mascarados de sinceros, outros de cínicos, uns vestidos de moços fidalgos, outros de moços de fretes, uns vestidos de archeiros, outros de par do reino, a desilusão resulta pior. Porque, bem considerando, tudo na vida é mascarada e tudo são máscaras. ¿Por que razão é que, tendo um homem nascido nu e entrado na morte como a mãe o depôz cá neste mundo, essa súcia inventou que um bocado de galão dourado pôsto num braço provoca um gesto de submissão, e pôsto num caixão nos faz pensar nas vaidades de todos os galões e de todos os gestos? ¿Por que razão é que quem «rouba um milhão é barão e quem rouba um pão é ladrão», como diz o poeta? Tudo se mudou. «¿Antigamente não eram os ladrões pregados nas cruzes e não se pregam agora as cruzes nos ladrões?» Fala certo Junqueiro:

E não estala um ai de dôr em cada peito. E não submerge o monstro a cólera do mar, E a terra continua em seu girar perfeito; Ó Chimera, ó Tristeza, ó Justiça, ó Direito, Providencia onde estás, que te quero insultar!

A indignação passa, a miséria fica. E para que há-de a gente considerar em tanta miséria?!

É fatal. Se a gente scisma e se ensimesma, pobre _dominó_ sentimental! _Dominó_ lunático, sonhador escarnecido! Se a gente ama, pobre tolo, que anda na lua. Se acredita, que assuada! se considera, que filósofo! E não há que scismar, que sonhar, que amar, que acreditar e que considerar. É deixar-se ir no vortilhão, como quem aborrecido vai na onda, empurrado, sem sentir os empurrões, escarnecido sem ouvir os escárneos, apupado sem ter ouvidos para os assobios. Em resumo: É a vida um baile de máscaras muito aborrecido. Entra-se julgando a gente divertir-se imenso, e, quando se chega a quarta-feira de cinza, encontra-se, depois de muita maçada, morta de aborrecimento e de tristeza com êsse dominó embuçado, misterioso, que tem um riso eterno e que é o porteiro da saída. Êsse dominó é a última máscara. É a ultima máscara que mudamos e é o último mascarado que encontramos. Como Rafael Bordalo deveria estar morto de tédio para fazer a síntese duma filosofia num quarto de papel--a síntese da filosofia do riso, porque o riso é uma filosofia em que sempre se acaba a chorar.

Mascarada! Mascarada eterna! Mascarada que veio através dos séculos até nós e de nós irá por êsses séculos sem fim. Mascarados que todos nós somos. Quando falamos mentimos, quando juramos mentimos. Quando tentamos falar verdade ainda mentimos, porque a verdade não é mais do que uma mentira menos mentirosa. E, senão, que nos mostrem algum amor que o seja, algum amigo que não falseie. O amor--uma _Colombina_ e um _pierrot_--Mas livra-te de amar, porque serás o _pierrot_ traído. A amizade--uma espada que se quebra ao sair da baínha para nos defender. E entre outras desilusões, de vez em quando passa por nós sorrindo _a última máscara_, de Rafael Bordalo.

Eu invejo os que se divertem. ¿Como serão feitas lá por dentro as criaturas que se divertem? Não sei, e creio que nunca ninguêm o saberá. Invejo-as, porque não sei se elas existem. Acho mesmo que as criaturas nessas condições estão em igualdade com a do feliz, que Manuel Bento de Sousa pôz em quadras. O sultão, para se restabelecer da sua grave enfermidade, precisava nem mais do que da camisa dum homem feliz. Embaixadas, expedições, o demónio e nada. O homem feliz não aparecia. Interrogados os súbditos dos seus estados, à uma todos responderam que não, que não eram felizes. Só um pobre, que puxava a uma nora e cantava, respondeu que sim. Êle possuia essa cousa tão rara como o amor e como a amizade. Êsse era feliz. Foi o pobre diabo amordaçado e conduzido sôbre um camelo à presença do régio doente. Era a cura. Mas logo que o despiram se verificou com espanto que êle,--o homem feliz,--nunca tivera camisa.

É bonita a história, ¿mas quem nos diz se não será mentira? ¡Sucedeu há tanto tempo e num país distante!

E com estas e outras histórias, umas cómicas, outras trágicas, se passa a crónica e a vida. E depois à saída do baile, lá espera o _dominó_ fatal.

É por isso que eu me demoro, sempre que folheio a obra de Rafael Bordalo, nessa página que representa _a última máscara_.

Academias

Não sei se os senhores teem reparado que muito ao contrário da eterna verdade que Ibsen apresenta, no seu _Inimigo do Povo_,--«o homem mais forte é o que está mais só», que tambêm pode ser traduzida «vale mais só do que mal acompanhado»--o homem tem uma extraordinária tendência para se reunir e dizer asneiras de sociedade. E é fatal. O homem, alêm de tudo quanto é, ia eu dizendo, _Homo sapiens_ de Linneu, «o animal implume que ri» de Platão, é tambêm palrador. Palrador, sim, meus senhores! Prometam-lhe uma libra para estar calado uma hora. Ou diz ao fim de meia, como o outro, que «meia hora já está passada», ou pedirá ao fim de dez minutos de experiência, que guardem a libra porque se não fala rebenta.

Tem uma certa razão, valha a verdade. «Para viver só, é preciso ser bêsta ou Deus» disse Aristóteles. Nietzsche concluiu que há tambêm um terceiro caso; ser as duas cousas: filósofo. Ora nem todos são deuses, se bem que as bêstas abundem. Filósofos, não vai o tempo para êles. E a um ou outro que vem, quási sempre por engano, sucede-lhe a mesma cousa que ao _Misantropo_ de Castilho, aquele

«Severo Tristão de Matos»

que, depois de clamar, de se indignar e de ter estado não sei quantas vezes em risco duma apoplexia ou duma congestão

«Saíu da vida presente por farto de ver sómente falsos, vis, ladrões e ingratos».

Provado, pois, que o homem tem necessidade de se assembléar, para viver, logo foi inventar mil nomes para justificar a reunião. E então chamou-se-lhe, de _soirée_--sociedade onde a gente se aborrece, tendo ido para se divertir,--até _Academia_, sociedade onde a gente se diverte, tendo ido para se aborrecer. Não é das Academias recreativas familiares da rua onde a gente mora. É das outras. Cousa séria, grave, ponderada, onde se discute ou se dorme, mas quási sempre se dorme. Isto vem a propósito de termos agora mais uma Academia.

Ora há muitos anos que a gente tem outra--ali para as bandas de Jesus, que se chama, creio, Academia Real das Sciências. É uma sociedade onde os sócios teem fardamento tal como a Incrível Almadense ou a banda dos bombeiros de Chão de Maçãs. Fardamento, chapéu armado e espadim. Para que serve, não sei. Que tem feito? Quási nada. Um dicionário que ficou em _azurrar_. Ora eu entendo que em vista de nunca ter passado do A, sendo já tão crescidinha, se lhe dê outro ofício. Está provado que não nasceu para aquilo. E o que é mais, não tem vergonha nenhuma. ¡Sempre é uma tamanhona sem préstimo!

Bem visto, ela está no seu papel. As academias não se fizeram para fazer cousa alguma. Academia é para a gente se reunir, fumar a sua cigarrada, jogar a sua partidinha de dominó, com a municipal à porta, mandar para a mesa duas cartas que o ilustre sócio escreveu ali ou trouxe escritas de casa, dizendo--«Peço ao ilustre presidente o obséquio de dar essas cartas ao contínuo para as deitar no marco quando sair!» Ás tantas levantam todos a gola, dão as boas noites e desandam para vale de lençóis.

Teófilo Braga disse uma ocasião em público: «Academia é uma colecção de sábios, que caminha para o pedantismo». Foi muito amável. Foi muito amável porque se alguêm quiser saber o que é a nossa Academia Real, etc., consulte o _Cancioneiro da Vaticana_ no seu prefácio. Ali verá que nunca o _Cancioneiro_ seria impresso se não fôsse êsse benemérito sábio que foi em vida Ferraz de Macedo, o antropologista. Porque para ser impresso pela Academia não havia dotação e um dos membros da classe de literatura de quem dependia a aprovação do _Cancioneiro_ julgava que o texto era latim!

Mas há mais. Não havia dotação para o _Cancioneiro_, mas houve perto de dois contos de réis para gastar com o embelezamento das salas para a celebração duma sessão real, uma sessão solene. Com o dicionário já se gastaram algumas dezenas de contos de réis e não serve para nada, o estafermo. Não é caso para dizer «não estala um ai de dôr em cada peito», mas «e não há um arrocho que os desanque!»

Depois, ¿para que servem as academias? Que préstimo teem? Eu não lhes conheço nenhum. Nunca de nenhuma Academia saíu um homem de talento, e em compensão os que o teem e entram para elas perdem-no logo. Senão digam-me a obra grande, de utilidade ou de valor, que as academias tenham fomentado! Qual? Nenhuma. Crer-se-ia na plausibilidade disso se Academia não fôsse um vaso de víboras como o de Carlyle, víboras desdentadas, invejosas e pequeninas, e que, para não deixar entrar nenhuma ideia nova, nenhuma ideia grande, até pôs guarda à porta, exactamente como à porta dos parlamentos se põe tambêm guarda, que é para que a Justiça fique de fora.

Plauto, o cómico, não foi da Academia Real das Sciências. Cervantes, tambêm não. Shakespeare tambêm não. Camões, idem. Ora aqui estão uns mágicos que não precisaram, para entrar na imortalidade, de apresentar o cartão de visita tendo por debaixo do nome «da Academia Real das Sciências, da Sociedade Filarmónica Capricho Recreativo, da Sociedade dos «tacões ao domingo, etc.». E estou até desconfiado de que o porteiro, ao ver tal, e ter olhado bem para a cara do sujeito, lhe diz com um risinho e uma palmadinha no ombro:-«O amigo está enganado! Tem que descer. Isso é na cave!»

Porque a imortalidade é o único logar para que a farda não serve de passe de livre trânsito.

Malheiro Dias diz, nas suas _Cartas de Lisboa_, que «a mais alta categoria social não vale uma farda de simples adido de embaixada, com plumas de avestruz no bicórnio e folhagem de vinha e oliveira, bordada a ouro, na gola»; pois com êste simples fardamento os polícias fazem continências, os municipais abrem filas e a multidão comprime-se para dar passagem. Isto ao subir a calçada da Ajuda.

Será verdade. Mas agora aqui me ponho eu a pensar que talvez a farda não valha para a imortalidade, porque para ir para lá a Ajuda não é o melhor caminho. Sim. Deve ser isso. Assim é que Plauto foi moço de padeiro, Camões foi soldado e Cervantes soldado e pobretão, e entraram. Camões tinha farda, mas quando morreu estava no prego. Em compensação, dos ilustres fardados da Academia, o porteiro não deixa lá entrar nem três. Vejam lá se vale a pena gastar dinheiro no alfaiate quando o que é preciso é gastar noites a fritar os miolos.

«Cá e lá más fadas há». Isto não é de nenhum dos escritores que eu costumo citar. Isto é da sabedoria das nações. Os senhores já sabiam?! Pois em França é tambêm assim, quando não pior. A Academia dos Goncourts, fundada para dar um prémio ao melhor romance, não tem estimulado nada o talento dos bichos que concorrem. Tem-lhes estimulado mas é o apetite e a solércia. Não os podendo fazer mestres em romance, fá-los mestres na empenhoca. E por isso o premiado é sempre o que mais empenhos tem. Pois então.

Não se desconsolem os que não são académicos. As academias não são para todos. Isto é dúbio, bem sei, mas entenda-o cada qual como quiser. E estou escrevendo e está-me lembrando a caricatura de Zola feita por Gilbert Martin: Zola vestido de mineiro, cachimbo, botas altas e lanterna, oferece o braço à Academia, uma vélha esganiçada e tôla, ao mesmo tempo que lhe pisa a cauda. É claro que a vélha escama-se e não dá o braço. E a propósito da Academia e de Zola há outra publicada na _Silhouette_: Zola, com os seus livros às costas, puxa o cordão da campainha da Academia. Puxa, quebra o cordão e a porta não se abre. Zola não entrou. Objectar-me-hão: mas queria entrar! Queria por estar a porta fechada para êle. Por teimosia, por pirraça. Se lá entrasse o mais certo era... vir embora.

Maupassant disse que três cousas desonravam um homem: a Academia, as condecorações e a _Révue des deux mondes_. Depois, passados muitos anos, prestes a morrer, escrevia na _Révue_, estava para entrar na Academia e creio que era condecorado. Ironias do Destino. ¿Quem sabe lá se eu um dia tambêm serei sócio da Academia? Tudo é possível. Então serei um velhote grave, ponderado, sério, terei óculos, um grande horror ao galicismo, um poucochinho de pancada na mola, e uma coleira ao pescoço com a chapa da casa. Todos êles teem. Pancada na mola e um bocadinho de imbecilidade. Vai daí, a Academia forneceu-lhes a chapa para os distinguir da outra gente, e para que as prendas se não percam.

Pois quando eu lá chegar, ia dizendo... Mas emquanto não chego, ¿os senhores dão-me licença que acenda um cigarrinho?...

O passado

Desejar a morte é ainda querer voltar ao passado. E assim como há dias em que ser morto é a ânsia que me lança um baraço ao pescoço e me afoga, outros há em que uma ânsia regressiva me faz voltar atrás para tornar a viver sôfregamente os dias já vividos. Hoje é um deles. Lá fora o céu pôs o seu «plúmbeo capacete». Por vezes uma chuva miudinha e intérmina envisca tudo da sua frialdade. E as almas, ressentidas de tanta fereza, voltam-se a viver o Ontem, queimando o Hoje gélido na lareira das mornas recordações.

Recordar não é só privilégio dos vélhos. Lembrar, é ainda na vida o único lenitivo.

Ai! o que seria a vida para aquele que não tivesse a memória e a fantasia,--o Passado e a Ilusão.

Com a memória vive-se, com a fantasia sonha-se. Mas vive-se deliciosamente e sonha-se um sonho ainda mais delicioso. Por isso em dias assim,--um chuvisco frio minando as energias,--as almas vivem e sonham. Lá fora há lama e frio. Cá dentro, acesa a fogueira, principia o desfile.

Então não há recordação, carta de amor, beijo dado ou passado dia, que não traga o seu quinhão. São pequenas cousas, cousas mínimas que se transfiguram. A saudade vê sempre por vidros de aumentar. Aí começa a gente a viver com fúria dias maus, que, comparados com os de hoje, nos parecem bons, dôres sofridas que cotejadas com estas, nos parecem verdadeiros prazeres. Ao fim, quando aquela galopada furiosa desfilou, quedamo-nos encolhidos scismando: como a gente envelheceu! E a saudade manda recomeçar a sessão, como num animatógrafo em que a fita recomeçasse a passar.

Como é verdadeiro o dito do poeta: «e saudades até doutras saudades!» Sim! eu sinto isto. Não há dúvida. Uma grande ânsia de ser pinheiro, de ser oliveira, árvore perdida, rocha bruta, me atormenta. E a chuva cai.

O passado atrai-me. Os livros novos não me dão novidades, com o seu papel de alvura fatigante e a sua sorna monotonia. Não, os livros novos não são novos. Lembro-me de ter já lido isto! Aonde, não sei. Mas de-certo tudo isto eu senti, tudo isto eu vi já.

Estes amores, assim rasos, assim secantes, já por mim passaram. Estes versos já eu os ouvi. Tudo hoje à minha volta me deixa frio. Hoje não há senão aridez e sequidão. É o _simoun_ que turbilhona, arrasta e sepulta.

Os vélhos livros, com suas páginas amarelentas e os seus grossos caracteres, dizem-me não sei quantas vélhas saudades inolvidadas. Assim compreendo a paixão dos bibliófilos avaros, dos numismatas soberbos, de todos os coleccionadores e de todos que, estranhos ao seu Hoje, ou chocados pela brutalidade dele, se evadem da realidade pela porta do sonho e se deitam a correr atrás da fantasia.

Os vélhos livros contam histórias encantadas e escândalos sem par; sabem cousas que são o encanto dos vélhos e o deslumbramento dos novos. Oh! se vós soubésseis cousas que andam em vélhos livros?!...

Criaturas há que nem saudades teem. Saudades de quê? Nem saudades, nem queixas, nem esperanças. Tudo se lhes foi diluindo dia a dia. A miséria não deixa saudade: pode deixar lembrança. Deixa às vezes no esqueleto, no macerado das faces, na pele por colorir, sinais indeléveis da sua passagem. De resto, todos os seus dias são iguais. As suas noites parecem medidas pelo mesmo compasso. O ontem foi amargo, o hoje é tão amargo como o ontem. Olhando em roda, ninguêm. E em verdade, um ninguêm é sempre só, e não vale uma unidade um bilião de zeros. Se a criatura vive a vida bruta de animal, a sua única felicidade é êsse covil--o sono--onde as necessidades todos os dias a vão espancar, até um belo dia dele não voltar mais. É por isso até que chamam ao sono irmão da morte, como a Bíblia, ou primo, como o nosso Eça de Queiroz.

Outras há para quem o sono é sómente «o aquário da noite», como quere Vítor Hugo. Para essas o sono não é um covil tranqùilo onde se possa descansar. No sonho se continua a vida e quem morre a sonhar não chegou ao fim do seu romance. Essas, que nem no sono teem prazer, votam-se a viver a vida já vivida e quando a não teem para viver--gente há que não viveu nunca!--imaginam-na. Outras ainda vivem a vida lida. Não é a sua nem o seu mundo que habitam. É o mundo dos livros que leram, das personagens que idearam, das criaturas que só em sonhos são reais.

A vida de hoje, para as almas sensíveis, é duma brutalidade exorbitante. Daí a debandada ser cada vez maior. Uns evadem-se para não voltar; outros deixam só o corpo. A alma--o que em nós pensa, sente e quere, da filosofia antiga,--essa não anda dentro de muitos corpos, evadiu-se tambêm. Recordar, recordar! ¿há lá cousa mais pungente e mais deliciosa? Felizes os que sabem e podem recordar!

Ora imaginem que a velhice, o inverno da vida ou o que quiserem de mais amargo chamar-lhe, não tinha êsse brasido longo e aquecedor da recordação?! Imaginem-na agora sem memória?! Porque cruel é já arrancar-lhe a destreza no jôgo das armas, a agilidade nos músculos, o calor nos beijos, o entusiasmo na palavra; roubar-lhe a beleza, a fôrça e o amor; roubar-lhe a aventura e o garbo. Cruel é dar-lhe o reumatismo que lhe emperrou as articulações, a razão que lhe moderou os entusiasmos, a experiência que lhe roubou calor aos beijos, e o abandono de vida que lhe tirou o garbo e a beleza. ¿Que nome não teria, que inédita crueldade não seria a de lhe roubar tambêm a memória--a única mocidade dos vélhos? «De vélho torna-se a menino», diz o adágio. E a única felicidade é lembrar. Tornar a sentir os mesmos beijos, tornar a viver os mesmos dias. Povoa-se-nos a vida de espectros. Vivemos com mortos. Vive com mortos quem vive de recordações. Todavia, que delicioso não é?!

É por isso que hoje, dia em que o céu se forrou das mais escuras côres, e a chuva toca marselhezas de _spleen_ nas vidraças, eu busco vélhas lembranças, lembranças de outros dias, lembranças de outras lembranças, «saudades de outras saudades.» E da minha estante tiro um livro poeirento e antigo onde se lê, quási apagada, uma vélha história de amor...

¿Qual de vós não sentiu já, por vezes, esta ânsia de recomeçar novamente? ¿Fazer de novo a obra já feita, ganhar de novo o já ganho, de novo sofrer o já sofrido, beijar o já beijado, amar o já esquecido, e tornar depois, ainda, a recomeçar? Todos, de-certo. Êste desejo sentiu-o tôda a gente. Mesmo sem sêr vélho, mesmo sem ser gasto. Um dia de chuva basta para nos lavar dos egoísmos e desenterrar em nós amargas recordações. O inverno desperta sempre saudades para nos dar lágrimas. O sol, o «claro sol, amigo dos heróis» se nos dá vontade de partir é consoladoramente, como quem nunca sentiu saudades, porque a saudade, sendo o único mal, é o único bem da vida. Quem tem saudades não deseja a morte. A morte é o fim e só se chega ao fim quando não há mais nada.

Pois bem. Recordo hoje. Tôda a minha vida desfio, lentamente, como as contas dum rosário em dedos de monja crente. Busco, rebusco e, como alguêm, que, buscando, volta as fôlhas dum livro, não encontro nada. Nenhuma saudade, nenhuma recordação. Quimeras não tive nunca, e esperanças não tenho já. De tanto esperar, desesperei.

Se alguêm, como a Job, me perguntasse, na hora extrema, na hora derradeira em que as memórias se reunem em volta do frio leito, como no soneto de Antero, se quereria recomeçar de novo, fazer de novo a obra já formada, beijar de novo os beijos já beijados, crer de novo os sonhos já mentidos, eu, a-pesar do meu amor ao vivido, virando-me para o outro lado havia de responder, juro-lhes:--como é triste o dia, lá fora!--Que não, que não valia a pena.

Entrado na agonia, não voltaria os olhos. Não fôsse a Saudade querer, a-pesar de tudo, entrar comigo a larga porta que dá para a eternidade.

O calor

Os senhores leram já de-certo, aquele livro _Á Esquina_, onde há um trecho maravilhoso que se intitula _Ceifeiros_? Leram? Pois como Flaubert, ao descrever o envenenamento da Bovary, sentia na bôca o sabor do arsénico, eu, ao ler pela primeira vez o trecho do _Á Esquina_, senti a sensação do calor. E a mesma ânsia de ir buscar água fôsse onde e qual fôsse, a mesma intraduzível agonia dos ganhões do Alentejo, se apossou de mim. Água! água! E êsse martírio que não conhecia, como um pesadelo, tornou-se realidade. Lisboa deixou de o ser. Tornou-se Alentejo, tornou-se África, forno, o que quiserem.

Nem uma aragem move as fôlhas. Os pássaros, de bico aberto, respiram a custo. A gente deitou fora todos os superlativos do trajo. Foram-se as camisolas, foi-se o colete, buscou-se o mais transparente casaco. E como é de uso sentirmos o mal alheio quando nos toca pela porta, aqui me ponho, mente soturna e cogitativa, a lembrar a agonia dos fogueiros, êsses homens sepultados no interior dos grandes transatlânticos, de todos os que trabalham sob a pressão de altas temperaturas, no mar ou em terra, em oficinas ou fábricas. E afigura-se-me horrível agora, que o ar me falta e tôda a terra zumbe à minha volta, tonta de sufocações. Mas, é claro, logo que surda a primeira aragem, já a miséria dêsses proletários me será tão indiferente como a morte de algum mandarim desconhecido nos limites do Celeste império dos mandarins, do chá Pouchong e dos papagaios de papel.

Com êste calor nenhuma ideia se manifesta. E como é impossível trabalhar, deita-se a gente a admirar o que os outros fizeram... em ocasiões em que a temperatura de-certo não pesava tanto. Escrever? qual! A tinta é inútil. Tanto se sua, que já a tinta se dispensa. Um regatozinho vem do tórax ao punho, do punho à caneta e daí ao papel, acompanhar e colorir o garatujar da pena de aço. Por isso, os artigos agora não são escritos, são suados. Um movimento não é um movimento; um gesto é um sudorífero.

Energia? decididamente não há energia com um calor dêstes! Ainda que se diga à criada para a meter dentro dum balde de água quando se vai buscar, ela está tépida--é uma energia água morna, uma energia sem gana, sem nada, muito a pedir pílulas Pink ou uma carapinhada.

Tambêm, justo é dizer que para nada é precisa. Não é precisa para pôr um credor a andar, porque qual seria o credor, quem tão herói seria, que se aventurasse a atravessar a cidade debaixo dum calor dêstes? Sim, porque uma pessoa sai de casa, e, a não ir dentro de um frasco, ninguêm lhe garante que chegue ao seu destino. Já não é a primeira que se derrete pelo caminho. Não sendo precisa para um crédor, ¿para que diabo será urgente? Meia Lisboa foi-se embora e a que não foi, ou vai ou tenciona ir. Porque ir em pensamentos é quási o mesmo que ir em realidade. Razão por que há tanta gente contente em teoria.