Part 11
O calor não é tão realmente mau como se imagina. Dum casal pobre sei eu que come fiado todo o inverno. Fregueses antigos, a mercearia vai fiando e agora por esta altura deve o rol andar por uns sessenta a setenta mil réis, um absurdo para um par miserável. O merceeiro, porêm, logo que o calor aperta, esfrega as mãos de contente. E todo êle é fariscar a atmosfera, sondar, fazer perguntas a respeito dos astros. O casal, averigùado o interêsse do merceeiro, vim a saber, paga de verão a conta tôda e gasta algumas arrôbas de açúcar. Êle e ela, cada um para seu extremo da cidade, com uma quitanda portátil, vendem refrescos e manipulam limonadas, com um furor que toca as raias do delírio. Á noite, recolhidos a casa, se não ganharam tanto como um director geral, sempre lhes sobra para deitar abaixo uma talhadinha da conta do merceeiro. Daí o contentamento dêste e o contentamento dos que vendem. Porque todo o desespêro é dos que pagam.
Trinta e duas limonadas, meu caro amigo, dizia-me um cavalheiro, trinta e duas! E eu, estarrecido, tocava a mão em cujas veias circulavam trinta e duas limonadas. Decididamente, o cavalheiro não era cavalheiro, era um contador de pressão. Se lhe desandassem a torneira, apagaria um incêndio.
Se o telefone toca, já se sabe para que é: para pedir ao Silva, da _Violette_, que mande um refrêsco. E metem-se empenhos. Perguntem a um homem célebre neste momento:--¿O cavalheiro diz-me qual é o seu ideal? Ora a resposta é sabida. O cavalheiro passa a mão pela lustrosa gaforina, scisma, dá dois estalinhos com a bôca e, depois, solene, com o ar macbético e profundo de quem vai responder à imortalidade, diz: «O meu ideal? O ideal seria um capilé! sentir o criado trazer num cristal o líquido colorido, tocar-lhe e sentir a sensação de frescura; saborear depois a pequenos goles, hein! Pois não seria o ideal?» Concorda-se, é claro, e manda-se vir: «Rapaz, dois capités!»
Uma ocasião, foi isto em 1849, Gustavo Flaubert e Maxime du Camp desembarcaram no Egipto. Subiram o Nilo e internaram-se no deserto só com 3 odres de água, uma água mais do que morna, pútrida e detestável, que era transportada sôbre um camelo. Uma fatalidade fêz com que o camelo caísse e esmagasse os odres, perdendo-se a água, que nunca mais, durante três dias, se pôde encontrar. Conta M. du Camp: «Tinha a bôca sêca, os lábios farinhentos; a bicharia do meu dromedário tinha-me invadido e devorava-me. Na nossa pequena caravana ninguêm falava...» E com uma minúscula pederneira quebrada colocada sob a língua, para entreter a actividade das glândulas salivares e neutralizar um pouco a sêde, os desgraçados agonizavam. Os senhores tirem o suplício por êste calor. Imaginem êste inferno,--eu sei lá--elevado ao quadrado! Senão quando, de repente, pelas 8 horas da manhã, ao passarem num desfiladeiro--uma fornalha--Flaubert numa obsessão doentia se volta para M. du Camp e lhe diz: «¿Lembraste dos sorvetes que se tomam no Tortoni?... O sorvete de limão é uma cousa superior; confessa que não desgostarias de engulir um sorvete de limão». Daí a 5 minutos: «Ah! os sorvetes de limão! em redor do copo há um vapor húmido que se assemelha a uma geada branca». E já du Camp, azêdo, ofegante, agonizado, lhe volvia: «¿Não seria melhor mudarmos de conversa? Flaubert, teimoso: «Seria, mas o sorvete de limão é digno de ser celebrado; enche-se a colher, isto faz como que uma pequena cúpula; esmaga-se brandamente entre a língua e o céu da bôca; isto derrete lentamente, frescamente, deliciosamente; isto banha a úvula, isto roça pelas amígdalas, isto desce até ao esófago, que não fica zangado, e cai no estômago que estoira de riso, tão contente está. Aqui para nós, faltam os sorvetes de limão no deserto do Qôseir!»
Maxime du Camp agarrou-o terrívelmente e esteve em quásis de o matar. Só depois de ter bebido a saciar-se, Flaubert o tomou nos braços e lhe disse: «Agradeço-te o não me teres quebrado a cabeça com um tiro de espingarda; no teu logar, não teria resistido».
E agora, contada a história, digam-me se, como Esaú, não trocariam a progenitura por um bock ou se não dispensariam a glória, a imortalidade, a academia, eu sei lá, por um dos tais sorvetes de limão do Tortoni? Porque, com franqueza, ¿qual de vós, ao menos a sonhar, não parafraseou a frase célebre de Augusto pedindo a Varo as suas legiões? Qual de vós não acordou uma noite destas em gritaria aflitiva, bradando:--José, José, traz-me um sorvete!
Os bastidores do Génio
Zola--Wagner--Gorki
a Eduardo Schwalbach.
Sienkiewicz, êsse forte e original Sienkiewicz, que a multidão consagrou pelo martírio da sua Lígia, o amor da sua Eunice e a _linha_ orgulhosa e aristocrata do seu Petrónio, tem em tôda a sua obra um livro maior do que êsse _Quo Vadis_ aclamado e do que êsse _Dilúvio_ de que se fala tanto. Intitula-se, na tradução portuguesa, _Sem Dogma_.
Pois foi nesse livro, quási esquecido, que eu topei um dia com esta frase intensa: «_todo o homem tem em si a sua tragédia_». Se, na sua generalidade, ella é já precisamente humana, quando se aplica a artistas toma a sua expressão mais flagrante e mais real e, então, como certas palavras de que fala Daudet, que quando se pronunciam abrem um horizonte inteiro ao pensamento, visiona qualquer cousa do abismo dessas almas de que se conhece só a superfície.
Foi com a tragédia espantosa dêsse russo, que está agora prendendo a atenção do mundo--êsse Máximo Gorki que é tão grande como Tolstoi--que eu me dei a considerar a tragédia de todos os que lutam pela Arte, almas de luz e fel, que, como êle na sua passagem para a Glória, escondem uma odisseia de torturas, amassada de lágrimas e feita de ânsias e tormentos.
Essa tragédia dolorosa, indescritível, convulsa, misto de aromas e travores amargos, esperanças e desilusões, é a que transborda para as suas personagens, para as figuras que criaram e a que deram vida. Se uma figura às vezes atravessa um livro inteiro, um drama, uma peça inteira carregada de amargura--tanta que infunde piedade,--é que o seu autor trazia muita consigo. Se sofreu tanto que se impõe à nossa admiração, lá está por trás dela êsse homem transfigurado, às vezes grandioso e ridículo, que chora as suas lágrimas e sofre as suas dôres porque a tragédia das suas personagens é arrancada da sua própria tragédia. O autor é o seu primeiro actor. É a sua tragédia que êle ali estadeou e autopsía. Tôda a porção de ridículo, de mágua e piedade, de cólera e compaixão, todo êsse arco-íris de sentimento não é mais do que qualidades suas que êle transportou, corporizando-as no papel. Não é a vida alheia que êle vive. É a sua. Todos os dramas, tôdas as tragédias que êle patenteou nos seus romances, nas suas peças, nos seus quadros, na sua música, não foram mais que uma janela que êle abriu à alma para nos mostrar a sua tragédia.
¿Pois o Dr. Storkman do _Inimigo do Povo_, de Ibsen, não será a sua própria encarnação dentro do drama? ¿A luta que Storkman sustenta contra o egoísmo e a mesquinhez do seu _meio_ não será a mesma que Ibsen sustentou, para conseguir impor a sua arte?
¿As outras figuras não serão figuras que êle sentiu à sua roda molestando-o,--vivendo-as por conseguinte? ¿Brand, Solness não serão ainda êle? Ibsen conheceu o insucesso, lutou, lutou e venceu. ¿A estranha conclusão a que êle chega no _Inimigo do Povo_ não será a conclusão que cimentou das suas horas de odiado e guerreado?
¿Swit na sua obra não se identificou tão profundamente com ela que antes parecia tê-la vivido e representado? ¿A tragédia do célebre _Kreissier_ de Hoffman não será por acaso a sua?
Em Flaubert a tragédia é tão intensa que chega a confessar que, na ocasião de transportar ao papel o envenenamento de M.ᵐᵉ Bovary, sentia na bôca o sabor do arsénico. Edmond Goncourt, no _Journal_, falando de seu irmão Jules, dá-nos uma prova flagrante disso, dizendo que à fôrça de se analisarem, de se estudarem e de se dissecarem, chegaram a uma sensibilidade super-aguda, que os fazia assim viver a vida das suas personagens.
¿Pois não arrastou dentro de si esse bárbaro Shakespeare a tragédia tormentosa do seu rei Lear, a loucura sonharenta dêsse Hamlet, a perfídia de Macbet e a candidez da sua Ofélia? ¿Não se descortina em tôda a obra dêsse melado e extraordinário Daudet a sua tragédia? ¿Dickens, Póe, Baudelaire, Verlaine e êsse Rollinat, cuja morte estranha ainda está na memória de todos, não se encarnavam na sua vida literária, não eram aquelas páginas, aqueles versos, aqueles dramas arrancados de si, motivados por essa super-intensidade de sentir análoga à dos Goncourts e que lhes faz ainda maior a sua tragédia?
Wagner é o herói da sua novela, _O fim de um artista em Paris_, como Gorki é o padeiro do seu conto dos _Vagabundos_. ¿Zola, essa forte organisação de génio e de trabalhador, não se retrata nesse belo e inolvidável conto _Nantas_? Não sentiu êle o seu Nantas? ¿Não viu Paris, faminto, correndo tôdas as portas à procura de emprêgo, sofrendo tôdas as recusas, sentindo inamovíveis aos seus desejos todos os corações, fechadas tôdas as almas, exactamente como o seu Nantas quando voltava à noite a casa, cambadas as botas, alma sêca, cheio de lama, tendo corrido dum extremo ao outro extremo todos os _boulevards_ da cidade? E não lhe pôde êle dizer um dia, exactamente como Nantas--Agora és meu?!
Nantas, como Zola, é um moço que chega a Paris sem um ceitil na escudela e que o corre todo a procurar uma côdea, porque Nantas, exactamente como Zola, teve fome. Depois consegue triunfar, mercê duma incrível tenacidade, duma fôrça hercúlea. Chegara. Como Zola ainda!
Audran passou miséria. Maupassant, Daudet e Balzac conheceram a vida, o mais ingrata possível.
Chatterton, para fugir à miséria, pediu refúgio à morte. Bernardin de Saint Pierre não tinha uma camisa para vestir. A miséria de Milton e Homero é tão indubitável como o seu génio. Savage morreu de frio numa rua de Paris. Camões e Gilbert, como Verlaine, foram varar a carcaça à cama do hospital.
Villiers de l’Isle Adam e Barbey d’Aurevilly, Shakespeare e sabe Deus quantos outros, morreram na miséria. É esta miséria, eterna companheira dos artistas, que Wagner invoca no comêço da sua _Visita a Beethoven_. «¡Pobreza, dura miséria, companheira habitual do artista alemão! É a ti que, escrevendo estas memórias, te devo invocar. Quero celebrar-te, fiel companheira, que sempre me tens seguido a tôda a parte.»
Entre os portugueses, êsse génio esquecido de S. Miguel de Seide, sem estátuas, nem ruidosas consagrações, mas com uma obra maior do que isso tudo, ¿não sofreu essa angústia do _Amor de Perdição_? ¿A sua obra, essa gigântea _Comédia humana_, não foi dele que saiu, da sua tragédia? ¿De que porção enorme de lágrimas, de amor, de amarguras, de todo êsse misto sem nome, não seria feita a tragédia dêsse homem? Tão grande ela era que chegou para êle a dividir por uma centena de criaturas, que vergam muitas vezes sómente ao pêso da pequena parte que êle lhes quinhoou e que, comparadas à sua, não chegam, sequer, a ser uma lágrima no Atlântico.
¿As criações do nosso Eça não serão figuras que êle sofreu, que viveu e que o rodearam? Temos ainda Fialho de Almeida, o extraordinário colorista do nosso tempo. ¿Pois não é êle quem, na sua autobiografia, confessa que viveu alguns anos de prodígios económicos, alguns miseráveis cobres que não compensavam nem sequer o que para os apanhar tinha suado?
¿Veja-se, perscrute-se um quadro de Rembrandt ou de Sequeira, uma tela de Goya ou um esfumado de Assunção, uma partitura de Wagner ou uma sinfonia de Beethoven, e que tragédia não há em tudo isto, como aquela arte não é suada e sofrida, que soma de trabalho não representa?
¿Quantas horas de canseira para daguerreotipar um tipo, caricaturizar o grotesco duma figura, fazer o esquiço ou a _silhouete_ apenas doutra; o aguardar dum beijo, o _facies_ contorcido duma máscara, o estilo que sabe a carícias, a armures, a fofos dedos e amarrotadas sêdas? ¿Que soma de ânsia e de suor não representam as figuras convulsas de Dostoiewski, a beleza formidável dos ladrões e dos vagabundos de Gorki, o diavolismo de Barbey d’Aurevilly; em d’Annunzio, a torturada confissão do seu _Episcopo_; em Zola, o naturalismo da sua _Naná_ e de _Le Germinal_, a delícia suprema de _Le Rêve_ e a singularidade de _La Bête Humaine_; o esmerilhado feminil dêsse Gauthier, o espiritualismo de Maupassant e de Huysmans, a saudade voluptuosa de Pierre Loti, e a psicologia burguesa de Bourget?
O público de nada sabe. ¿Que lhe importa a maneira _como e porque_ se fêz a arte? E aí está como às vezes passa despercebida a _genesis_ de obras que as gerações que vierem, mais justiceiras talvez, hão-de apreciar devidamente.
A tragédia abraça todo o artista. Vai de Zacconi a Zola, como foi de Raphael a Guttenberg, ou de Sócrates a Platão, e encontra-se igualmente na freira portuguesa, essa Sóror Mariana apaixonada, e na alma dêsse pessimista violento e cruel que se chamou Schopenhauer.
O destino aproximou no génio estes três nomes: Gorki, Zola e Wagner, como os tinha aproximado na mesma odisseia de desventura. O músico alemão, o contista russo e o escritor francês identificam-se poderosamente.
Wagner, refugiado em França, chegou aos últimos apuros. Zola, quando veio para Paris, sem nome e sem dinheiro, passou uma vida aflitiva primeiro que o seu nome fôsse conhecido. Na rua Soufflet, numa hospedaria onde habitava e onde as rusgas da polícia eram freqùentes, viveu Zola uma vida espantosa, no dizer dum dos seus mais dedicados biógrafos. «Conheceu ali tôda a classe de privações. As suas comidas eram pão e café. Ou bem pão e dois soldos de queijo de Itália, ou pão e dois soldos de batatas. Algumas vezes sómente pão! Outras nem isso sequer! As roupas iam parar, umas após outras, ao monte da Piedade.»
Era então, como de Wagner, a pobreza a sua companheira habitual. Quando a última peça de vestimenta se havia sumido, aí estava Zola forçado a ficar em casa, envolto nos lençóis e na coberta. Nem por isso ia a pique a serenidade, e essa maneira de trajar denominava-a, pitorescamente, _fazer de árabe_, aludindo aos muitos árabes que se viam em Paris, envoltos nos seus albornoz brancos. ¿Quem sonharia ali o futuro autor da _Obra_, do _Germinal_, e o defensor heróico de Dreyfus? Mas Zola é o maior exemplo de tenacidade do mundo inteiro. Como êle triunfou todos o sabem. O seu nome é hoje tão ou mais universal que o dêsse vélho conde russo,--Tolstoi. Mas, mais do que êste, conseguiu desencadear sôbre si todo o aplauso e furor humanos, uma verdadeira tempestade de palmas e de ódios, de admirações e de rancores.
Gorki é perfeitamente a sua obra. Ela só trata de miseráveis, de vagabundos, de ladrões, criaturas sem lar e sem abrigo, sem um braço onde repousem a cabeça, nem uma bôca que lhes cicie palavras de confôrto e de resignação. Foi moço de bordo, padeiro, vagabundo, barqueiro, operário, guarda de linha, tudo quanto um homem pode ser. Correu meio universo, sentiu em erupção a sua dôr e a alheia e disso fêz uma _obra_. Plena de emoção, vibrante, e cheia de saudade, nenhuma outra, que me lembre, é tão intensa. Contou o que tinha sofrido e só isso lhe deu o triunfo, só isso lhe aureolou o nome da admiração universal. Triunfara! ¡Mas para quantos o triunfo chega tarde!
São assim os grandes espíritos. Quere êles se chamem Danton ou lord Byron, Homero ou Bonaparte, Pedro, o discípulo, ou Plínio, o sábio. Todos teem seu martírio e sua consolação; mas no que todos devem concordar é que a glória é uma cousa bem amarga!
A tortura do Estilo
Eça de Queiroz
A Afonso Lopes Vieira
O estilo é o calvário do escritor. Os profanos não calculam quanto de energia, de paciência espectante, de trabalho, custou um capítulo ou uma página, um período ou uma frase dêsses volumes, que são o passatempo da maioria e a idolatria das almas nascidas para o Belo. Essa espontaneidade que tanto admiramos e que tão celebrada é; êsses versos tão fluentes e apaixonados, que julgamos nascidos dum só jacto; essas páginas de fogo que parecem feitas dum só bloco; essas tiradas tão dramáticas que dir-se-iam brotadas dum só arranco, que trabalho louco não deram aos seus autores?! Charles Baudelaire diz que a inspiração «consiste em trabalhar todos os dias», e Baudelaire percebia disso. Ora a espontaneidade, ainda que isto pareça um paradoxo, é, como a inspiração, produto de muitos dias de trabalho, de muita fadiga, de muita noite perdida a burilar a forma, a perseguir a ideia, a dar à emoção a sua veste mais atraente e mais adequada.
O escritor não se pertence. Um dos seus mais tirânicos senhores é o Estilo. O Estilo é a grande tortura. O que esgota, que envelhece, o que arruina. Tudo exige esta dolorosa profissão. As nossas emoções e as nossas angústias, a nossa fantasia, a nossa paciência. O escritor, ao fim de certo tempo, não tem dôres nem emoções suas. A própria vida e todo o seu cortejo de acontecimentos passa a ser encarada como um _motivo_ de arte. Tudo são _motivos_. É a deformação profissional, idêntica à do magistrado que só vê criminal, do médico que só vê morboso, do militar, do especialista. Para êle nada mais existe do que o _assunto_ e depois do assunto a _forma_.
Para alguns a _forma_ não é mais que a imprescindível maneira de exprimir o pensamento. Para outros, porêm, os mais artistas e os mais amados, a _forma_ é objecto de longa tortura.
Foi êste o suplício que matou alguns dos mais notáveis homens de letras. Maupassant, em seguida a uma dessas cruciantes sessões, atirou uma navalha de barba às goelas, e foi morrer numa casa de saúde. E não só Maupassant. Há mais; mas para que citá-los? Sabe-se que a maioria dêstes obcecados da perfeição morre neurastenizada, louca ou esgotada.
¿O que amargurou a vida do nosso Eça, a de Balzac e a de tantos outros senão a _forma_? As correcções, que primeiro se fazem normalmente, a breve trecho tomam foros duma das mais obsidentes fobias.
Almas insatisfeitas, nunca uma linha lhes saíu das mãos sem que ela tivesse realisado a imaginada beleza, a perfeição sonhada. ¿E quantas vezes essa perfeição não vinha e êles se gastavam a persegui-la com uma paixão e um furor que tocava as fronteiras da loucura?
Entre os mártires do Estilo o nome de alguns tem ficado lendário. São as vestais da Beleza. A sua vida é uma odisseia de sofrimento, de abnegação e de sacrifício. Por isso as suas obras duram mais que a sua existência efémera e sofrida.
O mais torturado é Flaubert. Nunca nenhum escritor teve em tão alto grau a ânsia da perfeição, nem nunca a _forma_ teve tão apaixonado admirador. ¿Porêm que tormento não é tôda a sua vida, que exemplo de martírio ela não representa? Para escrever as trinta páginas da _Herodiade_ levou 900 horas e regista como um raro exemplo da sua fecundidade o ter escrito vinte páginas em um mês!!! «Escrever era pois para êle uma cousa temível, cheia de tormentos, de perigos, de fadigas», diz um dos seus biógrafos, o seu discípulo Guy de Maupassant. «Ia sentar-se à mesa com o mêdo e o desejo desta tarefa amada e torturante. Ali permanecia, durante horas, imóvel, encarniçado no seu trabalho assustador de colosso paciente e minucioso que construiria uma pirâmide com bolas de criança. Enterrado na sua poltrona de carvalho de alto espaldar, a cabeça encolhida entre os seus fortes ombros, olhava o papel com o seu ôlho azul, cuja pupila muito pequena parecia um grão negro sempre móvel»... «Depois punha-se a escrever, lentamente, parando incessantemente, recomeçando, riscando, sobrecarregando, enchendo as margens, traçando palavras dum lado a outro, escrevendo vinte páginas para acabar uma, e, sob o esfôrço penoso do seu pensamento, gemendo como um serrador de pranchas...» «E, a face túrgida, o pescoço congestionado, a fronte vermelha, tendendo os músculos como um atleta que luta, batia-se desesperadamente contra a ideia e a palavra, apreendendo-as, emparelhando-as a seu pesar, mantendo-as unidas duma maneira indissolúvel pelo poder da sua vontade, apertando o pensamento, subjugando-o pouco a pouco com uma fadiga e esforços sôbre-humanos, e engaiolando-o, como um animal cativo, numa forma sólida e precisa.»[1]
A sua correspondência está cheia de confissões amargas, as suas cartas, tôdas elas, teem alguma cousa da tortura que o persegue. Em tôdas se autobiografa e analisa, com uma resignação e uma amargura raro excedidas ou igualadas.
Um dia escreve a Maxime du Camp: «estou-me tornando duma dificuldade artística que me desola», para depois escrever a Madame X.: «Não sei como algumas vezes os braços me não caem de fadiga e a minha cabeça se não faz em papas. Levo uma vida áspera, deserta de todo o contentamento exterior, e em que não tenho nada para me manter senão uma espécie de raiva permanente que chora algumas vezes de impotência, mas que é contínua. Amo o meu trabalho com um amor frenético e pervertido como um asceta; o cilício raspa-me o ventre...»
Há uma carta em que, como um grito, se ergue[1] esta frase, que tudo em si resume, condensa e encerra: «a deplorável mania da análise esgota-me». E foi certo.
[1] Consulte o leitor o esplêndido e paciente trabalho do Dr. José de Magalhães, _O Pessimismo no ponto de vista de psicologia mórbida_, Lisboa, 1890. Tese apresentada e defendida perante a Escola Médica de Lisboa. É um grosso volume de 500 e tantas páginas repleto do ótima prosa e excelentes informações sôbre Leopardi, Schopenhauer, Flaubert, Baudelaire, Amiel, etc.
Foi afinal essa «deplorável mania» que fêz da sua vida um inferno e que mais depressa o levou desta para melhor.
Emquanto a Balzac ouçamos o que das provas dos seu livros diz êsse outro grande artista e grande torturado que se chamou Theophilo Gauthier: «Linhas, linhas que partem de tôdas as palavras para as margens à direita e à esquerda, para cima e para baixo, conduzindo intercalamentos, incisões, mudanças, supressões, aumentos. Ao cabo de algumas horas de trabalho, dir-se-ia, um fogo de artifício pintado por uma criança.
Do texto saem foguetes que estalam em palavras manuscritas. E são cruzes e sôbre-cruzes, estrêlas, sóis, cifras árabes e romanas, letras gregas e tôda a classe de sinais. Como as margens não chegam, cola bocados de papel com obreias e segue emendando, emendando sempre».
Balzac corrigia tudo nas provas. Chegava a 10.ª ou 12.ª para que emfim pudesse ser impressa a fôlha. Morreu aos 50 anos de excesso de trabalho, de noitadas e de café e escreveu noventa e sete volumes. «L’argent partout l’argent, l’argent toujours: ce fut le persécuteur et le tyran de sa vie», diz Taine. Pois a-pesar disso foi tão artista que conseguiu resistir a uma das cousas mais irresistíveis:--a falta de dinheiro. A necessidade não subalternizou o seu talento até à transigência. A sua obra o demonstra.