Part 8
A um caso assisti que me mostrou bem qual a ideia que o povo faz de como elas são adquiridas: Quando nos visitou Afonso de Espanha, sucedeu passar pelo local onde me achava um ilustre desconhecido, cujo peito era couraçado por tôda a sorte de condecorações. Uma se avantajava e impunha o seu destaque, rebrilhante e majestosa. Dois operários conversavam ao meu lado e quando o ilustre passou, um deles, apontando ao outro a venera, explicou-lhe: «¿Vês aquela medalha grande? aquilo abichou-a êle uma ocasião em que tinha que se levantar às dez horas e só acordou ao meio dia». E estava certo.
Ora eis aqui a razão por que o estrangeiro, com os seus anos de trabalho e os seus livros publicados, não apanhou ainda nem uma sêde de água.
* * * * *
Outra das grandes pragas nacionais é a das estátuas.
Fervilham as condecorações, a ponto de se confundirem com a placa dos moços de esquina. Não há cidadão que não possua o seu habitozinho, dado quási sempre em recompensa do trabalho que teve para o conseguir. Alguns, os coleccionadores, tem-nos às dezenas, de tôdas as qualidades, de todos os feitios, de tôdas as ordens, desde a ordem da _Pontinha de oiro_, fundada por João Lourenço da Cunha até... à Ordem Terceira, ou qualquer outra ordem que quiserem.
As estátuas são como as urtigas. Rebentam por tôda a parte e são quási tôdas iguais, para não escangalharem a simetria da sala. Não há em Lisboa jardim que não possua estas três cousas indispensáveis a um passeio que se preza: Um _water-closet_, um marco fontanário e uma estátua.
Quási tôdas elas teem o ar dum castiçal e há de todos os tamanhos e para todos os paladares. Desde a minúscula do Largo da Biblioteca até à de Belêm, onde Afonso de Albuquerque boceja de tédio ao ouvir dizer à volta de si que Baptista Diniz é o maior dramaturgo português.
Há bem pouco tempo que um silfo bom obstou à perpetração dum dêstes crimes. Erguerem uma estátua ao maior, ao mais glorioso e ao mais desgraçado dos romancistas portugueses, Camilo Castelo Branco, como se êle fôsse aí qualquer burguês enriquecido ou qualquer director geral. Chegou-se a armar uma comissão, que não levou os seus trabalhos avante por se ter levantado grande controvérsia sôbre se Camilo foi ou não escritor célebre que floresceu no século XIX. E até o dr. Libório de Meireles fêz um discurso, verdade seja que plagiado quási todo ao sr. Aires de Gouveia, tendente a provar irrefutávelmente que não foi Camilo o autor dos _Lusíadas_, ideia assente no espírito do seu colega na comissão, sr. António José da Silva. Como ninguêm se entendesse, porque todos tinham uma ideia muito remota de quem fôra o escritor, de que nenhum deles conhecia escritos, as sessões, que pareciam ou uma tourada de curiosos ou uma sessão da Academia Real das Sciências, não se repetiram e deixaram felizmente em paz o romancista.
O crime não se consumou e foi melhor. As estátuas não nobilitam ninguêm e não servem senão para vertedouro dos cães. O honroso é não ter estátua. E tão difícil é hoje encontrar um homem que não tenha a sua condecoração ou a sua estátuazinha, pelo menos em projecto, que Diógenes, se voltasse a êste mundo à procura dêsse mortal, «apagava a lanterna como cousa inútil» e voltaria pelo mesmo caminho sem o ter encontrado.
Camilo não necessita de estátua. A sua maior glória é não a ter. Os estrangeiros perguntarão por ela como outrora pela de Catão, que não teve estátua no Capitólio.
¿Quere a comissão um conselho? A comissão não sabe quem fôsse Camilo, mas sabe de-certo quem foi o Palma Cavalão. Pois bem. Assembléem outra vez e botem estátua ao Palma Cavalão. Êsse sim. Êsse é que precisa dela e grande crime é ainda não a ter. Pois compreende-se lá que nesta terra de Palmas Cavalões, Palma Cavalão não tenha uma estátua ou ao menos uma rua, uma avenida, um beco, uma travessa com o seu nome!
Palma Cavalão é um símbolo; Palma Cavalão assim chamado para se distinguir dêsse outro benemérito Palma Cavalinho, é uma instituição nacional.
Quem o não conhece?! Palma Cavalão, director da _Corneta do Diabo_, o que fazia o _High-Life_ na _Verdade_, ainda não ter estátua! Aqui está uma cousa que não se compreende.
Dir-me-hão que êle não escreveu uma obra, que não escreveu livros. De acôrdo. Mas tinha lógica! «Lisboa está caríssima, e a literatura neste desgraçado país...» Não tinha Livros? Mas esta frase, meninos?! Que filosofia! A filosofia dos Palmas Cavalões!!
Depois, ¿o que é preciso para ter uma estátua? Sim, o que é? Damaso, o nosso distintíssimo _sportman_ Damaso Salcede, só o acusou dêle ter «pedido o relójio ao Zeferino para figurar num baptizado e pô-lo no prego!...», e isso numa hora de indignação. Para estátua bem sei que é pouco, mas lembrem-se de que Palma Cavalão foi tôda a sua vida um tímido, e isto, aqui à puridade, é porque o Zeferino lhe não emprestou tambêm a corrente.
Aqui está uma criatura que, a-pesar de todos os paradoxos, merece monumento na praça pública.
A comissão do monumento a Camilo que olhe para isto, e pense maduramente nesta pretendença. Deixem lá o outro. Palma Cavalão é afinal quem a merece. A comissão que envide todos os seus bons esforços e levante uma estátua ao «malogrado jornalista». Se a comissão não souber quando ele floresceu, consulte _Os Maias_. Se, ao lê-los, se não sentir tocada e não levantar o castiçal em nome da «pátria reconhecida» então, decididamente, é que isto é um país de idiotas e de refinadíssimos ingratos.
A tristeza profissional
Zamacois, escritor espanhol de muito talento, escreveu, algures, que não conhecia «melancolia mais incurável, abatimento mais profundo, nem declinar mais silenciosamente trágico, que o ocaso dos vélhos actores». Não deveria ter dito assim. A melancolia dos vélhos actores é a tristeza profissional e essa não a teem só os cómicos. Escritores, jornalistas, pintores, todos os que vivem dragando o cérebro e a imaginação, todos êsses sofrem dessa tristeza incurável, a mais horrível, a mais intensa, a mais cruciante de tôdas as tristezas.
A tristeza profissional é uma cousa inexplicável. É o assalto de todos os males do universo à criatura, porque não há lágrimas que ela não chore, agonias que não passe, dúvidas que não tenha. É o inferno, o inferno com todos os círculos da sua medonha expiação.
* * * * *
Imaginemos o martírio do comediante que envelheceu e se vê sem público. É o martírio da cortezã que se vê sem adoradores. Ela todos os dias ao espelho se vai gastando a olhar o embranquecer dos cabelos, o aparecimento das rugas. A pele perde a pouco e pouco a sua macieza, a carne torna-se mole, flácida, a bôca perde a airosidade da sua curva. Os homens vão-se. As juras e os protestos de amor evaporam-se. Á roda da criatura o gêlo sobe numa muralha que a isola do mundo. Imaginar a tortura dessa mulher curvada sôbre os estragos que o tempo vai fazendo, é imaginar a tortura do comediante curvado sôbre um passado que se evaporou. Que resta dele? Nada. Recordações, o que é quási nada. Cinza fria de apagado lume. As suas noites de glória, noites de ovação, noites de triunfo, o que são? Ninguêm se lembra delas. As suas criações, os seus fatos luxuosos de príncipes do acaso, imperadores de horas, quem os recorda? Ter sido grande e cair de repente no esquecimento é tão doloroso como ter sido rico, ter tido trens, equipagens, mulheres, e de repente ter que esmolar uma côdea para jantar. Mas o comediante é de todos o mais feliz. Foi vitoriado, aclamado. A sua figura fêz bater o coração das mulheres e despertar aplausos loucos nos dos homens. Foi feliz ao menos uma noite. E ter sido feliz na vida ao menos uma noite...
A tristeza do comediante comparada com a tristeza do escritor nada vale. A criatura que escreve não tem nunca consolações. O pior dos seus inimigos, o que a mina, a destrói, é a Dúvida. Para escrever uma página levava Flaubert uma semana. Eça sôbre o _Crime do Padre Amaro_ gastou um têrço da sua vida. Acreditam todavia que, ao fim de tanto labor, êles poderam emfim descansar? Não, nunca! Depois da escrita, recebe-se a crítica com sobressalto. Se as páginas causam ruído, uma vaga consolação entra na alma da criatura. Mas é uma confiança firmada no ar. Basta que um invejoso venha entornar a sua taça de insídia, para que ela tenha logo torturas sem fim. No actor já ninguêm lhe pode apontar os defeitos, ao passo que o pelourinho do escritor é a sua obra. Envelhece e as suas páginas começam a tornar-se vélhas. Os que as louvaram, porque tambêm as viveram, morreram uns, esqueceram-se outros. E os novos veem, com a sua fúria iconoclasta, perturbar o sono aos pobres esquecidos. Veem, irreverentes e selvagens, sem respeito pelos nossos cabelos brancos, sem piedade pelas canseiras que tivemos, sem se lembrarem de que tambêm hão-de envelhecer, dizer que a nossa obra não vale um chavo, que nunca fomos moços, que nunca tivemos talento. E, mofando, destroem assim o que de mais caro nos restará. A dúvida, que já em novo nos perseguia a cada página feita, não nos larga mais.
É uma agonia pavorosa. Já não podemos ver os nossos livros sem horror. E tão intenso é êste horror profissional, que Zola não tornava a ler os seus livros depois de publicados e Flaubert os escondia no fundo das gavetas para não mais tornar a vê-los.
Ter escrito belas páginas, ter gasto a vida curvado sôbre uma obra, para que, no fim, o primeiro passante nos venha dizer que ela nada vale, é triste. Creio que não há martírio maior. Zola, que na _Obra_ se autobiografou, rasga um bocado do que seja essa tragédia: «... o trabalho apoderou-se-me da existência. Pouco a pouco roubou-me minha mãe, minha mulher, tudo o que eu amo. É o gérmen lançado no crânio, que devora o cérebro, que se apossa do tronco e dos membros, que róe o corpo inteiro. Logo que salto do leito, de manhã, o trabalho agarra-me, prega-me à minha mesa sem me deixar respirar uma lufada do grande ar; depois segue-se o almôço; mastiga surdamente as minhas frases com o meu pão; depois acompanha-me, se eu saio, põe-se a jantar no meu prato, deita-se à noite no meu travesseiro, sem que eu possa deter nunca o pensamento da obra entre mãos e cuja germinação continua até no fundo do meu sono... Depois caio no sonambulismo das horas de imaginação, nas indiferenças e nos desconchavos da minha ideia fixa. Tanto melhor, se as páginas da manhã correrem bem, tanto pior se uma delas ficou defeituosa! O rosto rirá ou chorará, segundo o belo prazer do trabalho devorador... Fechei a porta do mundo por detrás de mim e lancei a chave pela janela... Nada mais, nada mais no meu antro, do que o trabalho e eu; êle devorar-me-há e depois não haverá mais nada, mais nada!
«As primeiras páginas ainda vão, mas depois, eis-me desanimado, nunca satisfeito com a tarefa quotidiana, condenando já o livro entre mãos, julgando-o inferior aos antecedentes, forjando-me torturas de palavras, de frases, de páginas, chegando até as próprias vírgulas a parecerem-me deformidades que me apoquentam. E quando está acabado, oh! quando está acabado, que alívio! não é um gôzo do indivíduo que se exalta na adoração do seu fruto, mas a praga do carrejão que deita abaixo o fardo que lhe magoou o espinhaço... Depois aquilo recomeça; aquilo recomeçará sempre; depois arrebentarei furioso contra mim próprio, exasperado por não ter tido mais talento, enraivecido por não deixar uma obra mais completa, mais elevada, livros sôbre livros, o empilhamento duma montanha; e terei ao morrer a medonha dúvida do que fiz, perguntando-me se aquilo estaria bem, se não devia ir antes para a esquerda quando passei para a direita, e a minha última palavra, o meu último estertor será para querer fazer tudo de novo...»
Tal foi a agonia de Zola. A dos outros foi uma agonia inconfessável, uma tortura que com êles se sepultou na Morte. ¿Onde existe pois maior tristeza do que esta? A tristeza do escritor, que um dia acreditou na sua obra e entra com êle o gusano da dúvida, não tem _pendant_ na terra senão a do romântico que amou loucamente uma criatura que o atraiçoou--pobre banabóia que acreditou no Amor--ou a dos crentes que esperam no outro mundo ter a recompensa de todos os terrenos sofrimentos. Deve ser igual a esta a careta dêstes últimos, quando no limiar da morte se certificarem de que, ali, bons e maus são todos ossos, vermes, podridão e que não há bodo para os bons, nem caldeira para os maus.
Agora, pense-se na tristeza dos vélhos embarcadiços que o reumatismo prende em terra! A saudade dos longes de água, da amplidão, dos desertos sem fim, movediços e espumantes! Pense-se na tristeza dos caçadores a quem a velhice entropega as pernas e já não podem ir por montes e valados atrás da fugitiva e almejada presa! Pense-se em mil outras tristezas, que são mais própriamente tristezas profissionais. Pensem e digam-me se conhecem tristeza mais triste, amargura maior, dôr mais cruciante...
Eu não creio que haja. Não creio, e penso às vezes com horror no tormento indefinível e infindável da dúvida perpétua. Mata-se uma criatura a suar, a ralar-se e para quê? Para que outros venham, tambêm ingénuos e moços como nós fomos, alimentar o fogo em que lentamente se hão-de devorar. Ser grande, ser glorioso, para que depois se duvide, ser amado para que se seja esquecido, ser iludido para ser depois desenganado. E como se não bastasse já a mágua de nossas próprias vidas, ainda é sina acendermos por nossas mãos a chama que na velhice nos há-de queimar a fogo lento.
A morte
Penso às vezes na Morte com devoção. Nestes dias, em que o sol quente não chega a dar calor que abrase, penso em quanto será bom estar sob o lençol de terra, inerte, estendido de papo para o ar, sem apoquentações e sem cuidados! Penso e quási que os invejo--aos mortos. Êles devem estar bem consolados, como caminheiros cansados que alfim encontraram pouso. Ao passo que nós, os vivos, arrastaremos eternamente o nosso tédio e as nossas amarguras, aos baldões por essa vida fora, raro encontrando uma criatura que nos compreenda, sem afeições e sem carinhos, como um vaso feio em que as plantas não chegam nunca a florir. Como eu invejo, nesses dias, os mortos!
Deve ser consolador esta ideia! Não scismar,--e é o scismar que mata os homens. Não sonhar--e é o sonho que os infelicita. Saber que nem céu nem inferno nos espera, mas o tranqùilo sono da podridão. Corações que batestes, o vosso amor era pó. Pó, sómente, terra, cousa nenhuma. Cérebros que pensastes, o vosso labor quão fátuo foi. Homens de génio, mulheres olímpicas, estátuas de carne, soberanas do Desejo, raínhas, cortezãs, imperatrizes. Nada na Morte as distancia. Que tesouro enorme, que avalanche de cousas divinas a morte não guarda no seu seio!
Penso na morte com devoção! Penso na morte quanto mais lido com os homens e quanto mais conheço as mulheres. Os homens «são como aquele pedaço de gêlo que o Árabe, julgando ser um diamante, guardou cuidadosamente no seu alforje. Quando o procurou nem ao menos uma gota de água pôde achar.» As mulheres... as mulheres são uma taça. Metade fel, metade mel. Ninguêm procure todavia o mel. Nunca ninguêm o encontrou. Jamais alguêm o encontrará.
Estima, afeição, amor, sinceridade, dedicação, amizade, que belas e mentirosas máscaras. Belas porque, para a criatura que cegamente crê, tudo é belo. Mentirosas, porque tudo é mentira na vida, tudo, excepto a morte. É a morte a única verdade. E pensar em como a vida seria um doloroso escárnio, uma insustentável cousa, se até a morte fôsse mentira! Mas não. Quem um dia transpôs essa porta, que só se abre para lá, não mais sofreu. Maltrapilhos, nababos, _lords_ e senhores, párias e fidalgos, todos lá serão esquecidos, irremediávelmente. É a única porta que se abre igualmente aos que vão vestidos de sêda e aos que vão vestidos de burel; aos que vão vestidos de ilusão e aos que vão desenganados. E nunca a ela esperam nem sequer os que vão nus.
Penso muitas vezes na morte e com alegria até.
Creio que é ela a única fôrça da vida. Porque, cansado de lutar, exausto, assediado por tudo, eu tenho nela a retirada, exactamente como a pedra girante do _Noventa e três_, de Vítor Hugo. Ora lutar, viver, cansar, sem uma porta para a retirada era uma cousa trágica. Foi por isso que o Destino, êsse Destino de que os árabes dizem «que conduz os cavalos pela noite», se encarregou de colocar atrás de cada combatente a porta para a fuga.
Por detrás dela cessam tôdas as distinções.
Não há já Carlos I nem Buíça. Não há já rei, nem professor; nem carabina, nem alvo. Há dois esqueletos só. Restos derradeiros de dois combatentes.
Nada mais.
A leitura dos jornais radicou-me no espírito esta cousa absoluta,--que é bem fácil morrer. Tão fácil, como difícil é saber morrer. Ou antes, morrer a tempo. Morrer a tempo não é «morrer moço», como quere êsse artista mago do verso que é Lopes-Vieira. Não é morrer em combate sem conhecer o triunfo e sem conhecer a derrota. Morrer a tempo é morrer exactamente como Mousinho de Albuquerque. É morrer de monóculo e casaca, como aquele milionário inglês que, no Cabo, se deitou ao oceano, talvez por _spleen_. É morrer como Antero. É morrer como Nerval. É morrer como morrem muitos de que as crónicas não rezam, nem a História fala.
Não há ninguém que não tenha, ao menos uma vez na vida, pensado na Morte com amor. Porque a morte não é uma cousa terrível, é uma deliciosa criatura que nos espera ao fim da vida para nos indemnizar de tôda a maldade dela. E só assim eu compreendo a Morte--não ser senão para os que tivessem sofrido. Os felizes não precisam de morte. Quem é feliz não tem direito à morte. E cousa que me irrita é esta. É que, sendo a morte a maior das delícias da vida, ela seja igualmente para mim e para o meu vizinho. Para mim que a vou merecendo e para o meu vizinho, anafado e feliz, que está bem longe de a ela ter direito. É a minha única inveja. Considerar que os outros teem que morrer como eu! Quando o meu desejo seria que êles vivessem, exactamente como o desejo do Ursus, de Hugo, que entendia que o maior mal que podia fazer ao seu semelhante era ajudá-lo e protegê-lo... para que vivesse.
Morrer! Morrer é bom. Vós todos que me escutais sabei isto. Que a morte é como o Diabo. Nunca tão feia como a pintam. Alêm disso, imaginai uma criatura condenada a viver. A viver como as catedrais dos tempos que já não lembram. A viver como a rocha que o tempo não conseguiu puir. A viver muito, a viver uma eternidade. Que maior pena, que maior degredo se lhe poderia dar! A criatura chegaria a ponto de ter que fugir. Escolheria para isso o suicídio. Mas a porta não se abriria para ela. Implacávelmente fechada, eternamente fechada. Seria uma tragédia bem horrível.
Ás noites, nas minhas noites de insónia, em que o cérebro é um novelo de fio, que o pensamento vai puxando sem nunca conseguir chegar ao fim, penso neste tormento indefinível. E quedo-me de horror!
Foi talvez por esta razão que aquele bonzo ou aquele sacerdote respondeu ao pária que, numa estrada, o interrogou sôbre o destino que havia de dar à pesada carga que levava.
Mas eu conto a história. Vem em Maxime du Camp:
Um brâmane estava um dia sentado à beira dum rio. Um escravo abanava-o com um leque sumptuoso, emquanto outro lhe prodigalizava a sua infusão aromática. A seus pés um caminho seguia onde os passantes se curvavam em adoração. E um homem que vinha curvado ao peso duma carga enorme, ofegante e exausto, disse: «Oh! brâmane! como és feliz em poder repousar à sombra!»
O brâmane olímpico respondeu:
«Cão, filho de cão, segue o teu caminho!» E como o miserável insistisse, o sacerdote de Wichnu redarguiu molestado: «Fala depressa então!»
«Estava na minha aldeia dormindo--começou êle--à sombra do pagode de Saraswati, quando um desconhecido que passava me despertou com brutalidade para me pôr esta pesada carga aos ombros, ordenando-me que caminhasse, até o encontrar. Estou cansado. Há três dias que caminho e não vejo o homem. Que devo fazer?» O sacerdote então interrogou: «Pagou-te adiantado?» e ao ouvir a resposta negativa, o brâmane, considerando na fadiga do pária, volveu solene:
«Não sabes a quem pertence o fardo, nem a quem o entregar! Não sabes o que contêm. Sabes apenas que é superior às tuas fôrças! Pois bem. Larga o fardo e vai-te».
É por isso, por êste fardo que se chama Vida resultar para alguns tão pesado, que êles o largam e se vão embora.
Poetas
A poesia é morta. Quási já não há poetas. E é curioso isto. ¡A poesia quási a extinguir-se num país de poetas! Portugal mais do que nenhum é por excelência o país dos poetas, se sinonimarmos neste têrmo todos os que publicam o seu livrinho de versos, embora às vezes sem dez réis de poesia.
¿Quantos livros de versos se publicam anualmente em Portugal? Aqui está uma estatística impossível. São inúmeros, são infinitos. Não há vilão, que meta um pé nas letras, que não diga dos seus amores, dos seus calos, das estrelas que vê ao meio dia, dos cabelos d_Ela_, dos olhos d_Ela_, em duzentas páginas, em cento e cincoenta, em cem, em vinte, ou dez ou cinco, pelo menos. O português vê-se obrigado a fazer um livro de versos. É fatal. Três cousas são indispensáveis ao cidadão: Ser vacinado, ir às sortes, e publicar o tal, o livrito de versos. Daí a morte da poesia, debaixo duma tão grande avalanche de poetas.
A poesia tende a desaparecer. Porquê? Porque já passou o tempo dos poetas. Mas dir-me-hão, ¿o tempo dos músicos, dos escultores, dos prosadores, de todos os que emfim vivem só para a Arte? O dêsses não tarda a passar. ¡As multidões egoismadas querem lá saber da Arte! ¿Que teem as multidões com isso? Absorta na sua luta pela vida, em lançar os gadanhos em arpéu o mais alêm que possa, a criatura dispensa perfeitamente a Arte. Pois se a vida de cada um é uma tragédia, inútil é demorar-se a ver a tragédia dos outros. Arte é um contrapêso inútil. E a prova, a prova fatal de que a Arte é um aleijão na vida das sociedades, uma demência, uma tara demoníaca e soturna, está em que, em todos os tempos, a multidão deixou morrer à fome os seus maiores artistas e vestiu de brocado e holanda fina os seus maiores ladrões.
A época é de prosa vil, bem vil por sinal. O verso antigamente era indispensável. Hoje não. Antigamente, para pedir cinco tostões emprestados, requeria-se em verso. Camões requereu galinhas.
«Cinco galinhas e meia Deve o senhor de Cascais.»
Hoje pedem-se cinco tostões duma maneira!... Tambêm se agradecia em verso. Agora não. Os pobres às portas dos mosteiros cantavam. Agora quem canta vai preso, se é na rua e provoca ajuntamento; se é em casa pode cantar à vontade, que não ganha mais por isso. Até o ditado, o vélho ditado que não falha nunca, nos aconselha que não nos fiemos em cantigas, depois da razão, matrona experiente e sogra da fantasia, nos ter dito que não é delas que a gente vive. E para verem como tudo mudou, hão de ter cotejado muitas vezes isto: o agradecimento que era antigamente em verso, que é sempre uma maneira bonita de agradecer, tomou pelo andar dos séculos a forma de prosa--o couce--que é tambêm prosa e não das menos agressivas.
Ora vão ver como o verso desempenhou um papel importante na vida dos homens: Um indivíduo queria comer, pedia em verso; queria catrapiscar uns olhos bonitos e tomar uma barrigada de doce, ia aos outeiros; queria vingar-se dum mágico qualquer--zás, aí vai sátira; se queria fazer política, era «rei chegou, rei fugiu...» que não havia surdo que não ensurdecesse outra vez. E não havia lambão que não fôsse saciado, amoroso que não fôsse farto, guloso que não fôsse enjoado, odiento que não ficasse contente, e político que não desabafasse na cantata.
Vão lá agora com cantigas!... Nem pitança, nem mulher, nem bolos, nem desabafos. O verso decididamente já não presta para nada, pois para nada é útil.