Part 7
A dôr só embota as criaturas rudes. Ás outras estimula-as. Assim, Goron, sob a sua farda de polícia, tem um coração piedoso e sob os olhos inquisitoriais e pesquisantes de perseguidor há muitas vezes lágrimas reprêsas. ¿Porque abandonou êle o cargo? Não sei. Talvez farto de tanta dôr. O espectáculo da dôr contínua, que é hábito para os rudes, para certas criaturas é um suplício. Goron é uma criatura sensível, uma alma de artista apaixonado e sonhador. E quem tal diria? Sonhador, nem menos! Ah! Não julgueis nunca os homens pelas aparências. ¿O que lá está dentro quem no sabe? E creio-o; jamais alguêm o saberá!
A obra de Goron é o mais profundo estudo de _bas-fonds_ que conheço. E olhai que muitos há. Tenho aqui à mão o _Paris impur_ de Charles Virmaitre e os livros de L. Taxil.
Não só profundo êle é. Há muita poesia naquelas descrições e muita arte nesses relatos. Mão cariciosa cinzelou aquela prosa desprendida que não sei que encanto tem.
Dir-me-hão que uma cidade como Paris e um cargo como o de chefe dão para óptimos livros de memórias. De acôrdo. Mas é necessário ser-se artista e necessário saber ver fora da visão profissional. E Goron soube ver.
* * * * *
«Sinto-me morrer longe de ti; tenho um desejo louco de abraçar-te.
«Quero ver-te a todo o custo e quando saia quero que me ames como sempre, que jamais, jamais, sejas doutra mulher. Prefiro ver-te morto que perjuro ao nosso amor, e se me abandonas matar-te-hei!...
«Pensa em mim tôdas as noites, na tua cela, como eu penso em ti, rogando a Deus que nos reúna breve, ainda que seja na Nova...» (Nova-Caledónia, a penitenciária).
Assim escrevia uma mulher pública a um ladrão. Ambos presos. Ela escrevia de Saint Lazare.
E são cartas, confissões, ódios, vinganças, paixões, tôda a gama de humanos sentimentos que ali ruge, e passa em tropel.
Quási poeta nas _Novas Confissões_, Sherlock-Holmes no _Através do Crime_, Goron é um apaixonado e um artista. A sua obra é proveitosíssima e lê-se com verdadeiro interêsse.
Quem ainda crê no amor, que se sacie. Tem ali o amor em tôda a sua nudez. Quem crê na sinceridade e não se acostumou a ver o homem como um animal que inventou as luvas para esconder as garras, tambêm ali tem que aprender. E certo é que todos, lendo-a, andarão mais algumas horas na intimidade da alma humana.
Por suas relações, por sua larga experiência--Goron é um cavalheiro edoso--pela larguíssima racolta de documentos vívidos e do natural colhidos, flagrantes ainda e ainda conservando tôda a sua intensidade, mereceram as _Memórias_ o sucesso europeu que desfrutam. Acolhidas com ensurdecedor murmúrio à data da sua publicação--que arquivo de graves cousas, cousas comprometedoras, cousas pícaras, nojentas e terríveis, surdiria?!--elas foram tambêm logo festejadas. É que as _Memórias_ de Goron não eram obra para armar à popularidade, cativando por suas escandalosas revelações, e rocambolizando a meada profissional. Não eram. As _Memórias_ eram sómente isto: o trabalho dum artista, dum homem que sentiu a vida e que vem das regiões misteriosas do crime, dos abismos profundos do vício, relatar-nos o que viu em linguagem comovida.
Falhando pois à ansiosa popularidade do escândalo, a obra de Goron não teve o êxito passageiro das que o teem. Antes continua a ser lida, lida será e sempre com amor. É o estudo dum homem que viu. E só quem viu merece ser acreditado.
Goron, antes de ser agente, era um artista. Quando deixou de ser agente, artista ficou. E pelo contrário: a sua convivência com gente humilde, a sua excursão por essas desconhecidas paragens, deram-nos um documento que será lido emquanto bater um coração e não secar de todo essa solitária flor da piedade.
E porque a sua obra me faz sentir, sentir intensamente, é que eu considero Goron um grande artista.
Mercedes Blasco
(A propósito do seu livro «Memórias duma actriz»)
Antes, muito antes mesmo, de ter lido as _Memórias_, já pensara da sua autora o que Vítor Hugo escreveu de Cláudio Frollo: «¿Que fogo interior é êsse que por vezes lhe brilha nos olhos, a ponto de se assimilharem a uns buracos feitos na parede duma fornalha?» ¿Que brilho mau trazem êsses olhos, que pesa como o coturno dos gladiadores que vencem? Mas foi um pensamento só. Não psicologizei do brilho nem do fogo. Já Plínio, o antigo, no ano 79 de Cristo, morrera no Vesúvio vítima da sua lamentável curiosidade...
Mas é dum livro que se trata. Mercedes Blasco, actriz e escritora, acaba de publicar as suas _Memórias_, quási ao mesmo tempo em que Sarah Bernhardt publica as dela e Júlia Fons em Hespanha, sorrindo, nos mostra a capa do seu _Lo que yo pienso_, ao mesmo tempo que sorrindo tambêm nos pede pelos seus pensamentos duas pesetas. Não me admirei nada de que Sarah publicasse _Memórias_. Apesar da enormidade da maçada que elas são, e do volume, achei até que ela deva ter ainda muito que contar. Mas admirei-me tanto da Fons ter pensamentos, como da Mercedes ter _Memórias_. As memórias são dos vélhos. Ora não sendo Mercedes vélha, não podia ter _Memórias_. Ou a lógica era uma cantata. E era. Mercedes é nova e tem memórias. E bem interessantes que elas são, ainda que a muitos peze.
Confesso que sentira tambêm «ao boato de publicação do livro» um «aperto de coração». Não houve motivo para isso. O livro dessa criatura, cuja figura Silva Pinto tão bem silhuetou--essa «_Mercedes_ que tão bem oculta, sob uns exteriores de gentil frivolidade, a mais fina sensibilidade, a lealdade mais correcta e a mais impressiva alma de artista--na elevada e luminosa esfera da arte pura»--é um grande livro.
É um volume curiosíssimo, escrito invejávelmente num estilo de ideal simplicidade, numa prosa que tem o encanto duma espirituosa conversação. Nenhum esfôrço, nenhuma tortura ela apresenta. Essa simplicidade da prosa, correndo como a água dos regatos, que é o ideal de todo o artista; essa simplicidade, que foi a grande tortura do autor das _Viagens na minha terra_, e que fêz os cabelos brancos ao autor da _Madame Bovary_ e ao Daudet da _Sapho_, encontra-se no livro desta travêssa criatura, senhora da prosa, de dois olhos terríveis, abismais, duma cabeleira agarotada e dum corpo de boneca voluptuosa.
É o livro mais curioso dos últimos anos, e então curioso como nenhum, se considerarmos que raras são as criaturas de teatro, em Portugal, capazes de alinhavar um livro de memórias. Quer como subsídio para a história do teatro nacional, quer como obra literária, quer como documento íntimo para o estudo duma alma e duma vida, êle é um trabalho absolutamente inédito, completo e modelar. Como arte, as suas descrições maravilhosas, o aroma das suas páginas, a flagrância das suas scenas, a intensidade dos seus momentos passionais e a sua travessura inquietante, revelam-nos obra da grande artista que é Mercedes,--uma artista gloriosa e privilegiada, cheia de talento, de graça, de originalidade e de imprevisto.
No teatro tem Mercedes Blasco o seu logar marcado entre as nossas primeiras actrizes; se me objectarem que a opereta, de que ela é a nossa primeira figura, é um género inferior, eu redarguirei parafraseando Teófilo Gauthier, que dizia que em literatura não havia géneros inferiores mas sim escritores inábeis:--No teatro não há géneros inferiores, o que há é artistas que o são e artistas que o não foram, não são, nem serão nunca.
Se ela, em logar de enveredar pelo caminho do _couplet_, tem tomado pelo caminho do drama, seria hoje uma extraordinária actriz dramática. Pela sua intensidade de sentir, pela extraordinária vibratilidade dos seus nervos, onde parece que existem amassadas tôdas as loucuras, tôdas as paixões, tôdas as bondades e tôdas as emoções humanas, e pelo seu modo de ser artista, tão probo e tão grande que a obriga a dispensar aos papeis de galhofa que tem feito todos os seus cuidados e lhe faz sentir em cada noite de _estreno_ a intranqùilidade artística que acometia o Bongrand da _Obra_ de Zola diante de cada quadro novo.
A razão porque esta criatura é guerreada numa guerra surda feita de picuínhas irritantes, não a explico. Vieira diz que «um grande delito muitas vezes achou piedade, mas nunca a um grande merecimento faltou inveja». E aí está como o padre António Vieira explicou. É essa a razão.
Mercedes Blasco nasceu actriz. Nasceu actriz, como Gomes Leal nasceu poeta e Gavarni, caricaturista. O teatro foi a sua quimera, o seu deslumbramento. Ela julgou sempre que no teatro se fizesse teatro, quando ali sómente se faz pela vida. O desengano veio breve. Ela hoje sabe bem que «tudo ali é falso: o beijo das amigas, os galanteios dos apaixonados e os protestos dos amigos, que desaparecem mal supõem que podemos precisar deles». Disse-o nesse esplêndido e impecável trecho de prosa, que é a sua _Carta aberta_, em tempos publicado. Acreditou no amor e afinal não encontrou no seu caminho mais do que gozadores banais e ressêcos egoístas. Hoje tem perdidas as ilusões, o que não admira, pois tôda a sua vida tem sido a epopeia do desengano. Restam-lhe dois filhos dessa travessia. É deles que a sua alma está cheia, porque é sôbre o seu berço que ela se tem visto forçada a afugentar as lágrimas, servindo-se da sua linda voz, para, nas ocasiões de maior tristeza,--triste ironia do Destino--os adormecer, cantando-lhes alguma bela serenata napolitana, das suas noites de glória.
Noutro meio, noutro meio onde as criaturas que teem algo para dizer são escutadas com amor, Mercedes teria uma fortuna. Poderia fazer loucuras sarahbernhardthescas. Aqui a sua fortuna não é para que a invejem. Eu admiro-a e admiro a bondade com que ela indulgencia as torpezas que a calúnia vulga e borda, a energia e a vontade com que ela combate, desamparada de todo o auxílio, e o seu talento de escritora que tudo originaliza, que a tudo empresta vida e nos deu êste livro de memórias.
As _Memórias duma actriz_, ora publicado, é o livro das suas paixões, dos seus triunfos. É o livro da actriz. Mas, exactamente como Guerra Junqueiro dizia de João Penha, Mercedes deve ter outro: o livro das suas lutas, das suas agonias, dos seus desânimos; o livro da mulher. O que êsse livro seria, dada a sua hiper-sensibilidade e o encanto íntimo da sua prosa, nem eu sei dizer-lhes. Seria espantoso, em verdade, se ela arrancasse a máscara e nos viesse contar a história dos seus dias, o sabor dos seus momentos amargos, os sobressaltos do seu sono, a inquietação das suas horas, a guerra de insídia, de calúnia, de inveja que se tem feito à sua roda; se ela nos dissesse os _porquês_ e as _causas_ de muita história reticenciada, ou que no seu livro publicado só se lê nas entrelinhas.
A verdadeira Mercedes não é a que conhecemos das _Memórias_, sublinhando gaiatamente uma cançoneta, cheia de rapazices adoráveis e publicando cartas de amor para mostrar que nunca amou. A verdadeira está por detrás da máscara desta chorando. Se às vezes lhe vem espreitar aos olhos, quando sucede entristecerem, é sómente pelo geito que teem os comediantes de vir olhar pelos óculos do pano de bôca.
A Mercedes das _Memórias_ é a actriz. Certo é que, aqui e alêm, a caracterização deixa ver a mulher. Mas logo, num geito, ela recompõe a máscara--que tem o público com as suas tristezas!--e aí a temos outra vez a rir maliciosa, com aqueles dois olhos, que são enormes, que são profundos e em que por vezes parece cachoar, revolver e estorcer-se uma labareda criminosa.
Certo estou de que as suas _Memórias_ encontraram em cada leitor um espectador deliciado e ávido; o outro livro encontraria, em cada, um coração. E por isso é que, se tenho pela Mercedes das _Memórias_ sómente uma curiosidade agaçante, tenho pela outra uma devoção profunda, um infinito amor. Com esta deplorável mania de tragediar tudo, até as cousas que não teem tragédia, eu vejo em Mercedes Blasco uma criatura a quem tem pontapizado o orgulho, estrangulado a ambição. Não ha vileza que lhe não tenham assacado, intriga em que a não tenham envolvido. Julgo que tenha chorado muito, mas para dentro, não fôssem as lágrimas deixar-lhe sulcos na pele. Só o martírio, o martírio infinito de recompor a máscara tôdas as manhãs, não vá a gente com o espectáculo da nossa dôr dar prémios gordos de alegria aos safardanas que nos espiam e nos invejam!...
Se cada homem ou cada criatura soubesse fazer um livro, um diário da sua dôr, quando não soubesse fazer dela um poema como queria Goethe, a vida resultaria inaturável. Tôda a gente tem em si a sua tragédia, disse Sienkiewicz. Pois bem. Mercedes, escrevendo o livro da sua tragédia, teria feito o livro mais humanamente intenso, mais doloroso e mais interessante que se poderia escrever. Teria concorrido para se desvendar a vida de aparências que todos somos obrigados a viver. E então, ah, então, veriam os que nos invejam, que as aparências não são mais do que as máscaras de que nos servimos, comediantes, para que ninguêm saiba a mágua que nos consome.
Um seria o livro da cómica. Outro o livro da trágica. O livro de aparências e o livro de realidades. Então ver-se-ia como um completaria o outro. Porque se as _Memórias_ são para o público, o outro seria para seus filhos, «o maior e único amor do seu coração». E seria o maior legado que lhes poderia deixar no dia em que a Morte viesse cerrar-lhe os olhos piedosamente, porque a Morte é o pano de ferro que inevitávelmente correrá sôbre a tragédia e a comédia de nossas vidas.
A Deliciosa Mentira
Tomando uma pitada de simonte, e sacando do bôlso o lençolesco e portuguesíssimo tabaqueiro de Alcobaça, ao ser-lhe perguntado qual era optável, se uma mentira deliciosa, se uma terrivel e forte verdade, o padre engatilhou logo o seu eterno e favorito: _Distinguo_. Explicou; e, como a mentira deliciosa era o Amor, perguntaram-lhe após o que faria se se visse perseguido por uma mulher bonita. Esteve o tonsurado um momento suspenso e ardilosamente se esquivou, citando, entre outra pitada e uma fungadela, a resposta de S. Tomaz d’Aquino: «o que eu devia fazer, sei: mas o que eu faria, só Deus o sabe».
Isto se passou em tempo de frades, porque tambêm os frades amaram. O amor é vélho como a maldade e forte como aí qualquer teia de aranha. Não resconstituo o sítio. O leitor, compulsando a _História de S. Domingos_, o fantasiará à sua vontade. É até mais bonito. Não pictorizo a indumentária, nem com enxundiosas côres me permito ressuscitar as figuras. Basta de patranhosa inventiva. Só no recontar da história pus, como o leitor vê, uma discreta referência ao lenço de Alcobaça--reclame úrgico à indústria nacional em crise.
Creio que, depois, a conversa se generalizou. E, como a sabatina ameaçasse eternizar-se, logo um frei noviço propoz, para desempate, que se consultasse os mestres.
O frade, pitadeando gravemente, aduziu razões, carretou argumentos, fulminou sabenças e confundiu os adversários. Santo Agostinho, S. Isto, S. Aquilo, foram chamados a capítulo e até basta cópia de autores gentílicos vieram provar ser o Amor cousa nefanda e temerosa. E, depois de ter aduzido, carretado, fulminado e confundido, o padre resumiu que se guardassem de amar. O amor é o mal e o amar o inferno. Com outra erudita pitada os despediu, e vélhos e novos recolheram às suas celas vencidos, mas não convencidos. Que, não sei se convencido iria tambêm o fradinho cheirador.
Parou a discussão aí por alturas do século passado. Já os controversistas estão feitos em pó--pó caído, diz Vieira--dentro do pó dos seus hábitos. Mas eu, que mais com os mortos vivo do que privo com os vivos, ressuscito o claustro pleno e entro na discussão. Trago tambêm os meus anátemas e argumento com autores modernos. Concordo plenamente com o frade e se venho é porque a turba parece rebelde, e disposta a ceder. Oh! as freiras! O _eterno feminino_...
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Mentira deliciosa, o Amor é a mais mentirosa das mentiras. Anacreonte conta que, uma noite em que se albergaram juntos o Amor e a Morte, ambos armados com suas setas e aljava, de ouro as do Amor, de ferro as da Morte, ao levantar, como ainda fôsse escuro, as aljavas se trocaram.
«Daqui vem que, dali por diante, como o Amor trouxesse as setas da Morte, as suas feridas foram mortais». Considerai pois que as suas feridas são mortais.
¿E vale a pena amar? Não, não vale. O amor não é dêste mundo e isso que vós julgais amor é mera ilusão dos sentidos, fátuo deslumbramento dos olhos, passageiro encanto dos ouvidos. «É quimera, é mentira, é engano, é uma doença da imaginação, e por isso basta para ser tormento», diz Vieira. Eu concluirei que, se o cuidais um paraíso, olhai que tambêm tem um purgatório. E afinal não é sempre senão caminho para o inferno. O amor tem tambêm o seu inferno, e onde há, como no outro, o perpétuo ringir de dentes--_stridor dentium_--que é, dizem, o ciúme.
Alêm disso, de que vale iludir-vos? «Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas cousas que não se juntam». Mas novo ou vélho, ela linda como estátua ideal ou doce como uma carta de amor, nunca o amor vale o afecto que se ponha nele. É um ruim companheiro, o amor. Tira o tempo, gasta o dinheiro, aumenta os cuidados, muda as intenções, inimiza os amigos, semeia ódios, leva a vinganças, muda, transforma, arrasa e nada nos dá. Ainda se alguma cousa de bom deixa, isso não é mais que uma saudade, o cilício da imaginação.
Mas remédio para tamanho mal, perguntarão? Quatro são conhecidos e êsses os disse, púlpito abaixo, o nosso padre António Vieira: o tempo, a ausência, a ingratidão e, sôbre tudo, o mudar de objecto. «Dizem que um amor com outro se paga, e o mais certo é, que um amor com outro se apaga». O tempo o esvaece. Como um perfume, como uma recordação, como uma flor cara, o tempo o faz desaparecer; como na morte, longe da vista, longe do coração, a ausência faz seu efeito, a ingratidão o faz mudar de objecto, e o mudar de objecto apagar de todo. Um amor com outro amor se apaga, lembrai-vos!
De resto, o amor é um aleijão comum, um mal secreto, de que todos se sentem e poucos se queixam. Para ser feliz, não amar é tudo. A vacina do amor é a indiferença. O amor é um mal de raça. Urge combater êsse mal. Abel Botelho diz que o amor actual ou é «hipocrisia, ou cálculo, ou simonia, ou deboche» e disso não vou longe.
Oh! o amor! Padecem disso as crianças e os poetas. Os outros... os outros são os felizes. Vale pois muito mais ser feliz. Irmãos! Rezai pois um _pater-noster_ pelos inocentes, porque não sabem o que é amor, e outro pelos poetas, porque o são. _Pater noster_...
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É o amor adversário perigoso. Não se lhe deve dar combate. Napoleão, o maior capitão do seu tempo, opina, que no «amor a grande vitória é a retirada». Combatê-lo é uma tontaria. Evitai-o, evitai-o sempre. Quem um dia amou um dia foi vencido.
¿Lembram-se da _Notre Dame_, de Hugo? ¿Lembram-se de Jehan Frollo, o estudante, no assalto à catedral? O estudante foi ao combate carregado de armas. Por véste uma armadura, por defesa uma bésta, uma espada, punhais, um arsenal. Dir-se-ia invencível, não é verdade?
Subiu a escada, entrou na galeria. Quasímodo mal o viu, ocupado como estava em balancear a escada, apinhada de escalantes. Quando se voltou, dum salto achatou-lhe a armadura contra a parede. Tirou-lhe uma por uma as peças da sua casca de ferro; a espada, os punhais, o capacete, a couraça, os braçais. Depois, com uma só mão, agarrou nele pelos pés e volteou-o no abismo. Do cavaleiro de antes viram as turbas um cadáver, quebrado em dois, o crânio vazio, suspenso de uma saliência da arquitectura da catedral.
O amor é Quasímodo, o sineiro, porque o sineiro fêz como o amor. Despojou primeiro, e só depois é que deu a morte. Primeiro expoliou, depois arremessou ao abismo. É assim sempre. E como amor é Quasímodo, guardai-vos de o procurar, para que não vos suceda o mesmo que a êsse inditoso Jehan Frollo.
O amor é o pior dos males. Que nos deixa êle? «Ridículo, amarguras, ou nada...» responde Octávio Mirbeau. «Que loucura terrível que é o amor! No fundo é sempre triste», continua.
Não amem nunca, ouvem! Sendo o amor um negócio, «quem é generoso é mau comerciante». Nada de ilusões. Nada de amores. Mulheres nunca uma. Uma é perigoso. Se fôram forçados a amar, porque o amor é uma doença como o sarampo ou como a meningite, repartam-se em pequenos quinhões.
Quem teve um só amor na vida foi desgraçado. É ver a história de todos os livros de amor. Quem muitos teve, não amou nada. Quem amou uma foi infeliz, quem amou cento viveu satisfeito. Reza um assento da Tôrre do Tombo, que pelos anos de 1220, o padre Fernando da Costa, presbítero do hábito de S. Pedro, prior da Egreja de Tarouca, pedira perdão a el-rei D. Afonso III por se julgar ter dormido com «sete irmãos, nove comadres, uma tia, nove afilhadas, e com António da Cunha, alêm de cincoenta e uma mulheres, das quais houve cento e noventa e sete filhos, quarenta e sete fêmeas e cento e cincoenta varões».
Mas não reza a história que êste amoroso fôsse desgraçado como o Armando da _Dama das Camélias_, ou como o Werther se suicidasse.
Por mim, em verdade lhes direi, que me creio o mais imune dos bípedes, porque o mais egoísta me julgo. De resto o amor é para os raros apenas. Deixá-los lá amar. São êsses que fazem depois os belos livros que a gente gosta tanto de ler. Que em verdade, irmãos caríssimos, admito o amor, a deliciosa mentira, mas só em teoria. História remota, cujos heróis já morreram, e que sucedeu nalgum país distante. Porque se é triste e eu entristeço, logo me põe bem com a minha digestão e com a minha consciência,--duas cousas que se parecem--o comentário clássico e absoluto: ¿Quem sabe lá se ela não será mentira?
Estátuas e comendas
«Decididamente Portugal é um país de ingratos», escrevia-me desolado um estrangeiro que há uns bons vinte anos se esforça por tornar conhecidas no seu país a nossa história e a nossa literatura. Há vinte anos que trabalha por nós, tem 15 volumes publicados sôbre as nossas letras, e ainda não recebeu de Portugal um agradecimento sequer. Sucede até escrever a portugueses, escrever a estações oficiais e não receber resposta. E, desoladamente enumera-me o que outras nações da Europa, por quem êle tem feito menos, lhe teem concedido, comendas, cruzes, medalhas, o demónio.
Não me chegou o homem a perguntar se em Portugal havia fitas, cruzes e comendas. Não perguntou. Eu porêm é que lhe disse que as havia, mas que eram para... os barbeiros. E que não tivesse pena de não ter nenhuma, porque isso em Portugal não valia absolutamente um caracol. Valia tão pouco que era até frequente ver aguadeiros, comendadores, e capatazes da limpeza, grandes-oficiais.
O que êle, na sua ingenuidade de homem do norte, reputava uma honra, era, afinal e sómente, a marca da mediocridade.
Fizeram João de Deus grande-oficial de S. Tiago. Pois bem: João de Deus, para se evadir à _honra_... morreu. E então S. Tiago, uma cousa que se dá aos sapateiros, um hábito relaxado de todo. Que os outros regulam pela mesma cousa. O da própria Tôrre e Espada já por vezes tem sido recusado e o de Cristo é para os abastados, criados de mesa, moços de esquina e... archeiros da casa real.
Tão desconceituado êle anda, que até o Baptista, o vélho criado do Carlos d’_Os Maias_, o recusou sob o pretexto de que não havia cão nem gato que o não tivesse.
As comendas em Portugal são a paga dos badalos para sinos, das eleições ganhas, da galopinagem activa, e de muitas outras cousas que se não podem precisar. Guy de Maupassant disse um dia que três cousas em França desonravam um homem: a Academia, as condecoraçõese a _Révue des deux mondes_. Isto em França onde a Academia é uma cousa de préstimo, e a _Révue des deux mondes_ é a _Révue des deux mondes_. Que faria se fôsse em Portugal, onde a Academia é um retiro de tatibitates e as condecorações são o que se sabe.