Crónicas imorais

Part 6

Chapter 63,965 wordsPublic domain

Depois, gosto das vacas. Uma foi deusa, a vaca de Hathor. Dos bois não gosto muito, mas tenho-lhes respeito. Já alguns atrevidos se teem atrevido de mais e o resultado é êles marrarem. Depois ainda, pondo de parte os paus marrantes, êles teem na família Mnévis, boi louro ou branco que se venerava em Heliópolis--uma espécie de jardim zoológico da antiguidade; e Apis, boi negro, parente não sei em que grau do _Capirote_, aquele célebre que entrava em corridas e comia à mão, coitadinho.

Respeito Astarte, a divindade de Sidon, e Milkom, deus dos amonitas; Kamosh, deus dos moabitas e Moloch, deus de outros povos. Respeito Jeová e Baal, Cristo e Confúcio, Maomet e até o seu profeta. Respeito-os a todos para que todos me respeitem. Respeito Santa Bárbara para que leve as trovoadas para onde não façam perca nem dano; S. Marçal, para que nos livre dalgum raio de ao pé da porta, e todos os santos e santas da côrte do céu.

Aqui tem você, Tibério, uma restolhada de deuses e de religiões. Há mais, que tenho em casa com a etiqueta conveniente. Veja você qual a que mais lhe convêm. Parecem-se tôdas um pouco. Que você adore a Senhora das Dòres, ou Apis, o boi negro; que você adore o Sol ou a chuva, um manipanço ou um bentinho, tudo é adorar, amigo Tibério. Quere você um conselho? Quere? Pois bem, trate-os bem, mas não acredite neles. Nunca lhes peça nada. Porque; nesse ponto, os deuses são como os homens, e como os homens conhecem-se nas ocasiões. Não peça, porque os irrita. A gente, para viver bem com os deuses, deve mostrar que não precisa deles. Depois, se você tem lido, deve saber que esta cousa de ser Deus está muito por baixo. Deus foi Mercúrio e era um larápio; Deus foi Júpiter e era um transformista; Deus foi Saturno, aquele vélho Saturno de barba branca, e comia os filhos, o ladrão!

Plutão era tão mal encabado para Deus que o mandaram para as profundas dos infernos; Baco sempre era um Deus que dormia pelas tabernas. Rara era a noite que a polícia o não levava para a esquadra, donde, quando êle acordava, o mandavam embora, não sem lhe terem dado uma valente descompostura: «Que tomasse juízo; que se emendasse, que era indigno dum Deus; que era a vergonha da cara do Olimpo». Mas qual! O patife reincidia. Está já reformado, mas tem ainda muitos fiéis.

Ora que quere você, amigo, com Deuses desta ordem?! Tão bons são uns como os outros.

O próprio Cristo foi um pusilânime. ¿Você lembra-se da bofetada? Só teve génio quando agarrou no chicote e bateu nos vendilhões, uns pobres velhotes, que, chatinando, levavam a vida como Deus era servido.

S. Pedro, o guarda-portão, foi pescador nos seus tempos, e por isso, já sabes, os pescadores vão todos para o inferno.

É por isso, amigo Tibério, é por eu estar bem com todos que os conheço. Exactamente como os farmacêuticos que preferem sempre as drogas feitas em casa dos vizinhos. Não os aturo. Talvez sejam bons os que não conheço. Duvido e não me tenho dado mal. E por mais que parafuse, não chego a perceber porque razão é que Deus não se zanga por um padre ter o chapéu na cabeça na sua presença e dá o cavaco por ver o chapéu na cabeça de qualquer mortal. Altos desígnios!

Ah! mas no outro mundo é que são elas. Deus envia-me para Satanaz. Mas êste, que não pode ver Nosso Senhor nem pintado, sabe que é por vingança que êle me faz aquela partida e, em logar de me frigir, encarrega-me de escrever a crónica do seu vizinho do andar de cima. Então é que eu direi o patife que êle é.

Estou desconfiado de que em morrendo nem Jesus Cristo me vale. E como a viagem não é das mais pequenas e incerto o destino, ou recomendarei nas minhas últimas vontades que, à semelhança do que faziam aos defuntos na Suécia, que lhe metiam no caixão o cachimbo, a bôlsa de tabaco, os fósforos e algum dinheirito para a viagem,--encerrem no meu tudo isso, uns volumesitos para ler, papel, pena e tinta para escrever as minhas _Memórias_. Não quero confiar êsse encargo ao snr. Fernando de Lacerda, porque temo que êle diga que são dele, as _Memórias_. E estou certo de que em sucesso--como se diz à francesa--não ficariam muito àquem das _Memórias duma actriz_, de Mercedes Blasco.

Se, alêm disso, quiserem meter mais um chapéu de sol e umas galochas, como se faz em Reichenbach, na Alemanha, e uma certidão de baptismo com o meu nome e sinais, atestando a bondade dos meus costumes e a pureza da minha fé, como se faz na Rússia, tambêm não será mau.

E, amigo Tibério... Aqui, Tibério, que está quási a dormir, espreguiça-se e com aquele olhar inteligente e vivo, que todos lhe conhecem, diz-me irónico:

«Mas isso é o que se chama não ter religião nenhuma!...» ao que eu redargúo abespinhado--exactamente como Gérard de Nerval no salão de Vítor Hugo:--«Não ter religião nenhuma? Pois se tenho pelo menos dezassete!?»

Gomes Leal

De Gomes Leal se anuncia para breve um novo livro, êsse antigo, ruidoso e singular _Antí-Cristo_, completamente refundido e aumentado. Gomes Leal é sem dúvida uma das mais curiosas, extravagantes e originais figuras da nossa literatura contemporânea. Sitando longe da baixa, num modesto segundo andar lá para os sítios da Graça, necessário é, se o quisermos encontrar, ter de procurá-lo no seu gabinete de trabalho, uma sala alegre e clara onde há um canapé, uma bela cadeira de vêrga, uma secretária e uma cómoda, ambas estas cobertas de livros, de brochuras, de cartas e de papeis. Das frinchas das gavetas entreabertas surgem agressivos pedaços de manuscrito. O poeta é um concentrado, vivendo muito pelo espírito, lendo tudo e tudo sabendo. Gomes Leal, convêm dizê-lo, é um paladino da Arte, um D. Quichote de quem a Arte é Dulcinêa; como aquele--aventuroso; como aquele--sonhador e louco; porque--diz-me aqui do lado um malcriado que está vendo o que eu escrevo--é preciso ser-se louco ou sonhador para ter veleidades de Arte em Portugal.

Gomes Leal nasceu poeta. É inútil insistir. Podia ter nascido Coimbra ou Amieiro, bibliotecário da Ajuda ou parvo, e então a sua sorte seria mais compensadora. Ter nascido Amieiro, para dar a sua autorizada opinião sôbre se o rei vestia ou não camisa! Ter nascido bibliotecário para, pelo telégrafo, lhe dizerem que dissesse o que o outro dizia de Turgot! Ah! é admirável! Então se tem nascido parvo, tinha a sua fortuna feita. Em verdade te digo, amigo Fernandes, tinha a sua fortuna feita.

* * * * *

«Balzac e Baudelaire avançavam em sentido contrário sôbre um cais da margem esquerda. Baudelaire parou em frente de Balzac e pôs-se a rir, como se o conhecesse há dez anos. Balzac parou por seu turno e respondeu dando uma gargalhada, como diante dum amigo tornado a encontrar. E depois de se terem _reconhecido_ num relance e cumprimentado, ei-los caminhando juntos, conversando, discutindo, encantando-se, não chegando a espantar-se um do outro».

Eu não conheci Gomes Leal como Baudelaire conheceu Balzac. Mas, antes de o conhecer, já de côr sabia algumas das mais belas e indignadas estrofes da _Traição_, alguns dos mais artísticos trechos do _Hereje_, as comovidas quadras da _História de Jesus_ e os mais belos e originais pedaços das _Claridades do Sul_. Assim, antes de tudo acostumara-me a ver em Gomes Leal a indignação e a revolta, a arte e a comoção, a sátira, o riso, a lágrima, todo o íris do sentimento, emfim.

Gomes Leal é um poeta, disse. Um poeta lírico, um enternecido lírico. É um poeta que vibra amorosamente. Sabe muito menos odiar do que amar. Iria fazer a revolução com um ramo de cravos sangrentos na lapela. Iria para uma barricada com a cartucheira cheia de violetas. E é assim em tudo. No entanto, dentro do seu peito há oceanos de amargura, de revolta; tempestades de ódio, clamorosas vozes invectivantes. Tôdas as cordas do humano, do riso à lágrima, do raio de sol à Júlio Diniz até à tempestade à Shakespeare, da calma ao furacão, vibram dentro dele rugidoramente. Gomes Leal é um peninsular. Ora penedia agreste, rochedo a prumo, fragas sem fim, ora verdura sem par, céu sem rival, vegetação sem equivalência.

Para conhecer Gomes Leal atravessei, pois, meia Lisboa. Conhecia-o dos seus livros, conhecia-o das suas prosas, conhecia-o dos seus artigos, conhecia-o dos seus retratos, conhecia-o do _Cancioneiro Alegre_ de Camilo. Nunca tinha visto êste homem ora lendário, ora macabro, ora sonhador; apóstolo e pedagogo símplice hoje, sectário de estranhos cultos e misteriosas religiões amanhã. Os seus retratos davam-me uma vaga ideia. Mas o seu nome tinha no meu ouvido a orquestração bizarra, ora da marcha da _Carmen_ ou da _Marselheza_, ora da trombeta de Jericó! Era qualquer cousa de extravagante, qualquer cousa de outro mundo, porque tôdas as bizarrias, tôdas as extravagâncias, tôdas as alucinações, todos os mistérios se esperam dêste cérebro--de quem um amigo meu diz, que tem telefone com o infinito.

O _Edgar Pöe da península_ lhe chamou não sei quem. O que êle seja afinal não sei eu. Baudelaire e Jesus, Pöe e Sancho Pança, D. Quichote e Homero, Camões e Goya, reuniram-se um dia para formar um espírito. O que saíu foi Gomes Leal. Junqueiro disse que os génios combinaram um dia um encontro e se reuniram na cabeça de Vítor Hugo. Talvez fôsse verdade. Os génios podem reunir-se onde quiserem. Ninguêm tem nada com isso.

A Gomes Leal deu Baudelaire o satanismo desatinado e histérico; Jesus a bondade, a comoção; Pöe, o desequilíbrio; Sancho Pança a farçolice, o _humour_; D. Quichote a crença, e a crendeira ilusão; Homero, a cegueira do mundo de patifes em que caíu; Camões, a indignação e o clamorar rutilante e patriótico; Goya, o claro escuro, ora muito claro, branco de leite, ora negro, negro, noite fechada. Destas dádivas tôdas saíu êsse conjunto monstruoso e formidável, ora comum, ora topetando os astros; um grão de loucura, outro de génio, e os restantes como o dum louco e como o dum génio.

Gomes Leal é uma alma extraordinária.

Se os génios se quiseram reunir para pensar e buscaram o seu cérebro como em Hugo, os músicos e os poetas quiseram fazer um concêrto e buscaram o seu coração. É por isso que, se no seu cérebro marulha um mar como à volta do túmulo de Ossian, no seu coração ecoam tôdas as melodias como na rabeca de Paganini. Parece que Gomes Leal não é um poeta, é um panteão. Não da beleza morta, mas da beleza viva, porque os espíritos como o seu são telescópios com que a gente olha através do infinito.

O que o novo livro de Gomes Leal será não o sei eu. Calculo o que êle seja. O _Anti-Cristo_, que era na primeira edição um bom livro, sairá considerávelmente melhorado. Anos passaram sôbre a primeira edição. Anos passaram sôbre o espírito do poeta. O _Anti-Cristo_ sairá e não somos nós, não é o público, nem a crítica, nem a imprensa, quem dele dirá de sua justiça. Ela será feita pelas gerações futuras «visto que é preciso morrer para que nos façam justiça», como disse Zola e como disse o Camilo.

Gomes Leal é ainda um exemplo a apontar a novos e vélhos. A vélhos que se gá-gáisaram e a novos que se vão gá-gáisando. E nesta época resulta precioso. Nesta época de lamentáveis Ortigões, Ortigões mais do que lamentáveis, deploráveis. Nesta época em que os vélhos perderam o silêncio e a vergonha, e os novos, pingando máguas, veem, sem vergonha nem silêncio, fazer versinhos insípidos e cantatas inspiradas. Novos a quem o poeta odeia:

É o ódio contra ti, fraca geração nova, que amas sómente rir, e não tens convicções, nem ideal, nem fé, nem nervos, nem tendões não sabes venerar, não sabes ter respeito rugir, nem arrancar as lágrimas do peito, nem rir como Voltaire, amar como Romeu sofrer como Jesus--nem odiar como eu.

Que não sabem venerar quem devem, nem castigar quem o merece. Ora Gomes Leal, com tôdas as desigualdades do seu talento, é honesto, não é oportunista, visto que não é interesseiro, está-se manguitando para tôdas as sinecuras, ucharias, fardas e logares. Ama a arte sôbre tôdas as cousas e o próximo,--exactamente como a mim,--nada lhe interessa. É por isso, por êle se manguitar, nada lhe interessar o próximo, e não se parecer nada com os vélhos que entonteceram, que eu o considero. E considero-o porque são raros os vélhos que tenham a sua mocidade, tanto como são raros os novos, que, como êle, saibam ser dignos.

E à procura dum homem digno andou Diógenes com a sua lanterna e afinal teve que a apagar por inútil...

Naufrágios

(Carta a Felipe Trigo)

Lembra-se, meu caro amigo, daquele seu oficial reservista que a bordo, durante a tempestade, guardava o salva-vidas de navalha em punho, crendo que a cousa estava por um instante? Lembra-se?

¿O que faria êsse homem na ocasião em que o barco se afundasse e a multidão se precipitasse sôbre o salva-vidas, atropeladamente? Defendê-lo-ia a navalhadas. Mulheres e crianças não seriam poupadas, não é verdade? Leio-lhe a intenção. O meu amigo, como conhecedor dos homens e da sua ingénita cobardia, pois que é um psicólogo, e da sua miséria profunda, visto que é médico, deixou em meia página um tipo imortal.

E creio-o bem. Nunca o homem durante uma tempestade deixará de vigiar o seu salva-vidas de navalha em punho.

Talvez lhe tenha já esquecido o personagem. A mim avocam-mo agora bem intensivamente os telegramas do afundo do _Larache_. E dizem êles com o seu laconismo em que verdadeiramente o silêncio é de ouro, pois é nos telegramas que se aprende a calar, porque o palrar se paga: «Os passageiros disputavam os salva-vidas à punhalada e a tiro». Aí tem o meu amigo o fim, e o que faria o oficial reservista para defender o seu: o numero 30.

O mar atrae-me, muito mais do que a terra. Creio que no mar a porção boa, dose mínima, que cada homem tem, aparece mais freqùentemente.

Exceptua-se, é claro, o naufrágio. Então o homem alija a porção boa e busca uma navalha com que defenda o seu jaleco ou a sua coroa fúnebre de cortiça. Não há pais, nem filhos, nem amantes, nem irmãos. Cada um governa-se. E só em ocasião de naufrágio cada um conhece o seu vizinho. Tambêm, às vezes em terra assim sucede. Quando uma criatura busca, à sua roda, já atolada até ao pescoço, uma abnegação, um auxílio, vê então todos egoístamente cada qual tratando de se defender e safando-se à cautela. De resto no mar ou em terra, ai de ti se não defendes a tua cortiça à navalhada.

Quando me lembrei do personagem episódico do seu _Del Frio al Fuego_ não deixei de me recordar tambêm daquele comunista de D. Emília, a D. Emília Pardo Bazan. Não sei de tipo mais fielmente descrito. Meu caro amigo: Devem ser assim, são fatalmente assim todos os comunistas.

Um amigo meu não conhece a história. E abro aqui um parêntesis para êle. (Ora o caso foi que havia a bordo um socialista-comunista, muito ardente, persuadido, de boa fé e demais propagandista. Sucedeu-lhe ir a bordo e o barco ser colhido no mais brutal duma borrasca desfeita. Escaleres ao mar. Um deles, o mais pequeno, ia cheio de mulheres e crianças, porêm, tão cheio que se começava afundando. Idearam sustê-lo com cabos emquanto se passava gente para outro escaler. O comunista foi encarregado de suster um cabo. Traduzo agora: «A princípio agarrou-o com afinco e só notou um ligeiro ardor; mas logo começou a arder-lhe a palma da mão, como se a tivesse cheia de brasas. Se soltasse, perdiam-se os do escaler: havia que sofrer, que deixar arrancar a pele e a carne. Mas a dôr crescia, a sensação era tremenda e o comunista, soltando um grito, afrouxou o cabo e viu que o barco como uma pedra descia para o abismo. Ficou triste--e para que negá-lo?--Mas confessou que, se cem vezes lhe arder assim a mão, outras cem deixará afundar-se o bote»).

Todos farão como êle e todos o confessarão.

Para mim só o mar tem beleza. O mar profundo, intérmino, sem terra à vista. E, não sei porquê, atrae-me «aquela fria e inquieta sepultura», como se diz na _História Trágico Marítima_. Uma saudade muito profunda, cresce, avoluma-se e evola-se lentamente pela memória de todos os mortos no mar, afogados ou Ofélias, amantes perdidas ou simples labutadores da vida.

Morrer no mar! Há lá maior beleza?! Longe de terra, sentir através das paredes de ferro dum estreito barco o mar iroso batalhar, entoar rouquenho as suas cóleras, cóleras de água que na bonança se desfarão em espuma! Em terra tudo se deixa. No mar tudo vai connosco. Lá em baixo, fazendo companhia aos galeões de Vigo, caldeiras apagadas, as escadas solitárias, a sala de música emudecida, a biblioteca tôda por ler, as viandas por manjar, o nosso barco será indiferente de-certo até ao próprio _Nautilus_ do capitão Nemo, das arrojadas fantasias de Júlio Verne. Navio da morte que ao fundo foi com todos os seus. E é consolador dizê-lo. Não nos esmigalhará o crânio a enxada do coveiro ao fim do nosso primeiro sono, nem sôbre a nossa campa a mulher que dizia amar-nos colherá um cravo rubro para colocar, entre o parêntesis dum beijo, na _boutonnière_ do amante.

Já não falo no consolador prazer que haveria em duas criaturas que se estimassem morrerem abraçadas, sentindo o vélho Oceano galgar por ali acima à sua procura, para as separar, e não conseguindo mais do que fazê-las abraçar com maior amor; ou do capitão que imperturbávelmente, como o capitão da prosa de Vítor Hugo, que ordena a salvação de todos, primeiro as mulheres, depois as crianças, depois os vélhos; a maruja no fim, e todos salvos, na ponte de comando o vélho comandante afunda-se nas águas com o seu navio. Já não falo disso. Mas morrer longe de todos, tranqùilamente, fumando um cigarro, ou ouvindo uma música ideal, recordando alguêm ou alguma figura dos nossos livros preferidos, sem levar saudades nem as deixar sequer. No meio da grande solidão imensa do Oceano! Depois as _almas de mestre_, as aves que no mar alto dão longos e sentidíssimos pios, iriam lembrar à superstição dos que passassem que um pouco nada bastava, uma vaga às vezes, para que quem escutasse fôsse meter-se no corpo dos passarocos e por sua vez fôsse ouvido.

Mas, divagações à parte, aí tem o meu amigo o último acto da tragédia que só esboçada foi. E se o seu passageiro não empregou a navalha, agradeça-se ao Oceano que não sacudiu mais violentamente o seu corpo em fúria. Os passageiros do _Larache_ mostraram-nos o homem. Da _Medusa_ sairam antropófagos; do _Larache_ bandidos. Ah! meu amigo, não o enganou a sua visão. E deixe-os falar, os optimizados. Eles não sabem da vida senão uma teoria confusa e abstracta. É necessário ter visto reluzir o aço da navalha do reservista, _verdad_?

¿Mas para que, afinal, aquilo tudo? ¿Para que disputar a tiro um adiamento de morte? A morte é uma letra a pagar, diz um negociante meu amigo, que tem suas tinturas de filosofia. Para que a reformar, direi eu. Isso que vale?

Depois, no mar, a-pesar-de tôda a sua monotonia, há muito mais poesia, muito mais grandeza do que em terra. A terra é pequena, com seus egoismos, suas sepulturas, suas recordações, lembranças de gerações que foram, pó, pó sempre, eternamente erguido para constantemente derrubado ser.

Decididamente, meu amigo, a terra é banal. Nada me prende a ela, nada. E se alguma vantagem ela tem, é só a que lhe encontrava o capitão Nemo, a de vir buscar livros, muitos livros para ler, para saber, distante, quais as paixões, as cegueiras e os vícios que fazem os homens dar-se caça como a lobos e odiarem-se com um ódio profundo, secular, que irá até que, da terra, os dois últimos mortais, já tombados, larguem da mão as navalhas com que disputaram o último bocado.

Que, decididamente, meu amigo, diga-mo a sua luminosa inteligência, ¿vale acaso a Vida essa labuta, essa fadiga, ou sequer o gesto de puxar a navalha para defender a cortiça, refúgio da morte? ¿Vale acaso a vida, essa ambição de _reformar a letra_ a tiro, à navalhada e a murro?

Goron

Um escritor daqueles que mais considero é êste Goron, antigo chefe da polícia de Paris. E, em verdade, se me dessem a escolher entre qualquer obra de renome universal--a _Jerusalem Libertada_, os _Lusiadas_ ou o _Paraiso Perdido_,--e as _Memórias_, eu não hesitaria um segundo. Seriam as _Memórias_ de Goron preferidas.

Goron, ex-chefe da brigada de segurança, é um dos escritores mais interessantes do seu tempo. O pitoresco e o formidável, o repugnante e o heróico, o vício, a doença, a loucura e o crime, tôdas as loucuras, todos os vícios, todos os crimes, passam nas suas páginas, mesclados, num desfile estranho, numa procissão extravagante e macabra, polichinelesca e terrível. Abro uma página da série das suas _Novas memórias_--as do Amor. Será a primeira do volume _Mercado de mulheres_. O que essa página seja não chega a minha prosa para o contar. É a confissão duma _rôdeuse_ detida no _boulevard_ de la Chapelle.

Dostoiewsky não faria uma página mais sinistramente comovida nem mais elegíacamente emocionante. É duma grandeza absorvente. A história duma vida desfila ali em quatro páginas, vertiginosamente.

Se me perguntarem _á priori_ o que é a obra de Goron, eu não saberei responder. As suas personagens, quem são? e terei novo embaraço. Biografias sinistras, silhuetas de criaturas desgraçadas, de criaturas pérfidas, de criaturas míseras, terríveis, alucinadas, ciumosas, soluçantes. Retalhos de vidas, episódios trágicos, misérias, lôdos, confissões patibulares em lábios purpurinos, confissões sentimentais brotando de criaturas putrefactas, sei lá?! Não sei, decididamente não sei dizer. É uma cousa indistinta, é a vida, a vida vortilhão, a vida Maelstroom, a vida abismo, sôbre que alguêm se debruçasse e trouxesse depois nos olhos todo o horror e todo o espanto.

Pelo seu gabinete desfilaram tôdas as manifestações selvagens da fera humana: Arrancaram a máscara tôdas as qualidades de homens e despiu a alma tôda a sorte de mulheres. E então êle pôde ver, a frio, como um bacteriologista em suas culturas e um dissecador no mármore anatómico, os vícios e as paixões que convulsionam, arrastam e perturbam esta mesquinha e egoísta humanidade. A sua obra é a verdadeira _Tragédia humana_. Ela ficará amanhã, a obra dêste antigo chefe de polícia, como a documentação mais perfeita, o repositório mais eloqùente de factos para a reconstituição da psicologia duma época. E em verdade vos digo que tem comoção para tôda uma literatura, e tão intensificada a sua grandeza que daria filão maravilhoso a romancistas, dramaturgos e todos os buscadores de entrechos se não fôsse tambêm para meditar e para ler, mais com o coração do que com os olhos.

¿Julgarão talvez que sob o aspecto desabrido, rude e solerte do agente não existe o artista e o homem? Enganam-se. O agente comoveu-se muitas vezes e é o artista quem nos transmite essa comoção. Não há ali um coração endurecido. Tanta miséria e tanta podridão tem êste homem visto desfilar ante seus olhos, em tanto lôdo tem mergulhado suas mãos, que, dir-se-ia ter-se-lhe embotado a sensibilidade, tornado incomovíveis tôdas as fibras e de todo já se lhe terem estancado as lágrimas. Mas não. Uma imensa piedade transborda da sua obra. Uma piedade infinita, uma piedade tornada avalanche, que chega até nós ainda avassaladora e convincente.

Querem uma prova? Êste homem forte, que conhece a humanidade por dentro, em todos os seus cinismos e tôdas as suas ternuras, em todos os seus apetites e tôdas as suas ambições, em todos os seus vícios e tôdas as suas virtudes, que conhece o calcanhar de Aquiles de tôdas as almas, que viu empalidecer os maiores homens e cair a cabeça aos maiores criminosos, que conhece a noite e sabe os recantos da miséria, êste homem chegado a certo ponto em que necessário lhe era descrever a enfermaria das mulheres perdidas da _Saint Lazare_, dos versos de Bruant, pousa a pena e diz com ar sumido: «Repugna-me descrever a enfermaria. É demasiado triste, demasiado feia». E logo nos começa contando outra miséria, como se quisesse arrancar o leitor a um espectáculo doloroso.