Part 5
Como não é artista e como não estuda, não tendo portanto intensidade dramática que o agigante, que o transforme, que o complete, êle fica sempre um mastigador de palavreado ôco, porque não transfiltra alma ao que retorica, cantilena ou fanhoseia. Não acreditam? É vê-lo. Nas scenas passionais, lamecha, uma lamechice de saldo, de conquistador de criadas de servir, nas scenas scarpianas uma catadura fera e um vozeirão--que não há criança na plateia que não chore. Para que o actor mereça êste nome, é necessário que vibre; que não seja uma criatura egoismada com os meses que lhe faltam para a reforma; que tenha no estudo uma paciência sherlockolmesca, que se ensimesme, e que crie; que busque na vida real o seu modêlo e por êle se guie; na maneira de andar, de gesticular, de encolher os ombros, de ter as mãos, de escarrar. Que finalmente, é isto que se lhe exige, que faça tiranos como os antigos actores do Príncipe Real os faziam. Tão fielmente verdadeiros que os espectadores os esperavam à porta da caixa para os desancar; ou com a fidelidade com que o Tasso, ali no mesmo tablado, onde êles gaguejam, representava. E tão verdadeiramente que até uma mulher lá do alto, das varandas, bradou--abençoado seja o pão, que aquele homem ganha!
¿Para que demónio havemos de estar a utopizar? O actor em Portugal é um amanuense ou um funcionário público, de que D. Maria é a direcção geral. Se o teatro está em baixo, deixem-me dizer-lhes! se não foram êles que o estragaram, eu tambêm não fui!
No teatro o único logar compatível com a bôlsa da multidão é o galinheiro. ¿O leitor nunca foi para o galinheiro? Pois olhe que é curioso.
Uma pessoa compra o bilhete e vai para a porta duas horas antes. Logo que esta se abre, deve galgar a escada dum fôlego à frente da matula para conseguir um logarsinho donde se aviste a caixa do ponto. Emquanto o pano não sobe, os espectadores, apertados como sardinha em canastra, travam conversas e arranjam conhecimentos. Um ou outro misantropo saca um jornal da algibeira e põe-se a soletrar. Os outros conversam. Fala-se de tudo: do tempo, do João Franco, da peça que vai, dos calos e da vida: oferece-se a casa. Entretanto sobe o pano. Tiram-se os chapéus, cospe-se, tosse-se e apuram-se os ouvidos. Começa a cousa. Mas com todos os santos da côrte do céu! Não se vê nada, não se ouve nada. Esta só pelo demónio!
E aí começa uma pessoa a estender o pescoço. Estende mais, estende sempre. Aquilo já não é pescoço, é um óculo de ver ao longe, é um telescópio, a sair duma camisa. Quem olha da plateia tem a impressão de que aquilo não são criaturas. São girafas, são camelos, são só pescoços, pescoços sem fim, com dois olhos vorazes, lá no cimo, a espreitar.
Isto são os que chegaram à frente. Os retardatários, êsses, então, não vêem nem ouvem nada. Ficam cá nas últimas filas a contemplar a beleza do lustre e as pinturas do tecto. Ás vezes por milagre sempre conseguem ouvir assim uma cousa parecida com a «passagem do regimento», em monólogo, conforme o fôlego do actor. De resto, silêncio absoluto.
Na impossibilidade de ver e de ouvir e depois de ter examinado bem o lustre, o tecto, o pescoço dos da primeira fila, o porteiro e os bancos, prepara-se o espectador para um soninho descansado. Mas logo por azar, de lá, das profundezas do palco vem por ali acima um berro:--Ah tirano!--e a criatura acorda assustada julgando que é fogo. Mas não, tudo voltou ao silêncio absoluto. Lá em baixo a scena continua com estas intermitências.
Ás vezes, quando um cidadão não só dorme, mas sonha tambêm, sempre lhe ferram cada susto?! Acorda estremunhado. Palmas. Ah! É o intervalo. Os da frente principiam a recolher o pescoço. O misantropo, que não pôde apanhar logar à frente e não largou o jornalsinho, embrulha o jornal e prepara-se para ir beber dois ao «Cesteiro». «Vinum bonum lœtificat cor hominis». O bom vinho alegra o coração do homem. E o misantropo, quando volta, traz o nariz que parece uma malagueta e sempre fede!...
A scena continua, os da frente estendem outra vez o pescoço e os de trás, à cautela, forneceram-se de pevides. Sim! Porque se uma pessoa não leva pevides, está tramada!
Se o teatro está decadente, não é por falta de «dramamíferos»--dramamíferos é boa!--porque até um deles enviou uma carroça de mão, cheia de peças, com a nota de que aquilo tinha um descontozinho para revender. Agora é que o teatro ressuscita. Dramaturgo raso que há anos trazia as peças dentro dum canudo de fôlha debaixo do braço, e que não lhas representaram, por má vontade da emprêsa, já se vê, vê-as agora representadas com a sábia medida de D. Maria. Agora é que vão aparecer. Shakespeares, Maeterlincks, Ibsens e Hauptmans. Mas no fim de contas do que eu estou desconfiado é de que esta emprêsa de D. Maria tinha um avultado parasitismo dramatúrgico sôbre si, que vai agora sacudir... representando-o.
Mas a arte, onde está? Que resulta de tôda esta cousa? Vale a pena a gente ralar-se? Não. De-certo que não. Não vale a pena. Calino, que na bilheteira pedira um logar que não fôsse por debaixo do lustre, para lhe não sujar o fato algum pingo de gás, acha bem. Eu tambêm. Acho óptimo, acho tudo o que êles quiserem contanto que não me macem. Tempo é dinheiro. E, caramba! Tudo isto somado não vale a ponta dum cigarro.
Mas o remédio? Deixemo-nos disso. Nada de fantasias, que isto de gizar planos e bandarrear profecias é como as contas do sapateiro. Saem sempre furadas. Afinal é clamar no deserto:--«vox clamantis in deserto». É tal e qual. Até vem nas Escrituras.
D. João da Câmara
João da Câmara (D.), cronista do _Ocidente_, autor dos _Vélhos_ e da _Triste Viuvinha_, acaba de partir para a grande viagem donde se não volta. E agora, a esta hora que escrevo, se regozija êle na cela do seu caixão, cela dêsse «convento, que há alêm da Morte e que se chama a Paz». Êle não voltará jamais olhar-nos por cima da luneta, contar-nos uma anedota que o seu sorriso reticenciava, nem embalar-nos com o tom serêno, religioso, espiritual, da sua conversa tão segredada e insinuante.
D. João da Câmara era ainda, neste país de bacharéis, nesta pátria de futilidades e falcatruas, uma criatura que fazia vida àparte de _cotteries_ e de políticas, que a vida levava como Deus era servido, e que por isso mesmo se tornou simpático a gregos e troianos.
Um _bon viveur_ com perpétuas faltas de dinheiro, que a sua falta de tino administrativo e a sua generosidade fidalga explicavam prolíxamente, sem cuidados mais fundos do amanhã e sem que o hoje fizesse à sua maneira de encarar a vida descalabro grande; não havendo agiota que o não sugasse para não haver desventurado que, dentro do seu âmbito generoso e monetário, êle não protegesse; um boémio em tudo, se por boémio tivermos um abandono de horas, de convenções, de regularidades. Eis o que êle foi. Criatura sempre camarada, sempre amiga, sempre fidalga, não murmurando nunca dos outros, nada aziumeira e biliosa, sincera sempre no seu auxílio, a ponto de lhe forçarem a boa fé sem que tivesse desdens, a ponto de o intrujarem, sem que tivesse rancores, eis aqui como o conheci e a lembrança que conservo dele, o primeiro consagrado com quem me dei, se consagrado se pode chamar o que chegou primeiro e tem mais largos horizontes de protecção e crédito nominal, que nem outro crédito o escritor disfruta em Portugal.
A nossa camaradagem, e falo dela com orgulho, foi sempre boa, serêna, plácida. E dele três lembranças há, que mais fixativamente se me gravaram na memória. A da estatueta do escultor Silva Gouveia, uma flagrância bem natural, e a da penúltima vez que o encontrei, fazendo a ascenção penosa, uma ascenção asfixiante, da escada das _Novidades_, então no Largo das Duas Egrejas. Essa impressão é a mais viva. Uma impressão de ruína, de acabamento. Da última vez que o vi, foi na estreia das _Rosas de todo o anno_, do nosso Júlio Dantas, no palco de D. Amélia. Nunca mais o tornei a ver. Agora outra impressão me ficou: a do seu entêrro, em que se fizeram discursos que deviam ser proibidos, por convencionais, literaticos ou desageitados, e onde em tôdas as fisionomias vi a mágua sincera da sua perda, a ponto de grandemente me apoquentar a cara contristada, sofredora, de Lopes de Mendonça, outra criatura sincera e afectiva, e a de Eduardo Schwalbach, que nada tinha, nada, do seu mefistofelismo habitual.
* * * * *
Quanto à obra pública do escritor, outra é a minha opinião. Eu não creio que João da Câmara tivesse feito uma obra grande. Que fizesse uma obra sua não duvido, porque tôda ela é desigual, ressentindo-se das ocasiões em que a trabalhou, das circunstâncias em que a fabulou o espírito, e das impressões ou necessidades que a fizeram trasladar ao papel. Nem plano, nem harmonia, nem concatenação filosófica que a atravesse, nem fim a que se destine. Ela não é mais do que o espelho dum espírito cheio de lirismo, romântico por falta de leituras novas, sem concepção do mundo e dos outros e ainda o que é mais, sem que seja outra cousa do que produto duma travessia desordenada e fugitiva pelas regiões do sonho.
O livro póstumo ora publicado--_A Cidade_--é mais do que medíocre. São poesias soltas, cantando cousas banais, em versos banais, porque não foi, esta pobre alma de poeta, nunca uma alma tragediadora que sentisse a vida e as cousas com nervos de quem sente apressadamente. Natureza mole, um quási nada enxundiosa, a vida representou-se-lhe sempre como uma cousa calma e pacificada, demais tendo, como êle tinha, porque era um bom, o defeito de acreditar na bondade alheia. Assim, o seu lirismo são versinhos sem nexo à falta de idea que os vibre, e deixam-nos no espírito a impressão de que lhes deu forma uma criatura afeminada e criada entre armures e cousas fôfas. A cidade que o poeta viu é uma cidade banal, de lirismos contumazes de poeta principiante e água morna. Quanto à obra restante, bom será que a turba jornaleira, que não soube fazer um artigo digno e deu à jolda informatriz o encargo de dizer do passamento do malaventurado homem de letras, se não escagarrinhe de entusiasmo por peças que nunca viu representar, nem livros que jamais leu. E bom será, para que não venha provocar palavras de justiça quando são necessárias palavras de saudade. Babuje embora os seus pobres louvores, sem forma e sem gramática, a sua sermonada do costume em entêrro de conselheiros, mas não queira exercer, judicatura em cousas para que ninguêm lhe deu fôro. E que os mortos não sirvam, pobres mortos! para que um nome que não lhes serviu a êles, nos agiotas, sem fiador, venha levantar celeumas justiceiras e tornar-se ferrete ignominioso duma profissão.
Curioso é, como, tendo morrido o pobre D. João, há bem pouco tempo, já os jornais andam afervilhados para que a família do escritor não fique na miséria. E vá de explorar essa miséria fazendo jus a uma pensãosinha, pondo demais à cabeça do rol a encobrir, justificar e pôr o visto, o nome de Fialho de Almeida, sob títulos de que Fialho num artigo frisava o estado precário do poeta.
Há por certo engano. Os senhores estão enganados. Fialho não frisou o estado de miséria em que viveu D. João. O que Fialho fêz foi frisar o estado de miséria em que chafurdam os nossos intelectuais. Generalizou, não falou de D. João em especial. A miséria dos nossos intelectuais, se miséria se pode chamar um máu passadio, de horizonte limitado, em tudo é já sabida. É até uma tristeza mecher-se nisso.
Mas os jornais não param. Pretendem para a família de D. João uma pensão.
Ora, começa aqui o amargo. A família de D. João não a merece. Porquê? Porque não. Ficam escondidas várias razões que virão, se fôr preciso. Não a merece, como a não merecia a família de João de Deus e como a não merece a família do Eça.
A obra de D. João não é uma obra nacional ou com foros disso. O Estado pagou ao escritor como funcionário público. O Conservatório como professor.
Nada tem o país que ver com o resto.
Mas se os jornais querem dar uma pensão à família do escritor, que se reunam êles, as empresas teatrais, as casas editoriais, os agiotas e terceiros, para fazer a restituição de tudo quanto em vida lhe roubaram.
Pensão do Estado não pode ser. E não pode ser, porque o Estado é pobre e porque basta de precedentes. Eram 800$000 réis, não eram? Pois reclamem, reclamem êsses oitocentos mil réis para escolas, para que amanhã o povo dê ao escritor mais mil ou dois mil leitores. O Estado é pobre, o Estado não pode dar pensões a ninguêm, quando ha milhões de analfabetos. O Estado não pode ter parasitas, quando tem dívidas. Que dê pensão aos netos de Camilo, vá. Mas que as dê a todo o que se permitiu gastar o pouco que ganhou, sem nenhum interêsse para a arte nacional, é que não. Amanhã virão todos os que literatejaram e conseguiram nome reclamar. Virá... eu não digo os que virão. É melhor estar calado. Até eu, quando morrer, deixarei à família o requerimento.
Mas para que demónio nos obrigam a falar nestas cousas!?
Arte de Reinar
Senhor:
«Hum sabio disse que não havia n’este mundo homem que se conhecesse; porque todos para comsigo são como os olhos, que, vendo tudo, não se vêem a si mesmos; e d’aqui vem não darem muita fé nem de suas perfeiçoens, nem advertirem em seus defeitos; e ser necessário que outrem lhes diga o que passa na verdade. Se V. Magestade não se conhece, nem o mundo em que vive, e de que he Senhor, eu o direy em breves palavras».
O autor anónimo da _Arte de Furtar_ começa assim o seu prólogo em palavras de ontem que parecem de hoje. Começa assim e não vai mal. Eu, porêm, não começarei assim. Chama-se esta crónica _Arte de Reinar_ ou, para melhor, _Da Arte de Reinar_. Há várias crónicas e várias artes. Desde a _Arte de cavalgar a tôda a sela_, do mui erudito senhor e sábio eloqùente D. Duarte, que Deus, ou lá quem é, haja em sua santa guarda; desde a _Arte da guerra do mar_, de mestre licenciado Fernão de Oliveira, que a eternidade em sua santa glória haja; desde a _Arte de Furtar_, que as más línguas atribuem ao reverendo Vieira, até ao livro que se lhe contrapõe _Arte de los estafadores_, que traz trezentas ou quatrocentas maneiras de os evitar, como se os _estafadores_ não tivessem ainda oitocentos golpes para as inutilizar; desde as artes, emfim, de _Pedro das malas_ ditas até ao Livro ou _Arte de ensinança dos principes_, que quantidade de artes! Esta, de que hoje se trata, é a arte de reinar. Reinar não é assim uma arte muito fácil. É mesmo mais difícil do que o que parece. É mesmo muito difícil reinar nos tempos que vão correndo.
Para reinar, três predicados se exigem: Que o reinante seja um filósofo, isto é, que conheça os homens; que seja um scéptico, isto é, que não acredite na felicidade; que seja justiceiro, para que o que é de Cesar não vá parar a Paulo e para que Paulo não berre que Cesar lhe empolgou o seu quinhão. Ora, para V. Magestade ser um filósofo e conhecer os homens, não tem mais do que abrir a sua _Arte de Furtar_--se não tem, empresto-lhe!--no prólogo supra mencionado. Lá diz: «este mundo he hum covil de ladroens», e olhe V. Magestade que é verdade. Isto não é um vale de Lágrimas, é um vale de patifes. Cerque-se V. Magestade de homens honrados, mas não deixe de fazer como o esclarecido D. Luís, vosso augusto avô, fazia às caixas de charutos que tinha para consumo particular: pôr sob a tampa de cada uma, uma caixa de música, de maneira que por cada charuto surripiado ouça ao menos o _intermezzo_ da _Cavalleria_, o intróito dos _Palhaços_ ou o _La donna é mobile_ do _Rigoleto_.
Não ouça V. Magestade mais do que o conselho do seu conselho, que é como quem diz a reflexão do seu juízo. Acredito que sejam todos muito honrados, mas bom será sempre conferir as colheres de prata. Se V. Magestade achar que a _Arte de Furtar_ é pouco, leia Schopenhauer, um má língua sem precedentes, e o mais que a experiência lhe aconselhar. Ouça os conselheiros... Eu conto uma história a propósito de conselheiros. Li-a em um volume de José de Magalhães, escritor que deve ler, demais a mais colaborador da _Luta_, e vou dizer-lha dum fôlego: «Um dia que Çakia-Muni, príncipe jovem e feliz, a quem tinham ocultado as doenças, a velhice e a morte, saía com um séquito numeroso pela porta oriental da cidade, para se dirigir ao jardim de recreio de Lumbini, encontrou no seu caminho um vélho desdentado, decrépito e coberto de rugas, articulando com dificuldade sons desagradáveis. O príncipe, admirado, pergunta porque chegou aquele homem a tal estado. Em resposta consegue saber que todos os homens chegarão a estado semelhante, salvo se a Morte misericordiosa os tomar. Desconhecia o príncipe tambêm o que era a Morte. Mas doutra vez que saía a passeio topou no seu caminho um esquife em que levavam um homem que já nem respirava, nem pensava, nem gemia. Já não conhecia o sofrimento e poderia Çakia-Muni passar por êle cem vezes, que o vassalo submisso, dedicado e reverente, nem uma vez se ergueria para o saudar. Tambêm o príncipe não conhecia que cousa fôsse doença, quando o encontro dum vélho ulceroso, chaguento e miserável lhe veio patentear mais uma miséria a que estamos sujeitos, a que todos os homens se sujeitam, e a que mesmo réis ou príncipes, imperadores ou párias, se não podem furtar.
Foi então que Çakia-Muni deliberou não ouvir mais os seus conselheiros e considerar. E fêz bem. Fêz muito bem. Por ter ouvido demais os conselheiros é que aquele outro rei veio em fralda para a rua. Todos os conselheiros diziam que êle estava vestido com um estôfo maravilhoso, e tantas vezes lho disseram que êle acabou por acreditar. Exactamente como aquele Marques a quem tantas vezes chamaram Marquez, que êle acabou por se julgar assim. Foi preciso um garôto, um garôto insurreccionado, atrevido, irreverente, encarrapitado numa árvore, berrar lá de cima «O rei vai em fralda!» para que êle caísse em si e corresse aquela choldra dos conselheiros. Se algum dia os conselheiros disserem a V. Magestade que mais isto e mais aquilo, V. Magestade duvide sempre. Duvidar não fica mal aos mortais, embora êsse mortal seja um rei.
Para reinar bem, é preciso ser sábio, ser prudente, ser justiceiro, recto e generoso. É muito para um homem só, mas com um pouco de boa vontade tudo se consegue. Ser sábio ainda é o menos. E por essa história fora há tanto bom rei de letras gordas... Ser prudente e ser justiceiro são qualidades indispensáveis. Prudente como a Prudência e justiceiro como Salomão. Assim se governa a contento dos governados e os governados se contentam com quem os governa. Já se dizia isto no tempo de Gôngora, em que parece escrito, pelo trocadilho.
Para bem reinar é preciso conhecer os homens. Para conhecer os homens é preciso ou ser filósofo ou ter sofrido. E, que demónio! não é difícil ser um bocado filósofo e sofrer o bocado que lhe falta.
Mas reinar é uma cousa e falar é outra. Os que falam mais não são os que melhor governam, nem os que mais prometem que melhor cumprem. Reinar é uma cousa difícil. Isto já se dizia há séculos em vélhos livros poeirentos e vernáculos. Vernáculo e poeirento é quási sinónimo, nestes tempos em que vélhos e novos «galicismam e escabeceiam».
E visto que o ofício é governar, nada de montarias. Ainda que os conselheiros de hoje são cortezãos de cheviote vulgar e não diriam nunca «Senão...», aquele senão histórico que vem nas crónicas e de que a história reza, com prólogos de muito louvor.
Eis pois os tópicos essenciais da arte de reinar, complexa arte de que profanos não percebem. Ser rei é bonito, mas não é lá muito bom ofício. Não sei mesmo o que êles pensam a respeito da sua ocupação. E curioso seria reunir as opiniões de cada um deles sôbre o emprêgo que lhes deram. Consultar o Kaiser, êsse Guilherme II da Alemanha e dos bigodes, o _Cleopoldo_ da Cléo, o rei de Espanha, o de Itália, o da Grécia, os de tôdas essa terras. Inquérito lembrado a uma revista que explore a especialidade.
E já que falei em reis, em reinos e em reinados, aí vai uma anedota que, se não fôr verdadeira, nem por isso deixa de ter bastante filosofia:
«A um rei pediu uma ocasião um frade que lhe desse quarenta moedas para comprar uma mula. Respondeu o rei que não tinha, ao que o frade objectou: «Falai baixo, meu senhor, porque se essa gente--e indicava a turba dos cortezãos--sabe que V. Magestade não possui quarenta moedas para comprar uma mula, nem um deles deixará de se ir embora».
Religiões
As religiões, ia você dizendo?!... E como o filósofo erguesse o focinho em ponto de interrogação, eu volvi solene: «Sim, amigo Tibério: Essa cousa de religiões é uma cantiga. Positivamente uma cantiga. De resto, não me julgue você ateu ou pedreiro livre. É certo que não vou à missa, não sei o padre-nosso, não trago sermões, nem sou papa-hóstias. Isso não. Mas tambêm não faço bolas de sabão, nem deito papagaios, nem quero saber da vida alheia. Ora daqui a ateu, amigo Tibério, que diferença?! E você, se duvida, escute: Eu acredito que, quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que o paga. Emquanto a religiões, dir-lhe-hei, muito à puridade, que acredito. Acredito e como é sempre bom estar bem com Deus e com Satanaz, tenho para meu uso uma data de deuses. A todos respeito, tiro o chapéu a todos, se êles me estendem a mão não lhes recuso a minha, se os encontro, inquiro solícito como vão lá pelo céu a mulher e a pequenada--isto aos deuses casados; aos outros pergunto-lhes que tal vão da figadeira, se passaram bem a noite, emfim, cuidados de gente bem educada.
Assim, como trato bem a todos, êles vão-me deixando viver tambêm, na paz do Senhor.
Respeito o urso, o deus dos siberianos, mas não lhe estendo a mão. Respeito as serpentes, como os africanos, mas não me chego muito. E para ser um bocadinho descrente, valha a verdade que não acredito muito que seja grande fortuna ser morto por um leopardo, como acreditam os nossos irmãos do Dahomé.
Dou-me óptimamente com Ilâh ou Shamsh, o deus Sol, e tenho em minha casa um gato chamado _Marau_, que deve por certo ser descendente do gato sagrado de Heliópolis, no tempo de Rã. E quantas vezes, quantas vezes olhando para êle eu considero;--para êle que só reconhece, na sua irreverência felina acima de si o carapau.--«E é isto descendente do sagrado Rã, a quem os sacerdotes daqueles tempos oravam: «Tens a cabeça do deus-sol, tens a fauce de Thut, o que é duas vezes poderoso e senhor de Hermópolis! As tuas orelhas são as de Osíris, que ouvem tôdas as preces; a tua bôca é a do deus Tum, o deus da vida, que te manteve impoluto; o teu coração é o de Phtah, que te lavou os membros de tôda a nódoa! Tens os dentes de Chunsu, o deus da lua, e as coxas de Horus, o que vingou seu pai Osíris!»
O gato de Heliópolis teve um santuário, um bosque frondoso, e fiéis. Fiéis como tem agora às sextas-feiras o Senhor dos Passos da Graça.
Não era assim meia dúzia de fidalgotes. Eram aos seis, setecentos mil, fora os bandos de crianças levadas pela mão ou ao colo pelas mães, diz o nosso Oliveira Martins: «Aschoreas de fiéis subiam, os gritos da flauta convidam os deuses, as castanholas, como a antiga matraca selvagem, excitavam o fervor das danças sagradas. Balouçavam-se as barcas no rio, levando, trazendo gente; sussurrava a turba e um côro de orações obscuras enchia o ar de evocações fantásticas. Os talismans de Bast afugentavam os maus espíritos; por isso os romeiros levavam ao pescoço uma cabeça de gato, como bentinhos». E mais se diz que a pintura da lua de Bast e a imagem do gatarrão «enchiam de contrição os romeiros».
Aquilo é que era. Naquele tempo a vida estava para os gatos. É claro que não explico ao meu o que foi o avô dele, porque, estou certo que êle ignora que tem parentela tão distinta. Deixemo-lo viver na sua ignorância. Quem sabe! Podia tornar-se exigente.