Part 4
Tinha lido alêm de tudo isto aquele imortal louco que se chamou Julio Verne. Acreditava pois em maravilhas. Foi, viu e escreveu um livro, o que é uma linda vingança. Antigamente dizia-se chegou, viu e venceu. Daqui os amorudos lamechas fizeram o incomparável--chegar, ver e ser vencido. Isto é de molde dizer-se de joelho em terra, a mão no peito e assim um certo ar patético. Assim um certo ar bironiano, como se o pobre _lord_ tivesse que ver com estas tolices. O escritor, porêm, lê, acredita, faz as malas, compra o bilhete, vai, roubam-no descaradamente em tôda a parte, é comido de percevejos cosmopolitas, percevejos que, tendo vindo da Cochinchina no _couvre-pieds_ dum inglês, embarcam no outro dia na manta de viagem dum tirolês, encontra por tôda a parte caminhos de ferro, patifes, estradas reais intransitáveis, uma ignorância pasmosa e um fedor humano?! Que faz para se vingar? Puxa da caneta, uma caneta com depósito de tinta, puxa dos linguados e zás--sai livro. Em logar de contar o que passou, o que sofreu, as suas aventuras e os seus arrependimentos, as saudades que teve da sua casota e as vezes que torceu a orelha e ela não deitou sangue, não senhor! Conta cousas maravilhosas, fantasia, intruja e passa a balela aos outros. De tudo isto resulta um pouco: que todos os livros de viagem se parecem, exactamente como as cartas de amor, cujo fundo amoroso passional e estilístico está nesse livro de génio que se chama o _Secretário dos amantes_, tão genial que devia ser obrigatório, e que se não existisse se tornaria patriótico inventá-lo; e que as viagens me são extremamente aborrecidas, com o que ninguêm tem absolutamente nada.
Se o _Oriente_ não trouxesse a etiqueta de Vicente Blasco Ibáñez, eu diria encolhendo os ombros e parodiando o verso célebre de Espronceda: «que haya un libro más que importa al mundo!» Mas não. Tive que o ler, e declaro que não perdi o tempo. O _Oriente_ é curiosamente interessante, e interessantemente curioso. Há nele de tudo. Descrições maravilhosas, ironia fácil, graça, e de vez em quando até gravidade, uma gravidade nada protocolária, porque eu não sei o que isso seja em Espanha, quando me lembro da _Marcha da Cadiz_ e do _Morrongo_.
Publicado primitivamente em crónicas, recolhidas agora em volume, êste livro nada destôa da obra de Blasco, mesmo se dissermos que Blasco é autor de livros maravilhosos como _La Horda_, _Entre naranjos_, _Flor de Mayo_ e outros. E que, alêm disso, está horrorosamente traduzido em tôdas as línguas, como o Máximo Gorki, de quem um entendido me dizia outro dia: «Gorki é um mártir. Imagine que êle, escrevendo em russo, tem sido traduzido em tôdas as línguas e dialectos por aí abaixo». É assim uma cousa parecida com uma história contada aqui e que mil bôcas fôssem passando umas às outras até Alcântara. Cada uma tinha dado um átomo da sua originalidade. Tinha ido substituindo ou transformando. ¿Pois não é uma lei que «na natureza nada se perde, tudo se transforma»? Quando chegou a Alcântara a história está tôda transformada. Deixou de ser do seu inventor para ser duma sociedade anónima. Tal qual Gorki. «O Gorki em russo, diz o meu interlocutor, parece-se tanto com o que aí conhecemos, que foi traduzido do espanhol para onde havia vindo do francês e assim por diante, como uma galinha se parece com uma espada, para não dizer um ôvo com um espêto».
O Oriente deslumbrou Blasco. Foi, viu e publicou o seu livro. Acho bem. Acho bem, tanto mais que deu aos seus 20:000 ou não sei quantos leitores o prazer de ler um livro adorável e desenfastiadamente escrito, que nos põe bem com a arte e com as viagens.
E agora, que fechei o livro e me preparo para fechar a crónica, sempre lhes direi que o trabalho é uma cousa consoladora. Eu penso assim. O meu vizinho,--todo o cronista tem um vizinho pensador ou pensativo,--pensa que o trabalho é bom para preto. Não importa. Eu penso que o trabalho ainda nos põe bem com a vida e que, se assim não fôsse, eu não teria ido ao Oriente em espírito, não teria lido um livro magnífico e não teria gostosamente esportulado os seis tostões que me custou o livro de Blasco.
As flores
Certa ocasião em que, ido dos confins de Lisboa, me decidi a visitar o solitário poeta do _Hereje_ e da _Traição_ na sua casa da rua da Bela Vista, à Graça, ouvi dele, ao perguntar-lhe qual a sua flor favorita, a seguinte resposta: «Que sei eu, meu amigo? As flores são como as criaturas. Há nelas tambêm uma hierarquia. ¿Quem pode deixar de adorar uma dessas rosas do Japão, aveludada, enlanguescida, aristocrata, soberana? A rosa chá é uma duqueza formosíssima e decotada. Ah! a rosa chá! Mas tenho uma decidida predilecção pelo cravo rubro, o cravo sangue, estridoroso, flamante como uma bandeira desfraldada. O cravo petulante! A violeta é uma menina romântica. Há violetas que sabem de cor versos inteiros de Soares de Passos. A camélia é uma delambida. Não veste bem. Tem algo duma burguezinha carnuda e afectada. Mas não desadoro na sua humildade o cacto silvestre e a flor de lis».
Ora, como o meu querido Gomes Leal, considero que não há nada que se pareça tanto com uma linda mulher do que uma bela rosa. E por isso é que, sempre, ao ver uma rosa me lembro duma bela mulher. Ao ver um campo de flores, um jardim cuidado e mimado, como Alexandre ao espraiar os olhos pelo seu exército dum milhão de homens, não posso deixar de scismar em que tudo aquilo foi feito para morrer. Alexandre considerava que ao fim dum século nenhum de todo aquele brilho sobreviveria, nenhum dos seus guerreiros conservaria o seu porte marcial e humano. Eu, ao ver a _montre_ dum florista, na falta de jardins por onde alongar os olhos, penso tristemente que nada restará daquela beleza ao fim de cinco dias. Envelheceram os cravos, murcharam as rosas, penderam os lírios, os amor-perfeitos secaram. O próprio funcho, o feto silvestre, êsses mesmos se vão secando. E de tôda aquela beleza nada resta, nada. Fôlhas sêcas, fôlhas moribundas, flores agonizantes. O tempo, impiedosamente, com sua mão gelada as tocou e lhes foi a pouco e pouco dando a morte...
Uma rosa branca é uma linda mulher. A mulher envelhece como a rosa; a rosa morre como a mulher. Conservo na minha vida uma grande saudade. Foi duma rosa branca, enorme, perfumada, que numa jarrinha, onde um par dulcíssimo e precioso, entrajado à Império e miniaturado à Watteau, dançava um clássico minuete, viveu, agonizou e morreu. Trouxera-a uma tarde, déra-ma não sei quem. Posta na sua jarra, depois de mil cuidados, a rosa era linda e desdenhosa. Linda e desdenhosa me acostumara a vê-la. Falava-me às vezes. O seu perfume dizia-me cousas estranhas, misteriosas, exquisitas, que me embriagavam, que me faziam sonhar.
Acostumei-me a corporizar a rosa.
Já não era uma flor com a sua anatomia que a botânica me ensinara. Era uma linda criatura, sonhadora, melancólica, fiel e amada, que me fazia feliz, mas que se definhava na sua solidão. A-pesar do calor dos meus beijos, do meu recolhimento profundo e magoado, ela foi-se «pouco a pouco amortecendo», como no soneto célebre de João de Deus. Uma dorida mágua a mirrava e entristecia. Sem saber porque, via a minha rosa tossir. Mimei-a. Incapaz de amar alguêm, de a alguêm ser fiel, ageitei-lhe o pouso, dulcifiquei-lhe a estada. Fui seu enfermeiro vigilante. A pouco e pouco, porêm, a-pesar-de todos os meus cuidados, emurchecia. Uma tristeza vaga entrou com ela. Perdeu o brilho. Do setim das suas fôlhas sumiu-se o lustro, e amarrotou-se como as saias de sêda que se metem a trazer por casa. Encarquilhou-se. E um belo dia, como aquela donzela dos versos de Vítor Hugo, que morreu valsando, a minha rosa morreu. Tombou da haste agonizante. Docemente, tristemente, assisti à sua morte. Vejo agora no fundo duma caixa, o seu caixão, aquela rosa que foi o meu único amor, e que é hoje a única saudade da minha vida. Porque amei estremecidamente aquela linda rosa aveludada cujo perfume ainda hoje me entontece. E não a posso ver, ao seu cadáver, uma múmia galante e ressequida, que não entristeça. Era tão linda!
Tambêm amo apaixonadamente as violetas. Diga embora o meu poeta que elas são românticas. Eu adoro os românticos, porque não sou no fundo mais do que um romântico que se travestiu em homem desta época para que o não roubem, para que o não assaltem, para que o não explorem, para que o não espanquem. Se adoro os românticos, é porque êles são afinal os únicos que sabem sentir e os únicos que souberam amar.
Camilo, o romântico apaixonado, amou outra vez ao escrever a D. Maria Izabel as cartas de amor que seu filho assinava. E pelo rapto foi uma flor que o vélho romântico indicou para dar o sinal no peitoril da janela da raptada. Uma flor! Camilo, que fôra um romântico tôda a vida, como um romântico amando, e odiando com uma sanha que só hoje se encontra nos vélhos alfarrábios, como um romântico morreu. Quem poria hoje uma flor? diz Alberto Pimentel. Ninguêm. ¿Tambêm, quem ama hoje as flores apaixonadamente? Um ou outro maduro que as cultiva, que as estremece e que as chora. Adoro as violetas. São simples e são modestas.
O perfume das flores é o espírito das mulheres. Há flores magníficas, supremas de graça, estonteantes de côr, que não cheiram. Não gosto delas. Há mulheres vestidas de setim, perfumadas a lilás, que não teem perfume. Quem as pode amar?
Os homens, querendo corrigir a natureza, fizeram flores de conta própria por cruzamentos e enxertos. Sairam flores macabras, flores _canailles_, flores que lembram _cocottes_, berrantes, auriflamantes, estonteadoras. Mas não cheiram. Não teem perfume. Como o pintor da antiguidade que encomendara ao discípulo uma Vénus e que êste lha apresentara ataviada, mas feia--gargantilhas de pérolas, barreira de ouro, colar de diamantes, pedraria em profusão--as flores cruzadas são lindas mas não teem perfume. E logo a resposta do mestre nos vem à bôca: Fizeste-a rica porque a não pudeste fazer formosa! É o mesmo. Porque as não puderam fazer perfumadas, fizeram-nas formosíssimas.
É agora a época das flores. Os dias de sol, lindos, dias tépidos como os de agora, fazem amar as flores, porque ¿quem as pode amar em dias londrinos, de nevoeiro e chuva? ¿Quem pode viver sem o perfume da violeta? Se não fôssem as violetas, a vida seria duma monotonia assustadora. E tão indispensável se tornam à vida que duma linda mulher sei eu que não pode viver sem elas. Quantas vezes, bocejante de tédio, neurastenizada, ela me diz parafraseando a frase célebre do filósofo alemão:--«Ah! meu amigo! Se não fôssem as violetas eu não gostaria de viver». Ao seu peito um ramo de violetas rejuvenesce eternamente. No seu toucador um frasco de violetas perfuma o ambiente e lhe perfuma a carne. À sua mesa certas são as violetas, em que os seus dentes gulosos se atufam, como nas fôlhas de rosa os dentes brancos dessa poética _Madona do Campo Santo_.
Depois destas flores mimadas, veem as flores modestas e as flores terríveis. Flores modestas, a papoula e o malmequer. «Mal me quer... muito... pouco... nada». Sina rudimentar, sina do acaso. Aos iludidos ela diz sempre falso: “Muito”. O tempo vem e afinal era “nada”. Como o malmequer mentiu?! O malmequer é sempre mentiroso. Se diz “muito” a gente duvida e tem sempre razão. Se diz “nada” a gente não acredita. E é por isso que falando êle sempre verdade, porque sempre diz _nada_, a gente o não quere nas jarras, o desfolha sem amor. Porque nós odiamos quási sempre quem nos diz a verdade sem lisonjas e sem paixões.
Nas flores terríveis temos a mancenilha. A mancenilheira é uma criatura diabólica. Persisto em corporizar as flores. A mancenilha é uma mulher, uma mulher que dá a morte. Uma daquelas mulheres que matam, sorrindo, que sorrindo arruinam, e que trazem consigo sómente a infelicidade. Nunca encontrei nenhuma mulher-mancenilheira. Eis aqui porque adoro a mancenilha, que não conheço. Porque a não conheço e porque dá a morte sorrindo.
Quanto custa uma mulher?
Tibério, filósofo machacaz e meu amigo, tendo lido nesse extraordinário doido que se chamou Nietzsche, que tudo pode ser pago porque tudo tem seu preço, veio a mim, resoluto e inquietador, saber qual o preço que em boa razão se deve dar por uma mulher. Tibério é um filósofo cheio de ironia azêda e eu, pobre de mim, confessando-lhe a minha ignorância, resolvi consultar os padres mestres, os calhamaços e os chavões. Áquele que perdêra os óculos a arrumar a livraria, aconselhou Castilho que os procurasse no Dicionário, letra O, que lá estavam. Pois nos livros,--nos livros há de tudo como na botica--devia vir por fôrça a resolução do problema.
Procurei, deitei abaixo a livraria e nada. Os meus livrecos eram todos, ou quási todos, subservientes. Em lhes cheirando a saias...
Tinha ideia dum tal Schopenhauer, filósofo de bôca amarga, estômago sólido e algibeira quente. O que êle dizia, porque todos estes filósofos dizem cousas, era pouco, mesmo muito pouco.
E Tibério esperava resposta, mãos nas algibeiras, perna traçada. Então?...
Suava. Guérin Ginisty dizia, isso lembrava-me eu, que, no fundo, uma mulher nunca resiste a bons argumentos: «Com quinhentos luíses, a mais segura delas, indigna-se... Com mil, defende-se... Com dois mil, perturba-se... Com mais alguma cousa, cede». Tibério amigo, aqui tem você! Foi o que se pôde arranjar! Mas Tibério sorria e fazia uma careta. Acho forte, respondeu! Dois mil luíses é muito! Acho caro! Muito caro, mesmo.
E Tibério, lesto, acabou o cigarro,--não sei se disse que Tibério fuma desalmadamente!--abriu a porta e foi-se.
Agora aqui fico considerando na pergunta. Fôra uma vergonha tanta ignorância junta. Mas, era a derrota de tôda esta livralhada de que me ufano tanto. Era a derrota de tudo isto, ante o gesto desdenhoso e a pergunta irritante dum filósofo safardana e impertinente. Nada, não tinha geito nenhum. Considerei, estudei o problema.
Já lá vai algum tempo depois da pergunta. Agora, se o bom Tibério me aparecer, mostrando o meu ar mais profundo e o meu mais retórico gesto, dir-lhe-hei:
«Tibério amigo: O preço duma mulher varia conforme as circunstâncias. Na Austrália compra-se uma mulher por uma garrafa de vidro, ou por uma faca ferrugenta. Hás-de concordar que não é caro! Na Cafraria, por uma quantidade de cabeças de gado bovino, quantidade que varia de dez a setenta cabeças. Na Índia, por um porco ou por bois. Mas, se deres mais de dez bois, já foste comido! Na Islândia compra-se uma mulher por um marco. Em pontos da África por uma garrafa de rum, e olha que não é barato! O rum sempre vale mais.
Entre os povos civilizados, o negócio é mais demorado. Casar com ela, é a fórmula. Então dá-lhe o nome. E ela vendeu-se ou porque sim, ou por ver a sua tranquilidade assegurada, ou porque o marido tem boa posição, é deputado, ou lhe pode dar vestidos. Há tambêm uma outra moeda. Essa, chama-se Amor.
O Amor é uma bebida e uma embriaguez. São duas criaturas que se encontraram e se propozeram beber do mesmo copo. Beberam até cair. Depois a bebida começa a repugnar-lhes e adormecem. Essa repugnância chama-se Saciedade e o adormecer, Esquecimento. Quem um dia adormeceu no amor ou quando acordou está curado ou não acordou jamais.
Ora eu, amigo Tibério, não acredito no Amor, cousa em que jamais algum homem forte acreditou. O amor é uma cousa para crianças, uma teia de aranha. É preciso estar quietinho para que ela se não rompa. Depois não acredito que tu ames! ¿Pois tu, com êsse carão ignóbil de farçola, sabes lá amar? Mesmo que amar é subalternizar-se. Quem ama curva-se. Quem ama, meu caro amigo, transige. Quem ama, sim, quem ama... emfim não te aconselho a que compres mulher nenhuma com essa moeda. Sai pelos olhos da cara.
Bem. Mas suponhamos que realmente a queres comprar por êsse preço. Eu te digo: Tu que a queres, é porque a desejas. Ora não há nada tão jesuita como um desejo. (Isto é de Balzac, mas tão profundo que parece meu). Mas desejar não é tudo. É preciso paciência, uma paciência enorme, uma daquelas paciências que vulgarmente se chamam paciências de ...cordato paciente. A paciência, ou leva ao triunfo, ou à cura. Com paciência, saberás esperar. As impaciências são nefastas e tão funestas em trato de gente limpa que Acácio, conselheiro, a caminho de presidente do conselho, diz que elas são próprias da gente ordinária. Acácio é chavão, Acácio sabe disso. Nada percebe de amor, mas tem dinheiro, e quem tem dinheiro, tem tudo e mais amor.
Ora, ia dizendo! com paciência descobrirás o fraco da pretendida. Lá diz Molière: Não é bem Molière, é Castilho, mas isso não tira nem põe:
Nem o mais forte resiste Aos que no fraco lhe dão.
Que mais queres? Meio Brummel, um quarto de Tartufo e um logar no ministério da Fazenda deve chegar. E, se não chegar, olha que sempre te digo que é caro. É pela hora da morte. «Um animal de cabelos compridos e ideias curtas» como quere Spencer!
Acredito que, não a achando em conta, a não comprarás. «Não te deixes ir atrás dos artifícios da mulher» é o palavreado bíblico, e olha que é certo como as cousas certas.
Comprar a mulher em troca dum vitelo, como se faz na Hotentócia, não acho caro.
Em troca duma tanga vermelha e quatro penas de pavão para a carapinha, ainda está bem. Dum boi, se os bois abundam, ainda não está fora da conta. Agora comprá-la pelo casamento acho caro. O casamento «é um contrato perpétuo»... _por tôda a vida_, bem sei, diz o código. Ora um contrato por tôda a vida, para sempre, de que um homem se não pode evadir senão morrendo, acho duro. E é comprar uma cousa que não serve para nada e de que a gente se não pode desfazer vendendo-a a terceiros.
Nada. Não te aconselho êste meio. Pelo amor, vá. Amor com uma parte de indiferença e duas de desconfiança.
Mas Tibério amigo, isso é platónico? Estarás tu apaixonado? Apaixonado! Mas isso é inacreditável num scéptico, num ironista, num desenganado, num filósofo emfim. Como os filósofos são frágeis! Como o homem é afinal e no fundo uma pena leve que o vento levanta e muda. Como você, Tibério, se deixou apaixonar.
(Aqui Tibério protestará com a veemência dum deputado da oposição e eu rejubilo por o meu amigo Tibério ainda não ter escorregado).
Bem me queria parecer! você, amar! Você o mordaz, o cínico, o que diz conhecer os homens e as mulheres!
Olhe, Tibério, quere um conselho? Os homens fortes não amam. Amar é próprio dos fracos. Tenha sempre esta máxima à cabeceira. Guerra Junqueiro disse a Mercedes Blasco que pusesse à cabeceira da cama a vida de Cristo e a vida de Buda. Pois digo-lhe que guarde à cabeceira da cama a recordação do que lhe digo. Tenha sempre presente. O amor é como o toucinho, e dêsse diz Paulo Diacre, que todo acaba por criar ranço. Ora quem começa a amar acredita lá que o seu toucinho crie ranço algum dia!?
Tibério: Meu amigo. ¿Leu você nos jornais a notícia daquele homem que se suicidou em Paris, por causa duma mulher que o deixou? ¿Leu você a história daquele que, ciumento, furou a pele doutra com uma dúzia de punhaladas? ¿Leu você a daquele outro que, por causa dEla, matou o rival com uma cacheirada no toutiço? Leu você? Ora aqui tem exemplos dos que as compraram bem caro, se é que as compraram mais do que em Ideia. Veja você se pode passar sem isso. Não compre nenhuma. Veja se alguêm lha empresta, ou se a encontra. E se emfim sempre se puser a comprá-la, compre-a por tudo menos por essa tal moeda que se chama Amor. Não se apresse. Vem no Frei Luís de Souza... «As cousas são grandes ou pequenas, segundo a medida do desejo com que se buscam...» Quanto menos as desejar mais baratas lhe aparecerão.
E que pena que Tibério já se tivesse ido embora! Era um discurso tão bonito!...
Teatro nacional
As primeiras chuvas precederam a abertura dos teatros. Do Olimpo os deuses queriam significar com isso, numa profecia risonhamente marota, que o teatro nacional continuava a pedir chuva. Continua e continuará «per omnia sæcula sæculorum», vá lá o latim do Borda dágua.
Chegou o inverno. Pôs-se à mão o impermeável, sacudiram-se do pó as galochas e... abriram os teatros.
Mas há, em Portugal teatro? Certamente. Portugal tem um teatro seu e belos dramaturgos. ¿Esquecem-se então de Gil Vicente, de António José da Silva, o «Judeu», e de Garrett, que é moda apelidar o «divino»?
Todavia o teatro em Portugal a-pesar dêsses ancestros colossais, está decadente, como o filho dum gigante que esteja a morrer tuberculoso. Disso não resta a menor dúvida. Há artigos laudatórios nos jornais, escritos pelos interessados, que dizem que nunca êle esteve tão bom. E concluem que a peça do «nosso ilustre confrade e distinto dramaturgo X» é a obra mais pujante que as gambiarras teem visto, já se sabe depois do «Frei Luís», para que o Garrett não se esquente. Mas, deixem-nos falar. É tudo mentira. O teatro em Portugal está realmente decadente. Pergunta-se: De quem a culpa? De todos. Dos autores, dos empresários, dos actores e do público. Os autores porque gágás de todo dão pecinhas insexuadas, sem vida, sem cousa nenhuma; os empresários porque, gananciosos de ofício, o que querem é explorar a beatitude do público; o público, porque, acostumado por autores e empresários, os dirigentes, a fantochadas e bambochas, prefere a tudo quanto é arte, que o educa e o faz pensar, as revistas do ano, onde há piadas grossas, tangeres e bailatas com pernas à vela e muita afrodisia, nas frases, nas coplas, no ar, e até nas pernas. Dos actores, finalmente, porque, na verdade, bem poucos teem senso artístico ou o procuram ter, e grotesquizam deplorávelmente a mais simples rábula que lhes confiem. De quem é pois a culpa? Mais do que a ninguêm aos autores e aos actores devemos atribuí-la.
Vítor Hugo disse, no prólogo dos Burgraves, (há quantos anos isso lá vai), que «o teatro deve fazer do pensamento o pão da multidão».
Assim devia ser. ¿Teem os nossos encarregues de teatro tentado cumprir a verdade da frase do vélho de Guernesey? Creio que não. Os autores são boas pessoas, isso são! (quási todos meus conhecidos! ¿pois não é isto uma aldeia onde todos nos conhecemos?) mas erraram-lhes a vocação. Fazer teatro para êles, é fazer peças mexidinhas, e prender a atenção com carpinteiragens vistosas. Quanto à orientação educativa, é inútil perguntar-lhes. Êles só conhecem os direitos de autor.
Com outros então sucede o contrário; fazem teatro por vezo peceiro, e até pagam o scenário... se necessário fôr.
Entregue o teatro a criaturas que querem fazer vida, satisfazer a vaidade, ou carpintejar simplesmente, o resultado é o que os senhores estão vendo.
Quanto aos actores, quási todos são duma lamentável ignorância. E como não são artistas, mas mercenários, é inútil procurar-lhes a menor instintividade artística. Aparte poucas excepções, que eu apontarei se quiser, são tapados como portas de catedral. O teatro em Portugal é feito, como é feito tudo: por clichés. Um cliché para os pais nobres, outro para os Scárpias, outro para os galãs, outro para os centros. Dessa repetição ininterrompida temos que a gente não vê peças, vê actores. Bem pode a criatura, esfalfar-se no tablado:--«Pois se tu eras o filho do conde de Luna...»--que logo o espectador diz da platea: «Pois sim! Bem te conheço! Tu és, mas é o Joaquim Costa!»
Sem estudos prévios do meio, sem a precisa integração no personagem, sem recursos fisionómicos, o actor toma aquilo não como uma missão elevada de elevadíssimas responsabilidades, mas como um logar que é preciso desempenhar, assim uma espécie de repartição para onde se entra logo que o pano sobe, se descansa para uma pessoa ir lá dentro, volta e torna a ir àquela parte até que o pano baixa de todo, os bombeiros revistam, o gás se apaga e cada um vai para casa cear com a mulher e com os filhos.