Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Part 9

Chapter 92,755 wordsPublic domain

Solino foi o primeiro que a noite do outro dia buscou aos amigos em casa de D. Julio; e elle, e os hospedes lhe agradeceram muito a diligencia. E o prior (que lhe não era pouco affeiçoado) disse:--Bem me parece que não fez a edade falta no vosso animo, ainda que as cãs queiram desacreditar as forças, pois sois o primeiro que acudis á guerra.--Como esta (respondeu elle) ha de ser em alojamento, primeiro apparecem as barbacãs, que os soldados.--N’ellas (acudiu Alberto) está o mais seguro presidio contra os perigos; e tendo eu hoje as vossas da minha parte, temerei pouco as que tiver contra mim n’esta occasião.--Em muitas (replicou Solino) me releva mostrar que sou vosso, por dar boa conta da razão com que de mim faz alguma o sr. D. Julio; que, como sabe melhor o que se vos deve, me terá por rustico, se não pagar com esta vassallagem o que mereceis.--Nada haverá (disse D. Julio) que commigo vos desacredite, mórmente para um cumprimento, segundo agora vos vi armado para elles.--Pois se vae a falar verdade (tornou elle) eu vos affirmo que de nenhum inimigo desejo tanto fugir como de um cumprimento; porém ha alguns, que tomam a um homem como em becco sem sahida, onde o faz animoso a necessidade; e á minha acudistes vós agora com essa interlocutoria; que já minha _copia verborum_ ia dando os fios.--Se com esses me armaes a que vol-o gabe (disse elle) estaes enganado; que me importa poupar o cabedal para outra occasião.--Bem sabeis vós (tornou elle) que em nenhuma me quero gabado, antes; praguejado como Adem; porque se é verdade (como diz Pindaro) que tenho a graça na murmuração, como a cobra a peçonha no rabo; quando me põem o pé n’elle, sei morder com mais subtileza, que na doçura de um cumprimento abemolado, de que já a mercê arda tão estylada a puras sincopas e signalefas que parece tisica, e não sei se, de o estar nas palavras, o anda agora nas obras dos senhores.--Ruim agouro foi para uma e outra cousa (disse o prior) escreverem-a sempre em breve letra por parte: e certo que nenhuma cousa era tão necessaria ás mercês de agora, como o _mantenha-vos Deus_ do tempo antigo. Porém, se me não engano, ouço já os vossos aventureiros, que vem falando alto.--Eu tambem sou com elles (disse Solino) e conheço a Pindaro no riso, que sempre entra com chocalhada como picadeiro. A esta pratica atalhou a chegada d’elles, que com mais compridas desculpas do que foi a tardança se assentaram. E porque Solino tinha um galeote vestido, que trouxera por razão do frio, lhe disse Pindaro: nem de côrte, nem de milicia vos vestistes hoje; e não parece razão que em actos tão solemnes venhaes de caça a casa do sr. D. Julio.--O melhor seria (respondeu Solino) que me cortasseis vós agora de vestir, pois não tendes boa tesoura; e já sabeis que as ruins fazem a bôcca torta aos alfaiates. Porém já que vinheis de côrte para esta casa, onde ha tanta, porque antes de vêr o meu gabão rieis tão alto d’elle?--Vingado estaes (acudiu Feliciano) e o certo é que, se faltardes á milicia, nunca vos faltará a malicia.--Se nos mettermos por ella (disse Leonardo) não ficará tempo para que o sr. Alberto satisfaça á obrigação de nos ensinar a boa creação, que se adquire com as armas.--E se eu com as do vosso entendimento (tornou elle) não soccorrer a minhas faltas, mal me irá n’esta batalha: porém como as mais das instrucções da policia militar dependem, ou se parecem com as da côrte, do que d’estas dissestes tão doutamente me aproveitarei agora, pondo sómente de meu cabedal a differença. E assim me parece que a creação da milicia leva a todas as outras grandes vantagens por quatro fundamentos; que cada um d’elles apura mais aos homens bem nascidos, que o trato da côrte e o exercicio das escolas. O primeiro é, que a honra é a fonte de todo o bom ensino, policia, procedimento e valor; e esta que mais nasce, se cria e conserva na guerra, que em nenhuma outra parte: e assim os reis, que são o primeiro logar, d’onde aprendem os seus inferiores, e d’elles passa a doutrina a todo o vulgo, primeiro os fez a milicia que os tivessem as côrtes: e o primeiro, que houve no mundo, que foi Nembrot, na guerra tomou o nome, e assentou com elle o seu imperio em Assyria; e de então todos, os que por fio de geração não succederam, as armas lhes deram titulo, corôa, sceptro e senhorio; e depois d’elles o tiveram pelo mesmo modo os potentados, duques, marquezes, condes, barões e ricos homens, que nas conquistas, instituições, ou restaurações de reinos, fizeram obras heroicas: e d’elles passaram a seus descendentes os appellidos, armas, insignias, senhorios, terras, vassallos, jurisdicções, liberdades, honras e rendas que engrandecem a nobreza. O segundo fundamento é o rigor, com que na milicia se conserva a lei da policia, bom termo, primor e procedimento; porque se commettem muitas vezes ás armas as faltas e emendas que a estes tocam; e onde o erro é tão arriscado, é a vigilancia e advertencia muito pontual; e por este respeito andam os soldados tão vistos nas miudezas e particulares da cortezia, que nenhum ponto perdem, nem deixam perder. O terceiro é a continuação do soffrimento, e da paciencia militar, que em tudo se adeanta com grande differença a pretendentes, creados ministros, no que é com maior risco da vida, ora seja marchando, ora navegando, ora em alojamento, ora em campanha, pelas incommodidades de sitios, gasalhados e mantimentos; e pelas continuas vigilias, que fazem por lei o repouso tão limitado, como o póde fazer por curiosidade o mais estudioso. O quarto fundamento é a variedade das terras e provincias que vê, as diversas nações e gentes com que trata; que é a creação mais importante para o homem bem nascido, e que na côrte ou nas escolas se não póde adquirir tão facilmente. E para que, ao menos imitando a ordem do sr. Leonardo, dê alguma a minhas razões, discursarei com maior brevidade, que satisfação sobre estes quatro fundamentos, fazendo o principal de minha confiança no favor que d’elle, e de todos estes senhores espero.--Até o tomar na graça (acudiu Solino) ambos levastes um mesmo vento, senão quanto ao sr. Leonardo metteu mais traquetes e cevadeiras: e se isto até ao fim fôr em arremedados, póde ser que entre eu na musica antes de muitos dias.--De boa vontade (disse o doutor) vos passarei eu o de ámanhã.--Não o hei de pedir (respondeu elle) por alvará de renunciação, que será difficultoso o consentimento d’estes senhores; buscarei logar vago: e porque me entalei n’este em ruim tempo, o quero deixar ao sr. Alberto.--Pareceis-me n’elle tão bem (tornou elle) que já me esquecia de o cobrar; porém, já que me daes licença, o primeiro fundamento é que a honra se apura e sustenta mais na guerra que na côrte e nas escolas: este me parece que se prova melhor com uma sentença que diz que _a boa fama é o patrimonio na milicia_; porque a honra, o ser, o preço e a riqueza de um soldado, não consiste no appellido de sua familia, na herança de seus avós, na riqueza e morgado de seu pae, nem outros juros, tenças e rendas de que tenha esperança; senão na opinião em que está tido entre os amigos e contrarios, segundo seu valor e merecimentos. E se é certo que a verdadeira honra não consiste nas estatuas dos antigos, nem nos pavezes e escudos em que se conserva a memoria dos principios da nobreza, senão na virtude, valor, magnanimidade e exforço proprio; só o soldado é filho de suas obras, e se póde chamar honrado por si mesmo, sem por roubo, emprestimo ou herança se chamar nobre: porque os que de nascimento o são, e pelas armas o merecem ser, assim honram a seus passados, melhoram e obrigam a seus descendentes. E os que de principios humildes chegaram por seu braço a merecer titulos, grandezas e senhorios, dão felice principio a sua familia, e tambem a reinos, potentados e casas, que os ficam em seus successores eternisando, como por maravilhosos exemplos dos antigos conhecemos; e por experiencia dos modernos se vê cada dia. Ptolomeu de soldado de uma companhia do exercito de Alexandre, veiu por seu valor a ser rei do Egypto. Dario e Artaxerxes por esforço e merecimentos proprios, sendo de mais humilde nascimento, alcançaram o sceptro e corôa real dos Persas. Valentiniano e Justino imperadores de Roma, nascendo rusticos e pastores, por o braço vieram a merecer aquelle supremo titulo da grandeza humana. Viriato e Tamorlão, de pastores, caçadores e soldados vieram a ser, um imperador dos Scythas, o outro governador e general dos Luzitanos: e outros mais modernos, como foi Primislau rei de Bohemia, Francisco Esforcia duque de Milão, e outros muitos; e na milicia presente de Flandres, França, Allemanha e Inglaterra, na de Asia, e na do Oriente, e da Nova Hespanha, conheço eu por vista, e sei por nome, e da fama de muitos soldados, que, sendo de escuro nascimento, por sua extremada valentia e esforço se fizeram tão claros e illustres, e como taes tem os cargos importantes, os logares, honras e vantagens da milicia. De maneira que, pois a honra é uma universidade, em que se aprendem todos os bons termos, procedimentos e cortezias; e esta está fundada na milicia, onde entre as armas nasce, com ellas se ganha, apura e sustenta; n’ella deve estar mais apurado o fructo de sua disciplina. O segundo fundamento é o rigor com que os erros contra a policia se castigam na guerra; de que nasce a vigilancia e cuidado, com que os soldados se disvellam para andarem apontados até em miudezas, de que na côrte se descuidam os mais advertidos para a differença que ha, cortando-se á espada o maio que cresce ao que é pouco cultivado no bom ensino e procedimento; de modo que, mais periga um homem em uma descortezia ás vezes, que em uma batalha. E assim o falar composto, o responder brando, o perguntar com tento, o tratar do ausente, o defender ao amigo, e o falar do contrario, cada cousa tem na guerra suas leis estabelecidas, em cuja execução se procede com todo o rigor; o dos particulares d’ellas nasceram os desafios e duellos tão justamente reprovados na republica catholica, quanto na barbara opinião antiga bem recebidos, como foi na dos reis de Lombardia, que reduziram o duello a dezoito casos das leis: o o imperador Frederico a quatro; e Filippe rei de França a tres: e Frotanio rei de Dacia fez lei que toda a contenda que havia de ser em juizo, se averiguasse pelas armas. E como o descuido que o soldado tem na cortezia, a soltura na palavra, a má correspondencia no procedimento, a liberdade com que fala do ausente e do contrario, está sujeita a dar satisfação por um caminho tão breve: qualquer soldado pratico está mais advertido que o melhor cortezão no bom ensino, respeito e brandura com que ha de tratar aos homens.--A verdade é (disse o doutor) que os soldados conversam com toda a brandura e bom termo: e já Platão disse que o bom soldado devia de ser como o cão; para os domesticos e conhecidos muito fagueiro; e contra os inimigos arriscado e valente. Porém o duello é cousa muito mais antiga, e que se não inventou para essas miudezas que dizeis: porque, conforme a opinião dos legistas, é um combate e batalha particular de corpo a corpo para provar alguma cousa duvidosa, da qual o que sahe vencedor se entende que provou o que queria, como o desafio de Menelau com Paris, de Enéas com Diomédes, de Ajax com Heitor; os duellos de Lucio Sicinio Dentato, que oito vezes á vista dos dois exercitos sahiu vencedor; o de Tito Manlio Torquato, e de Lucio Emilio com o capitão dos Samnitas; de Alexandre Magno com Póro rei da India, o de Scanderbhec com Zayá, e Tambrá valorosos Persas: o de Roe rei de Dacia com Hudingo duque de Saxonia: e muitos dos nossos valorosos Luzitanos em muitas partes do mundo, o de Alvaro Gonçalves Coutinho o Magrisso em Flandres; o de Alvaro Vasques de Almada conde de Abranches em França; o de Duarte Brandão cavalleiro da Garrotea em Inglaterra; o de Gonçalo Ribeiro em Castella; o de D. Francisco de Almeida em Granada: e muitos outros no Oriente, na Asia e em Barbaria.--Não são esses (respondeu Alberto) os duellos reprovados de que agora tratei, que modernamente se usam, e se definem por differente modo, e por todos com bastantissima causa se defendem; que os de que falaes assim, como são batalhas singulares de corpo a corpo, se usavam de cento a cento, vinte a vinte, dez a dez e doze a doze, como foram os portuguezes de Inglaterra. Duellos, segundo a definição moderna, é um combate de homens, que despresando as leis, querem averiguar por seu braço o que toca á sua honra ou opinião, movidos do interesse de a sustentarem, ou de vangloria, arrogancia, inimisade ou vingança: e d’estes usa na milicia a furto das leis e generaes, que com muito rigor os castigam: procedendo todos sobre miudezas e pontos as mais vezes impertinentes, introduzidos pela bizarria e fonfarria soldadesca, pendendo do que disse, calou, passou, respondeu, olhou, se gabou? se ficou melhor nas palavras, se alguma era escura, e ficou mal entendida? sobre perguntas, declarações, satisfações e respostas, e outras cousas, que, por não merecerem ser tratadas, antes com razão reprehendidas, deixo de dizer. Mas a conclusão, para o meu intento, é que na milicia andam as leis da cortezia, e procedimentos mais ajustadas com a razão, que em outra parte alguma, por meio d’este rigor, que faz aos que militam levarem muitas vantagens. O terceiro fundamento é a paciencia e soffrimento dos soldados, que creados no trabalho, e incommodidade d’aquella vida, é o maior de todos os estados; trazendo sempre como grilhões o peso das armas: que se o proverbio diz que _quem traz no dedo o annel apertado, faz para si voluntaria prizão_, quanto maior o será o cossolete, o morrião, o pique, o mosquete e o arcabuz, traz isto trazer o somno registrado pelas leis do tambor, acudir ao seu quarto no melhor do repouso; e no maior escuro, e geada do inverno, passear á sombra das nuvens carregadas de agua, sem mais luz que a dos relampagos, e mais lume que a do murrão; e ter por cama a terra, que de ordinario serve aos soldados, que se alojam no campo, ou fronteira dos inimigos. E se d’el-rei D. Affonso Henrique, do condestavel D. Nuno Alvares Pereira, do condestavel D. Pedro de Menezes, e de outros generaes portuguezes lêmos, que muitos annos inteiros dormiam as noites sem despirem a malha, e couraças com que pelejavam de dia: que colxões lhes podiam servir para tão asperos lençóes, se não fossem as carretas da artilheria, o espigão dos muros, e o reparo das trincheiras e barbacãs? Pois se a sobriedade e temperança é tão gabada nos bons costumes pelos muitos que d’ella nascem, quem póde ser mais temperado e sobrio que o soldado, do qual tantas vezes a necessidade é cosinheira, o escudo ou cossolete a mesa, o morrião o pucaro, e fome a iguaria? E deixando as famosas, que houve no mundo, de que os auctores escreveram, que todas couberam em sorte aos soldados; qual se não ha de presumir que aconteça onde ha muita gente junta, da qual tudo se receia e nada se fia? E se em alguma gente se conserva o costume dos mantimentos da primeira edade, que eram fructas das arvores e legumes dos campos, só na da milicia acontece muitas vezes: não tratando ainda da guerra naval, que com maiores incommodidades e perigos da vida se exercita; nem nos cêrcos, onde mais vezes a necessidade da fome a põe em almoeda. Atraz d’estes extremos de soffrimento se segue a obediencia militar, que é o esteio em que se sustenta o principal peso da guerra, devida e guardada pelo mais valoroso soldado ao menor e mais humilde official do exercito, havendo n’elle tantos, como são general do exercito, coroneis, capitães, tenentes, governadores, mestre de campo, sargentos-móres, generaes de infanteria, de cavallaria, capitães de gente de armas, capitães de cavallos ligeiros, generaes e capitães de artilheria: fóra os particulares, alferes, sargentos, cabos de esquadra, e outros officiaes não combatentes, como são provedor geral, commissario geral, furriel mór, barrachel, thesoureiros, collateraes, pagadores, e meirinhos, e outros muitos.