Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Part 8

Chapter 83,603 wordsPublic domain

Ao rei por assistencia lhe ficam mais perto os favorecidos, e officiaes de sua casa, que os grandes, e titulares. Porém estes, como primeiros por dignidade, se preferem a todos. D’estes se aprende o logar que tem na casa real, nas côrtes, nas jornadas, na guerra e em outras occasiões: a familia de que são, o appellido que tem: se os seus titulos são de juro, se de mercê: e os bens que tem de patrimonio, e da corôa: logo o que toca aos officios maiores do rei, em que occasiões não faltam, e nas em que precedem uns a outros: e assim os filhamentos, e moradias do mordomo mór: as entradas do porteiro mór: os pertos do camareiro mór: as praças, provimentos, e penas do monteiro mór: as aves, e ministros do caçador mór: as capitanias do guarda mór: os potros, e jaezes do estribeiro mór: os privilegios do almotacé mór: as vias do correio mór: e os particulares dos mais officios da côrte; assim os ecclesiasticos de capellão mór, e esmoler, e deão; os da guerra, como condestavel, alferes mór, almirante, marechal, e meirinho mór.--Não era fóra de proposito (accudiu D. Julio) tratar mais miudamente de cada um d’estes cargos, e das obrigações e origem d’elles, e de outros menores, que agora com differentes nomes se accrescentaram no serviço real de Hespanha.--A esse desejo (tornou elle) satisfarei eu em outra noite; que agora nem da obrigação, que tomei, me atrevo a sahir com minha honra.--Com essa promessa (replicou D. Julio) eu fico contente, e vós podeis ir adeante.--Faço-o (disse Leonardo) por me desobrigar mais depressa. E falando dos privados e favorecidos do principe, tambem são dos mestres principaes que ensinam a viver os particulares, assim no adquirir a graça do senhor, como em a sustentar, usar d’ella, avalial-a, e encarecel-a aos cortezãos: porque assim como a privança é vidrenta e perigosa, assim os meios, por que se conserva, são muito subtis, e delicados: e posto que o eleger privado está na vontade do senhor, a diligencia faz n’esta parte muitas vezes o officio da natureza; que se, conforme a sentença de um sabio, _a semelhança é raiz da affeição_, tambem _a diligencia é mãe da boa ventura_. Os reis é cousa muito antiga e certa terem privados: e a Providencia Divina o ordenou assim para o remedio de muitos, e allivio da pessoa real: quando elles são varões de valor, justiça, e bondade, como para este officio se requerem (que de outro modo seria cahir peçonha na fonte, de que bebe todo o povo, como escreveu discretamente o nosso bom portuguez Francisco de Sá de Miranda) a estes se inclina de ordinario, ou por semelhança de partes, ou satisfação d’ellas, com uma natural sympathia, que concilia este amor. Se o principe é affeiçoado a armas, se a amores, se a gentilezas, se a forças, se a caça, ou a montaria, se a musica, ou a poesia, ou outras artes, e disciplinas, contentam-lhe os que tem essas mesmas partes, ou se inclinam a ellas. E assim o que entra n’esta pretenção, que é dos que andam mais perto do serviço do principe, o primeiro, que estuda, é a sua natureza, inclinação, e costume, para se ajustar, ou avizinhar com o seu gosto, e se fingir aquelle que lhe convém ser para o contentar: e porque os homens até a seus proprios defeitos são affeiçoados, maiormente os principes, a quem chega mais tarde o desengano d’elles, até n’estes o imita o que sabe grangear a sua vontade; como ouvi contar de um favorecido de Filippe rei de Macedonia, que se fingia coxo de uma perna, porque el-rei o era de outra; outro se finge curto da vista, outro indisposto, e outro se faz pallido e descorado, achando que o rei tem os mesmos accidentes: no andar, no falar, no olhar, no vestir, e em todas as acções o imita; aprende a arte, o jogo, o exercicio em que o rei se occupa, para que, sendo n’elle extremado, seja muitas vezes escolhido, e faça degraus á sua pretenção; entristece-se, e se alegra segundo ao mesmo rei a que grangea. E ainda passam adeante como a Carizosopho, privado de Dionysio, que estando o rei em conversação com alguns da côrte, e movendo-se entre elles grande riso, o favorecido, que estava apartado d’elles, se começou a rir desentoadamente: e perguntando-lhe Dionysio de que se ria, respondeu, que porque imaginava que as cousas, de que o via rir, seriam de gosto. Se entende que no jogo o principe se alegra com ganhar, deixa-se perder; se estima ser gabado, busca rodeios para que, sem parecer de proposito, trate de seus louvores. E de um ouvi eu contar que as mesmas historias, que ao principe ouvia, das cousas de seu gosto, e das gentilezas, e esforço de sua mocidade, lh’as tornava d’ahi a tempos a referir, dizendo que as ouvira de outras pessoas; encarecendo-as, accrescentando-as, e pondo de casa o que movesse a mais gosto, e vangloria o mesmo Principe. Não faltar na continuação de sua presença (como Aristipo Cyreneo) que nem á necessaria deixava ir a Dionysio sem o acompanhar. E quando com estas, e outras diligencias alcança a graça do rei, é outro novo, e maior trabalho sustental-a; que é o cuidado com que todos os privados se desvelam, porque não comem com gosto, não bebem com quietação, não dormem com descanço, não vivem sem receio. E entre outras advertencias me parecem muito principaes, e excellentes as que aponta o bispo de Mondonhedo no seu _Aviso de Privados_: convém a saber, que o favorecido não descubra ao principe tudo o que cuida; que lhe não mostre tudo o que tem; que não tome tudo o que deseja; que não diga tudo o que sabe; que não faça tudo o que pode; que não negoceie para si, nem para outrem fora de tempo; e que em todos se incline e favoreça a parte justa, para que com conhecida sem razão não arrisque o logar de sua privança. Atraz d’isto se seguem os ciumes de seus competidores, o cuidado de os apartar da vista, e da communicação do principe: e ainda os de que mais se receie, trabalhar de os ausentar da côrte com despachos, dadivas e mercês do mesmo senhor, dourando com ellas a pirola de sua dissimulada tenção. Para o que é notavel exemplo o de uma historia que conta o cardeal Navarro no seu tratado _da Murmuração_, de um Fr. Francisco de Mendania seu natural, muito aceito ao imperador Carlos V; ao qual senhor privado, que se receava de sua valia, persuadiu com grandes louvores do frade que seria de muita importancia nas Indias Occidentaes para converter a gentilidade por sua admiravel doutrina, e bom modo de persuadir: e d’esta maneira com capa de amigo o fez prover com o bispado de Nicaragua, desterrando-o da vista, e lembrança do Imperador, e d’ahi a poucos mezes da propria vida. Outro valido, que não teve este meio para deitar da côrte um gentil-homem, que alcançava graça com o rei, e que nenhum cargo quiz acceitar fora de sua vista, espreitando occasião de uma enfermidade sua, se falou com o medico que o curava, e fez que o persuadisse que viviria mui pouco, se assistisse n’aquelle logar, onde a côrte estava, por ser muito contrario a seus achaques. Elle vendo que se atravessava a vida com a privança, procurou de proposito o que antes enjeitara mil vezes, e se sahiu da presença do principe, deixando ao privado livre de ciumes. Tambem importa muito que o favorecido, depois de estar na graça do senhor se lhe não queira egualar, ou adeantar por opinião em alguma parte, de que elle se preze; nem mostrar-se mais discreto, mais valente, mais bem visto, mais airoso, mais acceito a damas, e em outras partes semelhantes; que é cousa, que os reis soffrem muito mal. El-rei D. João o II, e el-rei D. Sebastião não queriam que em fôrças, e valor se lhe egualasse nenhum vassallo, como se collige de muitas historias suas; e el-rei D. Manuel no entendimento: o que tambem se prova d’aquella historia, referida de Antonio Peres, que lhe succedeu ao mesmo rei com o conde de Sortelha D. Luiz da Silveira, a quem mandou que fizesse uma carta para o papa sobre certa materia de importancia, dizendo que elle faria outra minuta para de ambas escolherem a mais acertada: succedeu que, trazendo o conde a sua a el-rei, pareceu tão bem, que não lhe quiz mostrar a que fizera, e assignou a do conde: elle descontente d’este successo se foi a casa, e fez uma pratica a seus filhos, dizendo que cada um buscasse sua vida; porque já el-rei tinha entendido que sabia mais que elle. Assim que o mais alto logar da privança se sustenta com os maiores extremos da humildade em respeito do mesmo senhor; porém para os de fora lhe é necessaria uma ostentação, e ufania, que mereça mais seus poderes, e quebre os animos que podiam ter com elle competencia, para se não atreverem a capitular seus erros, e a contrastar sua valia. E abreviando esta materia, por ser mui larga, se aprende tambem dos cortezãos, assim dos ministros, como dos continuos da côrte, aos quaes pela communicação dos superiores, e exemplo do principe convém serem modestos, sobrios no comer, cortezes no tratar, discretos no falar, polidos no vestir, honrados no gastar, bem creados no conversar, e amaveis a todo o genero de pessoa: e tem mais d’estas partes os que por creação da meninice tomaram este leite, como são os filhos dos que no mesmo serviço gastaram a vida. Esta é a primeira escola, em que os homens aprendem o que pertence á profissão de homem de côrte.--O segundo exercicio (disse o prior) me parece que é o mesmo que tendes mostrado, advertindo mais algumas poucas cousas que são particulares do serviço das damas. O decóro e primor, com que ellas se tratam (respondeu Leonardo) n’este reino, principalmente as que assistem no paço, parece que em certo modo conserva aquella preeminencia, que os egypcios lhe deram, que com o exemplo do bom governo de Isis reinavam as mulheres, porque em presença, e ausencia os cortezãos as nomeiam por senhoras, se lhes descobrem, e ajoelham como a deusas, lhes fazem festas, jogos, justas, e torneios como a Deidades, estão pendurados de seus favores, e respostas, como de oraculos; as acompanham como a cousas sagradas; se vestem, ornam e enfeitam pelas agradar; se desvelam pelas servir; se apuram, para as merecer, no esforço, na gentileza, na galantaria, no dito discreto, no escripto avisado, no mote galante, na endecha subtil, no soneto conceituoso; por ellas se ensaiam para o sarau, no dançar, no falar, no acompanhar, e no offerecer; por ellas se apressam nas occasiões, de jornadas, de creados, e librés, galas, e ginetes; por ellas continuam e passeiam á vista das janellas, atravessam as salas á sua conta, e rodeiam o terreiro do paço mil vezes por seu gosto; por ellas se offerecem a todo o perigo: porque qual é, que um servidor de damas não ache facil por amor d’ellas? que palavras diz? que extremos receia? que esquivanças não soffre? que riquezas estima? que chimeras não finge? que occasiões não busca? vela de noite, não descança de dia, não se entristece com a pena, não desconfia com o desengano, não faz conta de aggravos, nem estima desprezos, não cura de vinganças, e emfim tudo é veneração e humildade, com que as engrandece. E d’esta escola de seu serviço (como no principio disse) sahem os homens tão apurados no que convém á honra, primor, e discrição, que se não pode esperar d’elle vilania em nenhuma cousa. E porque falta a Portugal ha tantos esta creação, tem tão pouca muitos filhos dos illustres do reino, que livres d’este aprazivel, e honrado senhorio, ficaram no de sua vontade. E posto que a minha era dilatar mais esta materia, nem pela edade, nem pela confiança tenho licença.--Essa vos deram todos facilmente (disse então o irmão do prior) e eu de melhor vontade a procurara para com as damas honrar, e engrandecer as armas: contento-me porém que vos hei de ter presente para as duvidas, e perguntas, que se me podem offerecer.--Em tudo (respondeu elle) estaes vós tão avantajado, que mais podeis mover duvidas para me envergonhar, que para saberes alguma cousa de novo; e assim de corrido, e de corrida me passo ao terceiro exercicio da communicação dos extrangeiros, da qual se não alcança menos doutrina, que de todos os exercicios cortezãos. Quatro generos de gente extranha costuma a assistir nas côrtes dos principes. A primeira reis, principes, e senhores, e homiziados, que por alguma occasião vem a acolher-se a seu amparo, ou por adversa fortuna ficam debaixo de seu senhorio. O segundo são embaixadores, com os nobres e ministras, que os acompanham. O terceiro gentis-homens, que vem a saber a grandeza dos reinos extranhos. O quarto mercadores, que por razão do commercio e correspondencia vem a assentar nas praças principaes do mundo, que são as mais das vezes onde os reis assistem. E todas estas quatro condições de gente são de muita importancia para se colher d’ella muito fructo. Primeiramente facil é de julgar a varia noticia de costumes e condições de gentes e dos ritos e leis de provincias, que os cortezãos portuguezes alcançaram com a vinda de tantos reis e principes extrangeiros, assim infieis, como catholicos, á côrte d’este reino, quantos reis, e senhores da Barbaria, da Ethiopia, e de outras partes da Africa, da India, de Maluco, e de Japão, e de outras remotas partes do mundo; e que cousa apurou mais a côrte d’el-rei D. João o I, que a vinda a ella do duque de Alencastre irmão d’el-rei Richarte de Inglaterra, a cujo respeito houveram os doze portuguezes em Londres aquella celebrada victoria em favor das damas? Pois os mais homiziados e queixosos, que se ampararam á sombra do principe, pela maior parte são homens de valor, sangue, e esforço. Os embaixadores, do que d’elles temos dito, se collige o de quanta importancia sejam para dar exemplo. Os gentis-homens, que por curiosidade vem a saber o estilo e gentilezas de côrtes extranhas, esta mesma diligencia os acredita; e além d’isto é de presumir que tenham visto, ouvido e sabido muito de reinos alheios: de modo, que de uns e de outros se colhe grande doutrina para a conversação civil, e perfeição do homem bem nascido; porque cada um conta da côrte, trajo, modo, e estilo do seu reino, a maneira de reger, governar, julgar, tratar, e peleijar da sua nação: d’elles se aprende as excellencias particulares, e os defeitos das provincias, e de que as suas gentes são mais notadas: como a gentileza de França, a furia de Inglaterra, a fortaleza de Allemanha, o siso de Lombardia, as cautelas de Toscana, a fidelidade de Milão, a presumpção de Esclavonia, a conta e trato de Genova, a destreza de Bretanha, a caridade de Borgonha, a continencia de Picardia, a justiça de Veneza, a magnanimidade de Roma: e logo a crueldade de Hungria, a infidelidade de Turquia, a lisonja de Grecia, as zombarias de Piemonte, a luxuria de Catalunha, e a golodice de Barbaria. Pois dos mercadores se não colhe tambem pequeno fructo: porque, deixando o que pertence á conta, peso, medida, correspondencia, confiança, credito, verdade e razão, se alcança do commercio das provincias o que falta em muitas partes; e as em que ha todas as cousas, que por via dos mercadores se communicam, e os portos, caminhos, e escalas de todo o mundo: por elles se conhecem as pedras finas, drogas, roupas, e materiaes de medicinas da India Oriental; as pedras, aljofar, porcelanas, e alcatifas da China; o ouro de Sofala; como no Occidente de Dalmacia, e Germania; e na França o celebrado de Tolosa: a prata de Nova Hespanha, e de Saxonia, e Sardenha: o metal de Corintho, e Chipre: o estanho, cobre, e arame de Flandres, e Inglaterra: o ferro, aço, e chumbo de Cantabria e Sicilia: o marfim da India, Brazil, e Ethiopia: as lãs de Bretanha, Calabria, Calcedonia, e França: o algodão, cheiros, e myrrha de Arabia, Pancaia, e Assyria: as télas e sedas de Persia: o alabastro de Napoles: as martas, e arminhos de Polonia, e Moscovia: o papel e vidros de Veneza: o assucar de India, Brazil, e ilhas de Portugal: o coral de India e Marselha: courames, madeiras, vinhos, e trigo das ilhas do Oceano, que pertencem á conquista dos portuguezes: e muitas outras cousas, que querer agora contar fôra infinito; e por o não parecer este discurso, tratarei brevemente de quatro exercicios dos pretendentes da côrte: materia mui larga, que pedia mais tempo, e muito importante a todos, porque do seu cuidado, diligencia e soffrimento se pode colher uma lição universal para todo o estado, e condição de pessoa, pois nenhuma ha a que não seja necessario desvelar-se, negocear e soffrer para effeito de dar alcance ao que deseja. E como n’este tempo os homens estão já desenganados de quão pouco valem merecimentos, que (por elles o não serem) vieram a chamar valia ás adherencias; e lhes tem mostrado a experiencia a verdade d’aquelle rifão, que _cada um dança segundo os amigos que tem na salla_; e que só põe em pé os serviços quem os arrima a boa parede, por mais arrastados que andassem na opinião da gente. Já nenhum pretendente discreto faz tanto cabedal d’elles como de ministros que o ouçam, creados que o admittam, amigos que o lembrem, ricos que o abonem, terceiros que o cheguem, e peitas que o despachem. Para o que o avisado, depois de fazer o signal da cruz á sua pretenção, primeiro sabe os que valem com o principe, depois d’isto os que tem logar e entrada com os privados: logo conhecer os creados mais mimosos; em sabendo a sala do valido, tomal-a de empreitada, ser continuo no passeio d’ella; onde a todos a primeira cortezia, e a mais humilde seja a sua; o riso sempre na bôca, os offerecimentos na lingua, os olhos no seu intento; dar o melhor logar a todos, porque acaso não falte a algum que pode ser em seu favor; não se aparte da vista do que grangea; faça-se encontradiço onde o veja; na egreja tomar o logar da porta; na salla a sahida; no acompanhamento o deanteiro, para parar onde fique tomando os olhos do privado, para que assim, ou com a continuação mereça, ou com a importunação o despache: usar do trajo limpo, mas não custoso: o comer leve, mas concertado, porque arguem moderação com gravidade: o falar sempre á vontade do ministro, dizendo os amens a todas suas orações, mostrar-se ao favor humilde, á representação agradavel, á esperança contente, ao desengano confiado: falar a todos no seu negocio, porque muitas vezes acerta com um, de que elle não esperava abrir caminho a seu despacho; saber dos que tiveram os outros, e valer-se da queixa dos mal galardoados, para que, antepondo-lhe os seus merecimentos, approve a justiça e favor, que lhes fizeram. E no que toca á moderação das paixões naturaes, ninguem as traz mais registadas que o pretendente; porque dos cinco sentidos e tres potencias usa d’esta maneira. Vê tudo, e olha pouco; vigia, porque, como dizem, _a quem vela tudo se lhe revela_; mas com os olhos no que procura dissimula o que vê, ouve, e não escuta: e assim as más respostas dos ministros cançados, ou insolentes não o escandalisam, antes lhe mostra alegria fazendo do escandalo materia de agradecimento; cheira de longe o que receia; e dissimula, fingindo confiança no que merece: apalpa, e tenta todos os meios de seu remedio, e finge-se ignorante a tudo o que releva; põe o gosto no de quem o favorece, para não fazer mais que o que lhe contente: a memoria occupa-se em relatar seus serviços, e obrigações fingidas, por vêr se assim as pode ter verdadeiras: esquece-se do entendimento para não sentir, e para tambem com elles obedecer; porque o que pretende é muitas vezes prudencia fingir ignorancia, accommodar a vontade com a sua em um voluntario e forçoso captiveiro; a d’aqui nasce que os que pretendem vivem em pobreza, porque não podem ter proprio emquanto dependem de favores alheios; em obediencia, porque a tem com tanta sujeição, que, se ao senhor deseja parecer creado, ao creado quer parecer escravo, e ao amigo, e parente servidor; fazendo-se com todos os ventos para o contentar; em castidade, porque a sua inquietação e cuidado não dão logar aos de amor, que se criam em pensamentos ociosos, que além do pretendente ser humilde, liberal, cortez, paciente, discreto, comedido, sombrio, advertido; casto, diligente, e temperado, a sua cortezia é mais apurada, a sua discrição mais advertida, a sua liberalidade mais prodiga, a sua offerta mais timida, a sua queixa mais moderada, a sua paciencia mais humilde, o seu louvor mais encarecido, a sua voz mais baixa, a sua razão melhor encaminhada. Emfim é ornado de todas as partes boas, de que se pode prezar o homem bem nascido quando as tenha por natureza, e costume, como os pretendentes as fingem e guardam por necessidade. Com isto me deveis haver por desobrigado do cargo, que me déstes; e posto que as horas, que são passadas da noite, culpam a minha tardança, a materia a pedia; ainda que o desejo de não enfadar me aconselhasse outra cousa.--Tendes dito todas tão bem (respondeu elle) que a pratica, e a noite pareceu breve. Com isso vamos a descançar para na guerra de ámanhã entrarmos mais esforçados.--N’essa me dou já por vencido (disse elle).--E eu por atalhado (accudiu Roberto) e todos se despediram com os olhos n’aquella côrte pintada, que ainda com as sombras da verdadeira enganava os sentidos.

DIALOGO XV

DA CREAÇÃO NA MILICIA