Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)
Part 7
E deixando exemplos antigos e modernos, com que posso provar o muito que póde a liberalidade para atar, vencer e adquirir animos agradecidos: com tudo me parece que tem muitas vantajens o cortez ao liberal: e a razão é; que a gente, que se obriga do soccorro do interesse, é de muito menor condição, que a que se cativa da cortezia; e quanto é maior ganho ser a esta amavel, que a outra acceito, tanto vence a cortezia á liberalidade para o effeito que dizemos. O pobre, o humilde, o necessitado, o perseguido, o homiziado, o vagabundo e o taful estimam mais vezes a fazenda que lhe dais, que a cortezia que lhe fazeis: porque o seu ponto não é de honra, senão de interesse. Mas o honrado, o nobre, o cavalheiro, o cortezão, o brioso, o discreto e o rico antes quer que o honreis, que não que o enriqueçais. Os grandes com cortezias roubam os corações dos menores, quando com maior liberalidade d’ellas os favorecem: porque o animo generoso, posto que sente muito a estreitesa propria, mais lhe custa o despreso alheio, por não perder a opinião que de si tem á conta do com que lhe faltou a fortuna. Contam que um principe hespanhol tinha um creado seu, a quem queria muito, e de cuja fidelidade confiava mais, conhecendo-o por verdadeiro, fiel, honrado e brioso: e encarecendo-lhe o principe a confiança que d’elle tinha, lhe perguntou: N. por que preço me fizereis uma traição? Ao que elle respondeu: A vós, senhor, por nenhum preço; mas por um despreso muito me receára de mim mesmo. De outro ouvi contar que, honrando com favor em publico a um creado seu, a quem não pagava bem os ordenados de seu serviço, e outras dividas caseiras; querendo depois o mesmo senhor fazer a conta d’estas obrigações, lhe respondeu o creado: Vós, senhor, me deveis o com que cuidastes que me pagaveis; e agora vos devo eu dares-me o que me não promettestes, e o que eu tinha em maior estimação: por isso fazei livro novo, riscando as lembranças passadas, que só as presentes o serão na minha memoria, na qual conheço que vos devo muito. De maneira que o que é nobre, ou tem partes que o sejam, mais abraça a cortezia que o proveito. E certo que até aos senhores vãos, e ambiciosos de serem endeosados está melhor esta liberalidade, que outra alguma: porque é grangearia não só para ser amado, mas para ser buscado e servido: porque sendo amavel por ella a todos, cada um o acompanha, o grangea, o louva, o acredita e deseja de lhe dar quanto tem; porque só tal homem lhe pareça digno de ter tudo. Tambem declaro que o cortez ha de ter a eleição do liberal, para não levar a todos por a mesma medida, mas distribuir conforme a razão os effeitos do dom, que lhe deu a natureza. E tem tal força de obrigar a cortezia, que não sómente a faz ao que a recebe, senão ainda aos que a vêem fazer, por satisfação, por imitação, por inveja, e por outros caminhos. Uma infante n’este reino tinha uma creada de não muita qualidade, porém de tantas partes, gentileza e discrição, que a antepunha a muitas que a serviam com melhor foro do que esta tinha, que era moça da camara. Desejando a senhora grangear-lhe a ventura e graça dos cortezãos, uma vez que viu a sua casa acompanhada d’elles, mandou em publico que lhe chamassem aquella creada, nomeando-a; e que lhe trouxesse papel e escrevaninha. Como isto era officio, que pertencia ás damas, veiu a moça; e esteve parada com o que trazia, esperando que o viesse tomar da sua mão quem tinha a cargo de o offerecer á infante: a qual tornando-a a chamar lhe disse em maneira que todos ouviram: Chegai; que, ainda que o officio seja de outrem, não podeis ter por estranho o que mereceis. E em quanto a moça esteve de joelhos, e a senhora escrevendo, lhe falava com o rosto cheio de alegria, dizendo-lhe entre outras coisas: O intento, que n’isto tenho, posto que logo o não saibas, d’aqui a pouco o virás a saber. Foi assim; que, vendo os cortezãos o caso que a infante d’ella fazia, um de muita qualidade a pediu para sua esposa, e se casou com ella, movendo-se de vêr aquella cortezia, para o que um copioso dote o não obrigára.--Extremamente provastes vossa tenção (disse o doutor) e me parece certo que essa é a verdade, que se ha de ter n’esta materia da cortezia: porque não póde a vileza do interesse egualar-se com a nobreza e magnanimidade da honra.--Galante coisa é (arguiu Solino) quereres vós temperar todas as panellas, e falar sempre á vontade ao senhor D. Julio, o qual n’esta occasião acudiu por si, para nos culpar a nós: porém elle e vós me dareis licença para que tire á luz uns embargos, que tenho a essa resolução; em os quaes entendo provar que só a liberalidade, no dispender faz amaveis aos liberaes, e aos devedores cativos. E se dizeis que não são estes os nobres; ouvi aos poetas que subiram mais a corda, dizendo que dadivas venciam homens, e obrigavam Deuses: e o rifão diz, que quebram pedras. Boa cousa é a cortezia, mas nenhuma comparação tem com a liberalidade. Falaes-me em quem dá o seu para soccorrer a outrem, no que soccorre ao aperto, á falta, á occasião, e á necessidade: que coisa poz aos homens entre as estrellas, se não o saberem dar? que só isto leva após si os homens, as feras, os animaes e as aves. O outro Plafon andava o seu nome no bico dos passaros pelos outeiros, e coruchéos da cidade de Ephezo, porque sustentava á sua custa as mesmas aves. E vós quereis que o outro, que não lança agua a pintos, só com uma inclinação dobrada, uma mesura rebatida, e umas palavras doces leve as lampas a um liberal? E além d’isto, como póde ser que obrigue e ganhe mais o que emprega menos? e que vença o cortez com uma barretada o que mereceu um liberal com obra tão custosa, como é dispender fazenda? Alexandre, Tito, Fabio, Flaminio, Tullo Hostilio, e outros similhantes, não deixaram assombrado o mundo com sua grandesa, e vencido o tempo com sua fama por cortezes, senão por liberaes: porque a cortezia não satisfaz mais que a vaidade; e a largueza acode ao principal da vida. E de mim confesso, como povo, que antes quero um descortez liberal, que um cortezão miseravel: porque esses cameleões da cortezia, que se sustentam com os ares d’ella, não são tão firmes como cuidais; nem ás vezes falam de fartos; e póde ser que não enjeitáram os comprimentos de contado, e que renunciaram facilmente os da urbanidade cortezã.--Não falta na companhia (disse Leonardo) quem queira defender a vossa parte, e a do liberal: porém uma duvida tenho, e é que esses, que de maior liberalidade fizeram extremos no mundo, todos eram prodigos como Alexandre, Tito, e outros similhantes.--Na dignidade real (disse D. Julio) cabem todas as grandezas sem a limitação com que tratamos d’esta virtude; que Alexandre dava cidades, e talentos, sem que esses lhe pudessem fazer falta: o que nos menores tem muita differença; porque o modo n’elles sustenta a virtude para que (como diz S. Jeronymo) com a muita liberalidade não pereça a liberalidade: e nos reis e monarcas a tenção acredita a obra, se é feita de arrogancia, e benignidade; porque o liberal sempre acha desculpa para haver de fazer mercês como Alexandre, que a Perilo se desculpa, conformando-se com quem era para não culpar a demasia do que lhe dava: e a Xenocrates, que lhe diz que não lhe são necessarios os cincoenta talentos que lhe manda, responde que, se tem amigos, para elles os ha mister, pois a elle não bastaram as riquezas de Dario para os que tinha. E pelo contrario Antigono, a quem Diogenes pedia um talento, se escuzou dizendo que pedia muito para philozopho; e pedindo-lhe um dinheiro, disse que era pouco para dar um rei. De maneira, que o que o avaro busca para negar, acha o generoso para fazer mercês, que, conforme ao que diz Marco Tullio, são grilhões da liberdade dos homens. E porque é tarde, me dai por desobrigado d’estes.
Com isto se levantáram todos; e Pindaro, e Feliciano o fizeram assás descontentes com a magua dos seus conceitos mal logrados; que quando, depois de escolhidos, não vem a lume, deixam o entendimento arrependido, a memoria queixosa, e a vontade offendida.
DIALOGO XIV
DA CRIAÇÃO DA CÔRTE
Porque todas as cousas de novo na primeira vista contentam mais, e com maior razão a quem vive na aldeia, em a qual a continuação das que se offerecem de ordinario deleitam pouco quando não enfastiam muito: estavam os amigos tão affeiçoados ao irmão do prior pela sua arte, e bom modo de falar e proceder, que vieram ao dia seguinte muito alvoroçados a o buscar nas horas costumadas, offerecendo-lhe cada um por seu caminho aquelle desejo, a que elle por todos se sabia mostrar muito obrigado. Depois de darem fim aos cumprimentos, que levam sempre a vanguarda n’estas batalhas, lhes disse Pindaro:--Posto que o natural de cada um é a principal parte que o favorece, para em todos os exercicios se melhorar na communicação dos outros homens; nenhuma escola me parece melhor para os bem nascidos, que a milicia. E ainda que me não ensinasse a experiencia esta verdade, claramente a conheço no exemplo de muitos soldados, com que me achei em occasiões; e sobre todos do senhor Alberto, que parece um exemplar, e espelho, em que se pode vêr um perfeito homem de guerra, e de côrte, pelo que de ambas colheu, aperfeiçoando a doutrina d’ellas com a clareza do seu engenho e a disposição, e vantagem de seu entendimento.--Eu desejo merecer (respondeu elle) a boa opinião, com que me honraes deante d’estes senhores, e logo a pago mal com a desacreditar tanto á vista d’elles: pelo que me era necessario accudir a essa falta com nova desculpa, dizendo que ha olhos que de argueiros se pagam; e que mais favorece um engano, que muitas verdades, porque bastava no vosso ter ventura para a alcançar em tão honrada conversação. Porém devo attribuir aos louvores da milicia os de que me fazeis mercê; e d’elles, como soldado, tirarei a minha parte; ainda que tendes tantas, que, quando o sejaes n’esta competencia, terão as lettras muita vantagem ás armas.--Não são de pouca estima os cumprimentos (accudiu Leonardo) se continuar com estes principios o discurso que se pode fazer sobre a differença da creação da côrte, da milicia, e das universidades, que são os tres exercicios nobres, em que os homens se occupam, apuram e engrandecem; e n’elles se pode gastar a noite com muita satisfação dos presentes, pois assim pode cada um saber muitas cousas das que convém ao particular de sua profissão.--Entendo (disse D. Julio) que escolhestes bem, e que vos cabe o primeiro logar para tratar da côrte: ao senhor Alberto o segundo para dizer da milicia: ao doutor Livio o terceiro para falar das universidades. E se eu n’este voto parecer atrevido, confiança me deu a liberdade da nossa conversação, e o costume dos mais. “Todos approvaram a escolha de Leonardo, e a repartição de D. Julio. Porém Solino não ficou tão satisfeito que se calasse, antes disse para D. Julio:--Vós, por vos forrardes do trabalho, fintastes os outros. E posto que não se pode ir contra eleição tão acertada, se o ensino da côrte se houver de pintar pela tempera velha, e tratar sómente do canto chão, de seus estilos, e gentilezas, ninguem dará melhor conta d’isto que o senhor Leonardo; porque se achou no paço ainda em tempo que eramos troianos, e viu luzir o que agora está cheio de ferrugem. Mas se houver de falar ao moderno, em que é tudo de outra freguezia, receio que lhe fique muito por dizer.--O mesmo receio tenho eu (tornou Leonardo) porém não são os males e bens da côrte tão pouco antigos como vos parece; que já no meu tempo havia os mesmos queixumes de agora: porém ha tanto que dizer d’ella, que de necessidade hão de passar muitos pela malha a quem vive ha muitos annos n’este desvio, e que no remanso do descuido da vida afogou todas as lembranças d’ella; e assim houvera o senhor D. Julio de passar esta obrigação a outrem que dê melhor conta d’ella.--Não faço eu as minhas tão erradas (respondeu elle) que vos desobrigue.” A isto ajudaram todos os presentes; e Leonardo começou d’esta maneira:
--Quatro maneiras de exercicios ha na côrte, que para todas as cousas civis fazem um homem politico, cortez e agradavel aos outros. A primeira é o trato dos principes, e a communicação das pessoas que andam junto a elles: n’esta consiste o principal do a que chamamos _Côrte_, que é conhecimento d’aquelle supremo tribunal da terra, do rei, ou principe a quem pertence mandar, como a todos os inferiores obedecer na conformidade das leis, por que se governam. Traz isto o estado e serviço do mesmo rei, e dos seus, a obediencia, a cortezia, a inclinação, a mesura, a discrição no falar, a policia no vestir, o estylo no escrever, a confiança no apparecer, a vigilancia no servir, a gentileza e bisarria, que para os logares publicos se requer. O trato do principe no paço, na mesa, no conselho, na caça, nos caminhos e occasiões, como se grangeam os validos, se visitam os grandes, e como se hão de haver os cortesãos, para communicar a uns, e outros. O segundo exercicio é o decóro, e veneração, com que se servem as damas; e d’este se alcança todo o bom procedimento, e perfeição cortezã, que pode desejar o homem bem nascido: porque sobreleva muito do serviço real, e com muitas vantagens faz a um cortezão discreto, cortez, advertido, galante, airoso, bem trajado, extremado na cortezia, no dito, na graça, no mote, na historia e galanteria: este o faz ser bom ginete nas praças, bem visto nas salas, bem ouvido nos saraus, e bem acreditado nos ajuntamentos. E como o serviço das damas é o mais apurado exame para se conhecerem sujeitos honrados, ellas graduam e auctorizam os homens; e do seu voto toma a fama informações para os fazer grandes na opinião de todos. O terceiro exercicio é a communicação dos estrangeiros: porque como os que assistem nas côrtes ou são homens de muito sangue e qualidade, ou de muita prudencia e valor, ou de muita confiança e riqueza, sempre d’elles se colhe uma doutrina mui avantajada para o cortezão, que é saber as gentilesas de outras côrtes, as leis de outros reinos, a belleza e serviço de outras damas, o estylo de outros reis, e finalmente os costumes e institutos de outras gentes. Esta variedade deleita e enriquece o entendimento e a memoria do que é bem nascido. O quarto exercicio é o soffrimento e diligencia dos pretendentes, que, para tirarem fructo de seus serviços, acções e requerimentos, se recolhem ao amparo dos grandes, ao favor dos ministros, á companhia dos criados, e se sujeitam a todos os encontros e avisos, que padece quem pede, sustentados no doce engano de uma esperança, que lhes sáe muitas vezes mentirosa. Sobre estas quatro maneiras de exercicio de côrte poderei discorrer o que baste para vos enfadar este serão, se o doutor, como costuma, interpozer a auctoridade de suas lettras na falta de minha sufficiencia, e Solino com addições de sua graça a der a minhas advertencias.--Essa humildade (tornou elle) como é demasiada, argue soberba, quando a respeito do doutor não seja adulação. Vós podeis falar ás duas mãos como em jogo de bola, e buscaes padrinho! E com tudo isso, se eu vir azas, por onde pegue, direi meu dito.--Assim o faremos todos (disse o doutor) e com isto proseguiu Leonardo:--A pessoa real é a cabeça da republica, como escreve Plutarco; e nenhuma cousa na terra ha sobre ella mais que a lei, a que deve obedecer; e ella fica sendo lei para todos os inferiores para a imitação dos costumes e virtudes, que no principe estão mais certas que em outra pessoa particular, de maneira que fica sendo uma lição viva e continua, para os que assistem em sua côrte, na religião, na observancia das leis, na excellencia das virtudes, na reformação dos costumes, na moderação das paixões, na justiça, na clemencia, na liberalidade, na modestia, na magnanimidade e na constancia. E tanto é melhor a doutrina do seu exemplo, quanto de mais alto logar ensina a todos. E posto que houve e ha muitos reis (a que convém mais o nome de tyrannos) a que sua depravada natureza desvia d’estas condições reaes, que juntamente com a corôa, e sceptro se lhe communicam: pela maior parte os reis se sujeitam mais á lei e á razão, que os que, obrigados de forçoso poder, não podem evitar o castigo de seus erros. E ainda o mesmo nome e superioridade de rei lhes põem em certo modo condição de serem os mais perfeitos entre os homens, para os regerem e mandarem; que para o primeiro se requer muita prudencia, para o segundo grande auctoridade.--Os reis por eleição (disse o doutor) d’essa maneira o começaram a ser no mundo; e pela excellencia de suas pessoas alcançavam o titulo que agora compete aos reis por nascimento. Os Persas não podiam eleger rei, que não fôsse mui douto na arte magica, como escreve Tullio no 1.º _de Diviniatione_. Os Médos escolhiam por rei, como conta Strabo, liv. II, o que aos outros excedia em forças naturaes. Os Catheos, povo da India, como escreve Deodoro, liv. 17, não subiam á dignidade real, senão o que em gentilesa e formosura de corpo excedesse aos mais: e a mesma eleição faziam os de Meroe, como escreve Pomponio Mela. Os de Libia davam o titulo de rei ao que na velocidade do correr deixasse atraz a todos. E, como conta Herodoto, os Gordios tinham por digno do mando e titulo de rei o que fôsse mais grosso o comprido, e tivesse o pescoço mais levantado, deduzindo da grandeza do corpo a excellencia do animo, que para exercitar tão grande nome lhe era necessario: de modo que todos estes e outros povos entendiam que o ser rei convinha ao homem mais excellente n’aquella parte, que elles julgavam por melhor de todas, segundo a opinião em que viviam.--Esses (respondeu Leonardo) imitavam a natureza na superioridade que deu aos animaes por forças, velocidade e ligeireza. Porém entre os que são governados por razão, e policia, parece que era devido o nome de rei ao que no entendimento fizesse vantagem aos outros homens. E assim Platão chamou bem-aventurada á republica, onde os philosophos reinassem, ou os principes philosophassem. E Seneca disse que era edade de ouro a em que os sabios reinaram. E Vegecio, no liv. 1 da Milicia, escreve que nenhuma cousa convém mais ao rei, que a sabedoria; pelo que Salomão não pediu a Deus outra cousa para reinar.--É verdade (disse o doutor) porém os reis, que succedem aos reinos por herança, não podem ser eguaes no entendimento e prudencia; mas com a dos que por elles governam vem a alcançar esta perfeição; d’onde nasceu o proverbio antigo de Atheneo que _o rei tem muitos olhos, e muitas orelhas_, pois ouve, e vê pelos ministros que governam o seu estado: E como diz Tullio, se é real cousa mandar, não o é menos escolher doutos e famosos varões, por quem se governem: e ainda os reis, que foram mais sabios (ou por este respeito tidos por esses) procuraram ter comsigo os mais afamados homens de seu tempo, de cujo conselho se valessem. Anthioco mostrou a Hannibal quanto se presava de favorecer os sabios em sua côrte. E Theodozio o Magno dizia que o rei quando comia, caminhava, governava, e se retirava, se não havia de achar sem homens sabios: o que tambem Lampridio escreve de Marco Aurelio. E d’este conhecimento nasceu a Dionysio mandar a Lydia a buscar o philosopho Platão: e aos reis do Egypto mandarem por seus embaixadores buscar o poeta Menandro. Por esta razão Frontino Filosofo foi tão grande pessoa na côrte do imperador Antonino; e Dion Sofista na de Trajano; Euripides na de Archelau rei de Macedonia; e outros muitos, que não bastara esta noite para os contar. E assim, como tendes mostrado, sempre a pessoa real é uma lição viva que por si, e seus sabios, e ministros está ensinando a todos os inferiores. Além do que o mesmo rei, por necessidade, e quasi por força, ha de ser nos costumes mais puro que todos os seus, por viver mais registradamente que elles, constrangido de sua mesma dignidade; o que mostra bem Xenofonte na disputa de Hieron tyranno com Symonides sobre a vida regia, e particular: e tambem as mesmas leis os obrigam mais a elles, que aos particulares. Os reis do Egypto, como conta Diodoro Siculo, por lei não podiam beber mais que uma certa medida mui limitada, de que não passavam, porque com algum excesso não fizessem desordens. Os Athenienses, segundo affirma Alexandre de Alexandro liv. 3, tinham lei, que condemnava á morte o rei, que com o demasiado vinho se alienasse. Os Indios, de que escreve Atheneo, cujo rei davam em guarda a certo numero de donzellas, ordenaram que, se algumas d’aquellas o achasse com vinho demasiado fóra de seu juizo, e o matasse, esta fôsse desposada com o successor, a quem vinha o reino. Os Macinenses, como o seu rei fazia algum erro no governo, não lhe davam de comer aquelle dia. Os Persas faziam ao seu rei estar escondido no interior das casas, para nem vêr mulheres, nem ser muito tratado dos homens, como conta Herodoto liv. 3. De maneira que por razão, lei e força os principes são mais observantes das leis divinas, e humanas, mais sobrios, temperados, recolhidos e honestos. Além de que, sendo menos vistos, são mais respeitados, como ensina Aristoteles no livro _do Mundo_, em que conta do rei de Persia, que estava encerrado em um castello com tres muros, e que se não mostrava senão a poucos de seus amigos: como tambem dá a entender a Escriptura, falando da prerogativa dos sete sabios da Persia, que viam ao seu rei, e que cada dia tinha novas de todo o seu imperio.--Deixados (disse Leonardo) esses exemplos tão antigos, e costumes tão louvaveis e excellentes da gentilidade; os principes por creação, e natureza são mais benignos, liberaes, magnanimos, justos, animosos e verdadeiros, que os outros homens, e dotados pela maior parte d’aquellas virtudes, a que por excellencia chamamos reaes. E como é proprio dos homens de bom nascimento e inclinação aspirarem ás cousas mais altas, e desejarem vantagem e melhoria dos outros; tendo diante de si, e no alto da vista um espelho tão claro como é o seu principe, a elle se estão vestindo e enfeitando d’ellas; primeiro e melhor os que o vêem de mais perto; e depois os que por communicação d’estes participam da mesma doutrina.