Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)
Part 10
E em o que toca ao governo de cada um, nenhum soldado desobedece na ordem, na estancia, no concerto, no acometter, retirar, assistir, reconhecer, vigiar, e em todos os mais actos militares: e ainda que se lhes atravesse deante o rosto da morte, o despresa por acodir á obediencia de quem tem a seu cargo mandallo. E faltando esta sujeição, totalmente se destruirão os exercitos, conforme aquella sentença, que _o maior inimigo, que ha na guerra, é a discordia entre os proprios soldados_: e assim se perderão muitos campos, e armadas, por a inconveniencia dos capitães, e a discordia, e desobediencia dos inferiores. De modo que, por ser esta experiencia tão approvada, vieram os reis, e generaes, a castigar bons successos, quando fóra da obediencia, e ordem militar se conseguiram; enjeitando aos vencedores a ventura, e castigando a ousadia, com que traspassaram a lei da milicia, como eu vi acontecer algumas vezes. Ha além d’esta outra obediencia não menos importante nos soldados, que é a do segredo; que vence ao maior que se deve aos negocios civis, e cortezãos: este se usa nos desenhos, intentos, avisos, estratagemas, ciladas, e até em o dar o nome ordinario da vigia; que tudo se guarda com inviolavel observancia. Assim que em tudo o soffrimento, e obediencia do soldado, muitas vezes alcança na guerra mais merecimentos que o seu esforço. E todas estas leis, costumes, e sujeição fazem a um homem tão apurado, polido, discreto, amavel, secreto, brando e animoso, que deixa atraz a todos os que nos outros exercicios se adiantam. O quarto fundamento é a communicação dos estrangeiros, e a vista de differentes terras, e provincias, que o fazem sciente, pratico e visto nos costumes, ritos, e reinos estranhos: porque um exercito se compõe de gente de muitas nações, que por soldo, irmandade, soccorro, pacto ou visinhança se ajudam uns aos outros: e assim capitães como soldados, cada um por competencia, não sómente quer assinalar seu nome, e honrar a sua nação, mas engrandecer os costumes, gentilezas, trajo, e galas da sua patria, contando ainda as guerras e empresas de seus naturaes, as grandesas da sua provincia, e outras miudesas, que nem pela lição escripta se pode comprehender tão facilmente. Pois a vista, que é só a que de todo satisfaz o animo, e enriquece o entendimento, ninguem a tem mais varia que o soldado, ora seja navegando, ora em presidios fóra de sua patria, aprendendo nas alheias todo o bom termo de proceder, de obrigar, grangear, servir, e de se ennobrecer, apurando a sua gentileza, e partes no serviço das damas, sua liberalidade com ellas, e com os soldados: a policia no seu trajo, e bizarria; a discrição na sua pratica; e todos os outros costumes, que á vista de tantas testemunhas exercita, conquistando honra com o esforço, amigos com o bom procedimento, servidores com a liberalidade, a affeição das damas com a gentilesa; fama entre os estranhos, nome com seus naturaes, merecimentos com o rei; que, quando sejam mal galardoados da ventura, não lhe póde essa tirar o seu verdadeiro preço, que é o louvor que á virtude se deve. Tambem não é para despresar na discrição do soldado, antes muito para engrandecer, a relação dos successos, e occasiões, em que se achou, e contar as coisas d’elles com mais propriedade que os cortezãos, e escriptores; pintando o campo em ordem, a cabeça do esquadrão, o rosto, as alas, os lados, e as costas d’elle, o logar das insignias e bandeiras, e dos instrumentos, artilharia e bagagem, a guarnição dos mosqueteiros, as mangas dos arcabuzeiros, as companhias dos alabardeiros, archeiros, bésteiros, escopeteiros, e piqueiros; dispondo nos combates cada uma d’estas coisas em razão, e termo militar. E egualmente no assalto, ou defensão, ou fortalesa, saber dos fortes os bastiões, torres, muralhas, ameias, barbacans, parapeitos, corredores, bombardeiras, séteiras, torreões, baluartes, terraplenos, platafórmas, trincheiras, praça de baluartes, respiradouros, casamata, rebelins, vias secretas, porta mestra, porta falsa, ponte levadissa, cavas, minas, fóssos, reparos, contrafortes, contraminas e contrareparos, e outros nomes, e serviço de coisas, em que só os experimentados nas armas podem falar propriamente: pelo que tenho o exercicio d’ellas por mais excellente para o homem bem nascido, que todos os outros.--Vós (disse Solino) canonisastes hoje aos soldados, e engrandecestes sobre todas a vossa profissão. E são tão boas as razões com que o fizestes, que se assim foram os seus costumes d’elles, não vos podia ninguem contradizer; nem eu o fizera agora, se tratáreis do que todos vemos em vossa pessoa; mas pela differença de outras, com que eu tratei, correndo tantos lares, e estalagens, como João de espera em Deus, haveis-me de dar licença que mostre o avesso a essa pintura, e diga que a milicia um é homicidio commum, uma escola de todos os vadios, e ociosos do mundo. E os soldados não são outra coisa, que soldados pagos, e armados em damno da republica, roubadores de honras, ladrões de fazendas, blasfemos, jogadores, insolentes, espadachins, matadores, rufiães, adulteros, sacrilegos, incestuosos, e perjuros, e cheios de todos os mais vicios, e maldades abominaveis, considerados na liberdade soldadesca, e em sujeitos tão perdidos, como o são os mais dos que se lançam por o caminho da milicia; de sorte que, se alguns saem tão bem doutrinados como vós, os mais são tão differentes, que desmerecem vossos louvores.--Bem sei (respondeu Alberto) que não posso provar commigo o que tenho dito dos soldados; mas podéra allegar com outros, que me fazem grandes vantagens; e com ellas me desobrigaram, se os tivera presentes, ou dos que aqui o estão foram conhecidos: e tambem é coisa clara que vos não faltarão muitos, com que proveis o que dissestes: porém fallo dos soldados honrados, que são os termos em que se deve tratar do fructo da sua profissão.--Pouca razão (acodio o doutor) mostrou Solino no seu arguir: porque primeiramente, a arte militar é muito approvada para a conservação da republica; e já Platão disse que era n’ellas tão necessaria como a agricultura; e os erros dos viciosos, e depravados não podem desacreditar a profissão, nem tirar merecimento aos bem disciplinados, e generosos: que se houvermos de fazer essa consideração em todos os exercicios, nenhum ha sem egual desconto: porque se no da côrte, em que falou Leonardo tão discretamente, quizermos escolher os perdidos, acharemos que são mais que os aproveitados; e o mesmo proverbio declara que são a maior parte, em quanto diz que a côrte é para privados, e para homens mal acostumados; e o mesmo, e peior acontece nas escolas. De maneira que a boa creação da milicia se deve entender sómente nos bem creados, a quem a honra obriga a que se queiram avantajar do vulgo; e não em os que fazem d’ella tão pouco cabedal, que empregam o de seu animo, e saber em cousas indignas de homens bem nascidos, occupando-os em latrocinios, forças, traições, maldades, enganos, e infamias.--Não me péza (disse Solino) senão porque me gabáram de valente quando aqui cheguei, para me não dar por vencido de duas razões tão fracas como as vossas; e com tudo me hei de calar até vos colher em um duello, em que eu escolha as armas, que vos não hão de valer as de quantos bachareis degolaram o mundo.--Guardae-lhe (disse D. Julio) esse animo vingativo para ámanhã, e virá mais a tempo.--Não já para mim (lhe tornou Solino) porque tem da sua parte muito favor, não sómente o de Solino, pelo que lhe importa, mas de Pindaro que tem estillada a quinta essencia dos louvores escolasticos, e não ha travessa, nem beco sem sahida nas lettras, de que não possa fazer um mappa mui copioso.--E achaes (tornou D. Julio) que é isso mau para letrado?--Antes o tenho por muito bom (disse Solino), prazerá a Deus que virá elle a saber ao que agora cheira, e assim o espero: que, posto que estes estudantes mancebos entornam ás vezes tudo no caminho, elle foi sempre pelo mais acertado.--Tambem a mim me parece agora (acodiu Alberto) acabar o meu discurso na vossa differença: para o que peço a estes senhores que me hajam por desobrigado de ir por diante.--Se estivera em mim (respondeu Leonardo) o poder obrigar-vos a dizer mais, como está o gosto, e desejo de vos ouvir, não sei se vos deixara despedir tão de pressa: porem deve ser tarde; porque já o era quando aqui viemos, por uma occupação que me deteve mais do que queria.--Não me parece a mim (disse D. Julio) que é tarde, nem entendi que estava tanto no fim a nossa pratica, que não podesse fazer algumas perguntas, como costumo, de algumas miudezas que o sr. Alberto passou por muito visto n’ellas, como eram alguns particulares, e differenças na ordem da infanteria, e cavallaria, e muitas da milicia naval.--Porque essas cousas tocavam menos ao meu intento (respondeu elle) passei tanto por ellas: mas quando outro dia tiveres gosto de ouvil-as, terei eu muito pouco trabalho em as relatar.
N’este tempo, porque os mais estavam já levantados, se despediram. E Solino se foi pendurando em palavras de galanteria com o doutor com tanta graça, que desejaram os companheiros poderem fazer o caminho mais comprido; que, por muito que o seja, a boa conversação o faz parecer breve, e desejado.
DIALOGO XVI
DA CREAÇÃO DAS ESCOLAS
Estava tão desejoso e alvoroçado Pindaro para na creação escolastica passar aquellas duas columnas, que Leonardo e Alberto levantáram no estreito limite da policia civil, que, imaginando que lhe fugia o tempo, sem o dar ao doutor, para vir com elle, obrigou a Feliciano a que se fossem mais cedo a casa do D. Julio, dizendo-lhe pelo caminho:--Certo que não desejei cousa como alliviar ao doutor do trabalho d’esta empresa; que, posto que a sua auctoridade culpa o meu atrevimento, tambem o amor, que tenho ás sciencias, o favorece.--Muito bem estivera na vossa mão (respondeu elle) por quão boa a tendes para tudo: porém não desejeis de a tirar da sua; porque até em aquillo, que eu sei muito melhor que outros, quizera antes ouvir aos que sabem mais, que escutarem-me elles: e a razão é, que, além de aos antigos estar tão bem a confiança, como aos mancebos o receio, vou pesando o que lhes ouço com o que eu tinha para dizer, e faço mais certo juiso de meu cabedal para outras occasiões. E n’este appetite me parecestes homem que sabe a historia que ouve contar, que se adianta nos passos d’ella ao que a vai dizendo, e por mostrar que a sabe, faz perder o gosto ao que a ouve, e o feitio a quem a relata. Lanço é de habil essa prestesa, e ferir lume com qualquer golpe; mas de sizudo dissimular as faiscas.
Não vos abataes a todo o passaro, ainda que seja da vossa ralé, que não haverá quem queira caçar com vosco.--Mas quereis (tornou o amigo) que me fizesse mar morto, sem levantar ondas quando me vem o vento tão fresco: muito repugna a agudeza do engenho á paciencia de um fleugmatico como vós, que não sei dobrar as mãos quando a pélla me vem pular aos pés; e cedo vereis se tem razão a minha cubiça.--Perto estaes (disse Feliciano) do desengano, e muito mais perto da casa de D. Julio.
N’esta pratica chegaram a ella, e não muito depois os companheiros, e como Solino, em entrando, os vio sentados, disse logo:--Todavia viestes deante para mostrares que ereis os mordomos da festa: e muito confiados na eloquencia, e auctoridade do doutor, vos parecerá que tendes a fogaça em casa, e eu cuido o contrario, se eu entrar na lucta, e vos não valer; que o dia, que se prega de um Santo, é elle o maior de todos.--Não sei que tendes contra as lettras (disse Leonardo) que, sendo tão grande amigo de Pindaro, vos picaes sempre contra a sua profissão.--Dir-vos-hei (respondeu Solino) o d’onde isso nasce; e é que as lettras não posso negar que são cousa boa, mas assentam as mais vezes sobre ruim papel; e como é feito de trapos, tenho achado tantos n’elles, que me aborrecem.--Melhor dissereis trampas, (tornou elle). Porém no amigo que por vos fizeram?--Ir-se-me todo em lettras (replicou Solino)--Não é razão (accudiu o doutor) que vos adeanteis tanto para me tomar a estrada: deixae-me primeiro falar, que eu vos darei tempo quando me quizeres arguir; que, por mais que se apure a vossa murmuração, não pode diminuir os quilates e preço das sciencias.
--Pede razão o doutor (disse D. Julio) e porque elle e os mais desejavam de o ouvir, fizeram silencio; e elle começou d’esta maneira:--Duas cousas me envergonham n’esta empreza, que a puderam facilitar em outro sujeito, a clareza manifesta da muita vantagem que tem a creação das escolas a todas as outras. A segunda poder mostrar deante com exemplos vivos o que hei de provar com razões menos sufficientes, e que sempre á sua vista ficarão limitadas. Porém para accudir á obrigação, em que me puzeram, deixo a que tenho ás lettras, que era não pôr em disputa, como cousa duvidosa, o seu merecimento, e a muita differença que faz o estudo d’ellas a todos os outros exercicios; porque as escolas, e universidades do mundo, que foram instituidas para o governo e conservação d’elle, são o coração dos reinos, onde estão fundadas, do qual sáem as operações principaes para o regimento da vida civil. E se, como diz Cassiodoro, ha tanta distancia do que alcançou sciencia ao idiota, como de homem ao que o não é: julgae quanto importe a creação das escolas, onde todas se aprendem, em differença de outras profissões, em que só por experiencia e communicação chegam algumas sombras das vivas côres da sabedoria. Esta é a razão, porque Diogenes buscava um homem entre os que o pareciam: e o porque disse do que viu estar sentado sobre um penedo _que estava pedra sobre pedra_. E assim como os metaes, que entre ellas se criam, sáem brutos, e toscos e desconhecidos, até que por via da fundição e beneficio da arte tem lustro, preço e merecimentos, assim a forja, em que se apuram os homens, e se põem nos quilates com que hão de ter a valia que a este nome se deve, são escolas, nas quaes da mesma maneira, que por alchimia de cobre se faz ouro, n’ellas de um idiota, e quasi bruto se faz homem com saber, merecimentos, e sufficiencia para se avantajar do vulgo. E começando da grammatica das linguas, que é o primeiro degrau das lettras, ou, como disse um auctor grave, a primeira porta por que se entra a todas as sciencias, com cujo beneficio ellas se conservam, e se perpetúa a memoria das coisas; ainda que, como escreve Quintiliano, tem mais de trabalho, que de ostentação; é, como diz Izidoro, o fundamento de todas as artes liberaes, e disciplinas nobres. A esta dividem alguns em artificial, historica, e propria: que a primeira ensina o concerto, e disposição das lettras, com que escrevemos; a ortographia, e propriedade das palavras que falamos; a segunda, e terceira pertencem ao conhecimento dos logares, e obras dos historiadores, e poetas, e a explicação do que n’elles por antiguidade, e differença da lingua está escuro e duvidoso, mórmente nas tres linguas hebraica, grega, latina, das quaes triumphando a carreira dos annos deixou em muitas edades differença. Na primeira da hebraica e chaldêa. Na segunda na grega commum, attica, dorica, laconica, e eloica. A terceira em prisca, latina, romana, e mixta: e em umas e outras, e na propria de cada um ensina a grammatica a pronunciação das lettras, o som, e accento diverso das palavras, a distincção das vogaes, e consoantes, e a ordem de falar com pureza, e policia. E se este primeiro degrau é tão necessario aos homens, que parece que sem o conhecimento d’esta arte lhes não é licito abrir os beiços; que será levantar-se, e subir ao cume mais alto das sciencias, e disciplinas nobres? O segundo degrau d’esta escada é a logica, arte, que ensina a distinguir e fazer differença do falso ao verdadeiro, e do torpe ao honesto; e como o entendimento é causa do obrar, assim o é ella do entender: é o peso, e balança, em que se conhecem todas as cousas leves, e pesadas; arte, que não sómente ensina a saber a verdade de todas as cousas, mas a poder manifestal-a aos que mentem; reduzindo a dez cabeças, ou predicamentos, toda a variedade de cousas que o mundo tem, achando o verdadeiro modo de definir a todas ellas, e descobrindo os generos, especies, differenças, substancias, e accidentes; esta ensina diversos modos de arguir, provar e sustentar o que concebemos no entendimento: pelos quaes officios é esta arte tão celebrada, que Platão, e depois d’elle Santo Agostinho a fizeram parte da philosophia, dividindo-a em moral, natural e racional. Aristoteles, Scoto, e outros lhe chamam sciencia, e instrumento de saber: de cujo testemunho, e verdade se alcança que sem o conhecimento d’ella não pode um homem falar seguro entre os outros. E posto que ha tão boas disposições de entendimentos, que naturalmente discorrem, e conhecem sem favor da doutrina estas miudezas; comtudo sem o favor da arte escurece ás mais vezes a clareza do engenho. O terceiro logar é da rhetorica, que ensina a falar bem, e a persuadir aos ouvintes com razões bem concertadas ao intento do que pratica, não fazendo o fundamento na verdade do que diz, senão no concerto, e semelhança da razão, com que obriga, e move. E porque d’esta arte se fala mais diffusamente n’esta conversação em favor da linguagem portugueza, passarei d’ella á poesia, arte tão nobre, e desejada, que, trabalhando sempre os invejosos por escurecer seu preço, lhe não puderam tirar o que hoje tem na opinião e exercicio dos principaes senhores de Hespanha: e bastava para o seu grande valor ser conhecido ter n’ella o fundamento toda a philosophia, pois Plutarco conta, e Aristoteles confessa que todos os philosophos, e suas diversas seitas se derivaram das poesias de Homero: e não só deu principio a ella, mas Prometheu, Lino, Muzeu, e Orfeu, e esses mesmos, e outros deram fundamento ás deidades, que os antigos ritos da gentilidade veneravam. E deixando a recommendação de seus louvores para quem com vivo exemplo pode tratar d’elles, dizendo de sua perfeição, e grandeza o que eu em tão limitadas horas não posso dignamente declarar; passarei á mathematica: e, como a parte principal d’ella, á geometria, arte tão excellente, e tão necessaria ao cortezão, que favorece todas as boas partes que n’elle se requerem; e tão natural ao sabio, que Platão tinha na entrada da sua escola um letreiro que dizia: _não entre n’esta casa homem, que não saiba geometria_. E Filo Hebreu diz d’ella, que é princeza, e mãe de todas as disciplinas. E Francisco Patricio na sua republica, soccorro, e presidio de todas as artes. E Platão escreve d’ella estes louvores, que levanta o animo, e pensamento ao estudo da verdadeira philosophia, o que é necessaria para a conquista de todas as disciplinas, favorecendo a arte militar no formar dos campos, dispôr os esquadrões, recolher e dividir as companhias, sustentando a cosmographia em suas medidas, a architectura em suas proporções, a arithmetica, e musica em seus numeros, e a outras infinitas; medindo em todas ellas as fórmas, espaços, grandezas, medidas, corpos, pesos, e todas as cousas que d’elles se compõem; e de medida de agua, vento, terra, nervos, cordas, e cousas semelhantes, como torres, fortalezas, relogios, moinhos, e instrumentos de musica; consta de linhas rectas, curvas, flexuosas, perpendiculares, planas, parallelas, e de angulos, rectilineo, curvilineo, direito, agudo, e obtuso; finalmente de superficie, circulo, circumferencia, centro, diametro, e outros nomes, e termos naturaes d’aquella arte, que na pratica commum parecerão peregrinos, e de que é bem que o homem cortezão se não ache alheio. Atraz d’esta se segue sua companheira a astrologia, sciencia tão levantada, que penetra da terra os segredos das estrellas, tratando do mundo em universal, e em particular, das espheras, dos orbes, do movimento, e curso d’elles: das estrellas fixas, e de seus aspectos: da theorica dos planetas: dos eclypses do sol, e da lua: dos eixos, ou pólos celestes: dos climas, e hemispherios: de circulos diversos excentricos, epyciclos, retrogrados, raptos, accéssos, e recéssos, e outros semelhantes: e de outros muitos movimentos pertencentes aos céos, e ás estrellas, de cujo curso, e estações de tempos se faz natural juizo das cousas futuras tocantes á agricultura, e navegação, não admittindo a especie supersticiosa dos mathematicos, que é a astrologia judiciaria. E passando d’esta á philosophia, sem cujo conhecimento parece que os homens não podem alcançar perfeição alguma; é tão levantada, que lhe chama Santo Izidoro, no II das suas Etymologias, sciencia de todas as cousas divinas, e humanas, em quanto é possivel ao homem alcançar d’ellas. E Platão diz que ella é o maior bem, que Deus concedeu aos homens: porque ella é a lei da vida, a estrada da virtude, a fortaleza contra os vicios; a fórma das acções humanas, o lume de nossas obras, a ordem dos pensamentos internos, regra do entendimento, a mestra dos nossos costumes, e descobridora dos segredos elementares: mas comtudo não chegou a conhecer a philosophia christã, a qual envolve as tres virtudes theologaes, cujo proprio officio é o que escuramente Platão tocou em seus louvores: e finalmente a contemplação de todas as cousas supremas do céo: e para as da terra ella é a chave que abre os segredos da natureza: que ensina a viver com disciplina; que destroe os erros, e aclara a confusão, e trevas do entendimento; une as differenças; restitue o governo com ordem; rege as cidades com justiça; e administra as nações com sabedoria. E repartindo estes attributos seus pelas cinco partes, em que se divide, physica, ethica, economica, politica, metaphysica; a primeira trata dos principios naturaes, e movimentos, quietação, finito, logar, vacuo, tempo, especies de movimento, medidas do tempo, até chegar ao primeiro e supremo movedor de tudo. A ethica se emprega na composição dos costumes, e na moderação das paixões humanas, em que consiste a felicidade da nossa vida. A economica ensina o governo, e regimento particular da casa, familia, mulher, filhos, e criados. A politica dá os preceitos á legitima ordem, e governo das republicas, reinos, e cidades, assim em razão dos que mandam, como dos que obedecem. A esta chamou Isocrates _alma das cidades_; porque n’ellas faz o mesmo officio, que a alma em um corpo. E Socrates lhe chamou _sciencia dos principes_; porque a elles mais, que aos outros homens, pertence o conhecimento d’ella. A metaphysica trata das cousas, por altissimas, segregadas de toda a materia sensivel, e ainda intelligivel do modo que os bons metaphysicos n’esta divina sciencia praticam. Finalmente considera as fórmas separadas, passando da contemplação das da natureza á das sobrenaturaes; das corporeas, das idéas, dos atomos, da materia prima, da introducção das fórmas, do fado, da eternidade do céo, dos transcendentes, das intelligencias assistentes ás espheras celestes. De modo, que só nos principios moraes d’esta sciencia está fundada toda a doutrina da côrte, e da milicia, que nas noites dos dias atraz se tem mui doutamente praticado. Na physica que é, como tenho dito, a primeira parte da philosophia, está fundada a arte da medicina, que assim pelo importante sujeito em que se emprega, como pelas artes, e sciencias, que lhe ajunta, e encadeia, é o conhecimento d’ella mui digno do homem sabio, e bem nascido. Esta se divide em empirica, methodica, dogmatica, ou racional. A primeira é fundada sómente na experiencia dos remedios, nas virtudes das hervas, pedras, plantas, e animaes. A segunda considera sómente a substancia das enfermidades, sem respeitar conjuncção, tempo, logar, região, edade, natureza, ou habito. A terceira, não despresando a experiencia, nem a razão dos exemplos d’ella, abraça tambem as naturaes, em que está fundada a arte. Na ethica politica tiveram principio as nobilissimas profissões, e sciencias das leis civis, e sagrados canones, e derivadas d’estas fontes da philosophia, e do direito natural, e divino.