Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Part 11

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E se, como disse Solon, a republica, que não tinha leis, semelhava um monstro, que não tinha mais que o parecer humano; assim se pode imaginar o homem, que não tiver noticia d’ellas, que, por serem tão importantes ao mundo, endeusaram os antigos todos os inventores d’ellas, como Saturno, Belo, Minos, Pheaco, Solon, Licurgo, e outros muitos: e os nossos maiores fizeram leis segundo a differença dos estados; não umas sós, por que todos se governassem, mas convenientes ao genero da vida que cada um tomava. E assim os que apartados do gremio da republica civil se empregam no serviço da egreja, obedecem ás leis que os summos pontifices, e os concilios dos padres ordenaram, que são os Canones Sagrados: porém os seculares se governam pelas leis, e ordenações, que os seus reis fizeram, ou confirmaram; recorrendo em os casos, a que os particulares não alcançam, ás leis imperiaes dos romanos, e disposição do direito commum. E de quererem confundir esta tão necessaria differença os perfidos scismaticos, negando auctoridade ás leis allumiadas pelo Espirito Santo, na cega confusão das suas, que fundam em sua depravada liberdade, vivem em escuras trevas: sendo como disse Tullio as leis vinculo da republica, fundamento, e segurança da liberdade, e fonte da justiça. E por vos não parecer que na minha profissão particular me extendo muito, deixo o que d’ellas pudera dizer, que é infinito, começando dos primeiros legisladores até o estado presente, em que esta profissão está tão levantada, e ennobrecida. E só pela reformação do imperador Justiniano estão em seus volumes escriptas doze mil e setecentas e sete leis, tiradas de muitas mais que confusamente estavam nos livros romanos derramadas. E subindo da metaphysica á divina theologia, fundada sobre a verdade evangelica, se apura um homem, e chega ao mais alto a que se pode levantar o entendimento humano. Esta se divide em escolastica, e escriptura: a primeira é a que com argumentos fortes, razões demonstrativas, e provas invenciveis, disputa contra os hereges, e infieis, em todos os dogmas importantes á verdade da Fé Catholica Romana: como é da Trindade, e Omnipotencia de Deus, da presença divina, da predestinação, do livre arbitrio, da graça, da justificação, da gloria; do peccado, das penas, do logar do Purgatorio, dos Sacramentos, e dos Artigos de nossa Fé. A Escriptura consiste na interpretação, e exposição da Sagrada Escriptura, segundo os quatro principaes sentidos d’ella, que são literal, moral, tropologico, e anagogico: com cuja noticia dada aos homens por meios da sciencia, como antes foi dada por revelação aos prophetas, apostolos, e santos padres, não só dão perfeição ao sabio, mas o fazem parecer uma semelhança de Deus na terra. E supposta esta grandeza das sciencias, com cujo lume fica tão claro o entendimento humano como tenho dito, que outra cousa é universidade, que uma côrte especulativa, em a qual se sabe o que nas dos reis se executa; onde á vista dos doutores prudentes, na lição dos mestres escolhidos, na communicação dos nobres bem acostumados, na conversação modesta dos religiosos, está o nobre em uma continua lição de policia, tendo por palmatoria de seus erros a vergonha de os commetter á vista de tantos censores d’elles; ajudando a advertencia de lhes fugir a curiosidade com que se espreitam, e a liberdade com que se reprehendem: pois a entrada nas escolas, a assistencia nas aulas, qualquer pequeno descuido se rebate com os pés dos que n’ellas assistem, obrigando a todos á compostura do rosto, á quietação do corpo, á modestia do trajo, á pontualidade na cortezia, ao cuidado no falar, e não se querer algum fazer singular entre os outros. Tem as escolas além d’estes um bem, que favorece esta opinião, e é que de ordinario os que as buscam, ou são filhos segundos, e terceiros da nobreza do reino, que por instituições dos morgados de seus avós ficaram sem heranças, e procuram alcançar a sua pelas lettras; ou são filhos dos homens honrados, e ricos d’elle, que os podem sustentar com commodidade, nos estudos; ou religiosos escolhidos nas suas provincias, por de mais habilidade, e confiança para as lettras, e assim fica sendo a gente mais creada do reino; differença, que não pode haver na côrte, e na milicia. E á vista de tantas vantagens, sem tratar de outras particularidades menos importantes, me parece que tenho mostrado o quanto seja mais, que todos os outros exercicios, proveitoso o das lettras, pedindo por a dignidade d’ellas ao prior, e a Pindaro, e Feliciano, que tomem á sua conta aperfeiçoar o que eu não soube dizer, pois o exemplo de suas partes é a mais legitima prova de minhas razões.--As vossas (respondeu o prior) menos dão logar a glosas, que a invejas; e se essa me deixara dizer os louvores que vos devo, renovára no vosso sujeito os das escolas, pois n’ellas nos mostrastes o que sois, que é um mappa de todas as sciencias, tão perfeito, distincto, e intelligivel, que parece que as pode medir qualquer rasoado entendimento; porque recolhidas em vós como em proprio centro estão na sua altura.--Esta vantagem (accudiu Feliciano) tem os que sabem perfeitamente, que não é só para si, mas para ensinarem aos com que falam. Certo estava eu que o doutor sabia de tudo o que disse, não só os termos, e fundamentos, mas ainda o mais difficultoso, e substancial de todas as artes, e sciencias: mas o praticar dellas de modo, que eu as entendesse, é graça de seu saber, e não sufficiencia do meu engenho.--Tambem essa sua submissão (disse Leonardo) é grande prova dos merecimentos de vossa habilidade, que a essa nada ficaria escuro, senão o que por culpa de quem falasse estivera confuso: porém em mim se vêem mais os poderes do doutor, que o posso agora parecer no que lhe ouvi.--A isto (accudiu Solino) _todos dizem amen, amen, sinò D. Sancho que calla_. Pindaro está descontente, pois que emudeceu: se o deixarem, elle vos fará guerra.--Para que a quereis commigo (respondeu Pindaro) se as razões e a occupação da noite é do doutor? a elle podeis contradizer; que para o que calla não servem argumentos.--Bem sei (replicou elle) onde estão os páus; mas quizera costear a bolla por este rodeio, que todos os lettrados sois como cerejas, que se vem após uma todas as outras.--Ahi não ha cousa boa sem contradicção (disse D. Julio) ouçamos as de Solino, e veremos quem tem lebre.--E por vós correrdes esta (lhe disse elle) metteis os cães na mouta, e quereis (como dizem) tirar a sardinha com a mão do gato: na vossa tendes a faca, e o queijo, cortae, que não falta por onde: que eu não tenho nenhuma cousa contra o doutor, salvo se elle me deixar com os outros do seu gráu que o não merecem; que eu farei um _A_, _B_, _C_, por onde á primeira vista lhe conheçam logo as lettras.--Já desde hontem (disse o doutor) os tendes ameaçado; e eu consenti no desafio: não sei agora a causa, porque o temeis.--Porque (disse elle) tendes no campo muitos padrinhos da vossa parte, que o são minhas n’esta demanda. Porém dae-me licença, que em boa paz vá botando a rasoura a esses louvores das sciencias que accogulastes; e sabereis que de cento não ha um lettrado, que não traga cascavél, por onde lhe conheçaes a altura em que anda como furão; e se o tirardes do bairro de sua profissão, se perde na metade da hora do dia, como em bêcco sem sahida: para o que eu tenho um astrolabio excellente, que me deu a experiencia em penhor do serviço de alguns annos sem galardão, que ainda o tempo me deve. Primeiramente, como o vós virdes falar por _secundum quid_ e metter a _materia prima_, e dividir _em abstracto_, accudindo a um _ergo_, e a _fortiori_, assentae-m’o por logico: mas se vos falar em _superficie plana_, e _figura quadrilatera_, _corpo rotundo_, _semicirculos_, e outras semelhantes cousas, entendei que é geómetra, se o ha no mundo. Se vos disser dos _nervos opticos, dos meatos, intestinos, veias mezeraicas, palpitações, sufocações, apoplexias, ophtalmias_, matriculae-m’o na medicina: se vos desandar com uns pontinhos das regras de direito, que são os anexins dos juris-consultos, e falar em _ad rem, e jus in re, e em liti pendente, e in rei veritatem, in foro exteriori_, e outros verbos d’esta linhagem, não escapa de jurista. Ora os theologos, que pela preeminencia, e grandeza de sua profissão tem logar apartado aos dois lanços se alevantam da conversação com a materia dos anjos, e dos auxilios, e outras, em que vos deixam o entendimento em jejum, sem darem um bordo á commum, e civil conversação dos cortezãos. Pois se qualquer d’estes, que digo, acerta de ser official de grammatica, além de debruar tudo de versos de Ovidio, e de sentenças de Plauto e de Terencio, por levar o portuguez arrastro até o fazer latim, fala por _septe_, _docto_, _scripto_, e _benigno_. De maneira que para bem, e conservação da lingua portugueza, e para se não corromper de todo, me parecia que se houveram de arruar os lettrados; que receio, se se misturam, que em poucos annos nos achemos em uma certa Babylonia.--Não cuidei (disse o doutor) que estaveis hoje tão venial; a isso chamam morder na capa: esperava eu que viesseis com algum libello mais rigoroso contra os lettrados; que essas palavras, que se lhes pegam dos termos das mesmas sciencias, não são defeituosas, ainda que não sejam vulgares; porque muitas vezes significam mais propriamente que as outras.

--Bem esteve o libello (replicou Solino), mas se lhe quereis uns artigos accumulativos, com a auctoridade d’um auctor moderno, diz elle que tres cousas deu Deus ao homem de maior estima, que os letrados lhe tem deitado a perder, que são corpo, fazenda e consciencia: o corpo os medicos que com suas purgas, xaropes e sangrias, nem a invenção da polvora foi mais prejudicial que elles para a vida. A fazenda os legistas, que com demandas, embaraços e conluios a põem cada dia em passamento, sem haver entre a poeira de suas encontradas opiniões quem enxergue a verdade: e ainda para si proprios vereis poucos medicos sãos; e nenhum legista vencer demanda sua. Dos da consciencia não quero tratar por ser cousa perigosa: mas ha muitos que fazem por esta parte grande damno. E posto que isto não é culpa das sciencias, senão dos letrados, elles tiraram a innocencia fóra do couce, e abriram de par em par as portas á malicia, semeando enganos e hypocrisias, de que andam mais inçadas as escolas, que de nanteos de fêsto: isto é quanto á linguagem e aos costumes: que na policia do vestir, a sua anda fóra do roteiro dos cortezãos; porque o letrado que se quer trajar galante, como não sabe por uso, segue extremos; porque ou traz a espada que lhe dá com os cabos nas virilhas, ou tão alta que lhe vem comer á bôcca; e por fazer addições ao vestir de modo accrescenta de novo que se conhecem na côrte os estudantes entre os outros homens, como podengos de agua pela guedelha: e pelo costume do barrete, ou tiram o chapéo de meio a meio, ou o penduram pela ponta do cairel, como em tenda de sirgueiro.--Bem sei (disse o prior) que quem vos agora fôr á mão dará nova materia á vossa habilidade: mas sem embargo de todas as culpas que arguis aos letrados, que eu agora não trato de defender, por vos não ajudar a vós e offender a elles, vós sabeis a differença que elles fazem aos outros homens, que não aprenderam; pois sem habilidade, exercicio e doutrina não se alcança sabedoria, de maneira que muitos idiotas não fazem um letrado.--Tambem eu sei (respondeu Solino) que muitos letrados não fazem um homem cortezão; e que este ás vezes vence em pouco tempo o que elles trabalharam em muitos annos: porque além de ser comprido o caminho das sciencias por preceitos, e breve por exemplos, o cortezão, que o é, põe de sua parte maior desejo de saber uma cousa que o estudante: e é certo que alli tem maior força o engenho onde está mais prompta a vontade: e no que toca aos letrados pudera eu agora trazer um par de historias em meu favor, que cabiam n’este proposito.--A essas (disse Leonardo) não faltará logar em nenhum tempo, porém é gastado parte do d’esta noite: e pois esta foi das lettras, não mettamos contra ellas maior cabedal.--Agora (acudiu Pindaro) lhe destes jogo, porque lhe parece que nos perdoou aquellas historias; sendo cousa clara que toda a sua opinião nasceu de uns principios de grammatica que teve; que, depois de ferrugentos n’aquella edade, os alimpou com a cinza do borralho d’esta aldeia para se levantar contra os que sabem; sendo sua murmuração puras fezes de idiota; e se o virem entre os rusticos do termo falar latins, notar prégações, aconselhar em demandas, e applicar medicinas a enfermos, dirão que é manta de retalhos das escolas, e presa-se de dizer mal do que acredita.--Já parece (respondeu Solino) que tomastes folego, que estaveis mui mortal: a verdade é que não sois agudo, senão quando vos dou quatro fios sêccos na minha sufficiencia; e de a eu ter para tudo, me nasce abranger aonde vós não chegaes; que, segundo a capacidade dos que aprenderem, aproveita a doutrina dos que ensinam: e sabei outra cousa, que se não póde chamar sabio o que não conhece os nescios, e d’estes que nenhum se conhece a si.--_No se maten tales dos_ (disse Leonardo) deixemos as letras em paz, e a Solino com seu credito; que são horas de partirmos esta briga, e acabar por hoje a conversação.--Em todas me é de proveito o vosso favor (disse Pindaro) e mais agora que estava colerico contra meu amigo; que, ainda que o não pareça no modo com que me encontra, eu o sou seu na verdade com que o amo, e estimo suas cousas.--Amisade (respondeu elle) quando é segura não periga, nem quebra em tão pequeno salto; que nem por este deixaremos de ir juntos para casa. E querendo os mais levantar-se, começaram alguns a fazer juizo das duas noites passadas com aquella: porque cada um era interessado na profissão que se seguia, se calaram deixando a eleição ao voto de quem o tiver desapaixonado, se ha algum que ao menos na inclinação o não seja á côrte, armas e lettras, de cujo fructo, se são muitos os queixosos por parte da ventura, nenhum ha que da sua propria sufficiencia se mostre descontente.--Eu o estou de mim (disse o doutor) porque esta madrugada determino fazer um caminho á cidade, em que me hei de deter alguns poucos de dias, e esses hei de ter de penitencia na falta de tão boas noites: e para isto peço licença ao sr. D. Julio.--Porque consentir n’essa (respondeu D. Julio) é obedecer-vos, o faço muito á minha custa, com tal condição, que volteis com muita brevidade, que sem vós nem podem estas praticas ir deante, nem deixarei de sentir agora muito mais a falta de vossa conversação, partindo-se ámanhã, como determina, para a sua egreja o sr. prior.--D’essa maneira (acudiu Solino) faço conta que se dividiram os dialogos das noites de inverno, e que ficam servindo esta, e as passadas de uma primeira parte d’ellas, que se continuará com a vossa boa vinda; e em tanto se apurarão os entendimentos e a linguagem para materias e sujeitos mais escolhidos que sejam proveitosos e agradaveis aos ouvintes.--Em muitas outras cousas (disse Leonardo) soffrêra eu intervallos, mas n’esta conversação os sinto agora por extremo; por isso, já que n’ella nos tendes bem acostumados, não tardeis muito.--Até nos gostos (tornou o doutor) a muita continuação causa fastio; pelo que os auctores discretos, por não cansarem com elle o juizo dos curiosos, dividem seus volumes em partes, e essas em capitulos e outras divisões, que com a novidade e brevidade, facilitem a leitura.--Fazem elles muito bem (disse Solino) que ha uns livros sem estalagens, tão compridos como leguas do Alemtejo, que os deixa um homem muitas vezes no signal da cruz, por se não atrever a os levar de um trago. E tambem os poetas nas suas comedias, que são mais proprias para recreação e passatempo, dividiram a obra em actos, a que agora chamam jornadas, e essas repartiram em scenas; e por divertir da gravidade e decóro das pessoas introduzidas, inventaram os comicos modernos entremezes e bailes. Não vos detenhaes muito, e tornaremos ao nosso exercicio com maior desejo e melhor cuidado.--Eu o terei (respondeu elle) de fazer pouca tardança; que o interesse me não deixará cahir em descuido, quanto mais esta nova obrigação em que me pondes.

Dizendo isto se levantou, e os mais o vieram acompanhando, feita primeiro cortezia ao senhor da casa, e aos hospedes que ficaram n’ella. Em quanto com a falta daquelles assistentes a houve tambem na conversação das noites que se seguiram, será justo que descansemos um pouco da continuação d’este estylo; que se ao gosto dos curiosos leitores fôr bem acceito, sahirá brevemente á luz outro volume de dialogos, que espera vêr o successo dos primeiros; pois esta virtude de escrever não tem no auctor d’elles outro fructo mais, que a satisfação dos animos affeiçoados a seus escriptos, aos quaes com o trabalho de suas obras deseja pagar a vontade e opinião com que acreditam.

FIM DA “CÔRTE NA ALDEIA”

ECLOGA

CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES

ECLOGA

CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES

(=Bieito, Aleixo, Corino.=)

BIEITO

Uma novilha dourada, Que anda naquella floresta Com uma estrella na testa Silva branca e remendada,

Viste, Aleixo, d’onde veio, Que anda alli sem companhia?

ALEIXO

Quiçais se derramaria, Será d’algum gado alheio.

Para nós se vem chegando, E se eu tenho ainda o meu tino. A novilha é de Corino, E o pastor anda-a buscando.

É n’estes pastos extranha, Veio ha pouco a seu curral, Acha-se no campo mal, E foge para a montanha.

BIEITO

E d’onde houve aquella rez. Que elle poucas vacas cria?

ALEIXO

Ganhou-a n’uma porfia Nas festas, que Ergasto fez.

Houve então grão desafio Em lucta, canto, e louvores, Venceu todos os pastores Da serra, e d’além do rio.

BIEITO

Muito sabe, mui bem canta, Muito faz quem se lhe atreve: Como dança! como é leve! Que voz tem! como a levanta!

Viu, correu muitas aldeias, Viveu numa, e n’outra parte; E com ser só na nossa arte, Sabe o muito das alheias.

E segundo tenho ouvido, Já elle houve outro cuidado Bem longe de guardar gado Com o nosso trajo, e vestido.

Foi na villa dos melhores: Mas uma dor bem sentida Fez que deixasse essa vida, E buscasse a dos pastores.

Mas ainda quando se eguala Com o nosso modo aldeão, D’outra sorte dá razão, D’outra sorte canta, e fala.

ALEIXO

Digo-te que assim parece; Que logo na arte, e no geito Tem uma graça, um respeito, Que aos pastores nos fallece.

Vêl-o? assoma na ladeira; Anda o bom pastor sem tino, Chamo por elle, ah Corino.

BIEITO

Não responde com canceira.

Cá anda a tua estrellada. Para nós vem, já nos vê: Façamos que um pouco estê Com nosco n’esta abrigada.

Que uma hora do seu falar, E um lanço do seu saber, Nem é para se perder, Nem é para se pagar.

CORINO

Deus vos salve: venho morto.

ALEIXO

Senta-te descançarás.

CORINO

Corri todo o valle atraz, E ainda agora tomei porto.

ALEIXO

Tens a novilha segura; Descansa e descuida d’ella.

CORINO

Folgo de achal-a, e perdel-a Já não tenho em má ventura.

Porque é tão grande interesse O de vossa companhia, Que de ganho ficaria Quando de todo a perdesse.

Ha muito que estais aqui?

BIEITO

Já sol fóra nos juntámos, E até gora não cantámos: Foi dita esperar por ti.

CORINO

Eu não sei negar-me: agora Vedes que venho cansado, Que não me quero rogado: Cantára, se isto não fôra.

Faz seu officio a edade, Sou já velho, a voz fallece: Mas se a vontade merece, Tendes bem certa a vontade.

BIEITO

Toma alento; então nos dá O que sem te ouvir não temos; Que a vaca nós a traremos. E t’a levaremos lá.

Faze-nos prazer que ouçamos Aquelle cantar primeiro, Que te ouvimos no ribeiro Quando acaso te topamos;

Que mui gabado, e mui raro Para a coisa de que trata.

CORINO

Canto emfim: que quem dilata Dizem que quer vender caro.

E pois que em al não mereço, Quero colher d’isto o fruito.

BIEITO

Tudo o que dizes val muito, Mas isso só não tem preço.

(_Canta Corino_)

“Aqui nesta montanha, Aonde este trajo humilde, e despresado Dos homens não se extranha; Aonde só com um cajado, Vence a fortuna um pobre desarmado;

Aonde não tem valia As mais custosas pedras do Oriente, E as riquezas que cria O mar, que ousadamente Commetteu cubiçosa, e cega gente;

Aqui n’esta rudeza Só de humildes pastores escolhida, Aonde a natureza, Já menos offendida, Dá doce amparo á desejada vida;

Aqui meu desengano Góso contente, e minha liberdade, Livre d’aquelle dano Da cega vaidade, Que corrompeu nos homens a vontade;

Aqui de burel grosso Me vestirei contente, e esquecido D’aquelle traje nosso Tão vão, tão mal trazido, Dos primeiros principios esquecido.

Qual entre a concha amada A tartaruga tem quieto abrigo, Não se teme de nada, E no maior perigo, Escondida entre si, vive comsigo;

Tal o meu pensamento Não quero que á ventura o logar deva; Que não ha mór isento. Nem que melhor se atreva, Que o que tudo, que tem, comsigo leva.

Qual cobra na espessura, Que deixa entre os espinhos esquecida A velha vestidura, E d’ella já despida, Como anguia no mar, renova a vida;

Assim quando me vejo Que começo a viver n’esta mudança, Contento meu desejo, Troco minha esperança, Não quero mais de enganos, que a lembrança.

A cauta cotovia, Vendo o ligeiro imigo, o voo nega; N’elle não se confia, Com a terra se apega, Porque ali com as azas não lhe chega.

D’esta arte se defende O Pastor despresado da ventura, Que ella sempre pretende Descer da mór altura Quem cuida que no alto se assegura.

Da lã d’este meu gado Coberto escaparei, terei socego; Que n’ella disfarçado, Em perigo mais cego, Escapou do gigante o cauto grego.

E o meu desejo acceso, Que encontrando a razão mal se empregava, Ponha em mãos do despreso Os bens que procurava, Da liberdade minha, que era escrava.

Adeus doces enganos; Já parece razão que vos despida, Viveis ha muitos annos, Deixae-me agora a vida, Que, em quanto a vós tivestes, foi perdida.”

BIEITO

Ah! Corino, quem podera Dizer agora o que sente, Se, só com te vêr prezente, A voz não lhe emmudecera.

Confesso que estou culpado, Mas não só de atrevido: Mil vezes te tenho ouvido, E só agora escuitado.

Quem te trouxe entre pastores, Aonde esta vida t’extranha? Que póde dar-te a montanha, Senão rusticos louvores?

Quem não sabe conhecer-te, Como saberá presar-te? Mas ainda acertaste em parte, Pois vinhas para esconder-te.

Não fieis da serra tanto; Que al vai de vêl-a a sentil-a: Torna pastor para a villa, E serás na villa espanto.

Não apouques ao teu muito, Não vivas n’estas aldeias, Aonde entre as ramas alheias Se não conhece o seu fruito.

CORINO

Louvores mal empregados, Quando as partes são presentes, Menos deixam de contentes. Pastor, que de envergonhados.

Porém te affirmo, Bieito, Que n’estas nossas montanhas Ás boas partes, e manhas Se tem ainda algum respeito.

Que eu já na villa tratei Muitos mezes, muitos annos, Trouxe d’ella os desenganos, Com que aos matos me tornei.

Aprendi muito, e bradavam Os mestres para ensinar-me: Ensinaram-me a queixar-me, Porque todos se queixavam.

Depois de ter conhecido Homens, e o seu proceder, Aprendi a me esquecer De quanto tinha aprendido.

Ouvi gabar esta vida, Este trajo, este cajado; Busquei-a agora obrigado Da que já tinha perdida.

Que ainda cá por esta serra Se ama o saber; se deseja, Lá não lhe deixa a inveja, Lugar, em que estê na terra.

Não se tecem já coroas Para as partes estimadas; Entre nós de envergonhadas Se encolhem as artes boas.

Saber, e conhecimento Fazem já desmerecer; De sorte, que o não saber Serve de merecimento.

Assim que é melhor partido, Ao que busca o que convém, Enterrar partes se as tem, E andar dos outros vestido.

BIEITO

Á fé que não dizes mal Quem m’o disse hora? qual dia? Que o bem que perde a valia, Porque entre os homens não val.