Contos e Lendas

Chapter 8

Chapter 83,988 wordsPublic domain

--É o vosso noivo?.. Merece-vos? Escolhestes bem?!... Não córeis, Silvana! Se o besteiro fôr o que mostra em pouco ha de fallar-se d'elle em Miranda. Adeus! Não vos esqueça!... Ao primeiro perigo, um recado e o signal. O mais fica para mim.

Dito isto o monteiro sumiu-se por entre as arvores, e Tello estava aos pés da noiva, que Aldonça animava, annunciando-lhe proximo o termo de seus pezares.

IX

Quando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do castello de Algoço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes; alma negra do senhor, aonde alcançára com o braço deixára sempre vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia, o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) não pôde conter o sorriso, rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas á porta despediram-o asperamente, respondendo que Sua Mercê repousava, e que ninguem o despertaria para dar audiencia a um villão. A principio Tello pôde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercação irritou-o, e levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente á porta. Inteirado do motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:

--A que vens aqui?

--Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu elle friamente.

O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que não soube vencer, sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida. Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo, replicou:

--Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha mortalha. Palavra de cavalleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de faltar. As camisas?...

--Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o panno.

Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro tremia. Sobre o peito, em lettras côr de sangue, viu as iniciaes de seu nome e pondo o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.

--Bem! exclamou. Silvana é tua se a achares. Quanto á mortalha.... Veremos esta noite quem a veste!

Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho da choupana de Aldonça. Um presentimento vago advertia-o de perigo incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a bôa nova, que levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado. Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores gemidos lugubres. No céu apagavam-se as estrellas umas apóz outras debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle, o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos, deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando chegou á choupana, achou a casa êrma e a porta arrombada, e acabou de crer que os pressagios não mentem. Bastava olhar para dentro para adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar as ideias. O golpe inopinado tinha-lhe quebrádo as forças. Nem o animo, nem a razão se prestavam a ajudal-o.

Fôra rapto? Fôra vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia! Saltaram-lhe então as lagrimas, e a dôr foi tão penetrante, que a não se encostar caíra desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes, e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do Castello, e áquella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para ella eram as portas do sepulchro. _É tua se a achares!_ dissera o roubador. A quem iria Tello pedir justiça? Luctando com a agonia sentiu que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava á donzella senão a morte depois da infamia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou atribulado: «Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não embainheis a espada da justiça!»

No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no hombro. Olhou. Viu Aldonça. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco de uma arvore, disse-lhe rapidamente:

--Monta!

O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha ajuntou:

--O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva. Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na villa de Miranda. Busca os Paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és, dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro d'esta manhã. Dá-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão cumprido o seu fado.

O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu direito á villa.

X

Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os relampagos fuzilam sobre as eminencias.

Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a margem do rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro, defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde: busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.

Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello, encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:

--Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes, nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo o rico-homem por ella ter nascido no berço de um villão!

Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:

--Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas filhas!

O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.

--Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!

Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.

O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes. A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:

--É ali!

--Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.

Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.

--Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.

Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro subiu. No topo da escada de caracol, a scena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome Justiceiro se perdoasse aquelle crime.

Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo, estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes, atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.

--Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as portas chapeadas d'este castello ainda são mais fortes. Em esta areia, que está por instantes, cahindo toda...

Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.

--Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!

O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:

--Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae? Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!

--Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O matador de tres mulheres levanta-se contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor, prendei-m'o em quanto os meus não chegam!

A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de el-rei.

--Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.

--Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella, verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.

--A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.

Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:

--Pedes perdão a Deus e ao teu rei?

--Não!

O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras do cavalleiro.

XI

A tropeada de muitos cavallos, soando a par do alarido e vozes do castello, annunciou á aldeia alvoroçada a vinda do monarcha. Tello Vasques apparecia á porta quando Sueiro Lopes expirava.

--Besteiro! Por teus olhos vês que me não chamam em vão o Justiceiro. Corrias como noivo e como esposo... apesar d'isso cheguei primeiro! A justiça do rei ainda andou mais veloz do que o amor!

Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha a Sueiro na capella, e os noivos recebiam a benção nupcial, tendo el-rei D. Pedro por seu padrinho.

Fallou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que não esqueceu nunca foi a justiça que fizera em Algoço a severidade do monarcha.

O castello devolveu-se á corôa, e parece que fôra doado depois ao primogenito de Tello e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi verdade ou fabula, não sei. El-rei D. Pedro era tão capaz de fazer cavalleiro um villão, como de justiçar como villão um cavalleiro.

ULTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA

I

O Senhor D. José, primeiro do nome, era em Salvaterra um rei em férias. A verdade é que os maldizentes notavam, em segredo, que Sua Majestade em Lisboa estava sempre ao torno e o marquez de Pombal no throno. O proloquio fundava-se na habilidade mechanica do monarcha como torneiro, e no caracter dominador do marquez como ministro.

Vecejavam os campos em plena primavera. A amendoeira cobria-se de flôres, os bosques enfolhavam-se, as veigas vestiam-se e matisavam-se, e a brisa doudejava indiscreta arregaçando o lenço á donzella que passava, ou roubando um beijo á rosa perfumada. Tudo eram alegrias e canticos... os rouxinoes nas moutas, o coração nos amores, e a naturesa nos sorrisos ao sol esplendido que a dourava.

Uma tourada real chamára a côrte a Salvaterra. Os fidalgos respiravam n'estas occasiões menos opprimidos. Não os assombrava tão de perto a privança do ministro. Os touros eram bravos, os cavalleiros destros, o amphiteatro pomposo, e o cortejo das damas adoravel. O prazer ria na bocca de todos. Por cumulo de venturas o marquez de Pombal ficára em Lisboa, retido pelo conflicto com o embaixador de Hespanha.

Contava-se em segredo nos recantos do palacio o dialogo travado entre o enviado castelhano e o secretario de estado portuguez, louvando-o uns em alta voz, para os ecos d'aquellas paredes repetirem o elogio, crucificando-o outros sem piedade, para saciarem os odios. As devotas e os fidalgos puritanos eram pelo hespanhol, e pediam a Deus que os rebates da guerra proxima despenhassem o plebeu nobilitado. Os magistrados e os homens de capa e volta, defendiam o marquez e respondiam com meios sorrisos ás fogosas jaculatorias dos zelosos do throno e do altar. O marquez de Pombal tinha-se negado com firmesa ás concessões exigidas imperiosamente pelo governo castelhano.

--Muito bem, atalhou o embaixador, um exercito de sessenta mil homens entrará em Portugal e fará...

--O quê? perguntara o marquez sorrindo-se com a tremenda luneta assestada e no tom mais indifferente.

--Fará entender a rasão e a justiça de el-rei, meu amo, a Sua Magestade e a vossa excellencia! redarguiu meia oitava acima o hespanhol, suppondo o ministro fulminado.

Sebastião José de Carvalho franziu as sobrancelhas, carregou a viseira, e cravando a vista e a luneta no diplomata, retorquiu-lhe friamente:

--Sessenta mil homens muita gente é para casa tão pequena, mas, querendo Deus, el-rei, meu amo e meu senhor, sempre hade achar aonde possa hospedal-a. Mais pequena era Aljubarrota e lá couberam os que D. João de Castella trouxe. Vossa excellencia póde responder isto ao seu governo.

E, levantando-se para despedir o embaixador, accrescentou:

--Bem sabe vossa excellencia que póde tanto cada um em sua casa, que mesmo depois de morto são precisos quatro homens para o tirarem!

O embaixador saíu jurando por _Dios y la Virgen Santisima_ e o marquez preparou-se para a guerra. O caso é como dizia o nosso Zeferino na _Sobrinha do Marquez_, que Sebastião José de Carvalho foi um grande ministro e que fez muito pela nação. Hoje ha menos quem responda assim á lettra ás ameaças dos estrangeiros. Berra-se muito, dorme-se a somno solto ao som dos hymnos patrioticos, e depois salva o castello de madrugada e está salva a patria!

O marquez de Pombal presava as artes e protegia e animava as classes medias. Esse pouco, que o reino progrediu deveu-se a elle. Se a industria nunca acabou de sair da infancia a culpa quasi toda foi dos maus governos que succederam ao seu, e tambem do povo que não quiz trabalhar deveras... Mas vamos aos touros reaes. D'esses é que o ministro não gostava nada. Queria-os ao arado e não á farpa, e parecia-lhe melhor, que os toureadores, sendo fidalgos, servissem o Estado com a penna ou com a espada, e, sendo mechanicos, que lavrassem, tecessem e ganhassem honradamente a vida, enriquecendo-se a si e á nação.

Mas el-rei D. José, cedendo em tudo ao marquez, quanto aos toiros não admittia reflexões. N'isto era rei a valer e Bragança legitimo. Os fidalgos sabiam-o e por isso disfructavam dôces prazeres--a satisfação do gosto nacional, e a contradicção da vontade do ministro. Desatendel-a sem perigo e pela mão do soberano era para elles um deleite e um triumpho.

N'estas funcções não vigorava a severidade das ultimas pragmaticas. Outro motivo de jubilo. Quem queria podia arruinar-se em luxuosos vestidos, enfeites e toucados. As bordaduras e os recamos de oiro, os veludos e sedas de fóra, talhados á franceza, resplandeciam constellados de perolas e diamantes. Por cima dos mais ricos trajos e das mais vistosas côres desenrolavam-se os anneis ondeados das empoadas cabelleiras. As damas ostentavam as graças de seus donaires e tufados, e emoldurando o bello oval dos rostos nos penteados caprichosos sorriam-se para os gentis campeadores, e seus olhos cheios de luz e de promessas estimulavam até os timidos.

Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as musicas. Chegou el-rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e vê-se ondear um oceano de cabeças e de plumas. Na praça resoam brava alegria as trombetas, as charamellas e os timbales. Apparecem os cavalleiros, fidalgos distinctos todos, com o conto das lanças nos estribos e os brazões bordados no veludo das gualdrapas dos cavallos. As plumas dos chapeus debruçam-se em matisados cocares, e as espadas em bainhas lavradas pendem de soberbos talins. Os capinhas e forcados vestem com garbo á castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o enthusiasmo.

O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado á moda da côrte de Luiz XV, de veludo preto, fazia realçar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraeta alvissima. O conde não excedia a estatura ordinaria, mas esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais, porém animadas de grande expressão, e o fulgor das pupillas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão recobrado, que se tornava irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu pae, do melhor cavalleiro de Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o corsel, como que ajustados em uma só peça, realisavam a imagem do centauro antigo.

A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corsel, arrancou prolongados e repetidos applausos. Na terceira volta, obrigando o cavallo quasi a ajoelhar-se diante de um camarote, fez que uma dama escondesse torvada no lenço as rosas vivissimas do rosto, que de certo descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos rapidos como o faiscar do relampago podesse alguem adivinhar o que só dois sabiam.

El-rei, quando o mancebo o comprimentou pela ultima vez, sorriu-se, e disse voltando-se:

--Por que virá o conde quasi de luto á festa?

Principiou o combate.

Não é proposito nosso descrevermos uma corrida de touros. Todos teem assistido a ellas e sabem de memoria o que o espectaculo offerece de notavel. Diremos só que a raça dos bois era apurada, e que os touros se corriam desembolados, á hespanhola. Nada diminuia, portanto, as probabilidades do perigo e a poesia da lucta.

Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um touro preto investiu com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indicio de grande ligeireza, e movimentos rapidos e bruscos, signal de força prodigiosa. Apenas tocára o centro da praça, estacou como deslumbrado, sacudiu a fronte e escarvando a terra impaciente, soltou um mugido feroz no meio do silencio, que succedera ás palmas e gritos dos espectadores. Dentro em pouco os capinhas, salvando a pulos as trincheiras, fugiam á velocidade espantosa do animal, e dois, ou tres cavallos expirantes denunciavam a sua furia.

Nenhum dos cavalleiros se atreveu a sair contra elle. Fez-se uma pausa. O touro pisava a arena ameaçador e parecia desafiar em vão um contendor. De repente viu-se o conde dos Arcos firme na sella provocar o impeto da féra e a hastea flexivel do rojão ranger e estalar, embebendo o ferro no pescoço musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma acclamação immensa do amphiteatro inteiro, e as vozes triumphaes das trombetas e charamellas encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote, diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavallo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair uma rosa, e o conde, curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flor do chão sem afrouxar a carreira, levou-a aos labios, e metteu-a no peito. Investindo depois com o touro, tornado immovel com a raiva concentrada, rodeou-o estreitando em volta d'elle os circulos até chegar quasi a pôr-lhe a mão na anca.

O mancebo despresava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arripiar a testa do touro com a ponta da lança. Precipitou-se então o animal com furia cega e irresistivel. O cavallo baqueou trespassado e o cavalleiro, ferido na perna, não pôde levantar-se. Voltando sobre elle o boi enraivecido arremessou-o aos ares, esperou-lhe a quéda nas armas, e não se arredou senão quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadaver.