Chapter 9
Este doloroso lance occorreu com a velocidade do raio. Estava ja consummada a tragedia e não havia expirado ainda o echo dos ultimos aplausos.
De repente um silencio em que se conglobavam milhares de agonias, emudeceu o circo. Rei, vassallos e damas, meio corpo fóra dos camarotes, fitavam a praça sem respirar e erguiam logo depois a vista ao ceu como para seguir a alma, que para lá voava envolta em sangue.
Quando o mancebo, dobado no ar, exhalava a vida antes de tocar o chão, um gemido agudo, composto de soluços e choro, caiu sobre o cadaver com uma lagrima de fogo. Uma dama desmaiada nos braços de outras senhoras soltára aquelle grito estridente, derradeiro ai do coração ao rebentar no peito.
El-rei D. José, com as mãos no rosto, parecia petrificado.
A côrte d'esta vez acompanhava-o sinceramente na sua dôr.
Mas o drama ainda não tinha concluido. Quem sabe?! O terror e a piedade iam cortar de novas magoas o peito a todos.
O marquez de Marialva assistira a tudo do seu logar. Revendo-se na gentileza do filho, seus olhos seguiam-lhe os movimentos brilhando radiosos a cada sorte feliz. Logo que entrou o touro preto carregou-se de uma nuvem o semblante do ancião. Quando o conde dos Arcos sahiu a farpeal-o, as feições do pae contrairam-se e a sua vista não se despregou mais da arriscada lucta.
De repente o velho soltou um grito soffocado e cobriu os olhos, apertando depois as mãos na cabeça. Os seus receios haviam-se realisado. Cavallo e cavalleiro rolavam na arena, e a esperança pendia de um fio tenue! Cortou-lh'o rapidamente a morte, e o marquez, perdido o filho, luz da sua alma e ufania de suas cãs, não proferiu uma palavra, não derramou uma lagrima; mas os joelhos fugiam-lhe tremulos, e a elevada estatura inclinou-se vergando ao peso da magua excruciante.
Volveu, porém, em si decorridos momentos. A livida pallidez do rosto tingiu-se de vermelhidão febril subitamente. Os cabellos desgrenhados e hirtos revolveram-se-lhe na fronte inundada de suor frio como as sedas da juba de um leão irritado. Nos olhos amortecidos faiscou instantaneo, mas terrivel, o sombrio clarão de uma colera, em que todas as ancias insofridas da vingança se accumulavam.
Em um impeto a presença reassumiu as proporções magestosas e erectas como se lhe corresse nas veias o sangue do mancebo que perdera. Levando por acto instinctivo a mão ao lado, para arrancar da espada, meneou tristemente a cabeça. A sua boa espada, cingira-a elle proprio ao filho n'este dia que se convertera para a sua casa em dia de eterno luto!
Sem querer ouvir nada, desceu os degraus amphiteatro, seguro e resoluto como se as neves de setenta annos lhe não branqueassem a cabeça.
--Sua magestade ordena ao marquez de Marialva, que aguarde as suas ordens! disse um camarista detendo-o pelo braço.
O velho fidalgo estremeceu como se acordasse sobresaltado, e cravou no interlocutor os olhos desvairados, em que reluzia o fulgor concentrado d'um pensamento immutavel. Desviando depois a mão, que o suspendia, baixou mais dois degraus.
--Sua magestade entende que este dia foi já bastante desgraçado e não quer perder n'elle dois vassallos... O marquez desobedece ás ordens de el-rei?!...
--El-rei manda nos vivos e eu vou morrer! atalhou o ancião em voz aspera, mas sumida. Aquelle é o corpo de meu filho! e apontava para o cadaver. «Está ali! Sua magestade póde tudo menos desarmar o braço do pae, menos deshonrar os cabellos brancos do criado que o serve ha tantos annos. Deixe-me passar, e diga isto.»
D. José vira o marquez levantar-se e percebera a sua resolução. Amava no estribeiro-mór as virtudes e a lealdade nunca desmentidas. Sabia que da sua bocca não ouvira senão a verdade, e a idéa de o perder assim era-lhe insupportavel. Apenas lhe constou que elle não accedia á sua vontade, fez-se branco, cerrou os dentes convulso, e, debruçado para fóra da tribuna, aguardou em ancioso silencio o desfecho da catastrophe.
A esse tempo já o marquez pisava a praça, firme e intrepido como os antigos romanos diante da morte. Dentro do peito o seu coração chorava, mas os olhos aridos queimavam as lagrimas quando subiam a rebentar por elles. Primeiro do que tudo queria a vingança.
Por impulso instantaneo, todo o ajuntamento se poz de pé. Os semblantes consternados e os olhos arrazados de agua exprimiam aquella dolorosa contensão do espirito, em que um sentido parece concentrar todos.
Deixae-o ir ao velho fidalgo! A magoa, que o traspassa, não tem egual. O fogo, que lhe presta vida e forças, é a desesperação. Deixae-o ir, e de joelhos! Saudae a magestade do infortunio!
O pae angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pousou-lhe um osculo na fronte. Desabrochou-lhe depois o talim e cingiu-o, levantou-lhe do chão a espada e correu-lhe a vista pelo fio e pela ponta de dois gumes. Passou depois a capa no braço e cobriu-se. Decorridos instantes estava no meio da praça e devorava o touro com a vista chammejante, provocando-o para o combate.
Cortado de commoções tão crueis, não lhe tremia o braço, e os pés arraigavam-se na arena como se um poder occulto e superior lh'os tivesse ligado repentinamente á terra.
Fez-se no circo um silencio gelido, tremendo e tão profundo, que poderiam ouvir-se até as pulsações do coração do marquez se n'aquella alma de bronze o coração valesse mais do que a vontade.
O touro arremette contra elle... Uma e muitas vezes o investe cego e irado, mas a destreza do marquez esquiva sempre a pancada.
Os ilhaes da féra arfam de fadiga, a espuma franja-lhe a bocca, as pernas vergam e resvalam, e os olhos amortecem de cansaço. O ancião zomba da sua furia. Calculando as distancias, frustra-lhe todos os golpes sem recuar um passo.
O combate demora-se.
A vida dos espectadores resume-se nos olhos.
Nenhum ousa desviar a vista de cima da praça.
A immensidade da catastrophe immobilisa todos.
De subito solta el-rei um grito e recolhe-se para dentro da tribuna. O velho aparava a peito descoberto a marrada do touro, e quasi todos ajoelharam para resarem por alma do ultimo marquez de Marialva.
A afflictiva pausa apenas durou momentos. Por entre as nevoas, de que a pupilla tremula se embaciava, viu-se o homem crescer para a fera, a espada fuzilar nos ares e logo apóz sumir-se até aos copos entre a nuca do animal. Um bramido, que atroou o circo, e o baque do corpo agigantado na arena, encerraram o extremo acto do funesto drama.
Clamores unisonos saudaram a victoria. O marquez, que tinha dobrado o joelho, com a força do golpe levantava-se mais branco do que um cadaver. Sem fazer caso dos que o rodeiavam, tornou a abraçar-se com o corpo do filho, banhando-o de lagrimas e cobrindo-o de beijos.
O touro ergueu-se, e, cambaleando com a sezão da morte, veiu apalpar o sitio aonde queria expirar. Ajuntou ali os membros e deixou-se cair sem vida ao lado do cavallo do conde dos Arcos.
N'esse momento os espectadores olhando para a tribuna real estremeceram. El-rei, de pé e muito pallido, tinha junto de si o marquez de Pombal, coberto de pó e com signaes de ter viajado depressa.
Sebastião José de Carvalho voltava de proposito as costas á praça fallando com o monarcha. Punia assim a barbaridade do circo.
--Temos guerra com a Hespanha, senhor. É inevitavel. Vossa magestade não póde consentir que os touros lhe matem o tempo e os vassallos. Se continuassemos n'este caminho... cedo iria Portugal á vela.
--Foi a ultima corrida, marquez. A morte do conde dos Arcos acabou os touros reaes emquanto eu reinar.
--Assim o espero da sabedoria de vossa magestade. Não ha tanta gente nos seus reinos, que possa dar-se um homem por um touro. El-rei consente que vá em seu nome consolar o marquez de Marialva?
--Vá! É pae. Sabe o que ha de dizer-lhe...
--O mesmo que elle me diria a mim, se Henrique estivesse como está o conde.
El-rei sahiu da tribuna, e o marquez de Pombal, entrando na praça em toda a magestade de sua elevada estatura, levantou nos braços o velho fidalgo, dizendo-lhe com voz meiga e triste:
--Senhor marquez! Os portuguezes como vossa excellencia são para darem exemplos de grandeza d'alma e não para os receberem. Tinha um filho e Deus levou-lh'o. Altos juizos seus! A Hespanha declara-nos a guerra, e el-rei, meu amo e meu senhor, precisa do conselho e da espada de vossa excellencia.
E travando-lhe da mão, levou-o quasi nos braços até o metterem na carruagem.
D. José I cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado nunca mais se picaram touros reaes em Salvaterra.
[1] A prematura morte do illustre auctor d'este livro não lhe permittiu concluir este admiravel romancinho. As paginas, porém, escriptas representam um tal primor de litteratura, que fôra falta imperdoavel condemnal-as á obscuridade. Os amadores de boas letras de certo nos agradecerão a resolução tomada de não os privarmos de alguns momentos de não muito vulgar leitura.
EDITOR
[2] O castello de Almourol já figurava na epocha da dominação dos romanos. D. Gualdim restaurou-o das ruinas e povoou a terra por carta de foral.
ELUCIDARIO. Tom. II p. 346--374.
[3] A balça ou bandeira do Templo era bipartida de branco e preto com a cruz vermelha no centro e a lenda: _non nobis, sed nomini tuo da gloriam_.
[4] Concordo. Puzeste o dedo na difficuldade, menino.
DE NOITE TODOS OS GATOS SÃO PARDOS
Por L. A. REBELLO DA SILVA
Remette-se FRANCO DE PORTE para a provincia.
Correspondencia a Mattos Moreira & C.ª. LIVRARIA EDITORA. Praça de D. Pedro, 68, Lisboa
PREÇO 600 RÉIS
LISBOA
TYP. EDITORA DE MATTOS MOREIRA & C.ª
67, Praça de D. Pedro, 67
1873
End of Project Gutenberg's Contos e Lendas, by Luís Augusto Rebelo da Silva