Chapter 7
Silvana contava deseseis annos. Mimosa e esbelta, o setim das faces realçava a terna pallidez, que revestia de tanto enlevo a brandura contemplativa dos olhos verdes e transparentes, aonde a alma retratava os mais suaves affectos. O vivo carmim dos labios abotoando as rosas da bocca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistivel o requebro e a graça virginal da phisionomia namorada. A voz, fresca e melodiosa, insinuando-se no coração, era o seu maior attrativo. Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo, que a fazia palpitar de esperança, quando se mirava no cristal da fonte? Vel-a e cubiçal-a foi tudo a mesma cousa para o rico-homem. Elle, que a um aceno imperioso sujeitava as mais isentas, podia suppor acaso que Silvaninha lhe desse o não fugindo a suas caricias? Mas ás primeiras palavras o rubor do pejo incendiou em chammas o rosto da donzella e nas pupillas de esmeralda fuzilou a ira. Soltando as mãos envergonhada e offendida, furtou-se ás garras do açor. A raiva enlouqueceu o cavalleiro. Um juramento saltou-lhe da bocca por entre sorrisos lividos.
--Não serás esposa sem primeiro seres amante! Pedirás de joelhos o que hoje engeitas! Sei atalhar os rodeios á corsa. Sei aonde o golpe fere seguro!
Deus do ceu compadecei-vos de Silvana! Ella mal o escutou. Tremula e soffocada não suspendeu a carreira senão á porta da cabana aonde morava a velha Aldonça, conselho e consolação de toda a aldeia. As linguas maldizentes affirmavam, que a velha não era decrepita, nem mendiga, mas fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas aguas. Contavam prodigios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar até, que ella e a serpente encantada tinham nascido irmans, e se juntavam em colloquio á meia noute. Quando a donzella appareceu, Aldonça, sentada em um penedo diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou depois a estriga, puxou o fio, e á medida que o fuso girava, e que a linha se enrolava, meneava a cabeça, como se estivesse vendo, ou ouvindo, a muito longe dos sentidos cousa de seu gosto.
--Deus vos salve, filha! exclamou por fim. Sei o que vos traz assim assustada. O açor cubiçou a rolinha? Havia de ser! Estava escripto lá em cima, e o que ha de acontecer muita força tem. Conta-me tudo. O que te disse? O que lhe respondeste?
Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:
--Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o homem. A aguia real já a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do açor não hão de ferir-te. Vai d'aqui á fonte da moura e dize que sim a quem lá encontráres. Não te demores. D'onde se não espera vem o remedio. Has de ser feliz!
Ditas estas palavras, abysmou-se em tão profundo scismar, que parecia morta. Não quiz saber mais a donzella. Voou á fonte com a fé viva dos quinze annos e da esperança. Ao pé do primeiro álamo parou e tremeu. Não vira a serpente, nem a corsa encantada, mas vira um mancebo robusto e gentil, filho do mais abastado cavalleiro villão das cercanias. Porque lhe esmorece a ella de subito a vermelhidão das faces affrontadas da corrida? porque lhe bateu o coração no peito tão atropellado? Tello Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o noivo que as raparigas das cinco aldeias visinhas disputavam com mais inveja. Debalde! A vista d'elle não se baixára para nenhuma, nem a sua bocca se abrira para dizer uma palavra terna á mais galante. Silvaninha fôra a sua primeira e unica paixão. Combateu-a e calou-a por muito tempo, com receio dos pais, mas por fim, não se podendo conter, decidiu-se, e veiu ao logar pedir-lhe a mão. Ninguem sabia o segredo do mancebo senão Aldonça, porque d'essa nada se escondia. E a donzella?... Tinha-o adivinhado nos olhos, que buscavam os seus, e no proprio coração, que, alvoroçado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor. Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Tello estava alli. Sem forças para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe ás faces o rubor em ondas, e a vista não ousou despregar-se do chão. O tremor convulso que a agitava fazia-lhe arfar o seio.
V
Tello Vasques não estava menos enleado. Corou tambem, e a vivesa natural dos olhos pretos esmoreceu meio offuscada pela sombra das pestanas. Encobrindo que a esperava, quiz saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe, e uma especie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mão suspensa, a cabeça inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do enlevo sem força para dissimular, e ainda menos para combater. Assim ficaram por minutos. Immoveis, calados, contemplando-se, e fallando só com o coração. A felicidade era tão grande, que não achavam termos que a pintassem. Quem encostasse a mão ao peito do robusto besteiro, sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem escutasse o palpitar ancioso do seio de Silvaninha não precisava perguntar-lhe se tambem amava!
Em redor d'elles tudo era paz e serenidade. Por cima o ceu puro recortando-se por entre a cupula frondosa das arvores. Ao lado a agua, sussurrando preguiçosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas relvas que aveludavam o chão. Mais longe, a pequena levada afundava-se com estrepito pelas fendas musgosas dos penhascos debruçados sobre o valle. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos, de pomares, e de campos viçosos, contrastando com o arvoredo sombrio, que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a côr arida e melancolica das charnecas desatando-se até aos cabeços da serra, cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca, mas amena, doudejáva na campina, ramalhando as folhas, brincando com os arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxinóes nas moutas rompiam em trinados os deliciosos gorgeios. A cigarra casava a voz estridula com o coaxar das rãs. As sombras, delgadas ainda, começavam a fechar-se sobre o valle, emquanto os raios do dia amorteciam a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino azul do firmamento e o verde fresco das arvores e plantas.
Quando a ternura mutua os deixou respirar, a donzella, volvendo em si primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de travessa ameaça e disse:
--Vós aqui, Tello! A esta hora, em sitio por onde poucos passam! Que quereis que digam da pobre Silvana, que não tem senão o seu nome?...
A voz era queixosa, e não irada. O timbre harmonioso avivou no peito do mancebo o ardor da paixão. Depois os olhos sorriam animados de malicia tão innocente, que Tello leu n'elles mais do que esperança, leu amor. De repente ficou outro. Pegando-lhe na mão, e beijando-a, a voz soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista d'ella, tornou-se tão eloquente, tão avida de ternura, que ella baixou outra vez as palpebras.
--Silvana! exclamou arrebatado. Quiz Deus que nos amassemos, e que um não podesse viver sem o outro. Meus paes consentem. Dás-me o sim?
O jubilo transformou a phisionomia da donzella. Depois o carmin das faces sumiu-se, e as lindas pupillas, um momento radiosas, molhando-se de lagrimas, lançaram sobre o rosto as sombras da mais resignada tristesa. Sem retirar, ou entregar a mão, que o mancebo prendia nas suas, a neta de Garcia do Marnel, esquecido o conselho de Aldonça, respondeu singelamente:
--Tello, não vos darei já o sim; não quero arrepender-me. O filho de Ayres Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, não deve escolher a sua noiva entre as donzellas mais pobres e desvalidas de Algoço. Amo! Porque hei de negal-o? Mas pelo muito amor é que receio acceitar. O que ha de trazer em dote a orphã sustentada pela caridade dos visinhos senão lagrimas e saudades d'aquelle chão, aonde dorme sem vingança, porque ninguem lh'a deu, ou pode dar, o velho que duas vezes foi seu pai, e que por ella morreu de dôr? Não, Tello! Não pode ser!
Fallando assim, tremula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo admirava-a silencioso. As lagrimas deslisando-se, os olhos que a dôr fazia irresistiveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmesa a magoa intima, por tal modo lhe realçavam a formosura, que o besteiro não sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali captivo de mil attractivos. Attraindo-a, depois, com impeto, e unindo-a ao peito, elle, o homem forte, o filho de uma raça leal e rude, como o seculo em que vivia, sentiu rebentar o pranto, e não se envergonhou de o deixar correr.
--A tua vontade, Silvana, será a minha! disse por fim. Mas por amor te quero, e não é justo que por amor te perca. O que vale dizer a bocca não, se os olhos, mau pesar teu, estão dizendo sim? Dizes que o dote que me trazes é de lagrimas e pobresas? Nunca fui mais rico. Estas lagrimas piedosas da filha promettem venturas ao marido. E a puresa d'esse coração é o teu maior thesouro. Hontem não podia viver sem ti, hoje morria se te perdesse. Silvana!... Não n'o escondas! O senhor tentou-te de amores, e jurou vingar-se dos despresos? Socega! Deus será comnosco. O meu arco não erra. A seta vae sempre aonde a mando!
Não cedeu ainda a donzella, mas Tello não se enganára: o coração desmentia a bocca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e accêsa em pejo desappareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado, que no seguinte dia iria Tello ao solar pedir licença a Sueiro Lopes. Os noivos sem ella não podiam receber-se na igreja de Algoço, e Silvana desejava tanto que seus amores fossem abençoados, aonde o tinham sido os de seu pai e seu avô, que o besteiro não ousou contrarial-a. Altos juizos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzella pagaria todas as culpas da sua geração, todos os crimes da sua vida.
VI
Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro, correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos que findava á porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e folgando, em quanto os moços de monte sustinham das tréllas as matilhas impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos alaridos dos caçadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e cerdosa sacrificada depois de aturada fadiga e renhido combate, segundo attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os mais valentes e fugosos cães.
Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso, trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava, entre chufas e galhofas, a oração funebre do pingue eremita, que todos haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.
D. Sueiro, que se apartára d'elles ao pé da fonte da moura, era o unico serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda, e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoço? Nas trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a visão terrivel, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes avisava a cabeça da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios arrependimentos? Ao pé da fonte apeiou-se, e, com a cabeça entre as mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido dizia que o espirito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido o rico-homem levou a mão ao punho da espada, inculcando sobresalto sem receio. O mêdo nunca entrára n'aquelle peito inaccessivel á piedade.
--Quem és? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas no cinto, se lhe descobria subitamente.
Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas accusavam, assomou-lhe ás faces morenas um leve rubor e as pupillas negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais força os copos da espada.
--Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!
A firmesa do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavalleiro. Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os beiços.
--O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoço, fóra do seu castello, n'este logar deserto?
A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.
--Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.
--Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço então. Como se chama?
Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as furias do ciume se levantaram no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e retorquiu:
--A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.
--A Silvaninha? A perola de Algoço? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pões alto o pensamento, villão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a servos.
Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o braço a Tello. A mão procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:
--Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o resgate de um barão? Cuida o villão que eu havia de enterrar na sua posilga a roza dos nossos sitios?
--Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.
--Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o pé no estribo e sacudindo o látego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com mil ameaças nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisavô te juro, que tantas noutes dormirás na cisterna do meu castello, que de lá te arranquem cego e doudo!
--Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. Só Deus sabe aonde vós dormireis hoje!
O cavalleiro ja tínha cravado esporas no corsel, e começára a levantar o galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as, parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:
--Villão! Não has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer de fios de ortigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim, dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! uma das camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar com ella no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!
A esperança acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco, fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os pés arraigavam-se ao chão. A mão inerte não se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou então ao ceu a vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas arvores sem elle o sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade, orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illusões lhe sorrira alegre, e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da existencia.
VII
--O açor encontrará a aguia. Sinto-a já voar! Não chores, Silvana, serás feliz. Diz-to quem o sabe! Tello!.. A frecha do teu arco pode descansar na aljava. Esta noite, á meia noite, ide ambos ao cemiterio da igreja. Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as ortigas crescem e estão n'ella viçosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e duas, e traz-m'as no regaço á fonte da Moura. Vespera de S. João ha de torcer-se o fio. As duas camisas não hão de faltar. A semana que vem será a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A aguia não tarda. Enxugai os olhos.
E a velha Aldonça, dizendo isto, ria-se com aquelle ar que fazia da feiticeira a amiga de todos os afflictos. D. Sueiro puzera por condição, que só daria o sim, se a donzella lhe fiasse e tecesse de ortigas da sepultura do avô duas camisas.
--Queres acompanhar-me, Tello? atalhou a donzella suspirando.
--Por que não fugimos nós? acudiu elle a meia voz.
--Por que ninguem foge á sorte! tornou a velha, erguendo-se e sustendo a mão alva e breve de Silvana entre as suas. Não vos demoreis. Á meia noite, ao romper da lua, todos tres na fonte da Moura!
Era já escuro, e as estrellas começavam a scintillar. Suspirava a viração por entre as folhas das arvores, que no cemiterio cobriam de sombra as sepulturas. As relvas altas ensurdeciam os passos. A roza silvestre entrelaçava-se com as verbenas e com os goivos. Ao lado da egreja, entre rosmaninhos, erguia-se uma cruz de pau; tinha entalhado um arco no topo. Ali repousava de setenta annos de edade e de fadigas o avô da donzella. Segundo afirmára Aldonça, uma seára de ortigas vestia o chão. Como o pranto se corre pelas faces de Silvana ajoelhada! Como a oração sobe pura e fervorosa de seus labios ao regaço dos anjos, que vão depor aos pés do Senhor! Mais afastado, Tello, tambem de joelhos, orava com ardor; mas aquelle peito, menos brando, mistura com as preces vozes de vingança. Por fim levantou-se a donzella, e beijando a terra aonde o pó dos que amára se volvera ao pó, principiou a cumprir as ordens de Aldonça. A duas e duas foi apanhando as ortigas. Quando acabava chispou no outeiro mais proximo a labareda da primeira fogueira, e soou na voz de bronze do sino o primeiro repique. A lua rompia de traz da serra, e o seu clarão branco allumiava toda a campina. Era a hora aprazada. O mancebo deu a mão a Silvana. Tinham ambos tantas cousas dentro d'alma, que nenhum fallou em todo o caminho.
Quando chegaram não viram senão uma serpente, fugindo por cima dos penhascos, e uma corsa branca pulando por entre as arvores. A velha Aldonça appareceu de repente ao pé da fonte, e acenou-lhes. Recebendo das mãos da donzella as tres regaçadas de ortigas, banhou-as outras tantas vezes na agua encantada, pronunciando algumas palavras a meia voz. Passados minutos tirou-as do tanque reduzidas a feveras finas, como o fio que tece a aranha. Tres dias decorreram. Em todos elles não cessou de girar o fuso da velha.
No quarto dia dobou-se a linha; no quinto metteram-se as meadas no tear.
Quando a semana pendia só de poucas horas, Sueiro Lopes passou a cavallo pela choupana, olhou, e viu Aldonça á porta, cozendo com Silvana uma tela tão branca e transparente, que deslumbrava.
--Guarde-vos Deus! disse detendo-se. Que estais cosendo com tanta pressa?
E o cavalleiro não tirava a vista dos dedos afilados da donzella que voavam sobre a costura.
--Estamos cumprindo um voto! redarguiu a velha sem levantar a cabeça. Aquella é a camisa do noivado, esta é a camisa do enterro. Ortigas do cemiterio nos deram o fio, e boas fadas nos teceram o panno. Em tres dias estarão acabadas e em tres dias veremos tambem a noiva no altar e o morto no caixão.
Ouvindo-a, o rico-homem mudou de côr e largou as redeas ao cavallo. A velha, vendo-o correr, exclamou, meneando a cabeça:
--Corre! Que mais corre o destino! Ao que ha de ser ninguem escapa!
VIII
Os sinos do presbyterio repicam depois da missa. O povo acotovela-se á saida do estreito portal, e mais de um moço airoso, de rosto bronzeado, distrahe a vista furtiva e faz corar de jubilo a donzella, cujos olhos cheios de reticencias recordam os juramentos da vespera. O ruido dos pés, o borburinho e os alaridos das creanças, saltando pelo adro, animam de ar festivo a scena popular. Em quanto o Reitor, curvo e triste, se encaminha de vagar para a sua morada, estendendo a benção pelos aldeãos, Silvana, sempre pallida, ampara no braço delicado o corpo de Aldonça. Os villãos desbarretam-se diante d'ellas, como diante do pastor; as mulheres acodem a saudal-as; e os rapazes, suspendendo as travessuras, tomam-as por intercessoras de suas petições. Encostado a uma oliveira antiga, Tello, de braços crusados, e com o arco a tiracollo, não desprega a vista namorada da neta de Garcia.
Mas antes das duas trilharem o sitio onde ella as está esperando, um homem de estatura elevada, semblante jovial, e gestos impetuosos, apressando o passo, adianta-se, e chega primeiro. É simples o seu trajo. Guarda-coz de ipre verde desenha o corpo robusto, e a monteira do mesmo estofo, sem plumas, assenta com desgarre fragueiro sobre os cabellos pretos, cujos anneis se debruçam sobre o cabeção da golla. Era de villão o vestido, mas o garbo e o porte inculcavam condição mais nobre. Nas pupillas inquietas, e por vezes desvairadas, retrata-se a indole ardente, prompta na ira, facil nos arrebatamentos.
As sobrancelhas, densas e arqueadas, a nuvem que tolda a espaços a serenidade da phisionomia, a par da tristeza, que lhe sobe em ondas rapidas ao semblante, denunciando saudades intimas e incuraveis, avivam as feições de um caracter afeito a dominar, de um coração ferido de golpe irreparavel, de uma mão que no combate das paixões nem sempre ha de conservar-se lucida, resultado de passados soffrimentos.
Afagando com a mão direita as compridas barbas, e concertando com a esquerda o cinto, de que pende a adaga e uma trompa, este homem, que não póde contar ainda quarenta annos, e que entrára na egreja sem nenhum dos fieis se lembrar de o ter visto nunca, começou á saida a fallar com uns e com outros, fazendo perguntas aos mais velhos. Rompendo depois por entre o povo veiu collocar-se no sitio, aonde o descobrimos diante de Aldonça e Silvana, tão proximo de Tello que este não perdeu palavra do que disse. Sem saber porque, o besteiro, de ordinario cioso e assomado, em logar de se affrontar, estimou quasi a ousadia do monteiro. Parecia que um presentimento occulto lhe insinuava, que se decidia n'este momento a sua sorte. Era tão grande n'elle a tranquillidade de animo, como se a noiva adorada estivesse debaixo da protecção d'aquelle que duas vezes chamára pae. A velha Aldonça, apenas divisara o hospede, exclamou como rejuvenescida de repente:
--Filha! Não t'o affirmei? A aguia real saiu do ninho. A hora vem perto. Ouve o que te disser, obedece ao que te mandar, succeda o que succeder. Muita fé em Deus e na justiça de Elrei D. Pedro.
--Não é a fé que me falta, redarguiu melancholica a donzella, é a esperança, mãe!... Elrei está longe e tão alto, que não podem vencer de certo metade do caminho as queixas da orphã.
--Quem sabe, donzella? atalhou o monteiro, adiantando-se, e admirando a formosura de Silvana. Pegando-lhe na mão, ajuntou:
--El-rei D. Pedro, filha, vê e ouve de longe. Conta-me tuas magoas.
Fallando assim, o tom da voz era brando. Tello, que o contemplava, sentiu renascer a esperança, e insensivelmente socegou do maior cuidado. Ora pallida, ora córada, a neta de Garcia narrava no emtanto a morte dolorosa do avô, as lastimas da sua infancia, e os amores infames que a perseguiam. As palavras pintavam a sua alma. Mais compadecida, do que vingativa, procurava atenuar as crueldades do senhor. Quando terminou, o desconhecido, sorrindo-se, e soltando-lhe a mão, disse:
--Descansai! Está perto El-rei D. Pedro. É como se vos ouvisse. Mandai a Sueiro Lopes a camisa da mortalha, não a pediu de balde! Se o cavalleiro fôr desleal, ou se vos quizer tirar por força, enviai-me este signal. Deus e El-rei serão comvosco!
Ao mesmo tempo entregou-lhe a trompa de prata e virando-se para Tello, accrescentava: