Contos e Lendas

Chapter 6

Chapter 63,865 wordsPublic domain

De repente um clarão sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz sulphurea, e no meio de chammas lividas, surgiu e cresceu uma forma gigantesca envolta nas dobras de sudario branco e fluctuante. Esta figura descommunal, cuja cabeça era uma caveira, lançava chispas pelas cavidades dos olhos, e acenava com os longos ossos de esqueleto. O frade tremeu, e acudiram-lhe aos labios descorados as preces e os exorcismos recommendados pela igreja contra os maleficios infernaes. Mas as armas espirituaes não produziram effeito, e, apesar da perturbação momentanea, tornou a tomar corpo no seu espirito a ideia de que podia ser aquelle espectaculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa fé. Revestindo-se, pois, de valor e decisão, apontou rapidamente ao vulto, que tinha diante, a pistola, que não largara da mão, e disparou-a. Observando que o tiro não causára abalo no phantasma, pegou depois na outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma risada estridente respondeu ao estrondo da explosão, e o spectro, mostrando as duas balas, arremessou-as ao chão, aonde o padre mestre as ouviu rolar. Logo em seguida o clarão sumiu-se de subito, espessas trevas envolveram o quarto. Fr. João, quasi desmaiado, caiu em uma das cadeiras proximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os membros, e paralisado na falla e nos movimentos pelo mais profundo terror.

Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas não eram menos activas e violentas nas camaras dos outros hospedes. Romão Pires, apenas se deitára, e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe pelos pés o magro e aprumado corpo até o estatelarem de pancada e sem dó nas taboas do sobrado. O grito de mêdo e de dor, que soltára estremunhado, teve em resposta um côro de risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabeça, e saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para bradar, era comida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de empurrão em empurrão a levaram aos tombos até ao corredor, aonde veiu encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem accusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.

No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido, sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na intervenção dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado á leitura de um livro novo, que em breve lhe absorveu a attenção. Feriu-lhe de repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos proximos. Apagando a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.

A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber dous vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se debruçava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava d'elle sons roucos e medonhos, caiu ás pranchadas sobre o musico do Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado, principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no braço ao que pareceu, deitou-o pela porta fóra como um vendaval, em quanto o companheiro tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.

D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castiçal e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no chão um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de amarello.

O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gôtas de sangue, caidas no pavimento desde metade da casa até á porta, provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e assignalado. D. Pedro pegou no castiçal, e seguindo o rasto de sangue pelo corredor, notou que parava no topo, aonde só existia uma parede grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. Á porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o vocabulario de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, fallou-lhes, animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de Fr. João.

O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quasi exanime na ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas não se moveu.

D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo triumphante não deixára despojos. Terminado o exame, poz o castiçal em cima do velador, collocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo silencioso, disse-lhe:

--Mas o que foi isto?!..

Fr. João respondeu com um suspiro, e, correu a mão pela testa ainda inundada de suor.

--Estas pistolas disparadas, estas balas no chão!.. Não me dirá o que succedeu?!...»

Outro suspiro mais alto.

--Por onde entraram elles?...

O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco, meneou a cabeça com tristeza, fez um esforço para levantar meio corpo da cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para elle.

--Ah!... Foi por esta porta?... observou o sobrinho, pegando no castiçal e correndo a luz por todo o quadro de cima abaixo. De repente exclamou: Olhe?!

--O que? disse o frade, pondo-se de pé, mas tão abatido e tremulo, como se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.

--Venha meu tio, e veja!

De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um botão debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo á pressão, abriu-se lentamente.

--Ah!.. exclamou fr. João.

--Aqui tem a porta!... e o segredo de tudo.

--Velhacos! bramia o dominicano irritavel, recuperando repentinamente as côres, a elasticidade dos membros, e a viveza dos olhos. Mas abaixando a vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no chão, e uma nuvem torrou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que succedera e ouviu da boca do mancebo a historia da sua lucta com os duendes. Fr. João ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um immenso ponto de interrogação.

--Saiu d'aqui depois de carregar as armas?... perguntou D. Pedro.

--Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romão Pires.

--Foi o que bastou. Não mexeu na espingarda? Está certo?

--Como de te estar vendo.

--E metteu-lhe uma bala de calibre?

--Seguramente.

--Muito bem, quer vêr?

E D. Pedro, pegando na vareta, descarregou a arma, tirando as buxas e a polvora. Da bala não achou noticia.

--Ah! tratantes!.. rugiu o frade, fechando os punhos, e rangendo os dentes, plectorico de colera.

--Podiam atirar-lhe com tres balas aos pés em vez de duas! Tinham tido o cuidado...

--De mas empalmar?! Sobrinho! Juro que hão de pagar-m'o caro!... Só atazanados!

--Dá licença que lhe dê um conselho?...

--Dize, rapaz. Estás um homem, e tens mostrado valer mais, do que nós todos.

--Se quer apanhar o rato na ratoeira, não faça bulha.

--Bem! Bem! _Do manus! Qui nescit dissimulare nescit regnare_, acudiu fr. João, esfregando as mãos. Ah! patifes! O que elles se terão rido á minha custa!...

--Deixe! Riram-se hoje? Amanhã chorarão! Bôas noites meu tio. Socegue, que bem o precisa.

A CAMISA DO NOIVADO

I

Assi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom sairom em seu tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e d'outros, alguns dos quaes disserom, que as Leis e justiça erom como teias de aranha nas quaes os mosquitos pequenos, caindo, são reteudos e morrem em ella, e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as e vão-se.

Fernão Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro. Cap. IX.

Houve tempo em que o monte hoje esquecido de Algoço, na provincia de Traz-os-Montes, erguia a cabeça soberba acima dos outros logares. As muralhas de cantaria grossa e as torres quadrangulares do antigo castello, debruçadas sobre um precipicio despenhado, concordavam com a melancolia do sitio e com as sombrias tradições, de que as memorias do povo o entristeciam. Dos altos eirados, como do cimo de um ninho de aguias, a vista, relanceando, abraçava toda a campina, mosqueada aqui de arvoredos e soutos, rasa de urzes e charnecas além, e empolada mais adiante em collinas, que ligadas, e mais ou menos suaves, se seguiam até beijarem o cinto de cabeços alpestres, ultima barreira dos horisontes. Ao sopé da montanha, aonde se abria o valle mais fundo, estrepitava uma torrente. Era o Angueira bramindo entalado na bronca penedia do leito. Mais ao longe, na coroa dos cerros, os pinheiros meneavam as copas verde-tristes, e os ciprestes solitarios balouçavam ao vento as pontas esguias. Por ultimo, ao largo, já quasi aonde não enxergavam os olhos, recortavam-se de um lado os topes cinzentos da serra de Seabra na fronteira castelhana, e do outro as cristas dentadas das alturas de Nogueira, toucadas de gelos eternos.

De tarde, quando começava a escurecer, o nevoeiro, trepando das margens do rio em cóllos deseguaes, enroscava-se como fumo nas quebradas, e envolvia n'uma cortina de vapores os mais elevados cumes. Este veu caprichoso, cujas dobras sacudia a briza, ora se despregava, deixando entrever confusamente os vultos, ora condensado cerrava tudo em volta do solar.

Affirmavam os velhos, que as horas de crepusculo e de nebrina eram tambem as horas dos feitiços. Uma princeza encantada junto da fonte de S. João guardava os thesouros enterrados de certo magico. Linda como as estrellas, a maldade do encantador condemnara-a a arrastar-se todo o anno em figura de serpente. Só na vespera do festejado santo, á meia noite, quando as follias riam mais alegres na aldeia, é que o fado mau se quebrava até ao alvorecer. Mal repicava a sineta do campanario, a moura, banhando-se tres vezes na ribeira, e depondo sobre uma penha as escamas luzentes, volvia ao antigo ser, resplandecendo n'ella a formosura rara de uma belleza admiravel.

Assim a tinham visto alguns mais felizes assentada debaixo dos velhos e copados ulmeiros á beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de branco, desnastrando as tranças com um pente de ouro, e cantando aos espiritos do ar com tão maviosa voz, que se cortava o coração de a ouvir.

Accrescentavam ainda, que da aldeia alguem a vira já inclinada sobre o espelho da fonte, caindo-lhe as lagrimas em fio na agua. Uma corsa da côr da açucena, esbelta, e veloz como a seta, acompanhava-a. Se áquella hora qualquer lograsse fallar á moura antes de tornar á fórma de serpente, alcançaria da bella captiva, que era fada, as primeiras tres cousas que lhe pedisse; mas os acasos ditosos são raros, e em cem annos pelo menos não havia lembrança de nenhum. A corsa velava, ao menor ruido batia os pés, e desatava a carreira, e n'um instante desapparecia tudo, como sonho, sem outro signal mais, do que certo fervor ligeiro nas aguas, e uma leve nebrina por entre as arvores.

II

Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado o _Justiceiro_, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos, os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos. No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas, ou favores. Devedor honrado, o principe ajustava logo a sua conta a cada um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e grande pintor de vultos e de cousas.

Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello, construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda, compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem. O pranto da viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde repousavam seus paes, avós, e irmãos.

O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que tinham amanhecido remediados!

D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D. Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.

III

Tinha fama de grande monteiro o castellão. Mál o dia despontava, saltava logo no cavallo, e a galope, por sarças e estevaes, por montes e campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até á noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, cães e corseis, salvando valados, e calcando pavêas, arrazaram em minutos o trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas, estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu atraz da pista. Garcia de Marnel, o dono do campo, fôra o melhor besteiro dos sitios. O mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua aljava atravessara sempre o alvo. De avôs a netos esta robusta e laboriosa raça lançára raizes profundas no solo, remido pelo seu braço. Os mais fundos affectos prendiam-a á terra rôta e lavrada com o suor do trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e dos filhos. No altar da egreja haviam sido abençoadas as promessas de mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos álamos, á sua porta, o avô, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graças infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo infortunio.

A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe desfallecera o braço. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do coração, a dor mesmo não lhe prostrára o animo. A esposa, por tantos annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho da vida para ir esperal-o na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flôr seguiram a mãe, em quanto o ancião desgraçado, só e de joelhos não via a seu lado no desterro da vida, êrmo de consolações, senão a infancia fragil e graciosa de Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em um extremo louco e quasi delirante. Só esta saudade, só este amor o prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do ceu, senão depois de a ver mulher e feliz.

Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavallos os fructos de um anno, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces cavadas coráram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de mêdo.

Aquelle campo era o dote da neta, e só por causa d'ella é que supportava o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. «Senhor! Senhor! dizia elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada contra um velho e uma donzella!» O rico homem não respondeu. As matilhas e os cavallos, precipitando-se, partiam á róda d'elle, envoltos em nuvens de pó, e o afflicto lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão das redeas do corsel.

Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando, cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe ameaçou o peito com ás patas «Fóra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do conselho!» Garcia desviou-se quasi cego de dôr, e Sueiro, cravando as esporas nos ilhaes, voou á redea larga por cima das hortas e ceáras, bradando: «Sus! Abóca!»

O açoute infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado. Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um rujido surdo expirava ao mesmo tempo á flôr dos labios. A vida do homem orgulhoso e máu estava á mercê d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente elevou-se ao ceu. Pedia perdão, ou auxilio?

De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram então dos olhos seccos do velho; os braços descairam. Quiz vencer-se e resistir, não pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a bocca murmurou:

«Fôra matal-a tambem a ella!» Enxugando depois as palpebras entregou a Deus o castigo do oppressor.

Mas a desgraça entrára no seu campo com Sueiro Lopes.

O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fôra aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o. Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos, acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre orphã, confiscada caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha, sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa, soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella em edade e formosura; mas á medida que os annos corriam, o rosto pallido e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas faces as lagrimas e não as entendia. É que o pão da esmola, mesmo dado com amor, sempre tráva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando para o tecto da casinha, de que fôra desherdada, apertava-se-lhe o coração por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da sepultura, aonde seu avô descansava, aonde todos os seus dormiam!

IV

Sete annos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algoço tinham lançado sobre o corpo de Garcia do Marnel os ultimos punhados de terra. Sueiro Lopes, n'esse intervallo, tres vezes casado, e outras tantas viuvo, cada vez se havia feito mais aspero e cruel.

Mal raiava a manhã as buzinas acordavam logo as solidões. Assim que a noite se fechava, as frestas ponteagudas da torre de menagem, illumminando-se, reverberavam o clarão das tochas do festim. Os gritos, as risadas, as blasphemias da alegria ebria espantavam os que vinham perto do castello. Os vicios do senhor avivaram-se com os annos. Os deleites pareciam-lhe mais doces regados de lagrimas e de sangue. O abutre já não empolgava só a vida e os bens dos villãos; abrazado em ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia. Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores infames a innocencia das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um sorriso, um olhar d'elle era como a fascinação do reptil. Por onde passava, as flores mais frescas, e mais puras caiam desmaiadas.