Contos

Part 5

Chapter 53,745 wordsPublic domain

No dia seguinte era preciso comer. Por conselho da visinha foi vender os jornaes, para não perder os freguezes. Ao meio dia foi saber da mãi. Expulsaram-no de novo, com uma vara. Perdeu a vontade de comer, voltou para casa aniquilado, amarello e vazio.

--Se ella morreu! dizia. E pavores immensos, soturnos phantasmas de uma transparencia madida, surgiam-lhe de noite aos portaes, gemendo _Credos_ de monges, e mostrando dentuças formidolosas. Uma tarde estava no lugar da Joaquina, com os pequenos. Entravam uns e outros a beber vinho: ao balcão um grupo conversava, entre a fumarada dos cachimbos. A voz da visinha gritou:

--João!

Elle foi. A Joaquina disse:

--D’ámanhã em diante, has-de levar o _Noticias_ a este senhor.--Apontava um velho secco, olho morto, ar veterano, de blusa azul.

O João olhou timidamente.

--Pois sim, meu senhor, pois sim, disse elle. Seja pelo amor de Deus. Em que rua é, meu senhor?

--Não é rua, fez o homem. Tu entras pela _porta do carro_, percebes? É no hospital de S. José. Vaes por alli dentro, percebes? Tudo por alli fóra. Ha umas grades, entendes? Vaes por alli adiante e vês uma casa baixa, entendes? Tem uns degraus: é ahi. A porta está aberta para quem quer. Renda barata, entendes?--Ria-se, um riso enorme, adunco, de carnivoro.

Os mais tinham gestos comprovativos. Um até disse isto:

--Livra-te de lá morares, rapaz.

O João não percebia nada. Como era no hospital, observou:

--É onde está a mãi?

O velho tossiu cavamente.

--Talvez já fosse minha inquilina, percebes? Mas entram e sahem muitas, nem reparo.

--Sim, sim, fez o outro.

O homem juntou:

--Lá, os semestres teem vinte e quatro horas, entendes? Tornaram a rir-se. O que era velho tinha dentes aguçados e negros de carie: quando ria, esgares de grotesco barbaro repuxavam-lhe as maçãs do rosto tostado, de idolo. Os annos tinham-lhe polvilhado os cabellos, hirsutos como juncos seccos. No outro dia mal amanheceu, o pequeno entrou a _porta do carro_[3], subiu a rampa, encostado á Escóla. No terreiro parou para orientar-se. Á porta parava um estranho carro negro, linhas de cofre, todo crivado de buracos, lugubre e frio como um caixão. Sobre a tampa havia uma urna esculpida, meio coberta com um pano e toscamente executada. Um homem sentava-se na almofada; tinha o seu capote azul, o seu chapéo de oleado e a cara vulgar dos caleceiros nem maus nem bons, imbecilmente honrados. Outros dois, em mangas de camisa, traziam fardos de dentro, feitos de serapilheiras esburacadas, mendigas. O João mal reparou n’aquillo: tinha visto a casa baixa ao fundo da rampa gradeada: era alli que lhe mandavam deixar o _Noticias_. Foi lá. O velho estava em mangas de camisa almoçando café, á entrada. Era um corredor estreito para onde abriam oculos de vidro de pequenos compartimentos claros e cheios d’ar; a luz crua da manhã cahia do alto, pelas vidraças abertas. Ao fim do corredor, um altar negro frisado de douraduras, sahia da parede, e em cima um Christo de pau, entre velas intactas e cheias de moscas mortas, estendia os braços cylindricos, dourados a casquinha.

[3] Entrada para a Escóla medica, cozinhas, lavanderia, amphitheatro e mais dependencias hospitalares.

Um arame escuro, de algum timbre distante, riscava a brancura do tecto e unia outros arames convergidos de cada compartimento, como uma espinha de peixe. Oxydada e velha uma lampada de latão cahia de cima com a sua luz inutil na claridade diurna. Tudo aquillo era de um aspecto lugubre e frio através de que se sonhavam infortunios e allucinamentos. O João esteve a mirar tudo: estaria alli a mãi? Era o hospital--devia estar. E via o velho ensopar em café grandes pedaços de pão; olhava...

--Aqui está o jornal, disse. E ficou-se. Tinha ganas de perguntar pela mãi; acanhava-se. Ao fundo, a lampada pendia, como n’um nicho. O altar negro e frisado de ouro lembrava uma capella de jazigo. Tirou o barrete, reverente:

--Ó meu senhor...

--Que é? fez o velho. E tasquinhando--é o _Noticias_, hein? Aposto que traz o caso da sopeira dos Calafates!

--Ó meu senhor, isto aqui é igreja?

--É hospital: tu não vês?

--É hospital...

E a medo, uma anciedade intima:

--A minha mãi está ahi, está, meu senhor?

Tremiam-lhe os labios, e conhecia-se a dolorida expansão d’um amor de ave, implume e dôce, que descobriu amparo. O velho olhou-o com ironia, depois teve dó, um dó alarve, quasi insolente.

--Procura-a se queres, respondeu.

E o seu dedo escuro e cheio de nós apontava os oculos dos pequenos cubiculos, abertos sobre o corredor. O garoto entrou a medo, como n’uma igreja: como era baixo, não chegava aos vidros. Havia um banco: agarrou n’elle, assentou-o junto da primeira porta, subiu corajosamente com a pasta debaixo do braço. Esteve a olhar, a olhar.

--É um homem, disse elle. O guarda parára de comer; na dilatação da sua pupilla poder-se-hia adivinhar a alegria surpreza de quem vai pregar uma boa peça.

--É um homem, é, concordou.

--Dorme, coitadinho:--e penalisado--tão magro!... Tem filhos, meu senhor, tem?

O velho não respondeu. A esse tempo, já o pequeno tinha o banco ao pé da segunda porta e subia.

--É uma velha, notou elle. Olhe meu senhor, está-se a rir. Cada olho!

--Ri-se de ti talvez, commentou o guarda. E para o afastar do oculo:--Está doida; sahe d’ahi.

O João detinha-se muito pallido e nervoso, presentindo alguma cousa horrivel. E não podia descer.

--Mas ella não mexe!--Tremia de medo.

--Meu senhor!

--O que é?...

--Aqui é o hospital?... Diga, é o hospital?

--Pois o que ha-de ser? Não vês as camas, os doentes?

O João hesitava, agitado.

Não disse nada, desceu devagar com a cabeça pendida n’uma absorpção angustiosa. Poz o banco ao pé do terceiro oculo; subiu.

--É a mãi!--Tinha os ultimos alentos na voz; uma revolta de amores, desconfianças e luto, impulsionára agora de subito n’essa organisação inerme uma desusada actividade, quasi uma audacia. Saltou para o chão, arremessando o banco. Ia abrir a porta. O guarda correu para elle, deu-lhe um encontrão brutal:--Eh rapaz!... Diabo!--Segurava o fecho, olhando.

--Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus! implorava o pequeno--É a mãi, é a minha. Deixe-me ir fallar-lhe, deixe meu senhor!

E de mãos postas:

--Pela sua saude, por alma dos seus defuntos!--E com um desespero explosivo:--Ora isto! ora isto!--Levava os punhos cerrados aos olhos; um choro dilacerante abalava-o. Tomou as mãos do guarda:--Só pedir-lhe a benção, meu senhor; vou-me logo embora, vou-me logo embora!--Essa alma dura do velho, verteu compaixão.

--Mas não pódes, não tenho ordem, percebes?--E dava razões:--ella estava com causticos, com una emplastos na espinha; tinha acabado de tomar o remedio; era um banho forte, que fazia dormir. E que bem tinha visto pelo oculo, pois não era verdade? Não lhe tinha visto os olhos fechados? era somno, está claro! E que se queria vêl-a boa, não a fosse agora acordar, a pobre velhota. Percebes?

--Ámanhã vens tu aqui, entendes?--de manhãzinha cedo, e talvez já ella esteja capaz de te vêr; entendes? Pois isto é que é.--Elle de cabeça baixa, reflectia.

--Vossemecê não me engana, não? Sou um pobre de Christo, vivo dos jornaes; não vê?--E apresentava a pasta. O guarda compadecia-se.

--Não engano, homem: para que te havia de enganar? É boa!--Armava no rosto uma sinceridade benevola e rudemente ingenua. O João sahia vagaroso.

--Então ámanhã, meu senhor. Adeus. Seja por alma de quem lá tem.--Ao fundo dos degraus deteve-se para voltar a cabeça. E ficou-se a murmurar pensativo:

--Mas quando uma pessoa está doente, não apanha ar. Alli teem as janellas escancaradas.--Ia devagar, embebido, com os jornaes na pasta.

--Elles sempre são cirurgiões, disse, entendem mais que _um_ qualquer.--E a espaços:

--Então ámanhã. Hei-de-lhe contar que estou muito obrigado á visinha; nem que fosse minha mãi.--E chegou á rua, ergueu o pregão. Todo o mundo era feliz e sorria. Ninguem reparava n’elle.

* * * * *

Disseram-lhe depois que a mãi morrera, e a sua vida mudou. Nunca mais foi visto no sitio nem tornou a levar ao velho o _Noticias_, todas as manhãs. Dormia nas escadas, de manhã vendia os jornaes, o resto do dia passava-o nas ruas, sentado pelos bancos das praças, dormitando canalhamente ao sol. E a suavidade de genio, a doçura implume dos seus olhos derivaram n’uma rispidez, n’uma malicia de garoto.

Entre os da sua idade começou a ter predominio; era o das partidas subtis, o que commandava as troças que o bando fazia aos velhos, o que ia gritar nas escadas, o que armava intrigas, desenvolvia contendas, e nos magotes repartia sôccos e pontapés, no meio da grita e das risadas dos taberneiros. Durante dois annos viveu esta bohemia das ruas, tripudiando no meio infimo a sua turbulencia e a sua alegria. Ás vezes tinha fome: ia pedir nas ruas escuras, com o barrete na mão, a quem passava. E o seu coração soffria todos os maus modos e todas as humilhações, sem rebeldia. N’esta senda privou com os incorrigiveis, conheceu os mendigos, os gatunos e as velhas de capote verde, sem meias, que esmolam nos adros das igrejas, em lamentações dolorosas. Uma vez a policia entrou n’uma _casa de malta_, na vespera de uma parada, e varreu quanto lá achou para a prisão. Os pequenos foram mettidos na _Casa da correcção_ e os gatunos no Limoeiro, por contas antigas. Sentiu duramente o carcere, e sinceramente chorou a vadiagem dos antigos dias, em que o seu pé vivo, forte e agil, pisára livremente as ruas em corridas ruidosas, em pandegas de boa marca. Na reclusão, os seus dias medidos por occupações sujeitas a uma tabella e a um horario, foram enlutados no tedio e no sentimento da propria inutilidade: levantava-se antes de nascer o sol com os demais companheiros estremunhados, tiritando do frio que ao longo dos corredores se esfusiava cantando; um sino batia horas acima das abobadas, e o echo ondulava de cella em cella, como o soluço de uma alma penitente, a quem não perdoam; pelas profundas janellas do antigo convento, pedaços de céo faziam manchas lucidas, de espiritualisação ineffavel, em que o olhar dos pupillos se dilatava com grandes tristezas de opprimidos. Caminhavam formados dois a dois para a capella, á oração da manhã. Depois cada um ia para a sua officina, ou para a aula de estudo. Os rudes prefeitos passavam lugubres, lividos e cheios de consumpção, e os seus olhos ferozes corriam sobre as cabeças humildes dos rapazes, curvadas sobre os livros ou sobre os trabalhos de officina. Aos domingos ouviam missa; uma charanga tocava no pateo e os jornaes convidavam o publico a ir vêr o collegio, louvando os desvelos do director e proclamando os resultados da instituição beneficente. Alli tomou elle proposito, aprendendo a ter aceio, correcção e aprumo; aos dezoito annos o Ferreira tomou-o para aprendiz: era já uma pessoa cheia de si propria, estatura avantajada, completamente formada, que passara incorruptivel no meio viciado do hospicio, resistindo aos vicios morbidos e fataes da caserna, e salvo n’uma palavra, da ociodade e do desprezo de si mesmo.

* * * * *

Resolveram encontrar-se, o João e Carolina, todas as noites, á hora em que fechava a officina: iriam passear, fallando dos seus negocios sem temer ditinhos da visinhança. Elle instára vivamente para que se ligassem; era assim melhor, não soffriam tanto as saudades da ausencia e estariam á vontade; e se a _coisa_ tinha de ser, que fosse quanto antes. Carolina lutava um pouco; todos os seus cuidados eram o pai; quando elle chegasse a casa e os visse, que diria? E supplicante, uma meiguice infantil, obrigava o João a ceder, com pequeninas caricias voluptuosas e finas. As noites eram frias e escuras, orvalhadas no alto de scintillações de estrellas, archipelagos de luz n’um Pacifico lobrego e sem fim. Reuniam-se a uma certa hora no largo da Estrella, e de braço dado, estreitamente unidos, com declarações pelintras empoladas de palanfrorio sem nexo, diziam um ao outro o seu amor eterno, citando cantigas, pequenos versos de manjarico, procurando a sombra, desviando-se das zonas claras projectadas pelos lampeões, como proscriptos cônscios da sua culpa. De ordinario vinham por S. Pedro d’Alcantara, S. Roque, até ao Chiado. Áquella hora as ruas atulhavam-se de gente abafada em capotes felpudos, carruagens cheias de mulheres melancolicas; um largo ruido emergia da luz, da vida e da enorme respiração da cidade, espapando-se nos ares n’um tom indistincto e abafado. Á porta da Havaneza um forte grupo enchia o asphalto; caras em sombra sahiam das golas altas; de todos os lados partiam rumores de palestras que apanhadas de relance, davam a diversidade mais curiosa e frisante; _marialvas_ pallidos e bonitos, altas pernas apertadas em calças prenhes de joelheiras, chupavam cigarros em grupo, provocando as costureiras que recolhiam dos armazens; militares seccos, sonoros de esporas, uma curva de espinha, discutiam ás esquinas. Á porta da casa _Singer_, destacando em sombra na crua luz irradiante do lustre, um conego forte e barbeado, envolvia-se na sua capa, baixo perfil de javardo estupidamente grave. D’um lado e outro, a fileira de transeuntes seguia, gente de todas as castas, mulheres embuçadas em mantas, rapazes debeis e palreiros, velhos _dilettanti_ da opera que faziam a digestão com charutos fortes; ao trote de grandes parelhas, as familias iam para S. Carlos, recostadas nos cochins dos _coupés_; e Carolina invejosa da vida que não vivia e da opulencia que a deslumbrava, ia picando as scenas de commentarios amargos, um vago rancor de proletaria. O João murmurava de quando em quando:

--Isto é o tom, isto é o tom!--Gente pasmada parava diante das _vitrines_ do Seixas, admirando oleographias, porcelanas, pequenas esculpturas suissas. Defronte quasi, no _Elie Bernard_, as amas de toucas de renda apartavam polichinellos, pequenas arcas de Noé, para frescas crianças de banqueiros, aconchegadas de arminhos e louramente ideaes. No _Leonel_, as senhoras de cauda _princesse_, perfis orgulhosos de marquezas, pallidamente altivas, viam setins da estação, fortes velludos de pregas electricas, opulencia cara. Sentia-se apregoar o _Jornal da Noite_. Divas de mantilha marmoreas de riz, elegancias de figurino, vendiam-se a quem passava, com pequenas tosses e _psts_! Elles atravessavam a multidão, isolados no ruido como estrangeiros. A _rua Nova do Carmo_ tinha menos gente, menos luz. No fundo do _Margotteau_, uma luz soturna agonisava sobre estofos amontoados, pilhas de cochins, bancas de jogo marchetadas, e brilhos de lustres, pendentes do tecto. Sobre o Rocio cahia a cupula tenebrosa da noite, como um assombro legendario; em D. Maria, acima da arcada, pontinhos de gaz escreviam _espectaculo_; em torno da praça rolavam os trens; soldados risonhos saracoteavam-se na penumbra entre os grupos de velhos celibatarios; o Martinho estava cheio de estudantes e de litteratos; e contractadores de senhas, cauteleiros e americanos em marcha faziam um ruido infernal e continuo, o _tohu-bohu_ das capitaes exaltadas pela nevrose da noite. Elles iam seguindo vagarosamente. Fechavam as lojas. Chegavam de ordinario a casa muito tarde. A visinhança dormia. No relogio da Estrella badalavam quartos, som lugubre. Passavam a noite amando-se, jurando a si mesmos fidelidades eternas e amores phenomenaes, em quanto a vela de sebo posta a um canto, deitava clarões amarellos e um cheiro suffocante de morrão.

Afinal o João fez conduzir para casa da rapariga o seu bahú, os seus arranjos. A visinhança fallou do escandalo, nunca se vira uma pouca vergonha assim, o mundo estava perdido.

Muitas diziam:

--Já a comadre bebe! Mas deixa que o pai saberá...

Só a Marcellina achou natural.

--Cada qual governa-se, sentenceava ella.

Os primeiros dias correram-lhes distrahidamente, nas espiras d’um amor canino e deshonesto.

O João apparecia tarde na officina, cheio de somno e de fadiga. E soffria as meias palavras do Ferreira, a sua grosseira rabugice de velho rigorista, via-o atirar as cousas com mau modo, girar nervosamente por entre os bancos de trabalho com o olhar relampejante através dos oculos. Para o aprendiz, o melhor tempo era o recolher do trabalho, ao cahir da noite: ia quasi a correr para casa, subia a escada a quatro e quatro; Carolina estava de ordinario costurando, com um casibeque de lã, lenço na cabeça, a face de uma pallidez transparente e dôce. Elle tomava-lhe delicadamente a cabeça, com as duas mãos; beijavam-se com uma sofreguidão provocante, e toda ella vergava languidamente no peito do aprendiz, sonhando as divagações mais sublimes. Nunca sahiam, senão noite feita. Diante d’uma mulher, o João experimentava um aconchego tepido, delicioso: com ella, a sua força, a sua fórma vigorosa e superior, acobardava-se, quebrantava-se, cahia: era então dos sentidos. Não se lembrava de olhar em torno de si, no desleixo da casa nua, repartida em compartimentos baixos e rectangulares, sem luz e esfolados nas hombreiras, com laivos d’oca barbarescos no rodapé. Pelas paredes encostavam-se moveis antigos e côxos; leitos de ferro de varaes tortos, tinham colchões extirpados e cobertores de uma farrapice sordida; em volta nem um objecto limpo e cuidado, nem uma côr alegre e rutilante, em que a vista pascesse uma satisfação honesta; todas as fórmas duras e cruas das cousas tinham um desleixo antigo, de annos, e desmantelavam-se como bem lhes parecia. Pelos aspectos, via-se a historia de Carolina, a sua orphandade, as ausencias do coveiro na desolação das covas, como um desterrado. Na cozinha, a chaminé derruia lambida da fumarada, cheia de terra e tijolos partidos, abrindo como uma guela calcinada e pulverulenta. Têas d’aranha, espessas e papudas, faziam prateleiras aos cantos. N’um poial humido e cheio de covas, rimas de pratos sujos, de almoços antigos, estavam para alli de semanas; sobre o peito da janella, uma palmatoria de barro tinha um coto de sebo; a miseria enrodilhava-se pelas cousas, n’uma frialdade canalha e vilissima, em que se accusava uma existencia sem destino, sem direcção, sem o exemplo d’outra. Nenhum movel no seu lugar, o lavatorio vazio, uma bacia n’uma cadeira, saias enxovalhadas nos ferros dos leitos e o gato lambendo-se sobre um chale. E á medida que passava o tempo e os dois conviviam, Carolina que no começo por pudôr, fôra um pouco cuidadosa, entrou a entregar tudo ao acaso, para alli, ao _deixa-te estar que estás bem_. Em quanto só, era ella quem lavava a sua roupa, de mez a mez. Quando o João se ligou com ella, foi impossivel continuar aquillo. Eram precisas camisas engommadas, roupas, lenços brancos, quem costurasse, quem cuidasse com amor, sem fadiga, sem mau estar, todos os pormenores do lar e todas as pequenas necessidades do trajo. Carolina nunca engommára. Foi perguntar á Marcellina como era. A velha deu explicações: que se molhava primeiro a roupa em gomma fervida, com um trapinho, e depois se punha a enxugar muito bem, a enxugar... Carolina lavou corajosamente as camisas do aprendiz, mas não ficaram brancas--que birra!... E resignada aqueceu o ferro, pôz em pratica quanto ouvira da velha; mas o ferro tostou-lhe o pano deixando uma nodoa escura e fumegante; ella ficou toda desconsolada, lacrimosa, temendo ralhos, quando o João viesse. Fazia um mez que se tinham visto no arraial. E Carolina reflectindo, comparava os dias á medida que elles se distanciavam do primeiro: as cousas não são algumas vezes o que parecem; nem tudo o que luz é ouro--lá diz o rifão. Era verdade! E entristecia-se. O jantar foi menos animado que os anteriores. O João não tinha vontade, era sempre a mesma cousa... E em conversa disse os seus pratos mais predilectos, em que havia mexilhão, cabeça de porco, refogados. Ella estranhou a palavra.

--Refogado! disse sem perceber bem. Olhava o tecto--Refogado!

--Sim, não sabes? fez elle admirado d’aquella ignorancia. E pôz-se a dar explicações, a dizer como era. E d’alli a pouco:

--Em cousas de cozinha, _a modos_ que sei mais que tu.--E sem mudar de tom:--Diabo! Que te ensinaram então?--Carolina resentiu-se um pouco. Estiveram distrahidos n’essa noite; queriam ambos disfarçar, ter excessos, exuberancias, brincadeiras, pequenas ternuras piegas, mas de repente esqueciam-se, e paravam sem saber porque, absorvidos. Elle perguntava-lhe:

--Em que estás pensando?--Carolina encolhia imperceptivelmente os hombros, um meio sorriso sem expressão.

--Nada.--E ao acaso:--em meu pai. Porque perguntas?--Estiveram assim. Viam-se os seus esforços para entabolarem palestra e parecer como nos outros dias, mas um tedio e uma contemplação intimas dominava-os, atraiçoando-os.

--Ámanhã é domingo, observou Carolina. E com admiração:--Já ámanhã é domingo, hein?

--É verdade, perguntou elle, tenho roupa?

Carolina sentiu-se empallidecer. Balbuciou:

--Tens.--O seu desejo seria aventurar uma explicação, dizer o que succedera, afiançar a sua boa vontade, pedir perdão da sua simpleza selvagem; mas que vergonha!... Qualquer rapariga engommava, varria, sabia cozinhar, manter limpas as cousas, brancas as hombreiras, sadias de traça as roupas guardadas nas gavetas e nos bahús: e só ella, a burra nada sabia, aquelle grande cavallão! Tomou coragem:

--Olha, disse, e ficou-se; sentia-se palpitar.

--Que é?--Na calada a asthma do gato resfolegava.

--É que eu...--curvára a cabeça com a vista obscurecida de lagrimas. O João ergueu-lhe a cabeça com a mão, tomando-a pelo queixo, com carinho quasi.

--Que diabo tens tu, filha? Então! Que diabo quer dizer essa aquella?--E sem obter resposta:

--Se tens alguma cousa, Carolina...--e commovido, admirado:--mas offendeste-te do que eu disse ha pouco? Nem reparei, foi sem tenção de te magoar.--Beijava-a repetidamente, procurando chamal-a a uma tranquillidade conciliadora e a uma justa apreciação de palavras.

--Não vês que te amo tanto, hein? não vês? Uma pessoa, ás vezes, nem repara nas cousas que diz; vês tu?

Ella abafava soluços, com o lenço.

--Não é nada, não é nada: isto é do meu genio _a modos_ tristonho, dizia ella; que eu bem sei que não sirvo para nada, bem me conheço. Para que serve um diabo assim?... Nada sei fazer, nunca tive quem me ensinasse, por minha desgraça! Até nem roupa...

O João acudiu logo:

--Se não está arranjada é o mesmo; lá isso não tem duvida; não nos havemos de ralar por tão pouco. Ora! Manda-se á engommadeira; alguma vez aprenderás.--E enxugava-lhe as lagrimas.

--Sua tola! Agora a choramingar.--E dava-lhe pequeninos beijos, abraços amigos, dispensando-lhe solicitudes paternaes.

--Vale lá a pena! resumia. Não sabes, acabou-se. Ninguem nasce sabendo, isso é velho. Ninguem te ensinou... não tens culpa; é boa!...

Mas no seu animo encrespára-se um mau humor que o ralava, e uma irritação sem alvo fazia-o passear com rapidez, accentuando as passadas no sólo. Não sahiu no domingo, ficou á janella fumando. Via passar na rua, grupos todos aceados, mulheres vermelhas e fortes, cheias de saude e de alegria. E sem querer punha-se a comparal-as com Carolina, tão lymphatica, tão desleixada e tão pouco limpa. Homens iam de charuto, fumegando com pompa, bengala, suas botas engraxadas, camisa muito branca.

E elle não tivera camisa lavada, nem gosto para dar o seu giro ás hortas ou ao passeio.

E molestado, roído, retirou-se para dentro, foi estender-se ao comprido na cama.

--Ai! suspirou. A gente sempre faz cada uma!--E ficou-se immovel, reflectindo, com saudades dos tempos em que era livre e tinha camisas lustrosas, todas brancas, cheirando frescamente a sabão.

* * * * *