Contos

Part 4

Chapter 43,837 wordsPublic domain

E marcharia á frente dos esquadrões de lanceiros cheio de medalhas, uma banda, de bigodes retorcidos e tirando o chapéo armado ao povo, no meio dos hymnos das bandas marciaes. Ou então na procissão de S. Jorge, de manto e debaixo do pallio, iria descoberto, acertando o passo, com ares magestaticos. As beiras dos telhados deixavam cahir as suas lagrimas monotonas com um ruido methodico e gelado. No céo escuro e forrado por igual, nuvens brancas, como de algodão fofo, esbarravam, acossadas pela nortada. Os passeios desertos, nús de transeuntes, offereciam á claridade triste do gaz o seu esguio e pallido espinhaço, que recordava o d’um peixe antigo, dos que se fazem admirar em esqueleto, fossilisados, nos museus. Recortavam vagamente no ar os tectos negros a sua dentadura de pentes partidos; nas fachadas imbecis que os reflexos mosqueavam de um livor doentio, cortadas por filas escuras de janellas toscas, as taboletas faziam nodoas de luto, ensanguentadas por letreiros vermelhos, de modistas e de armazens de fazendas. Ao fundo da rua, n’um terceiro andar, uma parteira tinha uma lanterna rubra, d’aviso. Dois gatos seguiam ao longo das paredes, miando a sua paixão nervosa e excentrica. E por sobre a cidade os aguaceiros esfarrapavam-se lentamente na sua caminhada fatal, fazendo nos confins dos edificios afastados, longes indecisos e lugubres, linhas frias de mausoléos--um abandono de campo santo, desconsolado e fatidico. João poz-se a andar vagarosamente, cabeça baixa, as mãos remexendo o forro das algibeiras, transido do ar da madrugada. Não tinha senão um pensamento--não ir para casa. O mais que lhe importava? Mas sentia-se cançado e triste, como quem vai partir para um paiz ignorado, dos Brazis. Sentiu uma cousa dura no bolso das calças; não se lembrava do que seria. Tirou para fóra: era um vidro cheio de facetas, uma rolha de garrafa que encontrára na rua. Com a curiosidade natural de criança, applicou o olho a uma das faces e poz-se a mirar a luz d’um candieiro, através do polyedro. Experimentou deslumbramentos.

A luz multiplicava-se no seio do crystal em centos de imagens fulgentes e irisadas, vívidas n’uma saturação de amarello pallido. E o crystal dilatava-se como uma arcaria phantastica em mil sentidos oppostos, onde scintillas cruzavam as suas linhas coriscantes, com uma abundancia embriagadora. João nunca olhára cousa assim: era como um mundo de diamante e de luz, salas desertas e immensas, illuminadas como para um sarau. A sua alma como uma borboleta fascinada, ia, em lufadas de gozo, penetrar essa vasta habitação principesca e oriental, feita do que ha mais puro e mais commovente: a luz, a alegria, a gloria... Novamente appeteceu ser rei e viver n’aquelle palacio, n’um throno. Tinha fome, desde pela manhã não comia, as pernas vergavam-lhe.

Encostou-se ao umbral de uma porta, olhando sempre os seus salões magicos vestidos de tapeçarias iriantes, em que a luz incidia polvilhada em atomos de gloria. Mas a fadiga opprimia-o. Curvou os joelhos na pedra humida de chuva, absorto na luz. Os olhos carregados de chumbo, cerravam-se. Mas abria-os devagarinho, para mirar. E sem sentir, uma tranquillidade emolliente nos membros, adormeceu.

De manhã acordou, admirado de haver dormido fóra de casa e surprezo mesmo da proeza heroica, que o expunha ás cóleras do pai intractavel. Corria um arzinho cortante que esburacava a nevoa do rio e dava commoções phantasticas ás nuvens humidas do ar. Uma parte da cidade envolvia-se em grandes vapores translucidos, em que se perdiam as torres das freguezias. No mac-adam gasto e revolvido, rugosidades de lama cinzenta faziam hieroglyphicos interminaveis, gastos por vezes na profundeza dos sulcos dos carros e no remoinho de pégadas dos vendilhões descalços. Começavam a passar carroças de hortaliças, para o mercado. Jumentos tristes e felpudos, de uma resignação christã, seguiam lentamente carregados de roupa. Uma leiteira forte vestida de azul, grossas botas de cano, conduzia as suas vaccas meigas e emmagrecidas, todas malhadas de branco, com velhos cobertores no dorso, e as grandes tetas pendentes e cheias, batendo as pernas. Defronte no chafariz, os aguadeiros enfileiravam os barris vermelhos, cintados de negro, a _fazer carreira_; e todos sujos, aparvoados, de uma ingenuidade sordida, chalravam a sua gallegagem brutesca. No emtanto as janellas fechadas dos predios, tinham uma passibilidade somnolenta e morna; as aguas-furtadas agudas e revestidas de telhas escarlates, recortavam acima das platibandas pardas, vagas triangulações idiotas. Nas altas varandas corridas dos quartos andares, arbustos rachiticos e estiolados pela estreiteza dos vasos e pela humidade sulphydrica da atmosphera debruçavam pelos buracos da gradaria, para a rua, tristes flôres esmaiadas, velhas corollas de uma sentimentalidade doente; pelas janellas, trepadeiras resequidas enroscavam-se em caniçados, bordando jardins suspensos de amanuenses mediocres. O dia aclarava-se no concavo da abobada. A espaços, no bocejo das vaporisações longinquas acossadas do vento, esmaltava-se o azul lavado e fino, de uma grande paz commovente. E sentia-se despertar a população. Os moços de padeiro enfarinhados e tiritando de frio, passavam com os cestos, a correr; um sino afastado dava matinas n’uma toada cheia de melancolia. João ergueu-se, com espreguiçamentos, quebrado da friagem da escada. O que se teria passado; para onde iria agora; o que seria d’elle, sósinho, por ahi?...

A verdade é que não estava para aturar o bebedo do pai: isto é que era! Com a venda dos jornaes e das cautelas sempre ganharia para comer. Podia dormir nas escadas. Ás vezes tinha venda de ganhar dois tostões; havia dias de menos tambem: era _conforme calhava_. E contando pelos dedos punha-se a calcular:--um pão, um pataco e chega para todo o dia; dez reis de caldo; um vintem de sardinhas; dois decilitros... ao todo gastava seu tostão. O mais era para fato e extravagancias _cá da pessoa_. Afinal era uma bella vida. Melhor que um padre de missa! affirmava. E seria livre, costado sem pancadaria, indo ás hortas quando tivesse na vontade--que _uma pessoa_ não póde andar sempre no trabalho; lá chega um dia... E repetindo phrases que ouvia ao pai, para a si mesmo parecer homem, lembrava-se irritado das brutalidades do pedreiro. Bem sabia que elle era seu pai e lhe podia bater por ser mais velho; mas as suas costellas não eram nenhum folle de ferreiro. Alto lá! Era de mais, tambem! E que elle era muito bom sim senhor, mas em lhe fazendo chegar a mostarda ao nariz--_está quieto_! Mas sua mãi, aquella pobre mulher pallidamente martyr, tão soffredora e tão resignada, que seria d’ella, sem o filho? Como poderia a pobre creatura, de uma fragilidade triste, supportar as brutalidades do marido? E lembrava o seu perfil engelhado e secco de privações, os seus olhos amortecidos de dôres antigas e o seu peito esphacelado de tosses, concavo e velho, de que elle pendera pequenino, guloso da mama e envolto em mantilhas frescas. Quantas lancinações rasgavam, havia tantos annos, a alma d’essa obscura macilenta, d’essa trémula escrava de um canalha convicto?... E como uma chamma cantante, palpitava-lhe dentro aquelle amor honesto e cheio de castidade infantil, côr de rosa. D’uma vez estivera doente com sinapismos nas pernas, um febrão desabalado; e em delirio descobria-se no leito, cheio de agonias, vendo dançar no tecto os _Populares_ e os garotos do seu conhecimento. E em torno da enxerga, na penumbra do quarto abafadiço, de cada vez que lhe vinham momentos lucidos, descobria o rosto anciado da mãi, batido de vigilias e escavado de lagrimas, d’uma expressão que fazia dó. Todas essas lembranças atiravam a sua pequena alma a uma tristeza em que o seu coração se sentia boiar, como n’um lago acido e corrosivo. Deixar a mãi, apparecia-lhe como um peccado funesto e impenitente, dos que fazem bailar Satanaz.--Nem os brutinhos, dizia, nem os brutinhos fazem tal. E sem resolução, ruminando a sua incoherencia estupida, com as mãos nos bolsos das calças em frangalhos, foi comprar os jornaes do dia. A luz alastrava-se pelo céo, e no oriente lavado de nuvens agora, os feixes do morno sol, riscavam nas fachadas, polyedros amarellos e emollientes, de um agasalho caridoso e bom.

N’esse dia, acabada a venda, foi a casa. Encontrou a janella fechada e a porta unida; uma grande quietidão fluctuava nos quartos. Entrou de manso: o gato dormia sobre a commoda, ao lado do oratorio; em torno quebravam-se na meia luz do recinto, fórmas hirtas de velhos moveis mutilados, cadeiras sem palhinha, mesas sem gavetas, esqueletos de bahús escancarados e vazios, com o forro em tiras. Viu a mãi cahida sobre um colchão, respirando alto. Na chaminé não havia lume, nem louça; o cesto vazio de pão, abandonava-se sobre o poial de tijolos. O João percorreu devagarinho os quartos. No saguão e sobre o peito da janella, um vaso de salsa esverdeava; mais alto, n’uma cana, uma camisa velha estava a enxugar com as mangas pendentes como n’um desalento miseravel; um chinelo humido e proscripto, sorria como um queixo sem dentes, á borda da sargeta, e tudo aquillo soluçava um desconforto triste, como a nudez d’uma tumba. O pedreiro não estava em casa--ainda bem! O João chegou-se á mãi.

--Mãi!--Ella gemeu alguma cousa confusa, mas a sua cabeça cahiu outra vez, n’uma prostração desolante. Enrolava a cabeça n’um chale; um sulco negro descia-lhe da testa á face, inflammada e ardente. O labio escorria sangue, rasgado por alguma pancada. O João descobriu docemente a cabeça da pobre mulher, procurava com beijos dizer a sua pena. E em supplicas balbuciadas, de afflicção sincera, dizia que lhe perdoasse, contava as asperidões da noite anterior, as suas miserias, a perda das cautelas, entre gente indifferente e cynica, que lhe chamava vadio.

--Triste de quem é pobre, lamentava elle, triste de quem é pobre! Com as mangas da _blusa_ limpava as lagrimas, e vibrante n’uma solicitude amoravel e leal, toda feita de grandes dedicações, inquiria a historia dos golpes que rasgavam a cara da mãi. Ella mal podia fallar. Tinha esperado pelo filho até fóra de horas: quando o pedreiro recolheu, não havia cêa--pão e agua! E entrou logo a barafustar, a dizer insolencias; que andava a trabalhar como um mouro para aquella grande bebeda, que havia de fazer um dia _alguma_ de rachar pedras. De resto tanto se lhe dava ir para a costa d’Africa, como ficar no _Limoeiro Novo_; em toda _a parte se ganha pão_, com seiscentos diabos! Ella queria convencel-o, prestava-lhe contas da semana; pouco recebera da feria, elle bem o sabia; como era possivel tornar o pouco em muito? E esboçava roes: tanto de pão, tanto de arroz, panno para uns remendos, concerto das botas... O marido nem deu palavra; cambaleante, tocado de vinho, sahiu. Ella quiz retel-o, que se fosse deitar, que não fizesse disturbios, pelo amor de Deus, por tudo quanto tinha de mais sagrado!... Mas cortou-lhe a palavra uma bofetada crua que a derribou, com um gemido. Atravessou a rua, desceu á taberna. Das bancas gordurosas saudavam-no, como a uma pessoa intima e querida. Ella, coitadinha, chorava atraz da janella, em quanto na parede do fundo, a lamparina do oratorio, posta atraz d’uma cesta, enchia de sombra o papel desbotado, cheio de manchas escuras e fatidicas.

Á uma hora viu entrar o marido, chapéo á banda, a tosca physionomia viciosa, com angulos de vertices sinistros, sombriamente cortados em sombra, os olhos absortos, fixos n’um pasmo selvagem, feramente imbecil--como a incarnação do crime! Ella cosia-se com a sombra, sustendo a respiração. A rua estava dormente, a visinhança recolhida; viam-se passar os gatos de escada para escada, n’um silencio lugubre e frio. O pedreiro agarrou n’uma cadeira e esmigalhou-a com estrepito, no meio de pragas. E não tendo resposta, agarrou no oratorio. Os martyres mutilados e cheios de fitas, os seus rostos de pau pintado cheios de inchações vermelhas, cahiam com uma resignação biblica no meio da casa. Ella então sahiu da sua sombra discreta e disse-lhe com os dentes estralejando de medo:

--Manoel, anda deitar-te, homem. Tem hoje paciencia, ámanhã se fará o que queiras.

O pedreiro cresceu contra a pobre, com um pé da cadeira quebrada na mão; agarrou-a pelas guelas com uma força de salteador, e torcendo-a, rangendo a queixada, ebrio na sua ferocidade surda, descarregou-lhe pancadas furibundas nas costas, na cabeça, contra o peito. E ergueu-a inerte, como morta, para a lançar no chão moida de pancadaria. No emtanto a visinhança acordava pelo reboliço; apitos soaram na rua; duas mulheres em saias brancas gritaram--ó da guarda!--e policias arquejantes da corrida, enfiaram pela casa com os chanfalhos em riste. O pedreiro queria luctar, esbracejava furiosamente entre os pulsos cabelludos dos agentes, blasphemando. Pelos grupos, uma velha suja, olho de coruja, andava tomando informações, de uns para outros, com lamentos de uma piedade desenxabida. Tinha-se alastrado na rua o borborinho. Alguem trazia arnica para as contusões da _prove_. Uma rapariga aconselhava cerveja preta, cousa de quatro dedos, que não havia nada melhor para maçadas de arrocho. E varios narravam casos do pancadaria com pessoas tesas, que desarmavam a patrulha, com tres tabéfes. O pedreiro amarrado, entre dous policias, passou entre as mulheres curiosas, no meio de pragas. E explicavam-se as feridas da _mártyle_; havia uma na cara com’a dois dedos, e já aquillo vertia sangue!... Uma rapariga trigueira, de uma prenhez disforme, tinha suas desconfianças que havia costella partida. Outros gesticulavam, tentando elucidar com figuras e arremedos, a narração que iam fazendo de _como a gente era cá por dentro_. Mas ouviu-se a voz da patrulha que descia a rua.

--Nada de ajuntamentos aqui! Nada de ajuntamentos aqui!--E cada um foi para a sua banda, dando boas noites. A triste espancada nem dava accordo de si. Corridas as primeiras curas das feridas, cada um foi dormir descançadamente e ninguem se lembrou de chamar o medico.

Sem o filho, sem uma pessoa que velasse por ella, a triste mulher revolvia-se nas enxergas ás escuras, em gemidos de dôr e desvairamentos de febre.

E como de costume a manhã rompeu d’alli a cinco horas, annunciando uma terça-feira de inverno.

* * * * *

O dia correu em meio de tristezas carregadas. A casa emergia n’um torpor abafado. Na rua dois ou tres pequenitos brincavam semi-nús, com lama. O João andava d’uma banda para a outra, sem poder socegar. Desde as onze horas que a mãi perdera o tino e mergulhara no delirio. Sentia-se sepultar n’um horror sem limites, como se fôra um ponto suspenso no centro d’uma grande esphera vazia, inerte, sem fim, em que eternamente se gira e embalde se chora, sem echo. Fôra de mansinho e descalço, cheio de uma ternura lacrimosa, chamar por ella, dar-lhe agua: a sua pelle sêcca, de um contacto aspero, ardia de febre intensa. Os olhos, de um azul apagado, escancaravam-se n’um pasmo doloroso; um sulco parvo distendia-lhe a bocca, sêcca e fetida; a respiração cortada, longa, lenta e difficil, soava por toda a casa, com um ruido de serra. O João parava então em frente da cama, absorto e diluido em presentimentos tragicos. A alcova era estreita e núa, de tecto muito baixo, toda pespontada das moscas. Uma cruz negra pendia á cabeceira, com uma palma sêcca, ao través. N’um canto, um caixote cheio de ferramentas manchava cruamente as faces rectangulares do recinto. Umas saias esfiadas pendiam n’um cabide, com um capote verde, e em torno, moscas aos magotes, zumbiam famintas, como quem se aborrece da ociosidade. D’alli a nada entrou a senhora Joaquina, a visinha do lugar. Trazia um caldo, duas maçãs, cobertas com um guardanapo. E curvada para a doente perguntava como tinha passado a noite, mas calou-se logo empallidecendo, com a chicara na mão.

O olhar do João collava-se n’ella como um borracho sob a aza da mãi, um terror ullulante penetrava-o, com profundeza gelida e cheia de allucinação. A senhora Joaquina olhou para o pequeno e disse isto:

--A cousa está mal!--E sem uma palavra ergueu-se e sahiu. Elle ficou pregado na parede, sem resolução: ouvia os baques do coração convulso, mas não pensava nada, não se lembrava de nada; ficára para alli, como se o atirassem. E media as palavras no ouvido:

--A cousa... está... mal! O que seria?--Tentava fazer um supremo esforço, queria por força voltar á sua disposição habitual, respirar livre, mover-se elasticamente, marchar firme, com os seus rijos pés plebeus, mas experimentava uma cousa, inexplicavel talvez: era como se o seu corpo se alongasse muito n’uma facha elastica, e lhe tivessem esmagado a cabeça entre laminas de ferro, depois de o haverem adormecido com chloral, em grande dóse. E no fundo do seu peito dobravam como n’um enterro, aquellas quatro palavras lugubres:

--A cousa está mal!--Os seus olhos erravam pelo tecto, pelo cabide de que pendia o capote em contornos de mortalha, amplas dobras de um funerario abandono. E casualmente, desceram contra as roupas da doente, que arfavam ao tic-tac da respiração. O dia estava triste e forrado de burel; ouvia-se cahir a chuva nas telhas, com um compasso monotono e fino. Á alcova mal chegavam franjas pardas e mal definidas de luz, que não conseguiam contornar as cousas e em triangulos colossaes, amontoavam penumbras ondulantes, de um pavor febril. No animo do João tambem, enormes scenarios de trevas desciam, e obelisco de bronze, o infortunio como o aniquilava sem appello. A sua imaginação viva e de uma excitabilidade supersticiosa e audaz, fazia surgir como no alvo de um phantascopio, grupos nubivagos de defuntos e velhas historias diabolicas de enforcados que ouvira ás visinhas: e tudo eram olhos pela parede, pelas enxergas e pelo chão, na sombra, na treva, na incerta claridade da porta, que o fitavam escancarados, com uma teimosia agoureira e uma surpreza cubiçosa. E parecia-lhe que alguem o ia a tomar pelo gasnete, que velhas sardonicas, cheias de feitiços, afiavam estyletes para o rasgarem, e um papão de grandes barbas revoltas, capuz profundo de asceta, levantava sobre elle os braços prenhes de maldições e castigos. Os seus ouvidos resoavam interiormente, n’uma vibração confusa de archeus; sentia as fontes baterem com uma onda de sangue convulsionado, e todo o seu desejo era fugir d’alli e correr para fóra; mas tinha medo de voltar-se; o silencio gelava-o, como de crypta secular, em que se tropeça em ossadas de cavalleiros, e se abrem caixões de velludo preto, ao gemer estranho do orgão. Pela tarde adiante a visinha chegou, com uma garrafa, mostarda, lençoes lavados. E poz-se a fazer sinapismos, esfregações, toda repartida em desvelos amigos. Ao lado, o João immovel abria os seus ingenuos olhos azues, uma admiração tosca e vagamente reconhecida. A Joaquina ageitava as roupas, desembaraçada, mangas de lã vermelha e um lenço de ramos sobre os seios murchos, como fructos sorvidos. E dizia:

--Isto é lá cama nem minha avó!

E alto:

--Vossês não teem um quarto com janella? Mudava-se para lá a cama, sempre ha mais ar.

--Ha, ao pé da cozinha. É o meu.

Foram ambos vêr. Era um casinholo arruido. Quasi no tecto uma fresta pyramidal e profunda, sem vidros, dava uma claridade amarella: ouviam-se ratazanas roer no forro, familiarmente.

A vizinha resmungou:

--Peor a emenda que o soneto!--E com um ar distrahido:--Doenças d’estas, ou bem tratadas ou então...

As ultimas palavras fizeram calefrios na espinha do rapaz. A Joaquina corria-lhe a mão pelos cabellos, com ternura de mãi. E olhava-o esquecida, uma tristeza contemplativa cheia de presentimentos e emoções. Uma lagrima cahiu na mão do rapaz. Elle então quiz olhar firme, com a coragem de um homem, mas alguma cousa estrangulou-o, e deixou escapar um soluço...

Quando acabou de chorar, a Joaquina tinha-o no collo, dava-lhe beijos, dizendo-lhe consolações banaes e cheias de mimo. E d’alli a nada:

--Olha, filho, se ella pudesse tratar-se no hospital...

Elle ficou afflicto, todo desconsolado:

--Mas ficava aqui só. Não a via nunca, objectou.

--Qual! Aos domingos dão licença para visitar as enfermarias, lá isso dão.--E explicava: havia muita caridade, boas roupas, tudo de linho, e quanto a medicos... a mestrança... upa!

O João com as pernas apoiadas na parede, a cabeça no avental da visinha, resistia tremendo. Cortava-lhe a resolução, como uma lamina frígida, esta idéa excentrica e rubra:

--Se ella morresse...

Tinha os olhos cheios de lagrimas limpidamente angelicas e uma pallidez definhada, retocava de um mimo casto a graça correcta do seu rostinho ingenuo. Por mais esforços que fizesse deixava-se ir vencendo por um quebramento pesado de fatalidades lividas. A Joaquina fazia tambem grande esforço querendo parecer forte, exteriormente alegre, e a cada passo o seu ar tranquillo e descuidoso, obscurecia-se de angustias, que o seu coração de burgueza bolsava em golfadas. E dizia como para si:

--Mandei chamar o medico para vêr a minha visinha. Se elle fôr de parecer que vá para o hospital, agarramos n’ella e toca! O meu homem é muito dos enfermeiros. Um d’elles, o Bento, é afilhado; o Zeferino é até compadre de aguas bentas. Ia bem recommendada, não tem duvida. Lá isso... tratada que nem uma princeza, ólá!--E circumvagando a vista pelos andrajos dos quartos:--que n’esta possilga, meu rico, até morrem os que tem saude. Nem sei como vossês aqui viviam e lidavam.--Cuspia de nojo, e resentida:

--Ai! Tudo por causa d’aquelle negro d’aquelle bebedo, Deus me não castigue pela sua misericordia!

Ao anoitecer, a doente empacotada n’uma maca, foi aos hombros de quatro gallegos para o hospital. Era um cortejo doloroso. As mulheres chegavam ás portas, arregaçadas, no meio de filhos descalços. Algumas diziam--coitadinha!... D’uma janella, a costureira explicava o caso para o segundo andar, e duas ou tres tinham lagrimas e torciam os aventaes, lamentando as cousas d’este mundo. A maca era velha e rangente; o vento da noite erguia a espaços o oleado carcomido e apparecia então na caixa do leito o corpo immovel e morto da velha, coberta com o capote, indecisamente esboçado. Ia atraz o João, descoberto e afflicto, triste na sua pobreza descalça e orphã, como um cão fiel que esqueceram. A Joaquina parada á porta, chorava. Uma ovarina passou, inquiriu do pranto. A outra mostrou-lhe com o dedo a maca, que desapparecia no cotovelo da rua, e disse:

--Aquella já cá não volta.--Escurecera de todo. Um homem de blusa accendia os lampeões.

* * * * *

No hospital, a maca pousou. Dois moços vieram para expulsar o pequeno, que queria ficar com a mãi. Sósinho, abandonado e partido de soluços, foi-se acocorar n’uma porta: ficava diante, com uma grandeza sepulchral, a parede branca do edificio, glacial e esburacada de janellas, onde uma luz vaga, mortiça, esmorecia. Junto da porta a sentinella girava, e no pateo através das grades, figuras de apostolos, enfileiravam a sua magestade de pedra junto da parede, em pedestaes geometricos e frios. Alli estava a mãi! O que iriam fazer d’ella? Nunca entrára na enfermaria: como seria? E figurava camas de palha cheias de podridão, em que se estorcem corpos de gallegos e mulheres tisicas, n’uma promiscuidade canalha. Sentia suffocações no peito: nem podia chorar! E a rua no entanto, sonora de passadas de transeuntes, operarios que recolhiam, garotos felizes que vadiavam gritando, offerecia aspectos alegres e scenas de vidas bem alimentadas, no quente aconchego dos ménages probos e robustos de labor. Uma saudade lacerante entrou no coração do garoto; e como nunca, encarou a sua vida miseravel. Quando entrou em casa teve medo: uma solidão mortal na cozinha, as ratazanas tripudiando no saguão; abandono, pobreza em tudo. E seria assim sempre! O pai na prisão. A velha no hospital. Que desgraça, que desgraça a sua!...