Contos

Part 6

Chapter 63,743 wordsPublic domain

Pouco a pouco o aprendiz pôz-se a reparar em tudo, na casa, nos objectos d’uso, na cozinha, nas lavagens. Carolina não tinha nenhum d’esses instinctos delicados e espontaneamente artisticos, que são a revelação da mulher; nos seus menores labores era de uma incorrecção tosca e de uma rotinice escura. Não varria a casa, ou varria-a mal; nenhum methodo, nenhuma paciencia, nenhum amor em conservar as cousas. O João mandára para casa uma commoda, cadeiras, um pequeno espelho, duas jarras de louça azul, e elle mesmo tinha disposto tudo, esfregado o sólo, as portas, concertado as bancas e o leito, nas horas vagas. Mas dias depois o pó cobria tudo, havia signaes das mãos gordurentas de Carolina nos puxadores das gavetas; a cama estava sempre desmanchada, com o signal dos corpos. Elle perguntou-lhe uma vez:

--Que fazes tu, quando eu vou para a officina?

--Costuro alguma coisa, durmo. É tão triste!...

--Mas filha, deves arranjar a casa... aventurou elle.

Carolina ficou-se. A sua natureza preguiçosa, habituada aos ocios, quebrava-se de fraquezas, bocejos e espreguiçamentos, só de lembrar-se do trabalho que tinha a fazer. Ás vezes luctava, fazia uma grande actividade, mexendo por um canto e por outro, mas vinha a fadiga, o aborrecimento: atirava-se para cima dos colchões.

--Se eu não posso!...

O aprendiz dera-lhe vestidos novos, uma pequena capa de xadrez, mantas, roupas de patente com abertos. E tudo andava pendurado pelas portas, á poeira e aos encontrões, desmazeladamente. Passava horas penteando os seus cabellos ruivos, annelados e finos, de lustro macio e espessura abundante, phantasiando penteados, ensaiando laços, cuias arrebitadas, vaidadesinhas de criança. Outras vezes amanhecia preoccupada, taciturna, nervosa, salivando pelos cantos; fazia o almoço muito cedo. O João ainda ficava ás vezes na cama: ella ia devagarinho olhal-o; aproximava-se curiosa, absorta no vulto do aprendiz que arfava sob as roupas mornas. E cheia de vertigens, de subitaneas paixões que rebentavam do seu temperamento em espiraes de desejos, lançava-se a elle, abraçando-o como doida, fazendo as protestações mais vivas e os amuos mais dôces, tentando vender-se sob uma face nova, inventando mesmo ardores, manias e excentricos phrenesis inexplicaveis. No meio de tudo isto, e afóra estes arrulhos, o seu desarranjo era o mesmo; não lhe passava pela cabeça que captivaria o seu homem, tornando-lhe o lar alegre, limpo, fresco, fazendo luzir a boa ordem, a boa administração e o decoro nos mais simples pormenores da residencia. Fóra do peccado mortal, não tinha prestimo, nem imaginação, nem proposito.

E n’este meio o seu corpo desenvolvera-se um pouco; os seios ampliaram-se n’uma curva graciosa, de contorno quasi casto; e esmaltado de pallidez morbida, lasciva e um pouco scismadora, o seu rosto era dôce, de uma harmonia dolente, como certas pinturas de virgens martyres que oram em attitudes pias, no fundo das capellas da arte gothica.

Um dia o João achou-a fetida, cheirando a saias velhas; nunca mais lhe sahiu esta idéa da mente; entrou a achal-a esqueletica e cançada; ao deitar-se fazia um esforço para não parecer saciado, mas os seus beijos eram frios, convencionaes, espaçados. Ella reclamava, cobrindo-o da sua paixão como de um caustico, querendo reapoderar-se d’um amor que lhe sentia fugir e padecendo em balde, ciumes de todo o mundo. E começou a desconfiar, a seguir o João á officina, a furtar-lhe as voltas. Nas menores palavras que elle dizia encontrava dois sentidos, o apparente, e o occulto que parecia envolver sempre um sarcasmo, uma ameaça, um insulto. Foi uma lucta tremenda; a sós fallava alto, altercava comsigo mesma, dizia pragas, architectando projectos de vingança e planos de seducção.

Havia horas em que a sua vontade era morrer, tomar qualquer corrosivo, precipitar-se da muralha de S. Pedro de Alcantara; outras vezes estalava de afflicçoes, contorcia-se em desvairamentos supremos, querendo chorar, soluçar, pôr em evidencia a sua sorte. Quando elle vinha, affectava rosto sereno, uma certa despreoccupação feliz: mas a sua gana era apertar-lhe as guelas, para que outra o não gozasse. Em quanto o João comia, ella encostada á porta da cozinha punha-se a fital-o do fundo da sua paixão damnada, cheia de idéas tragicas. Uma noite agarrou-o pela cintura, os olhos envidraçados:

--Tinha mesmo vontade de te matar! disse sofrega. O João riu-se, olhando-a; mas ficou logo todo serio, abrazado n’aquella ancia, e uma corrente galvanica percorria-o, nascida no olhar d’ella, sequioso e feroz, cheio de gula e de fel.

Vieram então as pequenas especulações, as pequenas ciladas sujeitas todas a um plano geral de má indole, de reserva e de ciume--da parte de Carolina. Umas vezes, era o jantar que não estava prompto a horas, outras reclamava bugigangas de adorno, fitinhas, meias de riscas escarlates.

O João satisfazia tudo, ouvia tudo, mas era-lhe indifferente esta ou aquella deliberação; tudo achava capaz, assisado, justo.

Já não era o mesmo. Emmagrecera nas faces e andava pallido, com os olhos fundos de cansaço. Tinha agora para mirar as mulheres uma attenção persistente, uma fixidez de olhar que as percorria todas, desde os cabellos até aos pés. E muitas vezes na rua voltava-se para traz, seguindo as que lhe passavam perto. As suas predilecções eram todas para as roliças, e sentia furores pelas trigueiras, em cujo labio superior via ensombrar-se a penugemzinha de um buço, denotativo de vivacidades de temperamento e escandecencias de sangue.

--Mulher que se sinta nas mãos! notava elle rudemente.

Esta transição demarcava o homem feito e precocemente liberto das ultimas infantilidades, homem com caracteristicos de appetite, phrenesis e vacillações de caracter.

A cara emborbulhára-se-lhe de barba, tinha-lhe engrossado a voz e accentuava-se um cunho imperioso no seu modo de dizer.

Na officina, quando de manhã apparecia em algum d’aquelles desalentos profundos, nascidos da desordem das noites, os collegas riam-se cobrindo-o de chufas e apoquentando-o com perguntinhas velhacas. Do seu banco, o Ferreira não dava palavra, mas de quando em quando sahia-lhe um canto nasal, espaçado por grandes silencios, que era a sua fórmula de raiva brusca, recalcada por sessenta annos de prudencia. Os intimos porém queriam da bocca do João saber por força como tinha sido, se adormecera tarde e se a lua de mel continuava. Entre risadas apupavam-no dos bancos de trabalho:

--É o mez dos gatos, não admira, diziam.

Elle dava cavaco em ouvindo estes dichotes. Ficára mal com os dois ou tres mais atrevidos, jurando que faria alguma ainda. O seu genio concentrava-se n’um silencio reflexivo, quasi triste. Era muito exacto ás horas do trabalho, pacientissimo aos ralhos da rapariga, vivia pouco em casa, recolhia tarde. Ella uma vez observou-lhe:

--Tu já não és o mesmo rapaz, João!

--Ahi vens com tolices, tornou elle.

Carolina invadia-se de um terror desconhecido, toda entregue a uma desconsolação.

Uma tarde a Marcellina appareceu:

--Adeus, filha, adeus.--E notando a commoda, as cadeiras:--Viva! Isto é que é! isto é que é!... Viu-se tafularia maior?--E mirando Carolina:

--Que senhoraça, que senhoraça! Toda no chefe. Sua espiguilha no casibeque, sua cruz ao pescoço... Ai! quem tem homem não sabe o que tem. Vejam como tudo está mudado.--E baixo:--Quanto custou cada metro?--Apalpava a fazenda do vestido, esfregando-a, estudando a espessura. E expluiu logo em narrativas, que a mulata tornára para o hospital, e morrera! Minhas ricas quatro moedas, que fiquei a vêr navios. E azorragando os caloteiros abria a caixa de tartaruga, tomava rapé com os dedos em leque, sorvendo com grande delicia, o olhar piedoso.

--Como te vaes dando com elle? inquiriu, passado tempo.

--Bem; então como? É muito bom rapaz, lá isso sempre o direi.

--Bom genio, hein?

--Bom genio...--E vencendo uma repugnancia, affectando grande franqueza para com a velhona:--Olhe, todos nós temos as nossas cousas, percebe?

--Está visto, está visto. Que bom, só Deus.--Fizeram um silencio beato. A Marcellina desconfiava já que tinha havido _mócada_. Interrogou cheia de curiosidade:

--Mas houve alguma cousa?

--Não. O que havia de haver? Hoje em dia, uma mulher precisa saber de tudo. Eu confesso a verdade: de engommados não sei. Quem é pobre não usa certas cousas.

--N’isso fui eu sempre, com’a primeira. Não é por me gabar. Que engommo encanudados ainda hoje, como poucas--e explicita:--e que é uma das cousas mais custosas de fazer bem, o engommado!... só o polimento!...

--É verdade, é verdade, dizia Carolina.

--Mas o que? Elle disse alguma _piada_ por isso?

--Estranhou. Elle nunca se zanga.--Armava no rosto uma soberania indomavel.--Zangar-se? Oh!... tenho-o aqui fechado--e estendia o punho--mas...

--Ora dize a verdade: tu queres contar-me alguma. Co’os diabos! Bem sabes como eu sou. Falla á vontade. Se eu te puder valer... p’r’ás amigas estou ás _ordes_.

--Olhe, é verdade. O João nos primeiros dias, eram excessos que nem eu sei. Andavamos sempre aos abraços, ás festinhas, nunca nos separavamos. Mas ha uns dias que o vejo apoquentado, mettido comsigo; come e vai-se com Deus; hoje não gostou do jantar; passa as noites fóra, recolhe-se altas horas; a minha desgraça!--A velha pasmava.

--Pois olha, fartou-se cedo, o melro! Então será de má bocca? Mas não desconfias de nada? Não lhe déste tu motivo?

--Que eu saiba, não. Talvez se aborreça por eu não saber bem governar a casa. Sempre disse: nunca Deus me dará fortuna em cousa nenhuma!--A Marcellina reflectia. E d’alli a pouco:

--Queres tu experimentar as cartas? A vêr o que dizem.--Carolina estremeceu.

--Credo! Tenho medo.--E mais baixo:--Dizem que apparece o diabo!...

Ficaram caladas. E depois:

--A mim, ninguem me tira da cabeça que o João anda de _olho_ com alguma _gaja_.

Puzeram-se a fallar no tempo. Marcellina ergueu-se para sahir.

--Se elle te não quizer, filha, não morrerás de fome por isso. Graças a Deus, em quanto houver homens, qualquer mulher se governa. Tive muito d’isso, tive. Ai!... Tomára-me n’esse tempo!--Desceu a escada. Á porta observou, piscando maganamente o olho:

--Não fui das que gozei menos, não. Que até condes beijaram este palminho de cara. Ai! Bom tempo!--E serviçal:--Eu indagarei, eu indagarei a cousa.

A rapariga não dormiu n’essa noite. Ergueu-se inda lusco-fusco, cabeça pesada, uma fadiga enorme nos membros. Sentia que a sua vida oscillava na noticia que a Marcellina trouxesse, como n’um fulcro de aço uma agulha magnetica. Ao meio dia de feito, a velha voltou, olho arregalado, agilidade de alcoviteira no andar, rebolando-se, co’as barbicas assanhadas.

--Sabes tu, sabes tu? Vai todas as noites ao Moinho de Vento palestrar com uma sirigaita do primeiro andar, mesmo á esquina do pateo, por cima da loja de louça. Está alli horas ao relento, a _tomar argarejos_: só com uma carga de pau!

--Por isso elle vem tarde!...

--Vejam as habilidades do Santo Antoninho de quinta, hein? Ahi está para que elle se empenhou tanto commigo, para chegar á tua falla; vês tu?--Atafulhava as ventas de simonte. Carolina ficára morta de surpreza, de terrores, e desesperação.

--A minha desgraça! repetia. A minha desgraça!...

--Quem me contou tudo foi a Mathildes, uma que engomma para fóra; eu estava mesmo parvinha de todo, nem o queria crêr, vê tu lá. A gente vê caras não vê corações: é certo. E para mais é todo amigalhaço do irmão _da dita pessoa_; andam sempre de sucia, grandes chalaças, sim senhor; franquezas de tabaco; para onde quer que vão, vá de vinhaça, _comes e bebes_, com toda a grandeza! Ai! hoje _presentemente_, minha rica, nem uma creatura sabe para o que está guardada. Algum dia em acontecendo uma d’estas, parece que até _ia tudo raso_. Havia justiças, muita obediencia; então com quem brincavam elles? Hoje... Eu até fiquei sem vontade de comer: t’arrenego! e depois veio-me a dôr.--Dava um estalo com a lingua.--Mas deixa estar, que t’o cantarei.--Carolina nem ouvia.

--E agora? disse ella com um gemido, atirando-se com uma grande angustia sobre os colchões, miseravel na sua decepção.

A Marcellina tentava fazel-a sentar, compondo um rosto compungido. E dizia a espaços:

--Ó filha, pelo amor de Deus! Isso não é agora morte de homem. Ha muitos modos de governo. Estavamos servidas se fossemos agora a morrer por todos os malandros que se _raspam_, em nos apanhando.

E como achando o modo de tudo solver, em quanto a outra chorava:

--Olha, pódes-te empregar na fabrica, dois tostões por dia; leva-se _lunch_.--E muito baixo:--para quem quer _reinar_, nada melhor.--Piscava o olho:--percebes, percebes?--E desenvolvia projectos, propunha expedientes.

Encontras logo arranjo; nas fabricas então é _como passastes_. Conheço lá muitas que andam alli mais estimadas, que eu sei; ellas bem vestidas, bem _doiradas_, arranjo de seu, alli o jantarinho de carne todos os dias...

--Gente sem vergonha! commentou Carolina, com voz cantada pelo pranto.

--Ora historias, filha, historias!--E sentenciosa:--Que n’isto de vergonha cada qual toma da que gosta. Em se evitando fallas do povo, deixa andar. Dois dias que a gente anda por cá...--E generalisando a doutrina que prégára:--se vamos assim, então não ha ninguem de vergonha no mundo.--Carolina abanava a cabeça. A velha com ademanes de mestra, cuspia-lhe no animo a sua piedade de estafermo.

--Ainda estás muito verde, minha rica! dizia.

Cahiram em silencio. Ás vezes soluços fundos, estrangulavam a garganta da rapariga.

--E eu que cri em tudo! lamentava ella.

--E não queres vêr? Eu iria pôr a mão nos livros sagrados. Não me salve, se julguei que succederia isto.--E com voz cantada:--vamos nós agora a vêr o fio da meada. Como diabo sahirá elle d’esta?

--Como sahirá? casando com a outra. Vejam como. Lá tem o irmão que a defenda. Só eu não tive quem me aconselhasse.--E desfazia-se n’um choro intimo, dizendo a sua infelicidade.--Morre quem faz falta, só Deus me não chama p’ra si...

Havia tempo que homens altercavam na rua, entre sons de guitarras. De repente, uma voz avinhada disse um _fado_ choroso, em que se despediam almas e se davam facadas, em verso. Rameiras de grandes caudas de gomma riam com estrepito, dizendo doçuras roucas, de uma vadiagem canalha. Carolina gemera:

--Ai vida, vida! Só aquellas nunca estão tristes!

A velha tinha-se erguido, interessada na algazarra da rua, curiosa de espreitar a pandega como um antigo commensal expulso. A voz dizia:

_Pobres donzellas honradas, Quanto de vós tenho dó!_... ..........................

Carolina de cabeça um pouco erguida, tinha ficado a escutar; toda a gente ria quando ella chorava!... Em que coração acharia interesse?--E via de pé a sua desdita envolta em fumos negros, olhal-a cheia de rancor inquebrantavel. Queria recordar-se da sua meninice, como quem se refugia, mas diante d’ella desfilavam recordações lugubres, surgiam grupos de mortos, filas de cyprestes, um coveiro encanecido que erguia a enxada, cantando.

Não tinha a menor idéa do que fosse ter mãi ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxuria cruel. Vivera sempre em si propria, sem a reminiscencia de um carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalisado. Quantos beijos deixára roubar aos moços do cemiterio e quantas palavras tinha merecido aos gatos pingados, todas vinham hervadas da mesma idéa e do mesmo intento. E assim crescera n’aquella incultura de espirito sem guia, sentindo dentro avigorentar-se-lhe apenas uma tendencia--a da cadella fertil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhára o mundo, esfaimada e torpe como se fôra um verme descommunal das sepulturas, incapaz pelos desolados scenarios que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar accesso na sua alma ás multiplices emoções e susceptibilidades hystericas, que fazem da mulher o precioso receptor das cousas mais subtis, que a lingua não exprime e os olhos mal sabem formular.

Tinha-se dado ao primeiro que chegára, sem condições e sem receios de pudor. Fôra a Marcellina a causa de tudo. Para que lhe viera contar de padres babosos e varinas amancebadas?

E detida, conscia de um desalento mortal, sentia na penumbra os olhos de Marcellina, cahidos sobre a sua cabeça com um brilho fatidico. Fóra, riam com estrepito no meio de disputas sordidas. A velha tomou-lhe a mão, aproximaram-se ambas da janella.

--Queres um conselho mesmo cá de dentro, queres?

--Que é? fez a rapariga.

A outra estendeu o braço na direcção das janellas de taboinhas, e o seu dedo engelhado apontou as cabeças de altos penteados, que destacavam com relevo negro no tom vermelho dos quartos alumiados da casa fronteira.

--Olha, disse ella. E com gesto de quem se impõe, de quem se mette por uma pessoa dentro:--Lembra-te do que te digo hoje.--A sua voz insistia, escolhendo os tons persuasivos, dôces, sinceros, e ao mesmo tempo as suas palavras discretas, ditas no fundo d’um segredo, vinham com uma intenção perfida, cheia de depravação. Carolina ficou hirta perante aquellas insinuações, olhando com os seus olhos cheios de febre, a cara franzida, esperta, d’essa megera que dominára o seu destino impellindo-a na perdição e apontando-lh’a como um fim logico, consequente e feliz. Grandes desvairamentos pulavam-lhe no craneo, exagerando-lhe os sons, tornando-lhe as figuras sarcasticas e as sombras lugubres. E as fontes pulavam-lhe, como molas premidas que reagem; e o seu espirito dilacerado de afflicções saturava-se de alguma coisa estranha, como o indifferentismo ou a idiotice.

* * * * *

N’essa noite o João entrou a deshoras; cambaleava de bebedo, cantarolando todo cheio de terra, como quem tivesse cahido pelas ruas, á porta das tabernas. Ella viu-o chegar sem se mostrar surpreza, como quem esperava mais. Mas disse ao metter-se na cama, estas palavras sem nexo:

--A fabrica...

E com um movimento imperceptivel de labios:

--O collegio...

E ficou a pensar, immovel, com os olhos fitos na luz.

* * * * *

Estas duas palavras representaram d’alli em diante o seu destino, guiaram-na por um caminho espinhoso que sonhara ridente, em horas de contemplação e plenitude.

Ao João era manifesto o tedio d’aquella vida e o mau estar d’aquella união. Pouco a pouco, com transições insensiveis, as palavras d’elle adquiriam notas asperas, grandes phrenesis inesperados, uma taciturnidade crescente, moedora e constante. Ella experimentava por seu turno uma altivez ferida e rebelde de mulher espesinhada e esquecida por outra; em certos dias estrangulava de raivas surdas em que resfolegava a espaços, a ancia de humilhar, infamar, perder alguem; fazia arias estrondosas pelas casas fóra, garganteando pelintramente como no theatro; mas a noite vinha gradual; ficava logo invadida mortalmente de uma grande tristeza, de uma inexplicavel passibilidade indifferente ao estimulo, dominada de presentimentos e architectando toda tremula futuros famintos, esfarrapados e enfermos. Não passava uma tarde sem vêr a Marcellina; juntas, parolavam durante horas, desenrolando planos mysteriosos e discutindo futuros. A velha revelava pormenores de officio, as subtilezas de que lançam mão certas mulheres, o segredo de provocar, chamar, sorrir, andar na rua, mostrar as riquezas do busto, conservar a face rosada, mesmo depois de uma noite de orgia. Carolina reagia com monosyllabos apenas, a esta insinuação torpe; mas abandonada pelo João, a fallar a verdade, que faria? Foi assim que ella determinou entrar na fabrica, em Alcantara. O João não oppôz resistencia; via o meio de afastar aquella rapariga importuna que o estorvava nos seus projectos, nos seus namoros. Ia todas as manhãs muito cedo, com o seu passo miudo e rapido, saracoteada e risonha, com a sua manta de borlas, uma capa de escocez verde, saia de folhos, o _lunch_ n’um cabazinho da Ilha. No caminho encontrava as companheiras, moças alegres e desembaraçadas, cheias de risos, largando chalaças de mordacidade equivoca. E iam todas por alli fóra. Os merceeiros dirigiam-lhes afagos perfidos, apupavam-nas os gallegos sujos, os estudantes e os soldados. Que pandega! Respondiam a tudo com grandes risadas bebedas. Uma então, a Jeronyma, trigueira, a face picada de bexigas, até dava encontrões nos policias, piscando os olhos: e todas se divertiam a valer. Á entrada da fabrica, os operarios davam-lhes abraços, com grande intimidade; tratavam-se todos por tu, com uma algazarra incorrigivel, até que o fiscal, de barba branca, o seu casacão amarello, um cachimbo preto de nogueira, abria as portas da officina. No corredor, os operarios dividiam-se em turmas; uns iam para o empapelamento dos cigarros; outros iam picar o tabaco; alguns cortavam rotulos para as caixas de charutos. Se o borborinho crescia em torno das longas mesas de trabalho, o fiscal erguia a voz:

--Nada de algazarra! Parece que estamos n’alguma feira!--E todos fallavam baixo, contando historias pagãs de gente sem vergonha, de uma sordidez de viella. Sem grande esforço Carolina aceitou estes habitos que se lhe afiguravam de uma naturalidade legitima, tão sincera e tão commoda. Affeiçoára-se á Jeronyma, participando das suas opiniões, dos seus ditos, da sua fama. Ao escurecer o fiscal dizia, dando uma grande palmada na mesa:

--Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo!--E todos largavam o trabalho, tomavam os seus chapéos, os seus chales, os seus capotes; na escuridão do corredor estalavam beijos, pares canalhas escorregavam nas escadas, havia gritos, e a chusma em tumulto, n’uma desordem vadia, atulhava rapidamente o pateo, combinando cêas, encontros, relações impuras. Foi a vida melhor que Carolina viveu. Aquella grande liberdade, infiltrára-lhe uma alegria espontanea, uma grande destreza, um vigor manifesto. Ganhava dinheiro além d’isso; cabida nas graças do fiscal, obtinha sempre uma feria bem favorecida, sua gorgeta para alfinetes. Teve a partir d’aqui, pelo menos, uma duzia de amantes, amantes de uma semana, de um dia, preferidos á noite, esquecidos no dia seguinte, e concorrendo todos para a sustentação d’um luxo que pouco a pouco se ia manifestando em Carolina. Um domingo appareceu em casa da alcoviteira, toda penteada á moda, com um chapelinho de fitas verdes, um casaco bordado de contas, meia de riscas, leque. A velha discutia com duas raparigas o preço de um vestido de fazenda, que mostrava com largos elogios.

--É um ovo por um real, minha rica, dizia.--Um vestido como novo!

--Mas seis mil reis é muito bom dinheiro, santinha!

--Pois olhem que da peça é o triplo do custo. Agora façam lá o que quizerem.--E voltada para Carolina:

--Viv’ó luxo! Viv’ó luxo! Vaes _óservando_ que eu tinha razão no que dizia.--E com insistencia:--tendo tino não ha cousa melhor, meu anjo.--E baixo, tomando-a de parte:--E elle?

Carolina encolheu os hombros desdenhosa, um ar de desprezo. A velha disse-lhe ao ouvido:

--Quem paga a renda da casa?

--Meu pai. Ha dois mezes que o não vejo, por tal signal.

--Pois filha, se o João não te serve para nada que se ponha ao fresco, quanto antes. Primeiro, o teu governo.

--Sim, sim, disse ella pensativa.

E dirigida pela alcoviteira, começou a viver só.

Desde esse dia, as aventuras vieram-lhe por centenas. Conheceu todas as especies de homens a quem se impingia ás horas, por baixo preço. As gengivas tinham-se-lhe descarnado, pintava os beiços com carmim e para o giro da noite cobria-se toda de pó d’arroz. Forçava-a a profissão a pequenos sacrificios, no intento de agradar aos que a buscavam. Comprimia os pés em sapatinhos altos, golpeados no peito para deixar vêr a meia de côres.