Contos

Part 16

Chapter 163,892 wordsPublic domain

Padre Nazareth, por seu turno, andava regalado e contente. Vinha almoçar e jantar todos os dias, grandes cuidados com as camisas, e barbeava-se a miudo. Nos primeiros dias tivera contrariedades. Aos seus instinctos de agricultor brutal repugnavam as branduras da catechese, os mellifluos conselhos ditos entre citações de Santo Agostinho, João Chrysostomo, Carlos Borromeu e Basilio, authores por que, valha a verdade, passára a correr, havia bons annos, no seminario. Afizera-se desde que residia na villa, a uma vida de episodios rudes, vindimas, ceifas e agiotagem systematica. O seu genio violento dava-lhe intermittencias de cólera biliosa, durante as quaes rogava pragas e dizia obscenidades. Sabia o valor do dinheiro, e conforme usava dizer--poucos o enganavam. Adorava o dôce. Em pandegas de amigos porém, gozava fama de gracioso e sabia beber. Como prégador era fallado nas terras proximas--boa voz, fazendo chorar na _Paixão_, gesto dramatico e uma emphase pouco seguida em geral nos pulpitos da provincia.

Chico Praça, poeta da villa e o que mandava correspondencias ao _Bejense_, costumava dizer na loja do Burjaca, aos proprietarios que alli iam palestrar, ás noites:

--Para côro o padre José Pereira, mas no pulpito o Nazareth.

E todos:

--É pena que se não dedique!

Eram succulentos e escolhidos os almoços e jantares da senhora fidalga, vinhos de feição, boas loiças, um ar de festa, natas e doçarias de Lisboa. Padre Nazareth gostava, e vinha dizer para a loja, aos proprietarios:

--Bella pastelaria hoje!...

Ou então, arrotando com pompa:

--Diabo! Pois fizeram-me mal as perdizes trufadas. Aquellas basofias excitaram ciumes na terra; muitos diziam com um riso perfido:

--O mariola achou ama a seu gosto!

E alguns cuspindo:

--Ora o estupor!...

Pouco a pouco, padre Nazareth foi-se afazendo ao novo estado, lia o _Flos Sanctorum_ em casa para alardear de instruido, limava as unhas e andava gordo. Na feira de Evora, trocou a mula por uma egua castanha, comprou arreios vistosos e estribos de ferro. Ia todas as manhãs dizer missa ao convento e ouvir a velha de confissão. Á medida que ascendia no espirito da fidalga, tratava de complicar os regulamentos da devoção, difficultando a entrada no reino dos céos e pintando Deus como um rabula exigente, que embirra com as comidas dos seus fieis, e com as palavras e vestidos das mulheres. Segundo elle tudo era peccado; Deus vigiava das nuvens a humanidade; a vida era simplesmente a ante-camara do grande reino da luz, onde cada mortal mal tinha tempo para se lavar das pustulas malignas originadas da carne, e transmittidas de Adão. E recommendava á velha as asperas penitencias que alquebram, horas e horas de joelhos ante os altares, desfiando rosarios bentos e lendo com voz lamentosa as biographias dos martyres e doutores da Igreja.

Este regimen alterou a saude da velha, e ligou-a pelo terror cada vez mais ao padre.

--Só me sinto bem, ouvindo aquelle santo! dizia ella com um escarro na guela.--E com inflexão de grande medo:

--Oh não me desampare com os seus conselhos, não me desampare com os seus conselhos!

De quando em quando, Manoel do Cabo interrogava padre Nazareth:

--Então o homem chora ou não chora?

--Mais tarde. Vossê entende.

--Pois até hoje, meu rico, nem lagrima.

--Com agua quente, é que é. Vossê entende.

--Só se fôr isso. A fria não dá resultado.

Depois, com ares profundos:

--Que as lagrimas são mornas. Sendo suor, já era outra cousa. Ha suores frios! Andava mais alegre, recebera tres mezes de ordenado e um presente de pecegos, dos melhores. E ao entrar na villa, sobre o _Ginaia_, cantarolava brejeiramente lançando chufas ás lavadeiras--suas maganas, com quem tinham dormido a noite passada? Que lavassem as pernas, grandessissimas porcas!

As noites eram abrazadas e eternas. Não bolia folha na horta, os moços do campo dormiam ao relento sobre as mantas, e tendo por travesseiro as albardas dos jumentos. Nos aposentos da fidalga sómente, as janellas permaneciam fechadas, não apanhasse sua excellencia alguma constipação. As casas de cima, de baixos tectos abobadados e sobrados carunchentos, antigas cellas de frades modificadas para residencia profana, constituiam verdadeiras estufas no verão.

Nos corredores circulava um bafo morno, impregnado de bafio, alfazema velha e incenso--o que recrudescia de um modo terrivel a asthma da beata. Toda a noite a governante levava a abanal-a com ventarolas do tamanho de sombrinhas e a enrolar-lhe em papeis de sêda, enormes cigarros de figueira do inferno, ao som de interminaveis rezas e custosas promessas ao Senhor dos Passos. Porque era agora cega a fé da velhona, na _sacrosanta imagem do Redemptor_. Contára-lhe o padre a historia do convento, sua antiguidade e virtudes. Em tempos antigos, os frades vendiam uma especie de licôr, que curava da peste e punha saradas as ulceras mais damninhas. Rezavam as chronicas do convento de um almirante _do mar das Indias_, da casa dos senhores da Vidigueira, que voltando de longinquos paizes coberto de um vergonhoso mal, se curára de prompto tomando o benefico elixir. E junto ao tanque de pedra tinha apparecido ao veneravel padre frei Vicente das Sagradas Angustias, ancião que rasgava suas carnes a golpes de azorrague--a figura de Jesus Christo, feito homem e cheio do Espirito Santo, vertendo sacratissimo sangue de suas feridas, coroado de espinhos e clamando:

--Faze penitencia, Vicente, faze penitencia que serás commigo no reino dos céos...

Ainda agora se mostrava na terceira lagea do tanque, ao pé do cypreste, o vestigio da pégada do Salvador do Mundo.

A velha derretia-se em prantos ouvindo taes prodigios, batia nos peitos cheia de uma convicção fanatica, e bradando em guinchos de possessa:

--Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna! Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna!--em quanto pelos escondrijos a governante manducava sofregamente, aos ladrilhos, covilhetes e covilhetes de marmelada. O episodio do choro de sangue deu como nenhum outro, insomnias e deliquios á pobre mulher.

--Ha coisas, aventurou ella de olhos baixos, quando certa manhã ouviu narrar o milagre, ha coisas que só vistas.

Padre Nazareth não deu resposta, mas á tarde trouxe nos alforges a _Chronica dos Capuchos_, com um signal na passagem lida pelo sacristão.

--Eu não duvidei, senhor padre, dizia a velha. Ora Deus nos perdôe! Assim minh’alma se salve, em como em...

E no dia seguinte, a titulo de remissão dos seus peccados, entregou quatro libras a padre Nazareth, para esmolas e missas. Em setembro os males da velha aggravaram-se mais, os ataques d’asthma repetiam-se, a tosse era profunda e entrecortada de pieira estridulosa, que lhe resfolegava nas cavernas dos pulmões. Uma noite vieram chamar o padre á villa a toda a pressa. A velha estava a peor, lançára cóleras, fallava em confessar-se...

Padre Nazareth mandou acordar o sacristão e disse-lhe:

--Venha commigo.

Cavalgaram as alimarias caminho do convento, e ao verem branquejar á lua as paredes da cêrca, pelos claros da folhagem, o confessor da senhora fidalga disse ao seu acolytho estas cinco palavras:

--Agua-quente para esta noite.

* * * * *

Era um ataque dos maiores, com silvos e espasmos prolongados. No quarto abafava-se, na exhalação da mostarda e do stramonio.

Em saia branca e chinelos, a governante fazia cigarros e preparava banhos.

E ante cada retabulo de santa ou asceta ardiam velas e lamparinas. Padre Nazareth conhecia um pouco a molestia; tivera uma irmã que soffrera d’ella longos annos. O seu primeiro cuidado foi mandar abrir as janellas, para restabelecer a corrente d’ar. A velha jazia n’uma poltrona ao pé da cama, o escarrador ao lado, tronco um pouco inclinado para a frente, o hausto arquejante.

--Então como se acha a nossa doente? perguntou carinhosamente o padre, curvando-se para ella.

A velha mal podia fallar, e fez um gesto vago.

--Ouça, disse o padre á governante, deite-lhe sinapismos no peito e nas costas.

--Já lá os tem, disse a outra, fazendo-se doutora.

--Bem. Um vomitorio então. Agua morna aos copos; façam-lhe depois cocegas com uma penna, nas campainhas.

E em voz alta, para que a fidalga ouvisse:

--Mandaram accender a lampada do Senhor dos Passos?

--Ha que tempos! tornou a governante.

A esse tempo aquecia Manoel do Cabo à cafeteirinha d’agua na cozinha, disfarçadamente. E quando a viu ferver em cachões, desceu á igreja, pela escada do côro. Havia um silencio lugubre, trevas densissimas no santuario e piar de corujas nas ventanas da torre. Junto d’uma fresta gradeada, á esquerda, abrindo para a horta, a folhagem de um chorão gigantesco fazia marulhos confusos, de maré que sobe. Fóra, nos platanos da ribeira, os rouxinoes conspiravam, e resteas de lua, brancas e vagas, entravam pelas janellas do côro, pondo luzernas no lagedo das sepulturas razas.

Manoel do Cabo desceu de mansinho a escada de tijolo carcomido, que caracolando vinha abrir-se, por baixo do pulpito. Os arcos das capellas cortavam nos muros alvacentos da igreja, enormes boccas escancaradas, em cuja guela, as linhas das imagens se esboçavam, sem relevo. Ouvia-se o roer das ratazanas nos madeiramentos carunchosos, e o rumorejo do chorão nas gradarias da fresta. Manoel do Cabo parou diante da capella do Senhor dos Passos, á escuta. N’algum corredor distante, batia uma porta. Havia conversinhas aos cantos, que ora se afastavam, ora renasciam. Á bocca do camarim enramado de cypreste, o clarão noctambulo da lampada deixava vêr um pedaço de cruz negra, e mais na penumbra a livida cabeça desgrenhada, que pendia no peito com um desalento de morte. Tudo o mais era confuso, accumulado e movediço, apparecendo nas trevas com projecções colossaes, cheias de pavor. O vento vinha a espaços, como se fôra um halito, fazer bruxolear a luz--e despregavam-se então dos angulos formidaveis, desde a abobada até ao pavimento, massas de espectros, que ante o sacrario deserto vinham dançar sabbats allucinados.

Para fallar franco, Manoel do Cabo não estava muito á sua vontade, não. Medo não era bem, realmente. E relanceando a vista, com a cafeteira a escaldar-lhe nas mãos, disse para dentro de si:

--Olhem que bello sitio para a gente apanhar um tiro...

Veio-lhe á lembrança o _Estragado_, que por duas vezes, contra elle puzera á cara a espingarda, e lhe promettera muito cedo noticias frescas... E o Chico da Aroeira, que andava fugido de soldado e lhe provára do cacete, d’uma vez em que fôra apanhado mais a Escholastica, no palheiro.

--Além d’isso, pensava elle, isto cheira a patifaria que tresanda.

Olhou á roda, esteve quasi a voltar para traz. Mas que diabo!... Era uma vez. Se a coisa pegasse, ninguem perdia com isso, augmentava-se a fé no povo--que era pouca como seiscentos diabos. Não pegando, era como se nada tivesse havido. E os proventos a gozar, o aceio da igreja, as procissões... Até era bom para a religião, bem pensado. Andaria pago á hora, boas gorgetas, alli estimado como um rei. E tudo por uma gotinha d’agua quente. Ora adeus!

Subiu as escadas de mansinho, com a cafeteira. Logo á entrada do camarim, deu de cara com um vulto. O _Estragado_. Santo Deus! Entornou a agua a ferver pelas mãos. O vulto olhava-o, immovel, todo barbado. Era um judeu da quadrilha, pintado na parede. Manoel do Cabo resfolegou com força, e foi sempre apalpando--um judeu, não havia duvida. Diabo da peça! A gente ás vezes até está parvo, senhores. E entrou a desaparafusar a cabeça do santo. O sino deu tres horas--ás tres e meia, no verão, é quasi dia. Nas lageas, a luzerna do luar ia-se pouco a pouco apagando. Os cães da horta soltavam uivos.

--Cheira a defuntos que tem diabo! resmungou Manoel do Cabo. E na escavação interior da cabeçorra chagada, ia deitando agua quente.

--Assim tambem eu faço milagres, senhor padre! trauteava o mariola, já tranquillo.

Ás quatro horas, padre Nazareth veio ter com elle.

--Já?

--Poucochinho, mas promette.

--Bem. Vamos dizer missa, mesmo no quarto da velha.

--Então o estafermo morre ou não morre?

--Mais respeito, homem! Podem ouvir.

--Vamos a saber?

--Está mais alliviada. Dormita.

--Temos dinheiro por um sarilho, compadre.

--Venha d’ahi.

Sentindo-se mal, a fidalga quizera confessar-se--resolução que em coisa alguma transtornava os planos de padre Nazareth. Umas poucas de vezes, a governante afflicta pelo caracter grave que a coisa parecia ir tomando, chamára o confessor de parte.

--Que se havia perigo, seria bom chamar o medico, mandar um telegramma para Lisboa ao menino Tristão, fallar á senhora em testamento. Ella tinha um medo... não queria responsabilidades; era uma serva antiga, mais de trinta annos de casa, quasi uma pessoa da familia. E com insistencia voltava ao tabellião, dizendo casos de pessoas que se tinham ido sem testamento, a D. Monica, tia dos Palhas, havia de conhecer; o doutor Mendonça, dos _Proprios Nacionaes_, sem herdeiros e podre de rico, que ella servira dez annos ficando por fim a chuchar no dedo... Que não dizia aquillo por interesse, mas emfim, era um descargo de consciencia. Na penumbra do corredor, os seus olhos luziam cubiçosos e a sua voz sahia baixa, breve, quasi sibilante.

--Havia muita prata, roupas, tres bahús de loiças do Japão. Casa antiga. Lembrava-se de tres governadores da India, e uma quantidade de arcebispos na familia. Ah, lá isso... Nobreza da melhor. E pondo a mão febril no braço do padre, voltava á carga:

--Se havia perigo... Nada, nada de responsabilidades!

Por seu lado, padre Nazareth certificava que não havia motivos para espalhafato. Um ataque mais cruel, eis tudo. Que elle sabia proceder como homem e como sacerdote. E punha a mão aberta no peito, na attitude austera de um illuminado.

--Como homem e como sacerdote, D. Dorothêa! dizia com força, espaçando as palavras. Passára muito na vida, para estar precavido contra eventualidades de qualquer ordem. De resto, affirmava com intenção, não lhe tinha vindo a idéa do testamento, servia as pessoas desinteressadamente, como lh’o dictava o seu coração, porque sabia ser amigo.

E emphatico:

--_Amicus certus in re incerta_... D. Dorothêa!

--Ah, em desinteresse não está o senhor padre mais rico do que eu, ha-de perdoar. Credo! Os modos de dizer as coisas! É perguntar á senhora fidalga, ao menino Tristão e a todos de casa, quem eu sou e de quanto por esta gente tenho sido capaz. Olhe que conheço a familia ha muitos annos. Não é o senhor que me dá lições a mim.

E n’uma vertigem de narrativas para que não tinha loquela avondo, punha em relevo a sua dedicação, o que aturava pelas doenças dos senhores, o que merecera de confiança e estima em toda uma vida de serviços sem preço, o seu amor pelas cousas de casa, e o trabalhão com os gatos e cães da senhora fidalga--que lá por animaesinhos era cega, não faz idéa!

E protestando, contando, tentando fazer-se valer, andava á roda febrilmente, com uma gula planturosa de avara, as mãos espalmadas á altura dos olhos, onde luziam anneis chinfrins de meia libra.

Padre Nazareth nem escutava, mas dizia de quando em quando, para acalmal-a:

--Eu bem conheço isso, D. Dorothêa, bem conheço isso! De resto, a senhora fidalga fizera-o sciente de tudo. Quantas vezes lhe tinha ouvido--que a Dorothêa com ser sua governante não perdia os fóros de boa amiga! Ah, era tida em alta conta, creia isto. E por toda a gente, palavra de honra!--que o não dizia por ella estar presente.

--Demais, acrescentava embaindo-a com a voz ejaculada e surda, de uma discrição culposa, com que no confessionario arrancava revelações picantes ás boas moças do campo apavoradas do inferno--demais, quem lhe diz á senhora que no testamento da fidalga não ha um legadosito...

E vendo-a suspensa, o riso parvo de quem apanhou a sorte, sublinhava umas poucas de vezes o alvitre proposto, repetindo:

--Sim, quem lhe diz á senhora?...

--Que? disse a Dorothêa quasi a abraçal-o, com um bocado de rolo a despregar-se-lhe da cuia. O senhor padre sabe?

--Perdão, atalhou logo padre Nazareth, eu não disse...

E em quanto a outra ficava no corredor deslumbrada, entrou no quarto da velha com ares de levita vergado á imposição de um juramento, hombros altos, um geito vago de mãos e dizendo com um riso ambiguo:

--Segredos da confissão, D. Dorothêa, segredos da confissão!

Ficára satisfeito com o manejo politico que tinha posto em pratica. Apre! que estivera quasi a acarretar o odio da governante--uma zorra que a sabia toda! E devia ter sido bem boa! Mas estava velha, quando não... E mais tranquillo, dizia para comsigo:

--Deixal-a do nosso lado. Não se perde nada.

Tinham já acabado de armar o quarto da velha para a ceremonia da communhão. Defronte do leito e na mesa improvisada em altar, um crucifixo enorme, velho marfim de lividez polida, enchia a parede do fundo, que uma colcha de damasco azul, grandes relevos fulvos, vestia de tons dôces, ouro e céo, á luz de castiçaes e entre tufos de renda, dos grandes cortinados pendentes. Á cabeceira da cama e n’uma baixa poltrona, ampla como um divan, arquejava a doente, entre almofadas de todos os tamanhos, o escapulario branco de Santa Clara na cabeça, destacando n’um fundo de estampas devotas e rosarios tocados em mantos de varias authoridades celestes.

Quando o padre entrou, a velha tinha os olhos fechados e as mãos errantes nos braços da poltrona. O escavado da face denotava intensa fadiga, e exhaustos fundos, arrastados, difficeis e terminando em silvo, davam-lhe um jogo angustiado ao cavername do peito oppresso. Elle andava nos bicos dos pés para não fazer ruido; mesmo assim porém as suas botas novas rangiam, com ruidos impertinentes de janotinha de provincia. E sentando-se manso junto da grande poltrona da velha, tocou-lhe na mão com os seus dois dedos suados. Cortára o cabello de fresco, á escovinha, e aos cantos da testa alongavam-se para traz, lustrosos de excreção gordurenta e destacando no negro luzidio dos cabellos, dois crescentes de calva precoce, onde resaltavam relevos complicados de veias. Visto de perfil era um pouco adunco, sobrancelha cerrada e tons azues de barba espessa pondo-lhe no focinho como que as linhas de um açaimo. Tinha os olhos grandes e bem fendidos, globo um pouco injectado, estourando para diante, e um raio sagaz de pupilla que se lubrificava todo, ante as nudezes trigueiras e turgidas das raparigas da monda. Procurando fazer adocicada a rude voz de que dispunha, disse para a fidalga, de olhos baixos:

--E agora? Melhorzinha?

A velha ergueu a mão para fazer um gesto. E quasi em segredo disse:

--Assim...

--Pois visto que se sente mais alliviada vamos á confissão, para rezarmos depois a oração do Cyreneu que é infallivel, infallivel!

Dava explicações sobre a oração do Cyreneu. Tinha lido na _Chronica dos Capuchos_, de curas miraculosas obtidas pela reza em triplicado, de certa oração mandada ao convento por S. Simão Cyreneu residente não se sabia em que parte, e a instancias de nosso veneravel prior frei Antonio de Nossa Senhora, _para uso de grande cópia de enfermos dos arredores_. Para que da recitação da prece podessem tirar-se seguros resultados, urgia fazel-a recitar em voz alta e ainda de manhã, por tres pessoas ao mesmo tempo, sendo duas femeas e um macho, todas de crucifixo alçado e prostradas em joelhos ante a hostia consagrada.

A doente por cuja intenção se fizesse a reza, seguraria o sudario, em quanto a espaços, um padre lhe iria chegando aos labios a esponja embebida em vinagre, arremedo do que fôra praticado com Jesus Christo, durante a agonia.

Ouvindo a ultima palavra, a velha tremia sem responder. Mesmo assim macerada de rezas e praticas devotas, sentia no intimo o terror invencivel da morte.

Era verdade que as almas, escapando-se dos corpos como perfumes de amphoras, em ondulações suaves iam subindo aos dominios da luz, a crystallisarem-se na eterna graça, sob a unção dos threnos e no reverbero da immortal pureza. Mas o corpo que ella podia palpar e sentir, o que tinha dôres, anceios, cansaços, appetites e suores fetidos, esse que ella facultára nos seus tempos de dama do paço ás excitações de recua, do senhor D. Miguel e seus companheiros, e nos minuetes langorosos se tinha requebrado com meneios de affectada galanteria, na tenebrosa algidez do sepulcro buliria todo negro, n’essa viscosidade da podridão sinistra, que é a ultima infamia da carne!

Vendo-a inerte e muda, padre Nazareth tratava de aclarear-lhe bem as origens da oração proposta, no intento de lhe extinguir os terrores e as sombras funestas. Simão Cyreneu fôra o fiel amigo que nas ruas da amargura consentira tomar sobre os seus hombros robustos a cruz, sob que o Christo vergava, no trajecto para o supplicio. Elle conhecera passo a passo os transes da Paixão, tinha fallado com o Salvador, participado da sua angustia e chorado das suas lagrimas. Era o grande confidente do Filho de Deus, e tinha sido elle o author da benefica oração, que até grandes já tinha resuscitado. Era forçoso pois experimentar, para bem cumprir os preceitos do Senhor.

--Pois sim, sim, dizia a velha a final.

E pondo as mãos, balbuciava a confissão.

Havia já sol quando a oração do Cyreneu acabou. Fatigada por toda uma noite de soffrimentos, e sob o predominio moral da complicada reza, a velha tinha conseguido repousar um pouco. Abafára-se-lhe mais a pieira, e a respiração readquiria-lhe um rhythmo placido. A Escholastica, avisada por Manoel do Cabo, tinha vindo logo de manhã com o seu chale de ramos e lenço de sêda escarlate, o livro de missa na algibeira da saia. Em acção de graças pelas melhoras da senhora, padre Nazareth celebrou a missa d’esse dia, na capella do Senhor dos Passos, a que vieram assistir todos os homens e mulheres do convento.

Terminado o sacrificio, em quanto Manoel do Cabo ia buscar a um canto o apagador, o padre erguendo a voz pediu uma _Estação_ pelo inteiro restabelecimento da fidalga, de quem fez o panegyrico em grandilocas palavras--_mãi de raras virtudes, boa protectora dos interesses de Deus e benemerita da graça divina_.

E todos rezaram a meia voz a _Estação_ pedida, em quanto abrazada em fervores mysticos, a governante unia a face ás lageas da capella, desatando em prantos e suspiros, toda de preto e mordeduras de pulgas no pescoço tisico.

Aquella exaltação commovera a Escholastica, que disse para a mulher do caseiro:

--Se não ha-de ter amor á fidalga, vivendo ha uma quantia d’annos na sua companha!

E a outra, arrebentando nas unhas um piolho que lobrigára na trunfa do filho, durante a reza:

--Com uma certeza, apoiava, com uma certeza!

Mal o padre sahiu da igreja, a Escholastica ergueu-se para ir fazer oração ao camarim do Senhor dos Passos, a depôr-lhe no sacratissimo pé o beijo convencional.

Subiu a escada com o livro de missa nas mãos, de olhos baixos, as mulheres da horta atraz de si. E ajoelhando todas á roda da imagem, entoaram a ladainha, por que a Escholastica tinha grande paixão.

Era a filha do sacrista quem entoava os louvores ou vozes; todas as outras mulheres respondiam atabalhoadamente:

--_Ora, ápornobis!_

E ao _Agnus Dei_, como as burras se enganassem, a Escholastica reprehendeu-as com a sua voz birrenta de sabichona. Então o filho do caseiro que andava á roda bulindo, erguendo a tunica da imagem e dando-lhe puxões na guedelha, gritou de repente com o dedo estendido para a face do idolo:

--Mãi, sangue!

A caseira, que estava de lado, alongou um pouco a cabeça na direcção em que o rapaz apontava, e pôde vêr uma lagrimasinha vermelha, que cahida da palpebra do Senhor, vinha pela face livida fazendo um traço de sangue miraculoso.

A pobre mulher nem pôde dar palavra, levou as mãos á barriga abaúlada por uma prenhez medonha, revirou os olhos e cahiu para traz barafustando. Ao mesmo tempo, a Escholastica que da palpebra do seu lado vira cahir tambem a sua gotinha de sangue, abalou pelas escadas, largando o livro e fazendo cahir a rapariga do caseiro. E possessa, berrava igreja abaixo em direitura á horta--que acudissem, aqui d’el-rei, não era cousa boa, ia acabar-se o mundo!