Contos

Part 17

Chapter 173,803 wordsPublic domain

Foi o sacrista quem primeiro acudiu á berraria, e picando o charuto para a cigarrada de ripanço:

--Qual acabar-se o mundo, nem qual diabo! O mundo não dá fim, em quanto houver santos que façam milagres e desavergonhadas que creiam n’elles.

E n’uma expansão de riso cruel, tomando assento na borda do tanque:

--Malandros e bebedas! É o que ha.

* * * * *

Ao meio dia divulgava-se em Villa Alva o milagre, e a população em chusma, n’um borborinho de cortiço, abandonava a terreola caminho do convento, toda inflammada em fanatismos e psalmejando orações e ladainhas. Á medida que se adiantavam na estrada, os magotes reproduziam-se e augmentavam, pelo concurso da gente que iam encontrando a trabalhar nas fazendas. As beatas ricas tinham aproveitado a occasião para fazer toldar os seus carros alemtejanos, puxados a mulas e cobertos de um toldo primitivo, de lona e caniçados. Algumas em jumentos, de cadeirinha, chouteavam adornadas de cordões de oiro, mitenes de retroz nas mãos osseas, e leques hereditarios pintados de escudeiros e reis. As do Silva, um ricaço da terra, levavam mantas de lã azul, de borlinhas, pregadas em escapulario, com ganchos representando malmequeres. E semelhante luxo fazia sensação na romaria.

Chico Praça com risos scepticos de homem que lê, fôra tambem no machinho do pai, inspirar-se e mangar um bocado _d’aquella saloiada_ ignorante. E espetado n’um charuto de vinte e cinco, fumo de merino enorme no côco dos domingos, manta verde com perinhas bordadas, calça curta arregaçando sobre os elasticos das botorras e o atilho da ceroula á mostra, comprimentava fidalgamente os ranchos procurando informar-se do modo de vêr geral ácerca do prodigio. As raparigas voltavam-lhe a cara ouvindo-o escarnecer dos santos.

--Judeu! diziam. E umas para as outras, como se fallassem de uma universidade:

--É o que elles vão aprender a Beja!

Atraz da chusma arrastava-se cacarejando a gente pobre, mendigas velhas e descalças, physionomias de cera abrazadas por esses olhos chammejantes do meio-dia, em que se repinta em clarões a effervescencia das indoles calidas e insoffridas; velhos pastores invalidos, cobertos de pelles safadas, polainas de feltro, cajados nodosos, e um anguloso secco de mumias, e rapariguitas rotas, vivendo do rolão corneo das esmolas e que a lama cobria de crostas pardacentas. E todos n’uma passividade receosa, eternos vergados á penuria que envilece, lá iam custosamente, parando nos cotovêlos da estrada para detalharem os commentarios suggeridos pelo caso, ou recomeçar com voz quebrada o terço lugubre da penitencia. Muitas mulheres levavam azeite para as lampadas do convento, offertas de pão cozido, fogaças de gallinhas e borregos novos. E corria em segredo que as Silvas tencionavam offerecer ramos de pennas comprados em Setubal, nos banhos do anno passado.

Porque no grosso beaterio da villa, a surpreza do milagre vinha de feição, com os seus embevecimentos mysticos e esse brumoso de legenda que dá, febre ás imaginações sobre-excitadas. Havia duas semanas que escaceava thema para as parlendas de soalheiro. O ultimo caso de aborto tivera lugar havia já um mez--velharia em que mal se faltava já. E em casa das Silvas e na loja do Burjaca, ás noites, arrotando sob a azia do _ensopado_ das cêas, a boa gente lamentava n’um fundo de saudade e desespero:

--Maldita terra! Nem ha em que se converse... O mulherio acreditava fanaticamente no sangue do Senhor do convento, uma lição a esses herejes que vinham do estudo fallando mal dos santos e rindo da confissão e da missa. Deus não era pois uma palavra vã! Vivia, amando sempre a humanidade e chorando pelas suas loucuras e crimes, no fundo melancolico de um templo, que a guerra civil profanára e derruira, nas suas contorsões de bacchante. Iam começar os bons tempos de fé absorvente e sincera, em que as almas vestem a gaze da innocencia para os esponsaes da bemaventurança. Então, por esses campos verdejantes, no fundo d’esses olivaes contemplativos ou sobre as collinas e charnecas em que ora esbravejavam selvaticos, piorneiros e tojaes, erguer-se-hiam de novo os eremiterios alvinitentes, cruz erguida nas fachadas, um cordão de tilias no adro e a porta aberta como refugio aos vergastados pela miseria, ou pelo desalento. Viria o bom tempo das procissões do campo e das festas a orgão, em que as vozes dos frades entoariam a missa n’um extasi seraphico, do fundo dos seus capuzes bemditos. E essa azinhaga lugubre que conduzia ás ruinas, o claustro transfeito em lagar de azeite e as cellas aproveitadas para residencia de gente mundana, regorgitariam novamente de fradinhos gordos, olho dôce e dentes gulosos, que em tardes de primavera, das grades do côro, lançassem cantigas bréjeiras ás roliças lavradoras engorgitadas de desejo e devoção erotica--como n’outro tempo. Muitas velhas ainda, eram do tempo dos frades; algumas mesmo tinham dado guarida a guardiões varrascos, por noites chuvosas, em quanto os maridos na adega resonavam espapaçados no vinho d’essas bebedeiras do Alemtejo, que chegam a durar semanas. E voltadas para o passado em que se reviam frescalhonas e vivas, as pobres davam suspiros de mágoa, lamentando a falta de crenças de hoje, e batendo com as cabeças nos toldos do carroção, a cada solavanco do eixo. Nos homens era menos sincera a crença no milagre. Iam poucos na romaria, e esses mesmos seguiam o femeaço para namoriscarem a torto e a direito.

Padre Nazareth contara discretamente o prodigio na loja do Burjaca, palavras simples, sem paixão e sem commentarios. Não lhe convinha muito tornar-se heroe do caso. Velhaco como era, tinha fé em que os animos se accenderiam por versões mais escandecidas e pelos exageros e mentirolas que na bocca da gentalha usam acompanhar os episodios de força, como aquelle. Effectivamente corria já na villa que a Escholastica cahira de cama, faniquitos a cada instante, um esbracejar de endemoninhada debatendo-se nos pulsos de dois sapateiros vorazes, que a tinham de olho havia muito.

Ao mesmo tempo, o sacrista referira na venda do _Salta-Pocinhas_, á malta que alli se juntava para beber fiado, a historia circumstanciada da velha, as suas peregrinações a Lourdes, a sua grande fé e a sua caridade, uma carinha de santa, muitas esmolas... E transfigurado, tinha descripto a imagem do Senhor dos Passos, chagado e de olhos abertos, de cujas pupillas fixas parecia sahir a claridade de além-tumulo, o quer que era que dava terror e fazia arrebentar de paixão. E as opiniões começaram a desfilar através das conversas, fuzilando, luctando, fazendo contraste. Uns criam no milagre, impondo condições. Outros andavam perplexos. Alguns riam.

--Pode lá ser!

Já se contava que o chôro do idolo, não era de hoje. Até alli ninguem reparára. Inda se o santo désse berros!... Mas calado como era, não attrahira as attenções de ninguem.

--Quem havia de dizer!... ponderava a D. Maria do Juiz. Um Senhor de pau como outro qualquer! E havia quem tivesse já desconfiado.

Algumas velhas até, sonhavam todos os dias com a imagem, resplandor na cabeça, cruz ás costas e a fazer-lhes signaes. E as outras escutando, ganiam de olhinhos piscos:

--Tambem a mim! Tambem a mim!

Mas o carreiro das Silvas, que ouvira tudo muito calado, largou esta de chofre:

--Ponho a mão n’umas _Horas_, em como é pouca-vergonha dos padres!

Ameaçaram-no logo. Pedaço de bebedo, grandissimo traste, que já queria ter opinião nas conversas das suas amas, o malcriado!

E em quanto ellas ralhavam da petulancia do moço, a mais gente nos seus carros e nos seus jumentos, ria maganamente, pondo uma nota rutilante na pratica escura de sacristia, das senhoras devotas imbecilisadas e seccas.

Assente pois que a lagrima de sangue, segregada directamente por Deus, e escorrida da palpebra ossea do idolo, mantinha particulas divinas, gemeas das que ficavam no calix, durante a missa e á invocação do celebrante, toda a gente estranhou que o prior da villa não mandasse repicar os sinos, marchando logo com a irmandade sob o pallio rico, a buscar em procissão solemne o Senhor dos Passos.

Ao subir para o carro, paramentada de sêda roxa e toda de véo pela cara, a D. Maria do Juiz dando com o parocho a passear na praça, inda lhe perguntou o que tencionava fazer.

O velho olhou-a por um bocado muito serio, e disse:

--E a senhora?

--Ora essa, senhor padre! Cumprir com o meu dever de christã. Vou penitenciar-me diante de Nosso Senhor. E seraphicamente:

--Que estão chegados grandes dias!

--Pois felicidades.

E sem mais amens, o velho continuára a passear, batendo na caixa de rapé. Era homem de cincoenta e tantos, calado e grave, com a bondade rude que nasce da misanthropia aldeã em perpetua contemplação do mesmo horisonte e das mesmas arvores. Velho leitor da _Revolução_ e liberal de tempera, viam-no sempre prompto a bramir contra os escandalos que manchavam o sacerdocio, violencias, seducções, roubos, toda a casta de vicios. Intimamente rosnava contra a penitencia, a confissão e essa idolatria das imagens, que torna mais alvar ainda o povo das freguezias.

Em geral vivia recolhido, longe dos fócos de opinião da terra, dizendo missa na matriz ao romper do sol, percorrendo á tarde as fazendas entre um cajado e um cão amarello, e passando as noites em casa do medico, no seu interminavel voltarete.

Quando lhe fallaram no milagre, o prior bateu na mesa iracundo e tremulo, exclamando rudemente:

--Nunca se viu pouca-vergonha maior!

E logo todo pallido, receoso de ter concorrido para o descredito da batina, agitava o lenço vermelho trovejando:

--Homem, é melhor que me não façam fallar!

Aquella violencia alastrou-se de bocca em bocca, espicaçada por commentarios mordentes e velhacas interpretações. Era opinião que o prior detestava padre Nazareth, e sentia atrozes ciumes do seu talento oratorio e da sua fama de rico. Havia annos que os dois se não fallavam, por caturrices de eleição. Além d’isso, as preferencias da fidalga pelo _outro_ haviam sido consideradas na terra como humilhantes para o parocho--um rustico! como se dizia em casa das Silvas. Durante toda essa manhã, muita gente fôra consultal-o sobre se deveria acreditar no milagre. E no intuito mesmo de sondar a opinião de sua reverencia sobre o ponto melindroso, varios pediam uma interpretação logica para a terrivel lagrima do deus.

O velho todo se torcia a cada ataque, e de mil côres derivava na palestra para episodios pueris, colheitas, calores da quadra e preços do vinho. Mas as devotas voltavam á carga de prompto, insistindo se seria verdade, se não seria verdade, se o santinho chorara e seria sangue do legitimo...

Ao mesmo tempo os finorios da terra, proprietarios ociosos farejando escandalos em que entreter tempo, egoistas promptos a gozar, pela espectativa dos contratempos alheios, espicaçavam-no cruelmente e de caso pensado, vontadinha de apanhal-o bem na rede, para lhe pôrem em evidencia alguma lugubre contradicção de crenças profissionaes. Mas o prior permanecia sombrio, suando nas fontes sem dar palavra, um fremito de impaciencia nos hombros.

--Isto de crêr ou não crêr, é da consciencia de cada um, observava elle, apertado.

E pitadeando:

--Cada qual que se consulte e proceda como melhor lhe convier.

Mal a romaria chegou á ladeira que afrontava o convento, os carros fizeram alto, por conselho de D. Maria do Juiz, que era authoridade entre as devotas. As Silvas lançaram-se logo de joelhos. Algumas velhas tinham-se descalçado, e magoando os pés nas asperezas da vereda abrazada de sol, seguiam desfiando rosarios, as offrendas em taleigas de ramagens, chales pela cabeça.

Ao mesmo tempo, o povoléo pressuroso, faminto de assombros e sem paciencia para esperar que os carros passassem na azinhaga, extravasára da estreiteza do caminho, espraiando-se pelas terras ceifadas, aos pulos por vallados e alvercas. Uma febre podre de superstições e pavores dilatava os olhares e enlividecia as epidermes bronzeas, alagadas em suor. De todos os lados choviam promessas, alqueires de azeite, saccos de trigo, milagres de cêra, cabellos, mortalhas, uma infinidade de coisas. Uns promettiam para que o Senhor lhes livrasse os filhos de soldados, outros querendo triplicada seára, em quanto varios desalentados pela doença, sezonaticos e tristes, vinham simplesmente solicitar a cura immediata, mediante o valor de uma fogaça. Era pensamento de todos engodar o idolo com dadivas chinfrins, como fariam a um selvagem por meio de missangas e estamparias. E no intuito de um bom negocio premeditado, vinham chancellar ao convento o contracto, mentalmente e sem escrupulos. Á entrada no templo, foi uma berraria infernal, prantos, latinorios, desmaios... Á frente as velhas descalças, mãos postas e olhos no céo, faziam um clamor de ladainhas e preces, com vozes esganiçadas e lamentosas. A D. Maria do Juiz, que gostava de figurar nas festas e era aia de Santa Catharina, levára de casa um Santo Lenho de prata, que ergueu á frente da multidão.

Desgrenhadas e cheias de espinhas carnaes, as Silvas vinham-se arrastando nos joelhos, de braços abertos, e a cada passo pendiam de canceira com delirios de virgens flatulentas. A. D. Maria do Juiz chegava-se então, e solemnemente, como vira fazer em Beja ao bispo, dava o relicario a beijar, bolsando esquirolas de oração.

For detraz d’ellas accumulava-se a gente esfrangalhada, obtusa n’um pasmo irracional. E batendo nos peitos, muitos diziam n’uma especie de uivo somnolento, entre caudaes de pranto:

--Misericordia! Misericordia!

Eram Trindades quando padre Nazareth appareceu em casa do sacrista. Desde manhã que não sahia de casa. O calor trazia-o morto, suores salvo seja, de jumentinho podre, uma seccura diabolica. Que ia pela cidade?

Manoel do Cabo pôz-se a dizer--o prior tinha zurrado: _pouca vergonha_! na loja do Burjaca não tinham _comido a pantominice_, o mulherio fôra em chusma ao convento, havia tres mil e tanto de esmolas, afóra azeite e pães alvos. Padre Nazareth sacudia o pó das mangas, um fremito jubiloso de narinas e o olho nadando em fluidos de victoria. E commovido exclamou:

--Grande povo este!

Depois, muito confidencial:

--Despejou a cabeça?

--Logo. Por esse lado não ha perigo.

O seu receio era Beja porém. Que o vigario não era para graças, segundo ouvia dizer. Pelos modos suspendia padres com sem-ceremonia excepcional. Pequenino como era, voz aflautada e gestos de alcoviteira, tornava-se nos lances serios, de uma rispidez temerosa. Não lhe conheciam empenhos, nem amigos, nem actos de benevolencia no julgamento de qualquer melindrosa questão.

--Espirra-canivetes! resumia o sacrista.

Aquella ponderação fez porém sorrir padre Nazareth, que esboçando attitudes de poderoso, de trunfo politico, exclamou:

--Ora adeus! Todos os grandes tem uma perna de pau.

E distrahidamente, em ar de commentario:

--Pois senhores, estão as eleições á porta!

Sorria-se com finura velhaca, mirando o outro pelos cantos dos olhos, contente de fazer presentir a sua importancia occulta e inabalavel.

--Emfim, proseguiu a meia voz, a primeira cunha está mettida. E bem mettida que está!

O resto, com vagar e geito. Domingo, rica festa no convento, alli a missinha cantada, sermão de endoidecer os peixes...

--Eia, o que ahi vai!

--Vossê verá, tornava envaidecido o padre.

E batendo na testa:

--Tenho aqui o sermão todo. É d’um effeito!...

--Ah! prégador com’ó primeiro! Que não se apanha segundo por estas redondezas.

Padre Nazareth exultava de lisonjeado.

E oleoso de gloria, o fascias ridente das consciencias repousadas, ia aventurando ao sacrista pequenas confidencias, que espumavam de humor como um bom champagne crepitando n’um copo.

Pouco a pouco, a voz que se lhe abafára cautelosa desenrolando segredinhos, foi subindo. E ouviu-se distinctamente o padre dizer:

--D’aqui a conego, meu amigo, é um trote.

--Sendo a besta boa..., ponderou o outro sem o encarar.

* * * * *

Um anno depois, estavam realisadas todas as esperanças do senhor capellão do convento. A fidalga morrera com fumos de santa, legando rendosos bens ao templo e ao padre, ao mesmo tempo que a fama dos prodigios da imagem rebentava para lá da pequena área das povoações circumvisinhas, e nos dominios da lenda corria a provincia toda, avassallando crentes e colhendo esmolas avultadas.

Todos os dias agora passavam por Villa Alva ranchos de romeiros, que bem providos de offrendas, ante a imagem do convento vinham fazer penitencia.

O tosco madeiro que primitivamente só chorava sangue, fazia agora no dizer das gentes rudes, toda a casta de maravilhas. Os cegos recuperavam a vista limpando á fimbria das tunicas bentas a ramella dos olhos assolapados. Paralyticos, que em cadeirinhas e macas abalavam dos seus lugarejos nataes aos hombros de carregadores, desandavam a passear sem detenças, mal punham os olhos na igreja. Para expellir o demo dos esqueletos da pobre gente, que exhibindo carantonhas e soltando berros, era trazida em colletes de força até ao santuario, bastava muitas vezes um sopapo teso de padre Nazareth, algum latim quando muito.

Contava-se de lavradeiras estereis que se punham fecundas como marrãs, mediante alguns dias de residencia na horta, dietas mysticas e certas rezas adequadas. E era infinito o numero de rapagões do campo roubados á recruta, panellas de dinheiro descobertas em rochedos lendarios, e jumentinhos alegres que depois de roubados vinham dar ás portas dos donos, fazendo signaes maçonicos com o orelhame. Desde que no Alemtejo, a qualquer familia se afigurava insuperavel um problema economico, um caso pathologico mais grave, ou um casamento menos licito de realisar, as opiniões voltavam-se logo para o Senhor do Convento, na certeza de um exito prospero e immediato--o que punha em banca-rota os curandeiros, as mulheres de virtude, os procuradores, os alveitares e os medicos. D’esta cegueira absorvente de crenças, foi-se pouco a pouco originando toda uma engrenagem de pequeninas industrias devotas. E a villa tão pobre e tão reles, tomou de subito a importancia de um centro activo e florente, em que se fallava com respeito. A junta geral votou estradas que ligassem Villa Alva com os mais sertões, a camara, por seu turno, fez abrir poços publicos e arborisar os largos. Ao mesmo tempo, em quanto duas lojas abriam com estantes de vidraça, e um latoeiro de Beja vinha fixar residencia na arteria principal do povoado, as senhoras começaram a ir á missa de chapelinho e luvas, dando-se pelintramente _dom_ e fazendo os pés pequeninos. Villa Alva, como se dizia nos serões das Silvas, estava dando _sota e az_ ás terras proximas. Construiu-se um chafariz com botareos e tanques, onde até bipedes vinham mitigar-se das calmas alemtejanas. A Escholastica assumiu a direcção de uma officina de bentinhos, medidas e retabulos mais ou menos garridamente compostos, onde em lithographia e em pintura, o Senhor dos Passos ostentava as physionomias mais estranhas, barba toda ou simplesmente bigode, de corôa ou sem corôa, marchando pela rua da amargura ou quedando-se simplesmente immovel, na posição carrancuda de um photographado. Dando largas á sua vêa elegiaca, Chico Praça até alli incredulo, desandou a vender pelas festas hymnos bentos de sua composição, cantatas em pomposas estancias, no fim das quaes se repetiam estribilhos plangentes:

_E os judeus jogando os dados Viam-lhe os cravos pregados..._

Por seu lado, a D. Maria do Juiz que tivera um tio medico, inventou a _Untura santa_, que vendia em latas de pinto com uma carta de padre Nazareth, attestando que não havia segunda esfregação para borbulhagens. E como o commercio prosperava, as rivalidades desencadearam-se entre os vendilhões, o que determinou a falsificação nos productos e a intriga nas familias. As Silvas fizeram apparecer um licôr para flatos; o Burjaca oppôz a sua _Fomentação do Horto_ ao unguento da D. Maria; outra familia determinou supplantar as estampas da Escholastica confeccionando pequeninos Senhores dos Passos em barro, trapo, cortiça ou faia, com resplendor ou sem resplendor, conforme os preços. A esse tempo, inaugurava padre Nazareth uns bellos oculos de oiro para se dar ares de homem importante. Construira além d’isso, uma bella casa com terraço e adegas de luxo, alargando ao mesmo tempo a cifra dos seus milheiros de vinha e deitando carros de parelhas nedias. Estava cada vez mais fona, lia Vieira e Mont’Alverne para vernaculisar os sermões, usava corrente de berloques e deitára criada roliça. A sua idéa era a conezia, o poderio, muita gloria.

Desde que o viu rico, Villa Alva entrou a respeital-o, a servil-o, a lamber-lhe a poeira das botas. Era elle quem fazia as eleições na terra, quem orientava a opinião, quem fomentava a intriga. Ia frequentes vezes a Beja.

--Fallar com os trunfos! cochichava-se ás noites, na loja do Burjaca.

E com veneração, referia-se aos quatro ventos a sua alliança com as notabilidades politicas, deputados que lhe offereciam jantares, lhe mandavam cartas de amostras, _Diarios da Camara_ com discursos e as minutas de preços do vinho, nos mercados de Lisboa.

Aquella preponderancia fazia-o temido, e andava nas palminhas, dificultando a sua intimidade aos menos favorecidos.

No intuito de surprehender alguma informação relativa ao negocio, os proprietarios procediam com elle por pequenas sabujices, grande interesse pela azia de sua reverencia, um esmero de palavras e rodeios servis, como se fallassem a um senhor. Villa Alva queria em elle querendo, ria em elle rindo e basofiava em elle basofiando. E a conezia não chegava nunca! Emfim, uma tarde correu que o velho cura ia ser transferido a exigencias da politica, para Sant’Anna, lugarejo de algumas casas, sem recursos, sem agricultura e sem rendas, torpemente esquecido na aridez da serra. Em casa das Silvas, padre Nazareth mostrou-se penalisado do pobre homem, que ficava a morrer de fome. Mas intimamente dava-se os parabens. Conseguira afastar finalmente o pulha que se atrevia a humilhar com sessenta annos de honrada labuta, a sua florente carreira de homem sagaz, em tirocinio para conego.

Sobre o caso, Manoel do Cabo architectou logo o seu tratado pratico de moral caracteristica, por este modo formulada, sempre que um mendigo se arrastava para lhe pedir esmola:

--Grande cavalgadura!

--Porque, meu bemfeitor?

--Inda o pergunta! Aposto que é homem de bem!

--Saiba o meu bemfeitor que sim.

--Pois amigo, se vossê tem feito canalhice em quanto era forte, estava agora rico. Pedaço d’alarve! E exemplificando, estendia o braço para o fundo da praça, onde d’um lado sorria a casa nova do capellão, ampla, clara e toda alegre das tintas frescas, e a miseravel vivenda empardecida e deserta, que pertencia ao parocho velho, e desde a sua partida se não abrira mais!

[Illustração]

DOIS PRIMOS

Quando Jorge bateu, a Albertina acabava de se levantar da mesa. Era uma rapariga alta e fina, com o typo meudinho e arrebitado, que dá á mulher o ar _canaille_ da ribalta. A sua elegancia formulava a ultima novidade dos armazens de modas, tinha o _chic_ do dia, a côr e a graça da ultima revista de Paris. Vestida com uma simples saia, um reles chale e uma cuia torta, teria passado indifferente até á policia civil, que é quem na capital roe nos ultimos detritos da femea, que o amor escalavrou por essas alcovas e restaurantes nocturnos. Sem o espartilho _cuirasse_ que lhe dava o rhythmo postiço e flexuoso do busto, sem as meias escarlates luzentes de abelhas de oiro e esticadas acima do joelho, sem os sapatos de decote largo onde uma roseta de setim se enroscava com volutas de serpe negra, sem o nankim das pestanas, a _veloutine_ da garganta, o carmim da bocca e a unha crescida dos fados electrisantes, essa boneca que tinha o ar de parir o utero á força de comprimir as ancas, daria a simples femea lymphatica, com _folies de cœur_ e hysterismos alambicados, ninho de tuberculos do peito e uma genuina incapacidade para os misteres da sua condição e da sua classe.