Part 15
--«_Mas o guardião fr. Antonio de Nossa Senhora, de virtuosa pratica e varão inspirado do céo, veio a elles para que cobrassem animo, e encaminhando-se todos para a igreja viram um grande cão preto, lançando fogo pelos olhos e bocca, que fazia pavor, tão furibundo estava de vêr. E no altar da milagrosa imagem do Senhor dos Passos, um leigo notou os castiçaes derribados, o frontal desfeito e coberto de babas malignas. E vindo todos, foi visto agarrado á cruz do Redemptor um noviço entrado de pouco, por nome Seraphim, que prostrado em extasi dava graças a Deus por se haver escapo das garras de Satanaz, que outro não era o tinhoso cão negro, que fôra visto em fuga._
«_E todos em joelhos deram graças por tamanho prodigio. Aproximando então uma lampada da veronica da sacratissima imagem do Senhor dos Passos, notou fr. Antonio que esta chorava um choro de sangue de agonia milagrosa. E erguendo a voz ordenou a todos os irmãos que alli estavam, se prostrassem de novo, e fizessem por observar em tudo, quanto recommendam os sabios doutores da Igreja, cultivando a fé e espalhando a virtude quotidianamente..._»
--N’aquelle tempo chorava, ia dizendo velhacamente o sacristão. Hoje, qual!... Partem-lhe a cruz e não abre bico; rasgam-lhe a tunica, e moita! Como diabo fariam elles a choradeira?...
N’isto bateram, e entrou padre Nazareth. Deu logo com os olhos no livro, e foi observar o trecho.
--Então vossê agora dá-se á leitura de coisas antigas, hein? Chronicas de frades, etc...
--Hum! Pouco. Era p’ra chamar o somno.
Padre Nazareth poz o dedo no capitulo do milagre, e olhando de esguelha o sacrista, disse vagarosamente:
--Quanto lhe devem a vossê do convento?
--Seis mezes certinhos--faz hoje. Nove mil reis! Se os apanho, nem acredito! Chiam-me no papo.
--O mesmo cá por casa. Leu isto?
--Não tinha outra coisa...
--E que diz, que diz?
--Eu? e vossemecê, padre Nazareth?
Olharam-se. Manoel do Cabo ria com a sua finura podenga de camponio, olhinhos de malicia precavida, um tamborilar de dedos na tampa da arca.
--Que grande milagre! fez com emphase untuosa o padre Nazareth.
--Que grandessissimo! juntou Manoel do Cabo, não se sabendo se fallava do prodigio, se do capellão.
--Como já se não fazem hoje, echoou saudoso padre Nazareth repotreando-se, com os bogalhos dos olhos nos seios da Escholastica, toda entretida a esburgar ervilhas seccas.
--Pouca virtude hoje! disse o sacristão. Os tratantes são como agua de pedra... E com profundeza convencida, dando uma risada bronca:
--Mas n’aquelle tempo eram maiores, vá com Deus!
--Hum! opinou padre Nazareth. Puzeram-se a fallar no enterro d’aquelle dia, da velha D. Isaura, uma ricaça da terra. A Escholastica quiz saber se tinham distribuido esmolas e de quanto.
--Tostão!
--Não se alargaram muito, a bem dizer.
--Vamos com Deus, não foram más. Quando foi do doutor Bentes, nem cheta appareceu.
--Esse sim! Tomára a mulher mais p’r’ós amigos. E desdenhosa:--que segundo me contaram...
--Não diga asneiras, sua tola, não diga asneiras clamou azedamente Manoel do Cabo, que amava a discrição e a harmonia reciprocas.--Vossê viu?
Deram nove horas, no relogio da torre. E o sino da camara correu, segundo a velha usança.
Padre Nazareth levou o sacrista para a porta da rua e disse em voz cautelosa, aproximando muito a cara da orelha do outro:
--E se o Senhor dos Passos chorasse ainda?
--Está lá p’ra isso! Nem á pancada, esteja certo.
--Homem, ás vezes...
--E então? fez Manoel do Cabo, á espera que elle dissesse tudo.
Padre Nazareth descreveu então n’uma linguagem arrastada e molle a rodilhagem em que se via o convento e os objectos do culto.
--Vossê bem sabe, homem. Não ha frontaes, nem banquetas, nem toalhas, nem alvas, nem vestimentas para os santos. É uma vergonha! accentuava com força. Tudo que mette nojo! Aquellas galhetas, aquella patena, as duas sobrepellizes, as alvas, tudo aquillo, senhores, tudo aquillo! Além d’isso, não sei se vossê tem reparado. Uma invernia tesa, temos a abobada em terra. Sabido! Vossê conhece-me. Sabe que cousa a meu cargo, tem de andar limpinha, arrajadinha. Senão passe muito bem...
Ora se o Senhor dos Passos... vossê entende?
--Tinha hoje pensado n’isso mesmo, observou Manoel do Cabo, que medira o alcance da patifaria proposta.
--Ah, tinha? Entendido! E n’uma expansão:--Assim muda tudo, vossê entende. Quando correr que o Senhor dos Passos chora, não faltará cão nem gato que não queira vêr; calcule as esmolas e prendas a seguir. Vossê entende... São velas, azeite, tunicas, castiçaes, dinheiro, legados por testamento, o arraialito todos os annos, missas aos centos e gorgetas de estalo. Concerta-se a igreja, aceia-se, pinta-se, caia-se, vossê entende. No verão, bailarosca na cerca, fogo de vistas, gente assim...
E com os dedos em pinha, fazia movimentos de agglomeração opprimida.
--Sim senhor, sim senhor, resmungava Manoel do Cabo.
--Ahi pela quaresma, faz-se procissão até á villa, missa cantada, o costume, sermão... E vossê verá, que se despovôam ahi as aldêas todas para a romaria. Selmes não falta.
--Olha quem, Selmes! Aquillo são brutos como jumentos.
--A Vidigueira, a Cuba, Villa de Frades... Vossê entende.
--Essas não comem, parece me cá.
--Qual! Qual! O povo é crente, o povo tem muita religião ainda. Veja vossê, quando levam a Senhora das Reliquias, pelas seccas, alli na Vidigueira. Veja! É um choro, que nem que as moessem de pancadaria. Que nome tem aquillo senão fé? E aprumando a estatura desgeitosa, de uma obesidade glutona, invectivava:
--Sim, que nome tem? E não é tudo. Vossê verá, que as mais romarias hão-de morrer por causa da nossa. Homem, sempre é um choro de Senhor dos Passos. E depois, os sermões. O que se póde dizer da imagem--vossê entende. E o dinheirão nas festas... Vendem-se estampas, bentinhos, medidas--um chuveiro! Isso fica pr’ós alfinetes da Escholastica. E as fogaças, e tudo!...
--É uma rica idéa. Mas se entram a fallar, se o vigario percebe...
--Ora, deixe! A elles tambem lhes faz conta. Em Beja fazem o mesmo, os taes letrados.
--Bem. Eu cá, prompto! Póde chorar em querendo.
--E aproveita-se uma bella occasião agora. Vossê sabe que a mãi do fidalgo vem passar um mez para a horta. Grande devota, segundo me contaram. Em Lisboa, diz que leva a vida pelas igrejas a commungar, a confessar-se, a encommendar reliquias e bentinhos. Excellente senhora, e para mais, oitenta annos! Veja vossê...
--Está na conta.
--Como anda adoentada, vem a mudar d’ares. O sitio é bello, um ar _na propia_, verdura... Faz-se o milagre: se melhora, corre logo uma fama de seiscentos demonios.
--Não melhorando... tumba!
--É capaz de legar rendas para o culto. E vossê entende.
--Entendo. Em ambos os casos, lucro. E quando chega?
--Mesmo depois d’ámanhã.
--É preciso então mandar acear a igreja, que parece um chiqueiro, não offendendo quem está.
--Claro que é preciso! Amanhã trata-se d’isso.
* * * * *
No dia seguinte ia grande faina no convento.
O hortelão varria do laranjal as folhas cahidas, os moços aparavam o buxo das estreitas ruas do jardim, as mulheres caiavam os muros da cêrca. Ao mesmo tempo, Manoel do Cabo mais a filha, empoleirados pelos altares da igreja destruiam com os varejões enormes, que serviam pela azeitona, as pontes suspensas e negras que alguns milhares de aranhas haviam fabricado, em pelo menos vinte annos de secreção. Os santos tinham sido apeados dos nichos e cuidadosamente lavados n’umas poucas de aguas. A cada passo, a Escholastica passando o rodilhão molhado pelas barbaças de um martyr, dizia compungida:
--O santo me perdôe, mas estava que mettia nojo!--E em cóleras de christã fervorosa:
--Estas bilhardeiras da horta nem ao menos agua teem, p’ra lavar os santinhos! Velhacas!...
--Oh rapariga!... dizia o sacristão reprehensivo. Foi impossivel arrancar ao seu nicho, o Senhor dos Passos. Era uma imagem maciça e tosca, talhada quasi a machado, a quem faltavam dois dedos. Tinha a cabeça quadrada de um idolo pelasgico, marfim amarello salpicado de feridas negras, cabelleira comida de traça e encimada de um resplendor de lata, dentado e torto. A tunica cahia pedaços, n’uma miseria mendiga, d’onde sahiam tornozêlos gigantescos e pés formidolosos.
--Mette respeito! dizia a Escholastica molhando o esfregão no alguidar.
Os cuidados de Manoel do Cabo convergiam especialmente sobre a capella do Senhor, soturna e alta, com columnellos de talha e esculpturas selvagens representando seraphins e emblemas da Paixão. Do fecho do arco, cahia uma lampada de chumbo por tres cadêas de ferro; o pulpito ficava defronte com balaustrada negra e azulejos no portal; e traçando caminho de capella para capella, uma linha de sepulturas razas arremendava de pedras alvacentas e tortuosos epitaphios, o ladrilho esboroado do pavimento.
Era espaçoso o camarim da imagem, posta ao través para ser vista em toda a sua dimensão. A parede do fundo, pintada de judeus colossaes ornados de chifres e dentes de javali que os maraus arreganhavam por modo insolito, ensombrava-se de manchas limosas fazendo claros na quadrilha de algozes do nazareno.
--Eh malditos do diabo! fazia a Escholastica esgrimindo figas sobre a cafila, em quanto gravemente o sacrista dava reviravoltas á cabeçorra do idolo, a vêr se a desaparafusava do tronco. E quando viu a filha descer para renovar a agua das lavagens, Manoel do Cabo destroncando a cabeça santa, poz-se-lhe a estudar cuidadosamente a anatomia. Terminava ella n’uma especie de parafuso tubular, tapado por uma rolha. Manoel do Cabo puxou a rolha para si e deu com uma concavidade que se escavava na cabeça, fazendo n’ella como um escondrijo.
--Cá está a marosca! resmungou, torcendo a venta de um modo pujante.
Deitou agua no bojo e vascolejou. A agua tingiu-se de vermelho.
--Percebo! disse elle. Não precisa mais. Tornou a metter a rolha no tubo de parafuso, lavou a fronte do santo, e cuidadosamente restituiu a cabeça cheia de agua ao seu lugar. Alcançára de velhas devotas uma tunica de paninho rôxo, e com esmolas fizera concertar a enorme cruz de pinho que de longos annos cahia a um canto, alliviando o semita do seu peso infamante. Quando a Escholastica voltou, já o Senhor dos Passos estava vestido e paramentado de novo, cruz ás costas, a disforme cabeça livida pendente sobre os seios, cabelleira esguedelhada nos hombros e o resplendor por cima, como se fôra uma mão fatidica impondo condemnações. Com ramos de cypreste juncaram o chão da capella. Através das ramarias esbugalhavam-se os olhos dos phariseus, com um ar de troça que incendia as iras da Escholastica, vindo porém a achar echo no coração do sacrista. Emfim, a mulher do hortelão trouxe flôres e verduras, que foram postas em symetria no altar, dentro de canecas de barro e bilhas vermelhas, de Extremoz. Accendeu-se a lampada da capella, e diante da gente da horta que viera recolhidamente vêr os preparos da igreja, a Escholastica leu em voz alta no seu livro de missa, a ladainha--que era muito bom para ganhar indulgencias.
Ao cahir da noite os preparativos de recepção da senhora fidalga estavam feitos; a residencia esfregada e as louças brilhando nos grandes armarios do refeitorio; enormes camas de pau santo cobertas de colchas de damascos crespos, rescendendo á alfazema das gavetas e ao linho de Guimarães; paineis de santas risonhas com mantos côr de laranja e maxillas de carnivoro; os tamboretes em linha mostrando a pregaria luzente; e um velho sophá de medalhões de coiro ao fundo da sala, de cujas paredes pendiam em molduras castanhas, lithographias representando a vida de Dona Ignez. Na horta o mesmo aspecto cuidado e festivo--moitas de hortensia á entrada, ruas de loureiros e chorões, caracoleiros e heras vestindo os muros, os tanques limpos, aparada a relva do laranjal, dhalias escarlates resahindo dos tufos verdes da contramina, aboboras e melões de guarda em linha no telhado do chiqueiro, espantalhos novos pelas figueiras...
--Tudo que nem um brinco! dizia a Escholastica á visinhança, descrevendo as canceiras que tivera.
Á noitinha appareceu padre Nazareth, chapéo para a nuca, todo encalmado de subir as escadas do balcão. Vinha mal do estomago, cheio de seccuras, a face macilenta, ventre alto, os intestinos trovejando.
--É dos pimentos, dizia, é dos pimentos de conserva.
Tinha levado o dia mettido em casa, em mangas de camisa e chinelos, com calma. Fizera suão; com as queimadas os ares andavam turvos e as bestas sem força para o trabalho.
Demais um desavergonhado de Selmes recusava-se a pagar a meia moeda que lhe pedira ahi pela esborralha. Corja de ladrões!
Manoel do Cabo philosophou então:
--Que hoje em dia, o mundo ia cada vez peor. Todos cuidando de atafulhar o bandulho, e o diabo que levasse o nosso amigo e compadre.
Deleitava-se intimamente o sacrista, em sabendo que alguem caloteava padre Nazareth, um fona incapaz de deitar osso a um cão.
O padre passeava d’uma banda para outra mãos atraz das costas, um livôr bilioso na pelle. E disse sem levantar a cabeça:
--Sabe que a velha chega ámanhã?
--Assim ouvi dizer.
--Fez aquillo?
--Todo o santo dia andei mal-a rapariga a tirar estrume da igreja. Aquillo não é dizermos que estava porca, senhores, mas tenho já visto malhadas de cabras mais limpas. Têas d’aranha então, capazes de cobrir o mar. Em fim, ao menos aceada, ficou. Tudo varrido, muita flôr nos altares, azeite nas alampadas, tunica nova no Senhor dos Passos. É imagem p’ra metter um bocado de respeito. Sempre lhe digo que Padre Eterno era homem tamanho da torre de Beja, se tinha parecenças com o senhor seu filho. Alentado, palavra.
--Mais respeito com essas coisas, senhor Manoel do Cabo, mais respeito com essas coisas, advertiu padre Nazareth que tinha lobrigado a Escholastica entre portas, á escuta.
E com um formidavel arroto abriu a velha homilia sobre o temor de Deus e os mysterios da Trindade--Padre, Filho e Espirito Santo.
--Malditos pimentos, dizia, malditos pimentos! Deus era o espirito creador, dotado de todas as virtudes e omnipotencias. Era o infinitamente bom, o infinitamente grande e o infinitamente piedoso. Para impôr-se á limitada comprehensão humana, fizera-se homem em seu filho, que padeceu e morreu...
--Tudo para nos remir e salvar! ajudou de dentro a Escholastica, que sabia as prosas do _Novo Catecismo de Doutrina_.
--É tal e qual, fez padre Nazareth. E vendo a rapariga de braços arregaçados pediu agua, para lh’os vêr de perto. Quando a Escholastica se afastou para encher o copo, o padre voltando-se, disse em voz baixa:
--É preciso dar exemplos, homem!
--Pois que duvida que é, objectou o outro com recolhimento cynico, puxando fogo ao cachimbo.
Os olhares dos dois encontraram-se luzindo com a mesma expressão de patifaria.
Traduzindo então os pensamentos do padre, Manoel do Cabo ia dizendo a meia voz:
--A fidalga chega á tardinha ao convento, com as criadas. Traz homens?
--Não traz.
--Melhor. Chega e janta. Depois visita a casa, os lagares, um bocado da cerca. E salta na igreja, já sol posto. Escuridão no altar-mór, nas capellas lateraes, lampadas accesas, um socego de morte... Faz a sua oração ao Senhor dos Passos, hein? E um de nós então, repara que...
Padre Nazareth tossiu, para abafar as palavras que ia a vomitar o sacrista. E Manoel do Cabo desatou a rir. Com um geito brusco o padre estendeu-lhe a mão.
--Até ámanhã. Vou-me deitar, que me estou a sentir peor.
Desceu as escadas do balcão, em quanto de pé no portal o sacrista ficava olhando com o seu risinho de marau intelligente.
* * * * *
Ao entardecer do outro dia, a caleça entrou com grande estrepito na portada da cerca. De chapéo na mão, os moços da lavoura, o hortelão, padre Nazareth mais o sacrista, adiantaram-se para comprimentar a velha dama recem-chegada. Esta desceu amparada ao braço do padre, e sem baixar a cabeça a ninguem. Era quasi octogenaria e devia ter sido alta. E toda corcovada, com um vestido de velludo preto e um capote debruado de pelles, subiu a escada que levava ao andar de cima.
--Isto aqui é triste, pois não é, senhor padre?
--Não, minha rica senhora, não é. Em campo é do melhor que tenho visto. Muita verdura, boas aguas, rica vista, emfim um regalo de propriedade. E depois, a visinhança da casa do Senhor...
--Sim, sim, disse a fidalga. E com inflexão piedosa:
--É o que mais me consola.
A mesa estava posta. Pelas janellas abertas do refeitorio, via-se morrer a tarde e esmaecerem nas cristas as ultimas tintas ineffaveis do dia. Ao lado, as noras chiavam fazendo descer e subir sobre a agua das nascentes, a trança dos alcatruzes de barro. Sob cupulas verdes de nogueiras, amoreiras brancas e platanos, a agua jorrava nos tanques quadrados; os moços da horta faziam a rega do laranjal, leiras de pimento e carrapatos; no extenso pomar os pecegos, as maçãs e as romeiras rubras picavam a verdura de pontos vividos, de um tom sadio. O ar crystallisava n’uma serenidade contemplativa e corriam brizas impregnadas do cheiro dos fenos.
A senhora fidalga tinha-se sentado á mesa, mais a governante e padre Nazareth, que a instancias consentira tomar um caldo.
--E tem rendas, a igreja?
--Não, minha rica senhora, não tem. Os fóros de trigo apenas dão para as despezas do culto; e inda por cima mal pagos... Os paramentos são uma miseria e o templo faz-se ruinas. Uma desgraça, minha rica senhora! Desejando estavamos todos que vossa excellencia chegasse. Temente a Deus e boa christã como é, a senhora fidalga póde bem acudir com esmolas á pobreza dos santos e ao desmantelamento da igreja. Podia-se até fazer uma festa, a modos um arraial, todos os annos. Sempre concorria povo com fogaças e promessas. Mas eram precisos certos arranjos que traziam despeza. Ora não havendo fundos... vossa excellencia entende.
--Far-se-ha o que fôr da vontade de Deus, disse a velha abrindo o seu grande leque da China, preto, com lentejoulas e passaros exoticos. Tinha tirado o chapéo, bandós postiços desciam aos lados da marrafa, tapando-lhe as orelhas. Um pente de tartaruga posto ao alto dava-lhe á cabeça um ar ridiculo. A testa abaúlada e saliente, punha como um _abat-jour_ nos seus olhos profundos, mortiços no fundo das orbitas. Recordava-se pouco do convento, da disposição dos altares e do numero de imagens. Se havia throno?
--Um pequenino e dourado, todo velho.
--E santos, senhor padre, e santinhos?
--Isso muitos, minha rica senhora, muitos. Santa Rita, logo á entrada; S. Bento, á esquerda; a Senhora do Rosario...
--Minha madrinha... fez notar a governante, dona papuda, de bigode. Padre Nazareth comprimentou, e foi continuando a enumerar:
--O Senhor dos Passos, imagem de muita virtude e milagres; Santa Isabel, rainha...
A velha espirrou, e todos correram a fechar as janellas, temendo constipações. Veio a pêllo fallar-se de doenças produzidas por simples golpes de ar. Na opinião da governante, toda a enfermidade nascia d’uma constipação. Quando tivera o anthraz...
--Vossa excellencia é que me dizem de saude muito delicada, disse o padre para a fidalga, offerecendo-lhe um pecego descascado.
Ella contou então os seus achaques, consultára tudo, a homœopathia, a allopathia, os seus directores espirituaes--que, juntou, sendo os medicos do espirito podem tambem ser os medicos do corpo, como emissarios de Deus--que são.
--Muito bem, disse unctuosamente padre Nazareth, muitissimo bem.
--Mas poucos allivios, infelizmente. Tinha feito a peregrinação a Lourdes no verão passado, por conselho do padre Grainha. Muito bonito tudo, as aguas de muita virtude, a Senhora rodeada de offrendas dos romeiros, e algumas ricas... Citava os presentes da princeza Amelia de Brandemburgo, tocheiras de oiro maciço, corôas de rubis, calices esmaltados e custodias gothicas--tudo valendo milhões, não faz idéa. Em certos dias da semana, Nossa Senhora apparecia aos enfermos na gruta, puxando-se um cordelinho... Mesmo assim passava mais alliviada de verão; mas pouco! Tinham-lhe aconselhado a estação no convento, e viera. Ai! Que Deus lhe perdoasse tão grande offensa--mas tinha pouca fé. A idade era já grande obstaculo a uma cura completa.
--Todavia, acudiu servilmente a governante, sendo da vontade do Senhor... Ella bem lhe pedia!
--E todos do coração imploramos, disse com austeridade o padre, enchendo o calix de Porto.--E levantando-se dava boas esperanças, dizendo a sua grande fé nos ares, nas aguas, que as havia ferreas, muito perto. Sempre era outra coisa, a vida no campo, outros habitos, muito socego...
--Assim, concluiu elle com um sorriso, passando o guardanapo pela bocca oleosa dos molhos, permitta v. exc.ª que eu beba antecipadamente a um proximo e jucundo restabelecimento.
--Muito agradecida, senhor padre, muito agradecida e que Deus o oiça, dizia a velha, molhando os beiços nos dois dedos _lacrima Christi_, que a governante lhe lançára no cópo. E mostrou desejos de conhecer as terras proximas--a aldêa, como ella dizia. Se havia fé, gente de certa ordem, fortunas... Padre Nazareth dava pormenores. Nos campos a fé não abundava já, como no tempo dos frades. Tudo se ia infeccionando da lepra das cidades, não havendo barbeirola que não lêsse os jornaes e não prégasse heresias por essas vendas. Jogo, má vontade ao trabalho além d’isso. Não compareciam á confissão, não iam á missa...--E fazendo um gesto beato:
--Pervertidos, dizia, pervertidos!
Nas mulheres mesmo assim, não era tanto. O coração da mulher é mais entranhavel á religião e á fé. De resto, nas escólas não ensinavam orações. Conhecia rapazes que nem o Padre-Nosso diziam de cór.
--Santo nome de Jesus! clamava a governante, com um fervor intenso nos olhos--vinho do Porto e devoção. A senhora fidalga lembrou predicas aos domingos, depois da missa, sabbatinas de doutrina para os rapazes, com um fato novo por mez ao que melhor soubesse as rezas.
Punha as mãos engelhadas como implorando clemencia, e de olhos em alvo ia resmungando:
--Não sei onde isto ha-de chegar, meu Deus, não sei onde isto ha-de chegar!
A governante attribuia as seccas, as guerras, as fomes e as epidemias, ao estado impiedoso das almas. Que isto de não commungar era medonho... Diz que appareciam as alminhas negras, com chavelhos, aos berros.
--Credo, mulher, que até faz arripiar! increpava a fidalgona, fazendo a cruz nos seios chuchados.
E ergueu-se, tomando o braço do padre Nazareth.
--Dê-se ao incommodo de me mostrar a cerca, senhor padre. Vagarosamente desceram a escadaria de pedra toda coberta de caracoleiros e heras, que vinha abrir em leque ao alto de uma rua de loureiros e eloendros.
Manoel do Cabo albardava o _Ginaia_, depois de jantar brutalmente na cozinha, mais o hortelão. Quando o padre passou rente, o sacrista perguntou-lhe:
--Então?
--Dentro de um mez está pago em dia, tornou o outro, e foi andando.
* * * * *
A velha sympathisára de vez com o padre Nazareth, achando-lhe a compostura grave e a palavra christã. Sómente lhe via um defeito--era talvez um pouco camponio, mãos grossas e sem anneis, uma rugosidade de pelle que dava contactos irritantes.
--Emfim, dizia a governante, na falta de outro...