Contos

Part 14

Chapter 143,749 wordsPublic domain

Procurou depois, mais perto, essa soberba organisação que fizera na sua sensibilidade como um lampejo instantaneo, a fascinação sombria e fatal do _jettatore_. Pouco a pouco, a sua mente apoderou-se d’aquella imagem fascinante, correcta como não vira outra, juvenil como não sonhára igual. Todas as noites ia ao circo vêr trabalhar o equilibrista: dominava-a a soberba attitude do funambulo, livre, impetuosa e colossal. N’ella sentia-se de facto, toda a opulencia d’uma seiva que irrompe, em circulação vigorosa e regularissima; todos aquelles fortes membros elasticos, flexiveis e aptos aos movimentos mais contrastantes, se sentiam palpitar de saude, de vida e de belleza, rhythmo sonoro, cheio de presteza e propriedade.

E aquella appetitosa figura de adolescente trigueiro, os olhos esmaltados de uma serenidade de deus, plastica irreprehensivel e firme, apoderaram-se da _contessina_, com um impeto, uma violencia que tocavam os paroxismos da loucura.

Começou então uma existencia nocturna, roubada de alegrias, cheia de sobresaltos, terrores e prazeres. Zampa, o funambulo, levava os dias cahido entre garrafas de _cognac_, e fumaças de charuto. Além d’isso, tinha gordos pedidos de dinheiro, teimosias de parasita e surdas raivas de vadio. Era exigente como um _facchino_ e brutal como um barqueiro: a devassidão exasperada que busca viver fóra do tedio adquirido por longos dias de desordem, e mediante phantasias realisadas á custa de grandes despezas. Ella adorava-o; ás vezes tinha medo.

Sentia-lhe as mãos grosseiras, callejadas do trapezio, a voz rouca, o halito alcoolisado, um cheiro a charuto que se mettia pelas mucosas dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entregar com um grande soluço dilacerante, vergada para traz, cabellos soltos e a tunica rasgada de alto a baixo, com a folha d’um punhal. E era com uma delicia inexplicavel, aguda e cheia de fremitos, que lhe tirava a capa, quando Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua belleza superior e intangivel.

O espectaculo de um corpo fortemente creado, embriagava-a de uma aspiração criminosa e de uma animalidade fatal: queria-o! Algumas vezes Zampa não vinha, e as horas da noite deslisavam para a pobre leviana em supplicios atrozes e vacillações eternas. Então sahia a procural-o, só, envolta n’uma d’essas mantas de côres vivas, que Livourno produz, um punhal no cinto e pallida como uma esperança pisada á beira d’um esquecimento. Já podia entrar nos lugares lobregos onde tilinta o dinheiro dos vicios cobardes, para arrancal-o do jogo, embriagado e vil, fallando uma aravia brutal. Os convivas faziam-lhe _toasts_, cobriam-na de sarcasmos, prenhes de insolencia de bordel. N’estas luctas supremas, parecia que a sua paixão se avigorava; queria explicar a si mesma por que razão esse palhaço a dominava e a prendia, fazendo d’ella uma escrava; reflectia então insurgir-se contra semelhante envilecimento, readquirir a sua liberdade de outr’ora, a sua franca alegria de criança: impossivel! Quando tratava de expulsar de si o ebrio, com desprezo vehemente e indignação explosiva, como se levantava diante d’ella a esplendida figura de archanjo que era o seu desejo, o seu gozo, o seu deslumbramento e a sua perdição; e era sempre o mesmo olhar placido que ella contemplava, a mesma carne vigorosa, de uma tonalidade opulenta, a mesma linha soberba do perfil, a mesma postura de academia, altiva e forte, como a de um gladiador que triumpha, na arena onde espadana o sangue dos martyres e se espedaçam corpos frementes de victimas obscuras e tragicas. Em outros dias, á força de supplicas, Zampa ficava: era uma festa. Sahiam de carruagem para o campo, lá passavam a tarde no meio da poderosa efflorescencia dos arbustos, no silencio das _villas_ brancas, em torno de que se alastravam vinhedos, sob os nogaes de um verde quente ou entre perfumes acres de pinheiros que gemem o seu cantico desolado. Jantavam sobre a relva, como bons lavradores: elle não bebia então. Tudo em roda estalava de risos metallicos, finamente timbrados; era bom viver assim. N’aquella affinidade de sensações tranquillas, a alma d’elle parecia irradiar uma delicadeza poetica. A _contessina_ descobria-lhe predilecções de paizagem, observações sentidas, fortes destaques de inspiração, uma docilidade de caracter, mesmo. E era feliz, esquecida das angustias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre! Se fugissem para um paiz remoto, o Oriente, n’um mosteiro em ruinas!... E figurava minaretes tartaros, as grandes tulipas das cupulas, rendas frageis dos porticos arabes, o céo profundo e calido, onde a miragem inverte os panoramas, palmeiras seculares, erguidas entre casas quadradas como dados colossaes, albornós brancos, barbas ponteagudas e tez parda--como nos desenhos de Bida. Ou n’uma herdade perdida no seio dos Appeninos, longe do bulicio e á beira d’um lago, n’um _chalet_ vermelho, entre arvores. E pelas madrugadas roseas iriam tomar os leites perfumados de turinas brancas; os sinos das ermidas tocariam o _Angelus_, no meio d’um côro de passaros; a natureza seria de uma sonoridade crystallina, perlada de orvalhos frescos e calices de jacinthos, côr de rosa.

O seu lyrismo abstrahia-se em idealidades azues, em grandes e nebulosas viagens, em que destacava o grupo formado por Zampa e por ella--um pelo braço do outro.

Um domingo, elle não voltou. No dia seguinte, encontraram-no apunhalado na casa de jogo. Foi quando começou a estatua. Dentro de poucos mezes, o marmore desbastado, realisava a creação mais lucida que se possa sonhar. Era uma obra prima realmente, esculpida com verdade profunda e inspiração fogosa. Sobre um plano inclinado, via-se um grande globo polido, retido a meio caminho do declive. Sobre o globo, n’uma posição agilissima e graciosa, o funambulo com os braços abertos, as pernas quasi unidas, a face risonha, juvenil e um pouco ironica, procurava conservar resolvido o seu problema de equilibrio pelo maior espaço de tempo possivel: e toda aquella obra resaltava de vitalidade, de arrojo, e de elegancia. Uma lufada de genio passára por alli. Quasi se esperava vêr oscillar o globo, moverem-se os pés de Zampa, erguer-se um pouco o travessão de balança que elle fazia com os braços para deslocar imperceptivelmente o centro de gravidade a fim de o fazer subir ou descer, andar ou desandar, dentro da base de sustentação, e vir descendo, descendo conforme quizesse, pelo declive geometrico e dôce do plano obliquo, sempre sobre o seu globo humilde e no meio das ovações estrepitantes de alguns milhares de espectadores. Era Zampa tornado estatua; as mesmas soberbas linhas, a mesma irreprehensivel musculatura, a perna firme, retesada e direita, de uma elegancia unica, os fortes encontros, a larga espádoa de heroe, de uma curva severa, o braço sem grandes nós articulares, o pulso athletico e ricamente modelado, um peito leonino em que subiam ondulações viris de seios, a cabeça um primor de sinzel e um prodigio de distincção, alta, cabellos revoltos, a audacia dominadora, olhando em face a turba presupposta, com o ar superior de quem se faz admirar.

Era Zampa. Ninguem que o tivesse visto na arena podia desconhecel-o.

* * * * *

Ao acabar o trabalho, quando n’uma contemplação palpitante ergueu os olhos sobre a sua obra, o sinzel cahiu-lhe das mãos e os soluços estrangularam-lhe a voz.

Toda a sua alma estava alli, como talvez nos primitivos dias do mundo, a alma do bom Deus, nos corpos dos primeiros homens creados. Nada fôra omittido: era elle, bem o estava vendo, risonho e vivo como outr’ora, os labios quentes de beijos e o olhar scintillante de raios. Bem o estava vendo! Os dias que mediavam entre a morte e a resurreição d’aquelle homem tinham-lhe centuplicado o amor, tornado candente o desejo e calcinado as ultimas fibrilhas de receio. Era sua, era d’elle para sempre. Passariam diante de todo o mundo, abstrahidos um no outro, com o olhar errante nas estrellas.

E de rastos no xadrez do _atelier_, cabellos soltos em espiras procellosas, o olhar faiscante de loucura, semi-nua, agonisante, branca, cingia com os braços a sua obra immortal, tentando aquecer com a lava dos seus beijos a gelida indifferença do funambulo de marmore.

Emfim acharam-na cahida aos pés da estatua, abraçada ao globo como a serpente dos retabulos da Virgem, um sorriso divino de bacchante nos labios emmurchecidos. Morrera.

* * * * *

Uma palavra de confidencia. Não procurem na sociedade a _contessina_: seria ridiculo! O amor moderno, despido dos atavios romanticos e das consagrações immoraes, tornou-se fóra da familia, o que é na sciencia e referido ás outras especies animaes: a excitação fatal, regida por leis physiologicas, que attrahe e liga, dois sêres da mesma constructura organica e da mesma conformação anatomica, posto que de sexo differente. O mesmo que para os cães, que para os elephantes, que para os peixes, que para as aves, que para os insectos: instincto, exacerbado na raça humana talvez, pela depuração do systema nervoso. Degradante porém n’este caso, por improductivo. Actualmente ha só duas mulheres: a da familia, a mãi, a esposa, a filha; e a da viella. Esta ultima, comprehende-se, se chega a amar um funambulo, ama-o caninamente, pela sensação que lhe arranca. Se o funambulo morre, esse amor despertado, não transforma nunca a _cocotte_ n’uma artista, qualquer que seja o seu grau de educação, de gosto e de talento.

Se quizerem vêr passar por instantes a _contessina_, tal como a sonhamos, vão a um _atelier_ onde trabalhe um pintor de genio, e onde se curve um esculptor sobre a pedra ou sobre o tronco, ou observem um poeta que febrilmente escreve os alexandrinos do seu poema. Em qualquer dos tres, poeta, pintor ou esculptor, pousou o beijo da _contessina_. Não é uma mulher, meus caros, mas o sopro abrazado que passa e se extingue, depois de haver creado tambem, o seu _funambulo de marmore_. Chama-se a _Inspiração_. Devemos-lhe o machado de silex e o desenho rudimentar gravado em certas cavernas sepulchraes; viveu já na cidade lacustre, onde fazia collares de dentes de carnivoros para ornar o peito dos vencedores; passados seculos, ergueu a _Acropole_ grega, o Pantheon e os circos, fez o Colliseu e a Capella Sixtina; tudo quanto é grande alevantou-o ella, amou os artistas da Renascença, os architectos piedosos da meia idade, levou ás fogueiras os apostatas, guiou Luthero, descalço e faminto, através da Allemanha, impoz Savonarola na Italia, e Christo obedecera-lhe muito tempo antes. Na sciencia, da mesma fórma que na religião e na arte, tudo lhe pertence e tudo lhe obedece; foi amante de Archimedes, de Newton, Laplace, Tyndal, Cuvier e Owen, e sempre a mesma frescura de tez e a mesma suavidade de fórma, a mesma scintillação no olhar e o mesmo braço immortal e correcto, que rasga no incognito um sulco palpitante e magnifico.

1877.

[Illustração]

O MILAGRE DO CONVENTO

Ficava o convento a meio das vinhas, n’uma larga planicie florente e verde, em que as oliveiras punham a tristeza biblica das suas comas cinzentas, como de zinco oxydado.

A léste corria o enorme espinhaço da cordilheira, alteroso e pavido, cuja nudez aggresiva de linhas se coloria de manchas plumbeas e vermelhentas, de que os penedos destacavam selvaticos, lembrando ruinas de monumentos celtas. N’um campo de visão esplendoroso e infinito, alargava-se para o sul o horisonte azulado na massa d’ar, semi-circulos de planicies que mais e mais se iam perdendo no esfumado das exhalações longinquas.

Do campanario da igreja, o olhar que se alongasse, transpunha d’aquella banda livremente, a fronteira de Hespanha, no seu vôo silencioso de andorinha inquieta.

Em torno ao velho casarão, a ruina dos muros da cerca, uma alta cruz truncada, e dois ou tres arcos d’um antigo aqueducto de abastecimento, assignalavam a expulsão violenta dos pobres capuchos, primeiros senhores da casa até ás luctas da ultima guerra civil. O edificio e a cerca, vendidos a um fidalgarrão da Vidigueira, derruiam vagarosamente, á mingoa de reparos. O fidalgo arrendára tudo, abandonando a provincia onde só voltava de anno a anno para vender herdades ou hypothecar pastagens e azinhaes. Na cerca, os amplos tanques de pedra estavam desconjuntados e seccos, cobertos de cicutas viridentes; a canalisação atulhava-se de raizes e moitões de lôdo das ultimas enxurradas; cahira o aqueducto; e á bôcca lobrega das cisternas, as figueiras bravas irrompiam alongando os troncos brancos, em que rebrilhava o verde de largas folhas de recortes duros, como antigas faiences de Coblentz. Debaixo das nogueiras, cujo aroma rescendia morno a cada respiração da aragem, torciam-se as heras nos bancos de granito, estendendo tentaculos no seu deboche de vegetação verde-bronze, e subindo como um desejo, pelas fibras das arvores colossaes. Uma estatua de apostolo martyr cahira de encontro a um castanheiro enorme, cujas palmas faziam cupula sobre essa cabeça vergada, de granito. Ao longo da ribeira, os platanos e as faias postavam-se como avançadas, n’um surdo murmurio intimo de seiva. E para além o laranjal espesso, vergado até abaixo, alargava-se embalsamando o ar, onde as pombas fugiam no azul pallido, como almas, que purificadas penetram os hombraes serenos da bemaventurança. O convento, de paredes cinzentas, telhados cobertos de herva e janellinhas de cellas, desamparadas como orbitas sem olho, pesava na paizagem viva, com um ar de mendigo que esmola, á beira dos caminhos. Acima da grande massa oblonga de muros, fortalecidos a gigantes de cantaria, as duas torres sem cupula, encimadas de pequenos obeliscos de alvenaria musguenta, de cujas cristas o furacão cuspira os cataventos, erguiam-se tristemente, com um desenho tosco e primitivo. Nos claustros, o feitor da propriedade estabelecera tulhas do lagar de azeite, cobrindo de taipa uma das faces do quadrado de arcarias, rasgadas sobre o pateo central--onde os limoeiros vinham espalmar toda uma tapeçaria de folhas curvas e espinhosos troncos, salpicada pelo oiro baço dos fructos, ovalares e rescendentes. Uma legião de passaros vivia n’esse pateo, na ebriedade festiva dos aromas; ao centro o poço de pedra, de relevos brutos, especava no ar a roldana negra que tinha, ao anoitecer, um perfil de forca viuva. No tempo dos frades, as festas cheias de rumores do velho orgão, de incensos e flôres, chamavam dos arredores as aldêas e farta colheita de esmolas. Agora a devoção por essa velha igreja em ruinas, de altares carunchentos e abobada fendida, esmorecia lentamente. Fallavam de _medos_ errantes pelos claustros, soluços pelas escadas de pedra, e vozes que vinham gargalhar blasphemias á bocca do poço quadrado do pateo. Apparecera mãi uma filha do eremitão. E os santos, toscamente esculpidos e miseraveis nos seus farrapos de tunicas, não inspiravam respeito. O Senhor dos Passos, com uma enorme cabeça de marfim, estava alliviado a um canto, do peso da cruz, que o sacrista bebedo partira uma noite, depois da procissão. Andavam aos pontapés pelo craneiro, amolgadas e sujas, as lampadas de latão, verdentas de azevre; os castiçaes coxeavam cobertos de cera pingada e moscas mortas. E por um buraco do côro, alta noite, piando escarninhamente, as corujas entravam para os ninhos da capella-mór, famintas do azeite das lamparinas. Duas vezes por semana, domingos e quintas, Manoel do Cabo sacrista mais o padre Miguel de Deus sahiam da aldêa, para celebrarem missa no convento, a que só assistiam o eremitão e a filha, os moços da horta mais o feitor, gente sombria com o ar estupido dos ignorantes maus.

Uma noite, padre Miguel de Deus appareceu morto na cama e ficou vago o lugar de capellão do convento. Só depois de instancias repetidas é que padre Nazareth aceitou o cargo. E torcendo o focinho bilioso de egoista, dizia para Manoel do Cabo, uma quinta-feira, apontando a igreja:

--Isto não deixa nada, mas com reformas...

* * * * *

Manoel do Cabo que era lido em autos, historias de Carlos Magno e princezas Magalonas, não deixou sem commentarios a sentença do snr. padre Nazareth--_um finorio_, como se dizia na loja do Burjaca. _Mas com reformas_... meditava elle á lareira, em quanto a filha Escholastica, junto da candêa fazia renda, pensando em ganhões de braços robustos. Que diabo de reformas seriam? A igreja não tinha rendas, nem alfaias, nem concerto sequer. A miseria ia, esfrangalhada e immunda, das toalhas dos altares aos doceis desbotados da capella-mór. Começava a estalar a carnação dos martyres; nosso padre mestre S. Domingos perdera pouco a pouco as orelhas; havia um S. Luiz carunchoso em cujo ventre os ratos faziam residencia segura, por todo o anno. E fallar o padre Nazareth em reformas!...

Chegou o verão d’aquelle anno, tempo das romarias.

Cada domingo era consagrado a sua ermida--á Senhora de Guadelupe, a Santo Antonio, a Santa Clara, a S. Pedro das Cabeças, a S. Thiago, á Senhora das Reliquias... E as aldêas vestidas de galas, raparigas de chales escarlates e tranças postiças, cavadores de calças curtas, enormes pés e grosseiros chapéos de borla nas nucas, velhos e crianças nos seus burros, nos seus machitos e nos seus carros de mato, iam em chusma depois do jantar e meio dia batido nos sinos da parochia, estrada fóra, através as searas maduras, e das vinhas verdes opulentas de cachos, trepando collinas e chapadas de olival, em direitura ás igrejinhas brancas, abertas com um encanto de fé ingénua nas alturas, e em contemplação perpetua de horisontes sem termo. Cada uma d’aquellas imagens de bemaventurados, toscamente esculpidas e de uma pintura barbara, possuia para a raça crente dos campos, a especialidade de um prodigio, um ramo de milagre original.

Santo Antonio, por exemplo, de tres palmos de alto e o rostinho garoto de um alumno desinquieto, adorado n’um cerro enorme de montado, e visinho de um moleiro borrachão, protegia os namoros. Era o mais querido dos arredores. Nas tardes bonitas de primavera o nos domingos abafadiços de verão, a gente moça vinha bailar-lhe e cantar-lhe no adro, com um desejo de nupcias traduzido em clarões de olhar. Uma a uma, as raparigas iam cozer-lhe no manto surrateiramente, pequenos bilhetes escaldando de fé e de peccado tambem, em que se supplicava a intervenção da bemdita imagem no bom exito de uns amores que qualquer dia rebentavam em escandalo grosso--não tinha duvida nenhuma!

S. Pedro abria as portas do céo, e o seu cortejo compunha-se de velhas beatas supersticiosas e antigas fandangueiras alegres, cuja fé lhes chegára com rugas e cabellos brancos, após annos e annos de rasgada pandega. E todos esses solitarios, invocados a proposito de sêccas insistentes, colheitas ruinosas, implacaveis invernos, doenças, sezões, maus olhados, bruxedos e raios, gozavam no verão da sua festa, com musica e fogo de vistas, sermão, tourada e procissões garridas á roda da igreja, ou as mais das vezes até ao povoado e ao som d’uma foguetaria atroadora. Os santos do convento, nada! _Mas com reformas_, dizia padre Nazareth. Qual reformas, nem qual diabo! acabava Manoel do Cabo por acrescentar.

Um dia, descendo da torre onde fôra descobrir um rico ninho de pombos bravos, reparou n’um cubiculo do côro, a um canto, n’uns alfarrabios esquecidos, poentos e rendilhados pelas arganassas. Curioso como era, nunca para tal olhára. Agarrou n’um dos cartapacios e veio para baixo. Torceu primeiro o gasnete aos borrachos do ninho e á pomba mãi que surprehendera.

Que rica fritada não faria a Escholastica d’aquella _gentinha_ toda, hein? Um almoço de rei! dizia Manoel do Cabo, sacudindo a poeira do livro com as fraldas de uma cruz partida a um canto, e n’outro tempo alçada á frente da communidade dos capuchos, pelos campos fóra, em dias de festa.

Abriu a grossa capa de pergaminho e leu: _Chronica dos Capuchos_, em largas letras vermelhas.

--Escuso de lêr, ponderava o desdenhoso Manoel do Cabo; amigos de raparigas, de vinho e rapozeiras ao sol, de pansa para o ar. Medo aos tiros, latim por qualquer coisa, e uma _cantarolação_ do inferno nas missas. Malta! Conheci o guardião:--que grandessissimo bebedo!

Como entardecia, fechou a porta da igreja, metteu o livro no alforge mais as alvas sujas de padre Nazareth, e montado no _Ginaia_, jumentinho podre e pelludo, desceu para a villa. Era pelas eiras; a perder de vista, de ambos os lados da estrada, alongavam-se sinuosamente pelas collinas, as courellas ceifadas, cujos torrões, seccos dos calores tropicaes, esboroavam ao menor attrito. Os rebanhos percorriam, de banda a banda, os largos trechos de campo, fazendo um concerto de chocalhos e uma floresta de chifres.

No horisonte formidavel, murchavam dôcemente as ultimas efflorescencias da luz. De todos os lados as arvores, com os seus braços de cyclopes negros, pareciam curvar-se n’uma saudação benevola, que os melros, os melharucos, os papa-figos, as calhandras e os verdelhões repetiam ampliando, vocalisando, n’um côro estrondoso, sonoro, harmonico e incomparavel. As vinhas forravam de espessos tapizes a terra calcinada, de que se erguiam as figueiras de largas folhas e troncos brancos, n’um espreguiçamento de sésta. Desenhavam-se para o longe em curvas francas, os pendores das serranias agras, afogados na exhalação serena da tarde; de todas as veredas sahiam para as eiras récuas de possantes machos carregados de espigas, e pelas clareiras estalava em notas vivas o rumor das cantigas imaginosas. Manoel do Cabo ia dando boas tardes, aos ranchos de ceifeiras que encontrava. Á entrada da villa, encontrou padre Nazareth chupando um cigarro, em quanto no calçadouro da eira os moços retraçavam as espigas, a malho. E á noite, depois da cêa e acceso o cachimbo, lembrou-se de folhear o alfarrabio, a passar um bocado de tempo. Leu n’um cabeçalho de capitulo:

«_De como Jesú Nosso Senhor se mostra prodigiosamente aos seus humildes servos capuchos, e da narração dos milagres succedidos no convento de Santo Antonio de Villa Alva_».

--Pois sim, sim! disse Manoel do Cabo, com desdem. Mas leu sempre.

--«_E além dos muitos prodigios em que a misericordia divina se patenteou aos nossos irmãos, sarando grande copia de leprosos, curando enfermos e fazendo sahir o Inimigo do corpo de varias mulheres, a supplica do nosso padre-mestre, fr. Antonio de Nossa Senhora, se relata um assombroso milagre que deixou prostrados em fé quantos tiveram a gloria de o presencear. Não poupa Deus os peccadores do mundo, nem retira aos que se arrependem e conquistam a graça, suas mercês e favores, que unicos são verdadeiros n’este viver de desenganos..._»

--Tá! tá! fazia Manoel do Cabo, como quem conhece o terreno que pisa. Malandrice no caso!

--«_Em o anno de mil quinhentos e setenta, por uma noite de janeiro, estando no convento de Santo Antonio de Villa Alva todos os nossos irmãos recolhidos em suas cellas e entregues á guarda de Deus, pois como disse o bemaventurado S. Francisco de Salles..._»

--Pr’ó diabo, mais elle! commentou Manoel do Cabo, voltando a folha sem olhar a citação.

--«_Se ouviu grande grita na igreja e a modos rugidos de besta féra, no meio de copiosos prantos. E despertada a communidade, se ouviu uma voz que dizia:--Ide-vos, tentador! E todos se prostraram em oração, para que Deus Nosso Senhor não desamparasse seus humildes servos em tamanha agonia e perigo, a fim que suas almas podessem desfrutar a bemaventurança, que gozam no seu reino tantos santos e patriarchas, pois como disse..._»

--Esta cambada mettia tanto latinorio nos livros, como vinho no bucho. Ora a sucia, senhores!...