Part 13
Estes devaneios eram positivamente um estado pathologico. Estavamos magros e pallidos, adoravamos as noites de luar e as inglezas de olhos claros e tornozêlo masculo, que nos domingos de inverno viamos sahir da missa dos Cyprestes, loiras e frescas, apanhando os vestidos. Um piano, uma voz de mulher, qualquer namoro e o menor promenor da vida das ruas, era para nós um thema de sentimentalidade. Suspiravamos por cousas ethereas e por aventuras trovadorescas. Estudavamos pouco e tomavamos oleo de bacalhau e ferro em pilulas. Aos quinze annos acabei os preparatorios, e nas ferias grandes que se seguiram, meu pai falleceu. Nas cidades, a morte do chefe da casa, chega a ser um episodio sem consequencias mais altas que o luto da praxe e duas missas rezadas--quando a familia não fica a morrer de fome. Muda-se logo de casa por via de regra, os filhos alargam a esphera dos seus habitos livres, e fazem acquisição dos vicios que não tinham. Em quatro mezes, o fim de cada membro da casa destroncada é comer alegremente as rendas que um trabalho agro por ventura accumulou, no espaço de uma existencia de acerrima labuta. O campo porém, conservando muitas das virtudes patriarchaes, dá a esta perda um caracter de fatalidade sem conciliação. A viuva envelhece de lagrimas e estiola como uma trepadeira queimada; um dos filhos se é homem, emprehende e continúa a tarefa do pai, adquirindo nos habitos, no amor e no respeito da familia o mesmo grau de fervor cego e de obediencia dedicada. Senta-se á cabeceira da mesa nas refeições, dirige os trabalhos do campo, recebendo as rendas, ordenando as colheitas e levantando-se mal o buraco luza. Mas o seu governo é todo nominal. Quem alli impera, quem a tudo preside, quem julga tudo e tudo ordena, é o velho, o marido, o pai, o _outro_, querido phantasma evocado a toda a hora e a proposito de tudo, cujo sudario até, vem estender-se de noite, n’uma alvura de nebrina a encher de fecundante orvalho as vegetações que elle proprio plantou. Quando meu pai fechou os olhos, eu estava bem pouco apto a retomar o arado que a sua mão exhausta deixára cahir. Era franzino e branco, de um temperamento irritavel á menor emoção, medroso, phantasista e indolente, a quem as duras profissões repugnavam como uma vileza, e a idéa da vulgaridade enchia de um terror supersticioso. Minha mãi chorava a toda a hora com dois irmãositos ao collo. A casa silenciosa parecia um tumulo profanado. Pobres como eramos, se um dia não velassemos a horta e o olival, a miseria bater-nos-hia á porta. E justamente quando eu ia entrar na Polytechnica!... Não sei como aquelle tempo passou. Ha coisas que até em idéa são sinistras. Lembro-me que perdi o anno e amei minha prima Martha, uma loira diaphana que viera para nossa casa, da herdade em que nascera.
Esse amor que era dôce, sincero e casto, deu a nota mais alta na escala romantica d’aquelle periodo da minha vida. Envergonho-me de o dizer, mas lemos _Paulo e Virginia_, _Raphael_, e o _Atala_ em commum, ella vestida de branco porque eu lh’o pedia, eu de cabellos crescidos e grande lustro de pomada nas poupas.
Martha com a sua natureza contemplativa e triste, propendia áquelles lances patheticos da minha imaginação de collegial. Era de uma simplicidade dôce e de uma serena belleza, que os seus olhos azues enchiam de esplendores religiosos. Em ella olhando para mim, eu córava. Toda a minha ambição agora era fazer-me bonito e cidadão para me impôr á sua ingenuidade. Que primavera a d’aquelle anno! Depois do jantar iamos de braço dado através dos laranjaes em flôr, n’um tapete de campainhas, fumarias e malmequeres, ao rumor das noras e sentindo cahir a agua nos tanques da horta. Meus irmãos corriam adiante, com chapéos de palha, fazendo chiar os seus carros de pinho. Nós devagar, sentiamos no aroma nupcial das arvores o quer que era de benção que vinha em golfadas, sobre nossas cabeças. E debaixo da velha oliveira secular que já me protegera os brinquedos de garoto e cujas ramarias artisticas, de tons cinzentos, abriam ao sol o seu toldo amigo, o nosso amor efflorescia tranquillo como se de cima o olhasse, das folhas e dos ramos, o bom Deus de bondade com que os pequeninos sonham a sorrir.
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Aos vinte annos o meu espirito soffrera mais uma transformação. Creára amor pelo estudo e sentira a necessidade de um ponto de vista em sciencia, que lhe permittisse sugar dos seus asperos labores um certo numero de noções praticas para a vida de cada dia. O curso de sciencias naturaes conseguiu destruir todo o mundo romanesco e labyrinthico que eu idolatrava em arte, dando-me um certo gosto a final pelos estudos de observação. Comecei por queimar todos os romances inverosimeis dos snrs. Terrail, Reynolds, Feval, Montepin e Zaccone. Depois executei os snrs. Feuillet e Feydeau; em seguida fui-me aos poetas e vendi-os a oitenta reis o volume--por escarneo. Nas ferias herborisava com um amor de que um anno antes me julgaria incapaz; partia de manhãsinha levando os cadernos de dissecação na bolsa de caça, e um estojo de tubos de vidro munido de compridos alfinetes no bolso--para as collecções de insectos. Ao cahir da noite voltava com duas perdizes á cinta e alguns coelhos, os tubos cheios dos coleopteros caçados, uma multidão de plantas curiosas esmagadas no album.
Minha mãi que não comprehendia o meu interesse pelos bichitos, muita vez me olhava surpreza, vendo-me estar horas esquecidas com um aptero no alvo de um microscopio de Raspail que eu adquirira no leilão de um classificador. Como se ergue lentamente o store colorido de uma janella, através de que um panorama vivo se enxerga, assim os estudos de analyse erguiam de sobre o meu cerebro as phantasias bizarras e piegas permittindo-me palpar e surprehender a natureza no drama da sua gestação colossal. Longe de me deseccarem as faculdades creadoras e as aspirações saltitantes da imaginação, aquelles trabalhos minuciosos, pacientes e nem sempre coroados de exito, davam-me ás vezes concepções delicadas, de larga elegancia artistica. Adquiri na phrase uma precisão incisiva, de pensador.
E cheguei a classificar um homem ao primeiro golpe de vista, como fazia a um insecto posto no foco de uma bella lente de _crown-glass_. A aridez das primeiras tentativas não me arrastou a essa tristeza morna e aborrecida de certos padecentes de dyspepsias chronicas. Por esse tempo era eu um _grand gaillard_ vermelho e forte, com mãos solidas e afeitas indifferentemente ás argolas do trapesio, ao cabo da enxada e aos escalpellos do amphitheatro. Comia, como vulgarmente se diz--como um alarve, tinha o sangue vivo e sadio, casto além d’isso. A residencia no campo, após a morte de meu pai, operára a metamorphose do individuo anemico, secco e propenso aos delirios da imaginação voluptuosa, no util primate de sangue quente e respiração pulmonar, capaz de derrubar a Sé com um socco e ser levado á morte pela mão de uma criança. A reclusão dos livros reporta o homem a uma simplicidade dôce e austera de habitos e emoções, e fal-o bom depois de o haver feito grande.
Nenhum tonico mais efficaz á saude do espirito que a saude do corpo. Uma enformatura de athleta tem de ordinario um rouxinol por alma. De fórma que eu sentia a bondade extravasar de mim como nos tempos biblicos o oleo de naphta da urna da santa mulher, que ajoelhada ungia os pés de Jesus. Os violentos exercicios em que o esforço muscular se despende, a carreira, a gymnastica e a caça, faziam a minha paixão dando-me o culto da minha propria fórma. Erguia verticalmente os dois braços, tendo em cada mão sentado um dos meus irmãositos--cousa que assombrava o Zé Rato e fazia contentes os garotos. Diante dos grandes espectaculos em que a natureza expende a mãos plenas o jogo icaro das suas forças harmonicas, a minha alma tinha fremitos d’azas como as andorinhas que vão atravessar o oceano. A vacillação fatalista do periodo lamartmiano fôra substituida por uma comprehensão logica dos factos, por uma tranquillidade honrada á idéa do futuro e pelo testemunho da mais sã consciencia. Entrei a fazer religião do trabalho, o que me permittiu não pensar mais em Deus, tendo-o sempre no coração. As mulheres eram concordes em que a minha belleza era superior á minha amabilidade. Uma senhora achou-me uma noite a conversação de um lente. E algumas diziam de mim:
--Pretencioso!--porque lhes não fallava das locaes amorosas e das revistas de modas.
Comprehende-se que o meu enthusiasmo puritano por tudo quanto era grande, não sobrasse para o espartilho das serigaitas que se me agitavam no caminho.
Assim modificado, tinha agora o mais completo desprendimento pelo que se chama gozar. Apagára-se-me o ideal pelintra de muito folhetinista imberbe, que consiste em ser comprimentado á porta da Havaneza por tres burguezes que passem, mostrar todos os invernos tres pares de calças novas sobre dois de botas velhas, e um _plastron_ vistoso n’um seio tuberculado.
A ostentação e a exterioridade enfastiavam-me como certos cheiros de acidos vegetaes. Odiava em geral o ruido e o luxo, não achando digna de um homem serio qualquer das languidas que nos passeios e nos theatros via desfilarem, monotonas e sorvadas, por diante de mim. No seio dos meus papeis ou na intimidade flagrante da natureza em festa, sentia-me outro homem, respirando saudavelmente e digerindo ás mil maravilhas; uma alegria penetrava-me com essa entoxicação anodina do gaz hilariante, nos organismos nervosos, e eu crescia e revigorava sentindo a vida como um beneficio sem preço. Foi durante esse tempo, o mais laborioso, o mais infatigavel, o mais util e o melhor de toda a minha vida, que pude realisar as collecções de insectos que hoje pertencem á Escóla Polytechnica e me valeram os emboras dos grandes trabalhadores da Europa, e estudar quasi completamente a flora continental que Brotero deixára lacunosa. N’estes trabalhos depurára-se a minha sensibilidade ao extremo de me commover perante uma bella arvore ou ao cabo do estudo de qualquer complicado coleoptero. Um individuo vegetal captivára o meu amor ardente, apaixonado e ingenuo. Era ainda a oliveira que desde a infancia me offerecia a sua sombra benefica, a sua ramaria frondente e a enorme corpolencia secular do seu tronco. Que grandeza, a d’esse gigante que uma especie de bondade envolvia e divinisava!...
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Aos cincoenta annos tinha os cabellos brancos e a pelle rugosa. Minha mulher, de compleição doentia dera-me filhos sem saude e de sensibilidade estranha. Eram pequenos pallidos de grandes olhos ardentes e mãos febris, frageis e curiosos, cujo futuro me fazia tremer.
Estava cançado e velho. Toda a vida sentira pelo dinheiro um desprezo sem limites, não lhe dando a honra sequer de o accumular. Perdera a vista do olho direito, aos trabalhos do microscopio. Era mais pobre que no tempo de meu pai--tinha apenas de meu o olival. Para economisar, dirigia eu mesmo os trabalhos do campo e andava vestido de saragoça. Ás vezes, vinha-me o remorso de não ter alcançado uma fortuna para essas pobres crianças, que a perpetua contemplação do mesmo panorama parecia enlutar de melancolias negras e de presentimentos funestos. Pouco a pouco, á medida que os annos me polvilhavam de neve os cabellos, ia experimentando uma irritação surda pelo meu passado laborioso, mas esteril d’essa cousa vil e preciosa chamada moeda. Não tinha senão despezas; lucros, raros! Então reneguei da heroica abnegação de outros tempos, tornando-me vulgar, macambuzio e cheio de admiração pelos lavradores opulentos da visinhança, que recolhiam vinho ás adegas e trigo aos celleiros. Os filhos d’elles espesinhariam talvez um dia os meus filhos, vingando a imbecilidade dos paes da orgulhosa superioridade com que eu os tratára. Os filhos d’elles seriam felizes, cheios de confortos e prazeres, com a faculdade de estudarem onde bem quizessem, e de fazerem fortuna como bem lhes parecesse. E os meus, mal enroupados, doentios e invejosos--quem sabe!--se conhecendo um dia a minha historia maldiriam a intransigencia do meu caracter e a pouca solicitude com que lhes tratára dos interesses!
Os meus dias então eram levados em percorrer o olival, no calculo dos litros de azeite que me renderia a colheita. Que desalento aquelle meu! As arvores não carregavam todos os annos: enchia-as de pragas, e maldizia a minha vida.
A oliveira secular sómente, comprehendendo a minha situação e adivinhando a angustia d’aquelles passeios solitarios, procurava com fructos abundantes compensar o modesto tributo que as outras arvores tão custosamente me pagavam. Fôra para mim a eterna mãi affectuosa, de cujos ramos pendera criança, a benevola confidente que cobrira do seu docel de folhagens o meu amor por Martha, o esplendido e victorioso vegetal diante de que o meu extasi de botanico tantas e tamanhas vezes tinha exultado. O amor que eu lhe votára soffrera as quatro phases de todos os amores da vida humana, em transigencia sempre com a orientação do caracter e com o progredir dos annos. Fôra primeiro, o amor de criança incoherente e doido; fôra mais tarde o amor de adolescente, idealista e _reveur_, representativo da idade em que o homem desaggrega da alma as crenças innocentes e começa a participar da influencia dos primeiros instinctos masculos. Transfeito no amor de sabio elevára-me até regiões altivolas.--Depois, no inverno da vida, aquella emoção archangelica primeiro, impregnada de poesia radiosa depois, e tornada sublime por fim, decahira no vil egoismo que mais prefere aquillo que mais rende, impressão sem grandeza e sem ideal, derradeira efflorescencia da alma obcecada pelos interesses, pelas amarguras e pelas oppressões!
[Illustração]
O FUNAMBULO DE MARMORE
A contessina sentiu-se triste n’essa manhã, aborrecida da quietação languida do seu _boudoir_, da falsa pompa de vegetação dos seus salões-estufas, da vida contemplativa dos aquarios de crystal-rocha, da atmosphera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxygenio vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exhalações de _opoponax_ e _verveine_, contidas nos frascos bohemios, todos facetados e scintillantes. Mandou pôr o coupé, um pequenino coupé estofado de carmesim, grandes fivelões de madre-perola floreteados; escolheu um vestido claro, de um estofo liso, grandes laços vermelho e branco, apertado em longa _cuirasse_, com uma cauda aristocratica, que deixava no ouvido um dôce _frou-frou_ inebriante.
E com um gorro de pennas, de fórma excentrica, uma tira de gaze a meio rosto, atada na nuca, penteado simples, em que destacavam contra a luz uns pequeninos anneis dos seus cabellos castanhos, sobre a fronte de castidade sonhada, com uma camelia branca no seio, a _contessina_ saltou para o carro. Era sabbado, nos dias lucidos de maio. O cocheiro teve ordem de seguir ao longo dos _boulevards_, atulhados de gente activa que tumultuava nos passeios, nos armazens, nas casas de modas e nos _ateliers_, vivamente, alegremente, raça de gigantes e de artistas que ia fecundando as industrias com o poder da sua violenta actividade.
Na bolsa, á porta, junto do guarda-vento, viu o conde de M. que argumentava com o judeu W. sobre questões de fundos. Mais adiante comprimentou a joven C. que apartava n’um livreiro as ultimas publicações de critica e de esthetica. Parou no _atelier_ de Carlo Borgio, o pintor de quinze annos, que fizera ruido com um quadro impressionista, repudiado pelo jury de uma exposição artistica em Roma. Encontrou lá a fina flôr do mundo culto da cidade: o medico F. a quem um trabalho sobre doenças cardiacas abrira as portas das mais celebres academias europêas; Henrique de R. o folhetinista mais delicado da Italia; Raymundo Conti o critico por excellencia que dictava a lei do bom gosto, com um bom senso admiravel, e mil personagens celebres do grande mundo illustrado e do grande mundo elegante.
O pintor tinha olheiras--a _contessina_ reparou n’isso--não apartára o cabello ainda e o seu traje de manhã, cheio de negligencia, o seu largo e branco collarinho decotado, deixavam adivinhar pela curva do seu pescoço forte e levemente sanguineo, côr de rosa claro, um corpo esculptural de athleta, vigoroso e saudavel, creado á larga no puro ar balsamico dos campos, ante a vastidão contemplativa do mar. Não havia no _atelier_ nenhum quadro novo. Apenas sobre o cavallete, um cartão esboçado em traços. Carlo fumava cachimbo: a _contessina_ achou-o por isso detestavel, e sahiu sem lhe haver sorrido como costumava. Sem ella reparar, a camelia branca que levava esfolhou-se ao sahir, maculando a alcatifa escura do _atelier_ com as petalas immaculadas, brancura lactea, cheia de pequeninos veios caprichosos, como as ruas do mais intrincado labyrintho.
Deixou-se cahir outra vez nos cochins do coupé, e mandou rodar para a galeria Medicis, no extremo occidental da cidade.
Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe pareceu vulgar e indigno da sua attenção. Mirou no espelho que ficava defronte, atraz da tábua do cocheiro, a sua flexivel figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu bello perfil raphaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pureza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e timido. Uma ruga imperceptivel se avincava verticalmente na sua testa. E impacientou-se, achou que estava feia, trigueira, mal vestida. Então inclinou a cabeça para traz, sobre os cochins, deixou pender o corpo tambem, com um abandono, uma _morbidezza_ tentadoras, estendeu-se quasi no coupé, indolentemente, sem vontade, sem palpitação e sem coragem, com desejos de se espreguiçar, de sonhar coisas extraordinarias e phantasticas, de correr aventuras sobre o mar, n’um _cuter_ ligeiro pintado de branco, com jovens marinheiros escocezes, loiros e athleticos, de uma candura virginal, que cantassem as arias das montanhas, balladas suaves e frias, onde a manhã rompe e os gallos cantam, e se ouve bater horas o sino do castello em ruinas, ao descer da velha ponte levadiça, quando o couraceiro phantasma recolhe de lança ensanguentada, no meio dos córos das victimas.
E sob o dominio da sua aurea phantasia cerrou os olhos e começou a viver n’aquelle devaneio que interiormente ia bosquejando. O coupé parou emfim, desceu lesta no atrio de mosaico e penetrou nos salões abertos á curiosidade dos amadores.
Sobre os cavalletes, sobre degraus e pelas paredes, patenteavam-se os _capi-d’opera_ dos grandes mestres da Renascença, do Perugino, de _senza error_, de _fra_ Angelico, de Sanzio, do Buonarroti, do Ticiano, do Tintoreto, de Dominiquino, de Julio Romano, dos Carraches, de Montagna, e todos os primores das escólas allemãs e flamengas: scenas de interior, trechos de _ménage_ e cervejaria, as paizagens realistas dos hollandezes, de céos humidos e flocos de nevoeiro, onde o verde alcança todas as gradações vegetaes, e o sol como uma braza mettida em oleo, se extingue vermelhamente, entre fumaradas que passam. Roçagando a sua cauda elegante, a _contessina_ passava sem parar diante d’essas soberbas telas, que resumiam todo o ideal de mais d’uma raça, demarcando as tendencias e aspirações, um pouco modificadas havia muito, na evolução social do ultimo seculo. A cada passo, lhe sorriam dentro de molduras de pau-rosa, de prata, de sandalo, bronze ou talha, uma _madona_ casta, com o _Bambino_ nos braços, um martyr amarellecido e chagoso, uma Venus concupiscente e nua, um Christo dolorosamente livido, atado ao madeiro da ignominia, um guerreiro sob a armadura scintillante das grandes idades heroicas. E movendo o seu leque de frias plumagens, todo constellado de scintillações preciosas, com o binoculo d’ouro na pequenina mão calçada em _peau de Suède_, o olhar distrahido passeando sobre os aspectos sem os distinguir nem os fixar, a _contessina_ perdia-se entre os amadores officiosos, entre os artistas obscuros de ambos os sexos, que tiravam copias, vestidos nas suas tunicas talares de _atelier_, o olhar attento e perscrutador cravado nos modêlos, com uma concentração nervosa e extatica. Não tinha já admiração para queimar, como um perfume enervante, ante tamanhos primores accumulados. Desde pequenina conhecia aquellas magnificas pinturas, e escutára as exclamações de uma admiração mais ou menos convicta, soltadas pelos entendidos ou pelos pedantes, ao longo dos vastos salões esplendentes da galeria. Mas a verdade é que os modêlos classicos, as sacras familias de colorido _eclatant_, sempre na mesma _pose_ e compostas das mesmas figuras, as scenas biblicas repassadas de unção convencional e mysticismo fradesco, não iam direitas, pela sua _maneira_ e pela sua idéa symbolica, ao seu coração modernamente educado de artista, á sua alma expansiva de meridional, tão cheia de amor pela verdade e tão penetrada da seducção exquisita das pompas de uma natureza luxuriante e escorrendo de côr, e dos caracteristicos, habitos, e indoles pittorescas de uma raça vigorosa, cheia de culto, de fórma e de ideal. A sua predilecção artistica era alguma coisa como o aroma exhalado por quanto contemplára em viagens, estudára em bibliothecas, e sentira em convivencia, aroma que rescendia em espiras balsamicas e suavissimas, n’uma palpitação de borboleta irisada, n’um hausto de liberdade sublime, extraordinaria e sonora. Comprehende-se que o seu temperamento lhe exigisse uma arte que se pudesse admirar sem profanação, e se pudesse amar sem remorso, que fallasse ás suas exigencias e aos seus caprichos, sem incluir a recordação dos velhos martyrios, apotheoses entre seraphins e nuvens, mysterios idiotas e theologicos, em que se contrariam por principio de carolice, as leis mais logicas e simples da sciencia, da creação e da especie.
E n’uma disposição rebelde, fatigada das saturações da côr, das exuberancias systematicas de musculatura, das garridices da fórma, da abundancia de pinturas, voltou para traz antes de chegar ao fim, entrou no carro cheia de _spleen_ e abatimento, e mandou rodar para casa.
Atirou o chapéo mal entrou no _boudoir_; a camareira trouxe-lhe o roupão de linho de Manchester com que costumava trabalhar; e envolta no tecido de listas graves a fresca figura de uma pallidez serena, foi tomar assento no seu _atelier_, diante da estatua de marmore branco, que começava a sahir ainda indecisamente, da bruta massa de pedra, ferida pelo seu sinzel phantasista de uma graça e de uma originalidade captivantes.
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Havia tempos que trabalhava n’essa obra, e com que amor!...
A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada n’um pequeno cinto de conveniencias e vulgaridades. Pouco conhecera da familia, não sabia admirar o que nas mães se chama _uma missão heroica_, e nas mulheres em geral, os _deveres proprios do sexo_. Tinha percorrido o mundo sósinha. A quantos a amaram n’esse periodo, sorrira sempre. Á sua natureza excentrica appareciam deformados em esgares ridiculos, os galans modêlos. Fatigava-se depressa. Demais tinha um intuito finissimo d’artista, altivo de mais para aceitar lugares communs. Mas havia na sua vida este episodio--uma noite, n’um circo de Napoles, vira fazendo equilibrios n’um globo, um rapaz vestido de meia, agil e elegante. Nunca pôde esquecer aquella figura que surgia pela primeira vez á sua imaginação, como efflorescencia rara, sonhada entre incoherencias de febre.