Part 12
--É uma honra...
--Cale-se, é apenas gratidão. O conde é sincero.
E mudando de tom:
--Armando, que idade tem?
--Vinte, condessa, bem monotonos na verdade.
--Vinte annos!--E a sua voz, de uma inflexão musica, era suave como uma caricia.
Eu sentia-me todo levado para ella...; mas de subito lembrei-me do conde, o meu melhor amigo.
Pobre Carlos! Áquella hora, jogava talvez no Gremio com os seus intimos, e perdia. Bello rapaz! Tinhamos sido condiscipulos no collegio, elle era casmurro nos seus significados de latim, levava puxões d’orelhas.
De uma vez, lembrava-me, haviamos jogado a tapona; elle tivera um gallo na testa, feito com um compendio de logica, a que nunca pudera chegar. E tinhamos ficado mal, _indifferentes_, todo o anno. E via-o magro e bonito na sua blusa de riscado cheia de tinta de escrever, um molho de chaves de bahús na algibeira, tilintando.
Ás onze horas ia ao club fallar em politica, altivo na sua opinião respeitada, entre conselheiros graves de calva e suiças claras. Á meia noite, Fatime, o vampiro, esperal-o-hia n’um coupé, a S. Roque, para irem ao _Restaurant Club_ cear, e fazer depois a digestão entre beijos e champagne até madrugada, hora em que a bailarina costumava receber um trintanario loiro, trescalando a cavallariça.
E reatando a palestra, para dizer alguma coisa, perguntei:
--E a condessa, quantas primaveras?--Olhava de soslaio o seu largo collarinho azul e vinham-me suspiros evaporados d’uma grande indolencia.
--Dezoito, respondeu, mas estou velha, sabe?
--Uma aurora! disse eu com a petulancia de quem lapidou uma phrase com o meu tom de mais effeito, de que usava nos grandes momentos. O meu olhar cahia sobre ella, como uma má sina. Na penumbra, brancuras de seios empallideciam. E continuando:
--Quem tem dezoito annos é sempre feliz, innocente; aos dezoito annos a vida é uma benção, um aroma, uma perola... E queria ser eloquente, mas estendia-me, fazia má figura. Ella ria com os seus dentinhos brancos que recortavam de alvuras gulosas o escarlate lascivo da sua bocca humida.
E grave, passado tempo:
--Sabe, Armando, que essa sua prosa sujeita a rimas, dava bellos endecasyllabos?
Fiquei todo corrido, uma larga desconsolação espasmodica, as fontes aos baques.
--Oh! condessinha, é cruel. E sentia-me córar como um cabula.
--Olhe, quer que sejamos francos? A minha vida é bem triste. O conde é um rapaz adoravel. Vestidos, quantos appeteço. Manda vir joias de Paris. Não me recusa cousa alguma. Eu não queria tanto sim, vê? Porque isto mostra-me que elle me esqueceu cedo, que se não interessa por mim, que se não preoccupa dos meus caprichos, entende? Que me deixa ir assim, _ao Deus dará_. E juro, Armando--eu não lhe merecia isto.
Chispavam scentelhas do meu olhar na ampla dobra azul do collarinho. A sua tunica branca, immensa, apertada na cintura sem esforço, quebrava-se toda em dobras á roda, aos seus movimentos rapidos. E contra a luz os seus cabellos crespos, cortados em borla na fronte, lembravam fios de ouro sem liga. A sua voz tinha uma resignação penitente, afogada n’uma tristeza passiva e sem resolução.
Commentei:
--Oh! é injusta. Não é isso que o conde me confessa todos os dias.
O labio teve um escarneo cheio de meigas censuras.
--Realmente? Olhe cá. E elle diz então que me ama? Entendo. Armando pensa que o amor que elle lhe narra é consagrado a sua mulher? Porque, diga, Carlos nunca pronunciou o meu nome durante essas expansões. Seja franco, vamos. Mas diga então.
--De certo que pronuncía, condessa: é bem claro, é lógico.
Ergueu-se vivamente, a mão crispára-se-lhe.
--Mente, Armando, mente! Perdôe-me a injuria, mas falta á verdade. Elle ama apenas estas coisas, ouça:
E contava pelos dedos.--O seu cavallo arabe, o jogo de fundos e... digo?
Ria-se nervosa, desafiando.
--Condessa!
--Fatime. A dançarina judia.
Exaltava-se.
--Oh illude-se, juro que se illude. O conde está no Gremio.
--Armando, olhe bem para mim. Ousa enganar-me, então? E rapida, suffocada, risonha:
--Hoje á meia noite, elles cêam ambos. Quer saber aonde?
--Mas...
--É desleal occultando-me a verdade, repare.
--Como soube...
--Comprei os criados. Póde ir dizer a meu marido. Quando se é trocada por uma bailarina, fica-nos o direito de chegarmos até onde nos aprouver. Não lhe parece?
E atravessava-me com o olhar. O seio batia. Fugitivamente, os meus olhos iam casar-se na côr do seu collarinho. Curvei a cabeça sem responder. A condessinha insistiu com doçura, quasi em segredo:
--Não acha?
Fechei os olhos sem dar palavra. Sentia-me perturbado. Onde ia ella chegar? E depois lentamente, respondendo á sua pergunta, os meus labios disseram _não_, mas todo eu affirmei _que sim_.
Podem clamar quanto quizerem, mas a condessinha desejava-me, queria-me, ella, a esposa do meu melhor amigo, e a minha fragilidade sentia-se attrahida para ella, como uma aza de penna para um iman, sem remedio, sem consciencia e sem destino. Para que nos deixava o conde todas as noites sós? Para que a desgostava a ella, pobre criança innocente e caprichosa?
Havia uma semana que eu andava perturbado diante de Beatrice. Notára que os seus collarinhos de serão eram cada vez mais largos, e que o seu seio de um marmore fatal, em que destacaria bem o sangue d’uma punhalada, arfava impetuoso, se proximo de mim. As minhas noites entraram a ser riscadas com a phosphorescencia d’aquelle desejo, como um profundo mar entenebrecido e sombrio. Os seus olhos fixos e humidos de ancia, grandes como dois mundos, estavam sempre diante da minha vista. E o peor não era isso.
Mas aquelle diabo do collarinho...
--Armando, disse ella, bem sabe como eu sou supersticiosa. Vai acontecer desgraça por certo.
Olhe. Hontem, uma borboleta negra entrou-me no _boudoir_, em quanto tomava o meu banho tepido. Tudo estava fechado, as cortinas e as vidraças unidas, os stores pendentes. De modo que da rua, aquella fatal mensageira não veio, com certeza. Digo-lh’o eu, Armando, vai succeder desgraça. Não dormi esta noite, pensando horrores. O conde veio tão tarde!...
E baixinho, só para eu ouvir:
--E sabe, trazia no fato um aroma que não era o dos seus _sachets_. Eram os beijos de Fatime. Escusa de olhar para mim, Armando. Não tenho ciumes nenhuns. Ainda ha poucas noites, na walsa do _Roberto_, eu atirei flôres á bailarina. Porque é uma artista. E que belleza!
E lenta:
--Não tenho ciumes, não. Pobre conde! faz o que póde. Todos fazem o mesmo. Fosse eu homem, t’o cantaria...
E feito um silencio curto, os olhos baixos:
--A minha vingança é outra!
E lentamente, deixando cahir as palavras:
--Pena--de--talião!--Apre!
Ouvia-se o tic-tic da pendula. Eu erguera-me agitado, a tremer, sem uma palavra, sem uma idéa, sem uma resolução. Estavamos quasi ás escuras, e mesmo assim, eu via o seu collarinho decotado e a scintillação caustica dos brincos. Accendi sobre o fogão, duas serpentinas de bronze.
A condessinha immovel, de pé na sua pallidez fascinante, o penteado desmanchado, tinha um sorriso vago; e vendo a impressão que as suas palavras violentas me causavam, disse:
--Se o offendessem, Armando vingar-se-hia.
Eu ia protestar; ella juntou logo:
--Sou filha dos marquezes de Penha Longa; dez vezes mais orgulhosa por isso, que qualquer outra.
--Orgulho fatal! exclamei eu.
--Quero a desforra! Estou cançada de humilhações.
Eu avancei e disse com força:
--Seria indigno!
Beatrice resentiu-se, os olhos encheram-se-lhe de grandes lagrimas sublimes. Balbuciou:
--Armando!
Tornei asperamente:
--Seria cobarde!
E aproximando-me com voz curta, rapida e vibrante, como a d’um vingador colerico:
--É loucura ou crime? Hein?
Cahiu aniquilada no _fauteil_, terrivelmente pallida, os labios tremulos, dizendo imperceptivel:
--Oh Armando, Armando!... Fui amparal-a. Meu Deus! O peso do seu corpo enlouquecia-me; eu amava-a, eu queria-a! Atirei-me chorando a seus pés. Ah! que infame, que infame eu era!
* * * * *
O relogio deu meia noite. Áquella hora, o conde ceava com Fatime, n’um gabinete côr de rosa, do _Restaurant Club_. Bebiam talvez o seu champagne; o conde teria ditos de uma mordacidade equivoca; a judia gargalhadas sonoramente soltas. Resoaria um beijo... Nós ambos, a condessinha e eu, sentados no mesmo _fauteil_ ceavamos alguma coisa excitante e bebiamos pelo mesmo copo, aos golinhos.
Beijos quentes, prolongados e devoradores, uniam os nossos labios impuros. De sobre o fogão, o retrato de Carlos olhava sorrindo o grupo. E um perfume mysterioso fluctuava.
Beatrice lembrou-se de repente:
--E o conde?
--Ora! Tenha juizo. Tambem, para que foi cear com Fatime? E rindo:--compraste então os criados; peça bem pregada! Nada de dar cavaco, percebes, nada de dar cavaco... Shut!
--Amo-te tanto, tanto! Aborreço o conde por tua causa. Quando elle apresentou aqui os seus amigos, lembras-te? Trazias as tuas polainas de caça, um _nickerbokar_ de Pool, n’uma bonita e fresca manhã. Iam caçar. Eu fiquei á janella, em roupão, os cabellos despregados.
Bebia devagar, e ao cabo:
--Ah! Esta liberdade inebria-me, meu Deus; não póde ser um crime. Amar um homem que se viu depois de casada!... E muito baixo, phrenetica:
--Os teus cabellos, a tua bocca tão fresca, a tua pelle tão fina! Deixa-me morder, uma dentadinha pequena, para não fazer sangue.--Eu deitava champagne.--Mas perturbas-me, convulsionas-me, Armando! Um beijo: cala-te, cala-te, meu Deus! É preciso que me sintas: quereria morrer comtigo, no mesmo instante, dormir no mesmo caixão, n’um cemiterio de grandes arvores e sombras frescas. Endoudeço, enlouqueces-me!
E com os seus brancos braços de esculptura, fortes, sinselados e quentes, enlaçava-me o pescoço, um rubor febril na face, os olhos afogados n’um languor amoravel. E dizia-me terna, ternissimamente, como só as mulheres dizem na noite de nupcias:
--Tenho tanto peso na cabeça, Armando! Um somno tão grande!...
E toda ella vergava pesando sobre mim, a cabeça decahida no meu hombro.
--Vês como sou tão humilde, tão tua, nem eu sei... uma escrava.
Abandonava-se, suspirando. Os meus beijos desciam pouco a pouco pelo seu pescoço, em direcção ao seu collo.
Repetia:
--Uma escrava!...
--Mas ha pouco, louquinha, dizias-me tu tão altiva: _Sou filha dos marquezes de Penha Longa, dez vezes mais orgulhosa por isso, que qualquer outra mulher._ E agora? Incoherente...
E torcia-lhe o labiosinho amuado, côr de rosa.
Ella bebia. E fazendo estalar a lingua:
--Ah! Não repares no que eu disse. Nós fallamos sempre em orgulho e antepassados, quando não temos que dizer outra cousa. O papá era assim: nós aprendemos.
--Oh condessa! disse eu espantado.
--Ora! De mais o sabes tu. Dá-me champagne!
--Olha. E um beijo, outro, outro...
O conde ceava com Fatime, provavelmente.
[Illustração]
QUATRO ÉPOCAS
(CONTADO POR UM MISANTHROPO)
Por detraz da nossa casa, passado o laranjal, ficavam as oliveiras, manchando de pardo o terreno ondulante que uma herva espessa e florida cobria. As primeiras sezões que tive, por um verão de ha quarenta annos, agradeci-as aos calores insupportaveis a que durante uma semana me expuz sem chapéo, sem véstia e sem sapatos. No campo, segundo o costume patriarchal da gente pobre, mal o sino da igreja dá meio dia, o pai senta-se á mesa, defronte da mulher, os filhos á roda, e janta-se. Findo o jantar, a familia levanta-se conservando o seu lugar e cada qual põe as mãos. O pai e a mãi rezam em voz baixa, emquanto os filhos recitam alto a oração de graças pelo alimento d’aquelle dia. «_Muitas graças e louvores sejam dadas ao meu Senhor Jesus Christo, pelos muitos bens e esmolas que me faz, tem feito e tem para fazer em quanto fôr servido._
_Padre Nosso..._»
Depois, o chefe abençôa os pequenos e manda-os tratar da vida; os mais velhos para o trabalho, os mais novos para a escóla. O mestre que tive era um relapso sem emenda. Dia sim, dia não, gazeta sabida! Que jubilo o meu quando, ao chegar com a pasta e a cantarinha d’agua, ouvia pelo taboado da escóla o sapatear rebelde dos rapazes e as vozes bramirem n’um côro estridente que dizia:
--Não ha escóla, não ha escóla!
Iamos em bandos depois, cantando praça abaixo, aos sôcos, aos empurrões e aos berros.
Uma vida de bezerros circulava nas nossas arterias sadias; uns atiravam com terra á cara dos outros, com pedras e com as pastas. Alguns dos mais graciosos arremedavam o mestre, fazendo carantonhas de estoirar de riso. Vários ainda, dos que moravam perto, iam jogar o botão, arrancando sem piedade as marcas das ceroulas e das calças e os botões das jaquetas e colletes. D’uma vez que appareci sem botões, minha mãi deu-me açoites com tão aspero chinello que nunca mais tive vontade de jogar. Aquella sova explica por ventura o asco que ainda hoje sinto pelos jogos--tão abençoada foi ella!
Já n’aquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras phantasias, armavamos panelinhas de tres, quatro e cinco, para a brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa ou iam de joelhos todos, conforme.
A minha era composta, do Chico Rato cujo pai era feitor em nossa casa, do Manel da Pomba, um loiro de olhos sinceros, mau como os demonios, e do Zé Estrello, hoje pastor.
Em dias de feriado ou de gazio toca para o olival dançar nos baloiços, fazer caça aos ninhos ou atirar pedrada velha aos telhados das adegas fronteiras.
D’uma vez apanhámos um gato que todas as noites nos ia roubar as crias dos coelhos. Atámos-lhe um baraço ao gasnete, pendurámol-o n’uma oliveira e foi pedrada até que morreu. Eu chorava de pena.
--Oh minha lesma! dizia com desprezo o Manel da Pomba, descarregando ás tres e ás quatro, sobre o pobre animal meio morto.
Mas o que mais nos divertia era o baloiço. Atavamos as arreatas das mulas umas nas pontas das outras; Zé Estrello, que era o mais possante, dava o laço na pernada solida de uma oliveira secular.
As pontas pendentes da corda eram atadas a uma cortiça rija, que servia de assento.
E estava prompto--um! dois! tres!
Começava a frescata.
Durante os cinco ou seis annos que serviu aos nossos prazeres, a velha arvore nem por um instante nos trahiu. A cortiça do baloiço era occupada ás vezes por tres rapazes. Quebravam-se as cordas e vinhamos ao chão; a arvore porém nem nos mettia susto, estalando. Boa e velha amiga que parecia feliz deixando-nos pender dos seus ramos metallicos, como esses cachos vivos de que fallam as historias maravilhosas!...
Uma noite, depois da cêa, estando todos ainda sentados á roda da mesa, meu pai fazendo a voz solemne, disse-me que eu estava um homem e precisava cuidar do futuro. Eu tinha uma forte admiração pelos carpinteiros, n’aquelle tempo. A arte com que elles punham branca, nova e polida uma velha tábua com que o meu canivete nada podia!... A habilidade para tudo ajustar e o gosto com que arranjavam os carros com que brincavamos, arrastando carretadas de trigo, pelas eiras--davam-me um pasmo sem limites e um desejo serio de lhes seguir a profissão.
--Eu cá quero ser carpinteiro! disse eu todo grave.
Meu pai bateu na mesa, e o senhor prior que estava presente, riu da minha ambição.
--Estás tolo, ou que diabo tens? disse meu pai de sobr’olho hirsuto, olhando-me.
--Vaes mas é para o collegio, como os meninos do cirurgião, ajuntou o prior com bondade.
Eu abri os olhos sem entender, ou tremendo de entender. Ir para o collegio, n’uma terra distante onde ninguem me queria, deixar o Manel da Pomba e o Zé Estrello, e a horta, a casa, o olival, o baloiço e a arvore amiga e tolerante? Que? De cabeça baixa, minha mãi não dizia nada. Puxei-lhe a sáia devagarinho, ferido de grande medo:
--Não quero ir, mãi, não quero ir!
Os olhos d’ella fecharam-se, e aos cantos das palpebras comprimidas, lagrimas silenciosas cahiram, de uma saudade que ainda hoje me entristece.
Tinha já nove annos e parti.
A lembrança que no collegio, á noite e após todo um dia de aulas, que a dureza dos prefeitos me enlutava de amargos desalentos, me vinha mais viva, mais inconsolavel e mais triste, era a da arvore velha do olival, que sem queixa me aturára tanto!
Bons tempos da infancia purpureados de risos e cheios do casto aroma da innocencia--que vos não verei mais!...
* * * * *
No collegio, á medida que os annos corriam e enraizava d’essas leaes estimas que servem para toda a vida, as puerilidades da aldêa apagavam-se-me pouco a pouco, como lampadas sem oleo em templos desertos. Da segunda vez que vim a ferias vestido como um pequeno senhor, de luvas e relogio, pareceram-me despreziveis as minhas velhas affeições. Fui uma tarde á escóla de chapéo na cabeça e bengalinha de junco. O mestre tratou-me por senhor e sentou-me a seu lado, córando da superioridade desdenhosa que eu mostrava. Os rapazes ergueram-se respeitosamente como se tivesse chegado o commissario dos estudos. Aquella gentalha de sapatos cardados, véstias de saragoça e camisas de pano crú fez-me nojo, e tive humilhação pensando que fôra assim tambem, por tanto tempo. Lá estavam nos seus bancos de pinho o Zé Estrello, o Manel da Pomba e o Rato, de cabello hirsuto, punhos sebentos e livros amachucados, olhando-me com esses grandes olhos dôces que certos cães d’agua fitam nos donos em os vendo a comer. Pouca gente entrára de novo na escóla. De vez em quando, o mestre batia com a regoa na mesa e gritava:
--Ólá do canto! Temos paulada não tarda um instante.
A casa immunda, cheia de cuspo e papeis rasgados, era de uma nudez ignobil.
--Aqui não aprendem francez? perguntei eu com uma superioridade que os meus dez valores na disciplina não justificavam muito.
E n’essa noite á cêa, em quanto meu pai olhava para mim n’um extasi e a ternura de minha mãi orvalhava de lagrimas o casto lenço branco que se lhe encruzava no seio, disse passando a mão pela testa e cabello, como via ás vezes fazer aos de Mathematica, no collegio:
--Lá fui á escóla, fazer o meu bocado de troça.
Aos quatorze annos estava um homem, espigado e pallido, com as olheiras symptomaticas da transição de idade. Era bonito e meigo, com mãos de mulher que veios azues reticulavam, como em certos marmores sagrados. As gengivas tinham-se-me descarnado um pouco, fazendo mais compridos os dentes.
Ardia na aspiração intensa de usar cabello crescido e fatos de casimira clara. O uniforme negro do collegio e o cabello á escovinha da ordem, torturavam-me o orgulho de rapazinho elegante. O meu grande desejo era ser externo, fumar e ir ao theatro. Um de Introducção já crescido, cahira uma vez d’um cavallo e a queda fizera-o idolo da rapaziada. Quem pudera tambem gozar de semelhante triumpho!--pensava eu por vezes, sentindo um ciume ardente do heroe. Uma magica das _Variedades_, onde fomos todos n’uma noite de carnaval, patenteou para mim o amplo scenario de um mundo com que o meu temperamento nervoso já sonhára confusamente. O de Introducção emprestára-me um binoculo, o que me permittiu observar meudamente as decorações, os figurantes e os camarotes. As bailarinas e os deuses vestidos de malha apertada, que lhes desenhava todas as linhas dos corpos, fizeram mo palpitações de arterias e seccuras de garganta. Havia um principe loiro de uma belleza sem rival. Amei-o cá fora, annos depois, quando já perdera a frescura e subira em preço--ai de mim! Era uma actrizita de dezesete annos, bocca vermelha e fallas musicaes, vestida de rapaz. Nada mais gracioso que os seus pequenos pés ligeiros que pulavam ondas, rochedos, abysmos e perigos--tudo de lona, é claro. A sua cinta era fina e flexivel, e as ondulações do seio scintillavam n’uma armadura de galão, ás escamas. Essa noite foi uma febre para mim, impetuosa, allucinada e tremenda. Que revolta, Santo Deus! Estendido no leito do dormitorio, onde seis ou sete dos meus condiscipulos tranquillamente dormiam, eu experimentava dentro de mim o quer que era de um desabamento. Faltava-me o ar e tudo me andava á roda. Que miseravel aquella clausura regulada a sopa, vacca, arroz e duas peras verdes! E dez horas de estudo, madrugadas peniveis, reprehensões, oppressões e malquerenças!... Sim, para além do collegio com a sua monotonia de claustro, as suas apostillas, as quintas, os domingos de folga e a roupa lavada duas vezes por semana, outra existencia auriflammante tumultuava em amores, em pompas, em perigos, e doidas phantasias preconcebidas e logo realisadas. E aquelle principe loiro, aquellas fadas azues, e as apparições que o magnesium idealisava de uma fascinação irresistivel, viviam, cantavam, amavam a seu bel-prazer assim vestidos, lançando á roda o cheiro da carne viva e sadia que chama os famintos de deleites, e faz rolar as libras dos perdularios. O candieiro apagou-se por noite velha. Ergui-me cautelosamente, em camisa de dormir.
--Que anda ahi? perguntou com voz de porta-machado o Carvalho, prefeito, que fôra de lanceiros.
Aquella voz enregelou-me, e tornei para traz como se por mim houvesse passado a maldição de Israel. O de Introducção trouxe-me romances.
E a leitura fructificou no campo que a magica das _Variedades_ havia irrigado. _A Filha do Parricida_--que esplendido!--Já léste? dizia eu a toda a gente. _O Filho do Diabo_ fez-me sonhar. E os _Bastidores do Mundo_, o _Doutor Negro_, e os _Mysterios de Londres_! Todo eu era escadas de corda, alçapões, raptos, personagens mascarados e juramentos solemnes.
No quintal ás vezes, reproduziamos as scenas terriveis que iamos lendo ás escondidas. Fingindo irmos a cavallo, encontravamo’-nos n’um recanto de rua.
--Quem sois? perguntava um.
--_A lua romperá_, respondia outro.
--_Deixai passar, irmãos_, fazia o primeiro, e cada qual seguia o seu destino.
D’outras vezes ao chá, um de nós exclamava arremessando ao outro um lenço:
--O senhor é um cobarde!
O insultado erguia o trapo, bramindo:
--Ah, que essa affronta só se póde apagar com sangue. Ámanhã no Bosque de Bolonha, ás sete.
--Lá estarei, senhor!
E iamos dormir em seguida, com o maior socego.