Contos

Chapter 16

Chapter 163,995 wordsPublic domain

Era um dêsses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguêm escorraça os escondidos da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taberna. Infalivelmente, ao anoitecer, o José Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e, como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A essa hora já as janelas de Elisa luziam, de inverno embaciadas pela névoa fina, de verão ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José Matias se quedava em contemplação. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a taberna. Copo de vinho, copo de aguardente;--e, de mansinho, recolhia à negrura do portal, ao seu êxtasi. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda através da longa noite, mesmo das negras noites de inverno--encolhido, transido, a bater as solas rôtas no lagedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da escada--ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro!

Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! ¿E percebe porquê, meu amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José Matias!...

¿E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de chinelas, lendo o _Jornal da Noite_) ela se demorava a fitar o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sôbre as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol, para guiar na escuridão os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel!

De dia nunca êle passava na rua de S. Bento. ¿Como ousaria, com o jaquetão rôto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele môço de elegância sóbria e fina tombara na miséria do andrajo. ¿Onde arranjava mesmo, cada dia, os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tabernas? Não sei... Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. ¿Situação picante, hein? A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens--o amante do corpo e o amante da alma! Êle, porêm, adivinhou de onde procedia a pavorosa esmola--e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até com enternecimento, até com lágrimas nas pálpebras que a aguardente inflamara!

Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar para o seu portal. ¿E adivinha o meu amigo como êle gastava o dia? A espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras-Públicas! Sim, meu amigo! uma curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa, públicamente, pela porta da Igreja, e para outros fins humanos alêm do amor--para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas êste era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem. Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos, ansioso por saber bem como era êsse homem, que, para se completar, a sua Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para mirar, farejar o homem, quando êle recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua alcôva. Depois não o largava, cautelosamente, como um larápio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim, menos por curiosidade perversa, do que para verificar se, através das tentações de Lisboa, terríveis para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço da felicidade dela--fiscalizava o amante da mulher que amava!

Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era a sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria que o corpo de Elisa não fôsse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era fácilmente fiel a uma mulher tam formosa, tam rica, de meias de sêda, de brilhantes nas orelhas, que o deslumbrava. ¿E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal à divindade de Elisa, fôsse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado, porque no inverno passado, encontrei o apontador, numa manhã de chuva, comprando camélias a um florista da rua do Oiro; e defronte, a uma esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com carinho, quási com gratidão! E talvez nessa noite, no portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras vidraças, pensasse:--«Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por êle lhe trazer as flores!»

Isto durou três anos.

Emfim, meu amigo, antes de ontem, o João Sêco apareceu em minha casa, de tarde, esbaforido:--«Lá levaram o José Matias numa maca, para o hospital, com uma congestão nos pulmões!»

Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta de morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... Subi, com o médico de serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa suja e rôta, prêso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de sêda, poído e sujo tambêm. De-certo continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao médico, que o conhecia e o lastimava, se êle sofrera.--«Não! Teve um momento comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou _Oh!_ com grande espanto, e ficou.»

¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a alma triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde do mundo.

Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na verdade, é bem singular êste Alves _Capão_, seguindo tam sentidamente o nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sôbre o cadaver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dêle tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande consôlo, meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem--ou talvez ainda menos que um homem...--Com efeito, está frio... Mas que linda tarde!

A PERFEIÇÃO

I

Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as mãos, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava sôbre a areia muito branca. Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas correias das sandálias, que lhe calçavam os pés amaciados e perfumados de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bastão era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os que usam os Deuses marinhos.

A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sésta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos Zéfiros curiosos, que brincam e correm por sôbre o Arquipélago, desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais embaladora os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a areia macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu coração...

Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao mastro partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara! ¿E durante êsses imensos anos, como se arrastara a sua vida, a sua grande e forte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Troia, abandonando entre lágrimas inumeráveis a sua Penélope de olhos claros, o seu pequenino Telêmaco enfaixado no colo da ama, andara sempre tam agitada por perigos, e guerras, e astúcias, e tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das portas de Troia! Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à _Faia_, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de Aquiles! Mas não! vivera!--E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa água muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma túnica sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro pálido! No entanto, sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na sombra das ramadas, junto ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os açafates e as travessas lavradas transbordavam de bolos, de frutas, de tenras carnes fumegando, de peixes scintilando como tramas de prata. A intendenta venerável gelava os vinhos doces nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo, estendia as mãos para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um trono de marfim, Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados o néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de Príncipe-de-Povos com que Calipso o presenteara, repercorria sem curiosidade os sabidos caminho da Ilha, tam lisos e tratados que nunca as suas sandálias reluzentes se maculavam de pó, tam penetrados pela imortalidade da Deusa que jàmais neles encontrara fôlha sêca, nem flor menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha se sentava então, contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam bravio, aqui tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a Deusa que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino envolvera a sua Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles ainda, os seres amados? ¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de Reithros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o seu palácio, com os belos pórticos pintados de vermelho e roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e vazios anos, sem novas, apagada toda a esperança como uma lâmpada, despira a sua Penélope a túnica passageira da viuvez e passara para os braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas lanças e vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá? ¿Ocioso e rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro dum padrasto? ¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?... Ah! se a sua existência, assim para sempre arrancada da mulher, do filho, tam doces ao seu coração, andasse ao menos empregada em façanhas ilustres! Dez anos antes, tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos seres preciosos que lá deixara em solidão e fragilidade; mas uma emprêsa heróica o agitava; e cada manhã a sua fama crescia, como uma árvore num promontório, que enche o céu e todos os homens contemplam. Então era a planície de Troia--e as brancas tendas dos gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com soberba facúndia discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa, contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das portas Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob farrapos de mendigo, com os braços maculados de chagas postiças, coxeando e gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da Faia, para de noite, com incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio tutelar da cidade! E quando, dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na escuridão, no apêrto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam, e tapava com a mão a bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na planície os ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala! que a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre maravilhará as gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes! As Sereias, vogando e cantando em tôrno do mastro, de onde êle, amarrado, as rechaçava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos, jàmais concedida a um mortal!... E agora homem de tam rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente prêso, sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle fugir, rodeado de mar indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do fragor e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da Grécia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade duma ilha mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as mãos amolecidas para as iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o desejava.

Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o duma estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à cheirosa mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a oriente da Ilha. Com alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam refulgente, na refulgência do dia, só um Deus o podia traçar através do largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à Ilha?

II

Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve, eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que teem duas asas brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem tambêm duas claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter, roçara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas pègadas ficavam rebrilhando como palmilhas de oiro novo. A-pesar de percorrer toda a terra, com os recados inumeráveis dos Deuses, o luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de Ogigya--e admirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o correr e brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e madre-silvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de oiro, a lã formosa de púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a túnica diáfana a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava, como a neve quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E, emquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como trémulo fio de cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda ilha, e linda Ninfa!»

Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado que perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de ágata, as Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas coraram, com o seio a arfar, sentindo a presença do Deus. E sem deter o fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o Mensageiro--pois que todos os Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos, e os rostos soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o Éter e o Mar separam.

Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do Olimpo. Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o esplendor largo dos seus olhos verdes:

--Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o meu aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber dentro do meu poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva, como doce irmã, à mesa da hospitalidade.

Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante--e com as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as Ninfas acercaram do lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as infusas de cristal onde scintilava o Néctar.

Mercúrio murmurou:--«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da Ilha. E contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano que se cobriu de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas:

--Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta deserta imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino santuário de onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes votivas, ou o murmúrio gostoso das preces... Mas foi nosso Pai Júpiter, o tempestuoso, que me mandou neste recado. Tu recolhestes, e retens pela fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil e desgraçado de todos os Príncipes que combateram durante dez anos a alta Troia, e depois embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria. Muitos dêsses conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de despojos, e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos, porêm, e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado nas sujas espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste herói não é ficar na ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o choram, e que carecem da sua fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter, regulador da Ordem, te ordena, oh Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses dos teus braços claros, e o restituas, com os presentes docemente devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que tece e desfaz a teia ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores dos seus gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!

A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um harmonioso suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:

--Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas escuras dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me invejais, rolou às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a uma quilha partida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e todos os raios dardejantes de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o lavei, o nutri, o amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas, da dor e da velhice. E agora Júpiter trovejador, ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em tôrno desta afeição como a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois crueis, oh Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos Semideuses dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande Ulisses à sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor que o guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido Ulisses a construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso verde do mar...

Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do Néctar excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa:

--Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem lhe resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle sustenta, como scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas decisões, clementes ou crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o seu braço se torna terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta submissão serás filha estimada, e gozarás uma imortalidade repassada de sossêgo, sem intrigas e sem surpresas...

Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam a entrada da gruta.

--De resto--acrescentou--a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma quilha... Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!

E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com os frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele imortal formoso.

Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu da côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em tôrno das pernas redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar, perdido na contemplação das águas lustrosas, com a negra barba entre as mãos, aliviando em gemidos o pêso do seu coração. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana amargura. Depois, pousando no vasto ombro do Herói os seus dedos tam claros como os de Eos, mãe do dia:

--Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques de novo a terra da Pátria...