Chapter 17
Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com a face assombrada, saltou da rocha musgosa:
--Oh Deusa, tu dizes!...
Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos, enrodilhados no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso respeito da sua presença divina:
--Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo peito, nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente te confiarei o machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as árvores que eu te marcar, e construires uma jangada em que embarques... Depois eu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um sôpro amigo para o mar indomado...
O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar que a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a ansiedade do seu coração:
--Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me convidas a afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm fundas naves! Não, Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde os Deuses tambêm combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o coração dos Imortais! Se resisti às sereias irresistíveis, e me safei com sublimes manobras de entre Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com um ardil que eternamente me tornará ilustre entre os homens, não foi de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de Ogigya, como passarinho de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em armadilha ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei na tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda irreparável.
Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente riso. E caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus espessos cabelos mais negros que o pez:
--Oh maravilhoso Ulisses--disse--tu és bem na verdade o mais refalsado e manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha e sem falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro! A-pesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei o que eu, Deusa, empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya através do mar incerto!...
O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia dos dedos divinos:
--Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de leite, a saborosa confiança!
Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:
--Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio, que é a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem, Príncipe dos homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores...
O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da túnica, esfregando as palmas das mãos robustas:
--¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh Deusa!... O dia baixa e o trabalho é longo!
--Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta, a reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te conduzirei à floresta.
III
Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dêle as Ninfas, servas da Deusa, colocaram os bôlos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num Trono de oiro puro, a Deusa recebeu da Intendenta venerável o prato de Ambrosia e a taça de Néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sêde, a ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando pensativamente o Herói, soltou estas palavras aladas:
--Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da Pátria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida fôrça, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!... Mas desejas voltar à espôsa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as Imortais como lâmpadas fumarentas diante de estrêlas puras...
O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como costumava na Assembleia dos Reis, à sombra das altas pôpas, diante dos muros de Troia, disse:
--Oh Deusa venerável, não te escandalises! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formusura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e môça, emquanto os Deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores da decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fonte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas, oh Deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congénere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu côma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado, pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana, a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio... E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade: e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fôrça do meu entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! Considera ainda que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens sublimes! Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às espôsas mortais--«Foi culpa tua, mulher!»--erguendo, em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que constantemente se alimenta dêstes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários!
Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de oiro vazia: e serenamente a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sôbre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu.
No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro cavalos suados subia e se espalhava por sôbre o Mar um vapor rúbido e doirado. Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de sombra. E sôbre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.
Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina Calipso, que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo, e pregara nos cabelos um véu transparente e azul como o Éter ligeiro, saíu da gruta, trazendo ao magnânimo Ulisses, já sentado à porta, sob a ramada, diante duma taça de vinho claro, o machado poderoso de seu pai ilustre, todo de bronze, com dois fios, e um rijo cabo de oliveira cortado nas faldas do Olimpo.
Limpando rápidamente a dura barba com as costas da mão, o Herói arrebatou o machado venerável:
--Oh Deusa, há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta, eu, devastador de cidadelas e construtor de naves!
A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:
--Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu encomendaria para ti, a Vulcano e às suas forjas do Etna, armas maravilhosas...
--¿Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh Deusa, já muito batalhei, e a minha glória entre as gerações está soberbamente segura; Só aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados, concebendo sábias leis para os meus povos... Sê benévola, oh Deusa, e mostra as árvores fortes que me convêm cortar!
Em silêncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas açucenas, que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do Oriente: e atrás seguia o intrépido Ulisses, com o luzidio machado ao ombro. As pombas deixavam os ramos dos cedros, ou as concavidades das rochas onde bebiam, para esvoaçarem em tôrno da Deusa num tumulto amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela passava, subia das flores abertas, como de incensadores. As relvas que a orla da sua túnica roçava reverdejavam num viço mais fresco. E Ulisses, indiferente aos prestígios da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar harmonioso, meditava a jangada, almejava pelo bosque.
Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhíssimas técas, de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. Da sua orla descia um areal a que nem concha, nem galho quebrado de coral, nem pálida flor de cardo marinho, desmanchava a doçura perfeita. E o Mar refulgia com um brilho safírico, na quietação da manhã branca e còrada. Caminhando dos carvalhos às técas, a Deusa marcou ao atento Ulisses os troncos sêcos, robustecidos por sóis inumeráveis, que flutuariam, com ligeireza mais segura, sôbre as águas traidoras. Depois, acariciando o ombro do Herói, como outra árvore robusta tambêm votada às aguas crueis, recolheu à sua gruta, onde tomou a roca de oiro, e todo o dia fiou, e todo o dia cantou...
Com alvoroçada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um vasto carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da obra sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silêncio eterno daquelas ribas, bateram o vôo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas divindades dos ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, fugiam para entre os canaviais e as raízes dos amieiros. Nesse curto dia o valente Ulisses abateu vinte árvores, robles, pinheiros, técas e choupos--e todas decotou, esquadrou, e alinhou sôbre a areia. O seu pescoço e arcado peito fumegavam de suor, quando recolheu pesadamente à gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja gelada. E nunca êle parecera tam belo à Deusa Imortal, que, sobre o leito de peles preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada e pronta a fôrça daqueles braços que tinham abatido vinte troncos!
Assim, durante três dias, trabalhou o Herói.
E, como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha, a Deusa ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mãos delicadas, as cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado, abandonando as tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que empurrariam com amor os ventos amáveis. E a Intendenta venerável já enchia os odres de vinhos robustos, e preparava com generosidade os víveres numerosos para a travessia incerta. No entanto a jangada crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao meio, donde se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo que uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha à sombra do bosque, contemplava o calafate admirável martelando furiosamente, e cantando, com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta dos pés luzidios, por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando à tarefa, acudiam a espreitar, com desejosos olhos fulgurantes, aquela fôrça solitária, que soberbamente, no areal solitário, ia erguendo uma nave.
IV
Emfim no quarto dia, de manhã, Ulisses findou de esquadrar o leme, que reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. Depois ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas pedras polidas. Sem descanso, numa ânsia risonha, amarrou à vêrga alta a vela cortada pelas Ninfas. Sôbre pesados rolos, manobrando a alavanca, rolou a jangada imensa até à espuma da vaga, num esfôrço sublime, com músculos tam retesos e veias tam inchadas, que êle mesmo parecia feito de troncos e cordas. Uma ponta da jangada arfou, levantada em cadência pela onda harmoniosa. E o Herói, erguendo os braços lustrosos de suor, louvou os Deuses Imortais.
Então, como a obra findára e a tarde rebrilhava, propícia à partida, a generosa Calipso trouxe Ulisses, através das violetas e das anémonas, à fresca gruta. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar, e o perfumou com essências sobrenaturais, e o vestiu com uma túnica formosa de lã bordada, e lançou sôbre os seus ombros um manto impenetrável às neblinas do mar, e lhe estendeu sôbre a mesa, para êle saciar a fome rude, as comidas mais sãs e mais finas da Terra. O Herói aceitava os amorosos cuidados, com paciente magnanimidade. A Deusa, de gestos serenos, sorria taciturnamente.
Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses, palpando com gôsto os calos que lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu à praia, onde a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram sôbre uma rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam serena, entre um mar tam azul, sob um céu tam macio. Nem a água fresca do Pindo bebida em marcha abrasada, nem o vinho doirado que produzem as colinas de Chio, eram mais doces de sorver do que aquele ar repassado de aromas, composto pelos Deuses para o respirar duma Deusa. A frescura imorredoira das árvores entrava no coração, quási pedia a carícia dos dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o das ondas no areal, o das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente fundidos, como as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a graça das flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no Mar, sob o pêso da sua abundância.
Então a Deusa, ao lado do Herói, levemente suspirou, e murmurou num sorriso alado:
--Oh, magnânimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever a mortal Penélope, e o teu doce Telêmaco, que deixaste no colo da ama quando a Europa correu contra a Ásia, e agora já sustenta na mão uma lança temida. Sempre dum amor antigo, com raízes fundas, brotará mais tarde uma flor, mesmo triste. Mas dize! ¿Se em Ítaca não te esperasse a espôsa tecendo e destecendo a teia, e o filho ansioso que alonga os olhos incansados para o mar, deixarias tu, oh homem prudente, esta doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal?
O Herói, ao lado da Deusa, estendeu o braço poderoso, como na Assembleia dos Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade persuasiva:
--Oh Deusa, não te escandalises! Mas ainda que não existissem, para me levar, nem filho, nem espôsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal. Considera, oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e caír. Nunca êste céu rutilante se carregou de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem abrigado, as mãos ao doce lume, emquanto a borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas são as mesmas, oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que me mostraste êstes prados perpétuos:--e há lírios que odeio, com um ódio amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam incessantemente, tam implacavelmente, o seu vôo harmonioso e branco, que eu escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias! E quantas vezes me refugío no fundo da gruta para não escutar o murmúrio sempre lânguido dêstes arroios sempre transparentes! Considera, oh Deusa, que na tua Ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcassa dum bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou privado de ver o trabalho, o esfôrço, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, não te escandalises! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sôbre a sua muleta, mendigando à porta das vilas... Deusa, há oito anos que não ólho para uma sepultura... Não posso mais com esta serenidade sublime! Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da morte!
Imóvel, com as mãos imóveis no regaço, enrodilhadas nas pontas do véu amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso queixume do Herói cativo... No entanto já pela colina as Ninfas, servas da Deusa, desciam, trazendo à cabeça, e amparando-os com o braço redondo, os jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta venerável mandava para abastecer a jangada. Silenciosamente, o Herói lançou uma tábua desde a areia até ao bordo de altos toros. E emquanto sôbre ela as Ninfas passavam, ligeiras, com as manilhas de oiro tilintando nos pés luzidios, Ulisses atento, contando os sacos e os odres, gozava no seu nobre coração a abundância generosa. Mas, amarrados com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas, lentamente, se sentaram sôbre o areal em tôrno da Deusa, para contemplarem a despedida, o embarque, as manobras do Herói sôbre o dorso das águas... Então uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E, diante de Calipso, cruzando furiosamente os valentes braços:
--¿Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada falta para que eu largue a vela e navegue? ¿Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito anos, oito duros anos, fui o hóspede magnífico da tua Ilha, da tua gruta, do teu leito... Sempre os Deuses imortais determinaram que aos hóspedes, no momento amigo da partida, se ofertem consideráveis presentes! ¿Onde estão elas, oh Deusa, essas riquezas abundantes que me deves por costume da Terra e lei do Céu?
A Deusa sorriu, com sublime paciência. E com palavras aladas, que fugiam na aragem:
--Oh Ulisses, tu és claramente o mais interesseiro dos homens! E tambêm o mais desconfiado, pois que supões que uma Deusa negaria os presentes devidos àquele que amou... Sossega, oh subtil Herói... Os ricos presentes não tardam, largos e rebrilhantes.
E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com os véus a ondular, trazendo nos braços alfaias lustrosas, que ao sol rutilavam! O magnânimo Ulisses estendeu as mãos, os olhos devoradores... E emquanto elas passavam sôbre a tábua rangente, o Herói astuto contava, avaliava no seu nobre espírito os escabelos de marfim, os rolos de telas bordadas, os cântaros de bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras...
Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no ombro, que Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o mirou, e gritou, com soberbo riso estridente:
--Na verdade, êste oiro é bom!
Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o impaciente Herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a jangada ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido, arremessando o manto, pulou através da espuma, correu pela areia, e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela segurou de leve o seu ombro robusto:
--Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
--Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias--para a delícia das coisas imperfeitas!
O SUAVE MILAGRE!
Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíade:--mas a nova dos seus Milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issachar.
Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E emquanto descansava, sentado à beira da _Fonte dos Vergeis_, contou ainda que êsse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo dum Decurião Romano só com estender sôbre êle a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerassénios, onde começava a colheita do bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se diante dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog--o homem, sem mesmo beber daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se alêm da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria uma claridade: e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza, os ditames antigos.
Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família pontifical de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas--e com o coração tam cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cêpas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.