Contos

Chapter 15

Chapter 153,840 wordsPublic domain

Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, êle sentisse ao lado a fôrça moderadora da Filosofia... Encontrei porêm com êle um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada, reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Pôrto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia um grog, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem alegria púdicamente disfarçada, nem surprêsa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin nos não ilude no seu livro da _Expressão das Emoções_, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o terraço, rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quasi terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grog:--«O Matias faz perfeitamente em ir para o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:--«Sim, pensou que era mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» Às sete horas acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente:--«Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!»--O Nicolau acudiu sério:--«E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou dôze contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!»

Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e êle se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.

E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e trôpego... Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. ¿Quer que lhe diga? Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, angustiadamente perguntava à sua consciência:--«Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?»--E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! Já são 29 de Agosto? Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»

Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. Eu trabalhei nas minhas _Origens do Utilitarismo_. Um domingo, no Rocio, quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu _Diário Ilustrado_ a notícia curta, quási tímida, do casamento da Snr.ª D. Elisa Miranda... ¿Com quem, meu amigo?--Com o conhecido propriétário, o Snr. Francisco Tôrres Nogueira!...

O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...

E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, gritando:--«Mas porquê? porquê?»--Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Tôrres Nogueira era um ocioso amável como José Matias, e possuia em vinhas hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente porque os grossos bigodes negros do Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisólogo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!

Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado:--«Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Pôrto, chorou... Êle nem consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!» Fiquei trespassado.--«E então ela...»--«Despeitada, fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, com aqueles bélos trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os braços até a abóbada do pátio:--«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:--«É o mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»--Ambos nos olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo os ombros, com aquele assombro resignado que convêm a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara:--e já de madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!

Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos Miranda. No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao casarão do tio Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de Noronha, em Bemfica, solitariamente--porque o Tôrres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore--e o Tôrres Nogueira no leito excelente de Elisa.

Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança--a do José Matias! ¿Adivinha o meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto êxtasi, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas, através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. ¿E compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da carne--o amava, a êle, únicamente a êle, e com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua divindade! Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlêvo--quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! êsse era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher--a quem revelara talvez o que é um homem!

Mas, com os demónios! essa mulher êle a recusara, quando ela se lhe oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm ainda ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual dêste Matias! Ao cabo duns meses êle _esquecera_, positivamente _esquecera_ essa recusa afrontosa, como se fôra um leve desencontro de interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que êle amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrêlas para mais pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrêlas e a arremessara para a cama!

¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.

¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É que a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda do terraço, por sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.

Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regímen paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, retraímento e prudência. E acalmada por aquele marido, môço e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus--mais do que da sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.

Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Tôrres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e estáticamente!

Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle reinava na alma imortal de Elisa:--¿que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas não! o pobre môço sofria, angustiadamente. E, para sacudir a pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, duma tam doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoínho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São dêsse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da ceia?... Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do sol!

Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor--e foi então que, nesse inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara das vinhas) com olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite, quando as janelas de Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do _Gago_, corria à roleta do Bravo, depois ao club do «Cavalheiro», onde jogava frenéticamente até a tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o Colares, e o Champanhe, e o Conhaque correndo em jorros desesperados.

E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado porque o hipotecara. Mas, súbitamente, desapareceu de todos os antros do vinho e de jôgo. E soubemos que o Tôrres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!

Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado, duma letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho Garmilde, confessou que S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me lembro, com um arrepio, da impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sôbre os dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio na mão inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.

Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda despenteada:--«¿Que horas são?»--Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer, a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa húmida:--«¿Então que há de novo?»--Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando:--«Um calor... Uma sêde!...» Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, na opressão da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da noite, todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.

Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um momento, com espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte sorriso, murmura quási serenamente:--«É o calor... Está um calor! ¿Você não quer tomar chá?»

Recusei e abalei--emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto.

Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada tambêm viuva, à «Côrte Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dêle, mesmo incertas--tanto mais que o íntimo por quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever clássico, quási dever social, de tísico.

Todo êsse ano, tambêm, andei enfronhado no meu _Ensaio dos Fenómenos afectivos_. Depois, um dia, no comêço do verão, descendo pela rua de S. Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava a livraria do Morgado de Azemel, ¿quem avisto eu à varanda duma casa nova e de esquina? A divina Elisa, metendo fôlhas de alface na gaiola de um canário! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e desejável, a-pesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raça de Helena que, quarenta anos tambêm depois do cêrco de Troia, ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Sêco, o João Sêco da Biblioteca, que catalogava a livraria do Morgado, conheci a nova história desta Helena admirável.

A divina Elisa tinha agora um amante... E únicamente por não poder, com a sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso môço que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com uma espanhola que, ao cabo dum ano dêsse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras-Públicas, continuara em Beja, onde tambêm vagamente ensinava um vago desenho... Ora uma das suas discípulas era a filha da senhora da «Côrte Moreira»: e aí na quinta, emquanto êle guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tam urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou a Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se esconde. O João Sêco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o apontador, as senhoras da «Côrte Moreira»; e compreendeu o romance, quando das janelas dêsse n.º 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem calçado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas.

E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambêm, o apontador! Belo môço, sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade (e talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viuvo, e portanto «vazio», como diz a Bíblia. Eu freqùentava êsse n.º 214, interessado no catálogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irónico acaso das heranças, uma colecção incomparável dos Filósofos do século XVIII. E passadas semanas, saíndo dêsses livros uma noite (o João Sêco trabalhava de noite) e parando adiante, à beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo à luz tremente do fósforo, metido na sombra, o José Matias! Mas que José Matias, meu caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas sêcas de sob um vélho chapéu côco: mas todo êle, no resto, parecia diminuido, minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tam infinitamente triste, da miséria ociosa. Na espantada lástima que me tomou, apenas balbuciei:--«Ora esta! Você! ¿Então que é feito?»--E êle, com a sua mansidão polida, mas secamente, para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: «Por aqui, à espera de um sujeito».--Não insisti, segui. Depois, adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara--que o portal negro ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!

Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!