Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura
Part 2
No ensino individual, que é só onde temos experimentado este systema, com os resultados previstos (em lições manuscritas imitando letra redonda) costumamo-nos collocar a um canto da mesa, mais o alumno, elle dum lado á esquerda e nós do outro; pomos-lhe a lição diante convenientemente; e emquanto, nas primeiras quatro lições, percorremos com o ponteiro pela parte de cima as letras da palavra, imol-as simultaneamente pronunciando. Ora como do intervallo das letras naturalmente se abstrahe, nem esse intervallo é apreciavel na marcha do ponteiro, a palavra afigura-se aos olhos do principiante como uma pequena escala, cujas notas se vibram na sua ordem natural.
E o que é a leitura senão a pronúncia successiva dos elementos simples ou compostos, certos ou incertos da palavra escrita? Por isso é que a leitura é a verdadeira soletração; porque só na leitura se dá aos caracteres o seu justo valor.
Ha duas soletrações, a antiga e a moderna. A soletração antiga vai chamando as letras pelos seus nomes, para apresentar depois, não a somma desses nomes, mas a somma dos valores dessas letras. Esta soletração é absurda, e desmoralisa o raciocinio do principiante. Como quereis vós que uma alminha, ainda com aquella luz tão pura que traz de Deus, entenda que _cê_, _agá_, _á_, junto, sommado, é _xá_?!
Isto será ensinar a ler, mas é ao mesmo tempo embrutecer. Ora mil vezes antes analfabeto que idiota.
Porem esta soletração, que aliás reina em Portugal e seus dominios, está condemnada. A outra, a soletração moderna que procede por valores, é incomparavelmente superior; mas ou é inexequivel ou escusada.
Modernamente, como se soletra _chá_? Deste modo: _x'_, _á_, _xá_. Mas se o alumno sabe, pelo conhecimento das regras ou por intuição, o valor hypotetico de _ch_, lê igualmente _xá_; e se não sabe, não pode soletrar á moderna. É claro.
Daqui resulta que a soletração é a leitura. Ensinemos as regras; e a pratica fará o resto.
Segue-se o _k_, pela ordem estabelecida; e como só o podemos apresentar em _kilo_, aproveitemos a occasião de exercitar o principiante no _o_ final, ensinando-lhe que o _o_ no fim vale _u_. Explicai-lhe o symbolo, se vos parecer: a curva ondeada indica as mais letras da palavra acabada em _o_, que faltam; as duas parallelas querem dizer _vale_.
k
ki|lo
~~~o = u
vi|vo vi|u|vo
vi|a|jo ve|jo
fu|jo fa|vo fa|to
a|to ba|to ba|fo
a|ba|fo ba|fi|o
a|ba|lo fa|llo
lu|to la|do li|do
pa|to pa|vi|o
pu|lo pa|pal|vo
bal|do bal|di|o
bo|lo lo|bo lo|do
o|vo to|lo tòl|do
UNDECIMA LIÇÃO
Não tinhamos outra palavra conveniente senão _kilo_, onde apresentassemos o _k_, por ser esta consoante tão perfeita como rara.
Os gregos tinham uma inflexão irmã da que representa em portuguez o _k_, mas aspirada; e figuravam-na por certa letra bastante similhante ao _k_, e ainda mais similhante ao _x_.
Os romanos não tinham essa letra; e, como para elle _c_ valia _q_, ajuntaram-lhe _h_ para significar aspiração, e nas palavras gregas de origem, onde havia aquella inflexão guttural, escreviam _ch_ com justificado motivo.
Mas isso, elles; nós só por imitação servil fazemos o mesmo; porque para nós nem o _c_ vale _q_, e sim diversas inflexões; nem o _h_ significa aspiração, que não ha em portuguez; nem _ch_ tem valor definido. Quanto mais que em pontos de orthografia grega mais nos devia importar o grego que o latim; e se ha maneira de falsear aquella excellente orthografia é escrever dois caracteres representando um valor.
Donde resulta que em taes casos mais logica o etymologicamente se devera escrever _k_. Todavia, recebendo esta letra na adopção do systema metrico uma especie de cunho official, nem as _graças do poder_ lhe valeram a benevolencia dos sabios: continúa em _kilo_ (significando mil) a ter curso forçado; mas já em _chylo_ (succo de alimentos digeridos) insistem os sabios a escrever _ch_, tendo a palavra igual origem e identica pronuncia.
É uma especie de antipathia, áquelle excellente caracter, que não se póde attribuir ás suas quatro pernas. A mesma França, que toda se empenha em disfarçar no apparato scientifico os absurdos da sua orthografia, expulsa o _k_ de palavras a que elle pertencia _par droit de naissance_; reserva-o para os termos arabes; e nos proprios de origem grega escreve _ch_ valendo, note-se, ora _k_ ora _x_. Primores da coherencia etymologica!
Mas o alumno espera-nos. Ao _k_ seguia-se o _q_ segundo o nosso plano; mas já sabemos que esta consoante, embora certa, offerece circumstancias absurdas: servirá pois de introducção ás consoantes incertas; e vamos entretanto a outras regras sem excepção, em respeito a vogaes.
Ensinámos na lição passada que _o_ final vale _u_. Ensinemos agora que _ou_ vale _ô_.
Nas provincias do norte diz-se _amôu_, _comprôu_; mas em Coimbra, Lisboa e no mais Portugal não se profere tal ditongo. Escreve-se _ou_, mas o _u_ é mudo, e o _o_ soa como em _avô_.
Este é o facto e, por consequencia, a lei fundada, não diremos na melodia que é relativa, porem no uso mais autorisado e aliás mais vasto.
Com isto não queremos dizer que em tal ou tal logar, onde reine sem contradicção aquella variante, o professor se empenhe em arrancar aos seus discipulos talvez um hábito invencivel. A toada é singularmente ingrata a ouvidos estranhos e illegítima; porém não é essencial que os filhos do povo fallem classicamente; o essencial é fazel-os quebrar o circulo da animalidade e dar-lhes, por meio da leitura e da escrita, o horisonte infinito do homem. Em parte onde convier, exercitai-os no ditongo.
ou = ô
a|vô
vou a|vi|ou
vi|u|vou vi|a|jou
dou a|tou fi|ou
ba|bou pi|ou
pa|pou a|pu|pou
ta|pou pu|lou
fa|llou a|lli|vi|ou
a|ba|fou ou|vi
ou|vi|a ou|viu
ou|vi|do lou|va
lou|vo lou|vou
pou|pa pou|po
pou|pou
DUODECIMA LIÇÃO
Já na lição passada nos referimos ao ditongo _ou_, usado nas provincias do norte, e que bem se póde ter por vicioso. Agora diremos que nas provincias do sul cerceiam o delicado ditongo _ei_, dizendo em logar de _lêi lêito dêi dêitêi_, simples e desengraçadamente _lê lêto dê dêtê_. Tambem é vulgar nestas provincias _mé_ pai, _té_ primo; e não menos, _jantí andí cantí_, em vez de _meu pai_, _teu primo_, _jantêi andêi cantêi_.
Não imaginamos circumstancias que recommendem ao mestre contemplação alguma com essas crassas deturpações da lingua. Os mais rudes acceitam a emenda sem escandalo, e sem surpreza, lembrados duma ou outra pessoa culta que tem ouvido.
Mas voltando ao _êi_, objecto especial desta lição, bom é notar que esse ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos escreviam regularmente _têa fêo cêa recêo_: os modernos escrevem geralmente mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o ditongo _êo êa_; e em taes casos, esteja o _i_ expresso ou não, ha de se ouvir o ditongo _êi_ antes da voz final.
A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o mais ordinario é escrever-se _feio receio teia aldeia_. E ainda bem. Mas o que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo _grangeiar receiar_, porque em certas vozes (do presente do indicativo, imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa _êi_. Sempre ouvimos dizer _cêio_ e _recêio_; mas ainda não ouvimos dizer _cêiêi_ e _recêiêi_. O _i_, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no infinito, não havia modo de os escrever. _Escrever_, por exemplo; segundo _e_, grave; _escrevo_, segundo _e_, agudo: _velar_, _e_, grave; _velo_, _e_, aberto; _vele_, _e_, agudo (o mesmo da primeira syllaba).
E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos acabados em _gar_ e _car_, aqui se mostra que a lingua portugueza não guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a origem e significação de _Cristo_ escrito sem _h_, tem hoje a mais perfeita orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa sombra da monarchia.
ei = êi
dê lê
dei lei a|tei
pa|pei la|vei
a|ba|lei fei|ta
fei|to fei|ti|o
dei|to dei|tou
dei|tei ba|bei
bei|ja bei|jo
bei|jou bei|jei
dei-a dei-o
vei|a vei|o
fei|a fei|o
lei|a lei|o
pei|a tei|a
DECIMA TERCEIRA LIÇÃO
Não tratamos aqui dos valores da letra _e_.
Tratamos das vozes similhantes que essa letra representa; que são quatro: _e agudo_, que se exprime no proprio nome dessa vogal, _é_; _fechado_, de que fallámos na lição antecedente, _dê_, _dêi_; _aberto_, que não tendo signal especial em portuguez, muitas vezes figura com o mesmo agudo, por exemplo, _bello_, _pés_: e ha um outro, de todos o menos parecido com o agudo ou nome da letra, chamado grave, do qual já tivemos occasião de fallar.
Este _e_, que mal podemos declarar por escrito, mas que o ouvido distingue perfeitamente, é frequentissimo no principio, no meio e no fim de palavras; mas tambem frequentemente mal proferido, e até supprimido, mormente no fim.
Pondo nisso especial cuidado; não deixeis o vosso discipulo dizer _fal'_ em logar de _falle_, assim como lhe não deixeis dizer _vile_ em logar de _vil_, _papele_ em logar de _papel_, etc. Basta contar as syllabas, e não o deixar fazer, de duas, uma; e de uma, duas.
Ha numa linguagem viciosa não sabemos que mostras de má educação ou de rudeza. Devemo'-nos empenhar o mais possivel em aperfeiçoar o estylo dos nossos discipulos.
E voltando ao _e aberto_, que não tem signal especial, cumpre notar que se encontra nos classicos, muitas vezes, esse _e_ com um accento opposto ao agudo, desta fórma: _prègar_, _prègador_ (palavras que precisavam de especificação, pois ha tambem em portuguez, com _e_ grave, _pregar_ e o derivado _pregador_). Não o applicavam os autores, ou pelo menos os typografos, systematicamente; como faziam a todos os demais signaes; porem os modernos, em vez de o aproveitar convenientemente, aboliram-no. D'ahi resulta escrever-se _pé_ e _pés_, _sé_ e _céo_, com uma orthografia excellente para enganar quem lê.
Não se póde confundir o _e_ de _pes_, plural de _pé_, com o de _péz_, cerol (ou de _pé_, que é o mesmo): tambem se não póde confundir com o de _pê_ (nome vulgar da letra _p_); e muito menos com o _e_ grave.
Temos portanto, não fallando no grave, tres especies de _ee_ bem accentuados na pronuncia (_pès_, _pé_, _pê_), que de facto se querem accentuar na escrita; mas, empregando-se nesse intento apenas dois signaes, por força algum _e_ se havia de confundir com outro.
E assim succede. Quando o autor receia que leiam _zelo_ (verbo), escreve _zélo_; e quando receia que leiam _zelo_ (nome), escreve _zélo_: escreve sempre o mesmo. E como havia elle de escrever melhor? Escrevendo _zêlo_ (nome) e _zélo_ (verbo)? Errava em ambos os casos; no primeiro, onde não soa o _e_ de _pê_; e no segundo, onde não soa o _e_ de _pé_. Tomando a responsabilidade daquella apparente innovação indo aos antigos buscar um signal desusado? É claramente o melhor recurso. Mas vamos ao nosso _e_ grave, que é o que mais nos importa.
~~~e
a|ve vi|ve ti|ve
a|te a|ju|de
ta|pe to|pe po|te
pó|de pou|de
bu|le bo|le bo|te
ba|te bo|de bo|fe
bi|fe fo|lle fa|lle
la|ve vol|te
fal|te a|pal|pe
pe|lle pe|de
pe|di pe|diu
pe|llei pe|llou
ve|lei ve|lou
le|vou de|dal
DECIMA QUARTA LIÇÃO
Ao _k_ segue-se a sua irmã na pronuncia e última das consoantes certas, o _q_: mas com esta já principiam as grandes inexactidões na escrita e os equivocos faceis na leitura.
_Não se escreve _q_ sem _u_; mas esse _u_, com _e_, _i_, quasi nunca se lê._
É a regra que podemos estabelecer. D'ella podemos tirar o seguinte dictame:
_Visto _qúé qúí_ valer quasi sempre _qé qí_, lendo-se d'este modo, quasi sempre se acerta._
Aconselhai o discipulo nesta conformidade; sem embargo de o deixardes ler uma ou outra palavra como está escrita, para ver que não faz differença essencial, e que embora leia _ficuêi_ _fícue_, facilmente percebe o seu engano, e até se intende o que diz.
O alumno estranha com razão estas anomalias. Em satisfação á sua intelligencia bom é dizer-lhe (o que temos por certo) que antigamente lia-se sempre o _u_ depois do _q_; com o tempo algumas palavras mudaram, continuando-se todavia a escrever do mesmo modo. Nem haja dúvida em accrescentar que, se a palavra mudou na pronuncia, devia mudar na escrita; e que uma vogal que se não lê não se devia escrever.
Se cada letra valesse um elemento da palavra fallada, nada mais facil que aprender a ler. A lingua portugueza reduz-se a trinta e seis elementos; para decifrar toda a nossa imprensa, bastaria fixar e distinguir trinta e seis caracteres. Quem não teria essa capacidade e paciencia?
Infelizmente, á parte os methodos, e a insufficiencia dos mestres que geralmente nas escolas são os mesmos discipulos, sobejam letras inuteis, letras dum valor commum, letras de valor múltiplo, combinações quasi fantasticas: e os proprios signaes, que haviam de marcar o tom da vogal, d'uns ha falta, d'outros sobra, e n'outros dúvida por desacôrdo nos autores, e quasi sempre no mesmo autor.
A este respeito diremos que em portuguez temos vogaes _nasaes_, _agudas_, _fechadas_, _abertas_ e _graves_; ás quaes por sua ordem correspondem, e muitas vezes se applicam, os seguintes signaes:
nasal ou _til_ (~) de ordinario supprido por _m_, _n_: m_ã_o, m_en_te, m_in_to, m_on_te, m_un_do;
agudo (´) m_á_, m_e_u, m_i_a, m_ó_, am_u_o;
circumflexo (^) _a_mei, am_e_i, ... am_o_u, ...
aberto (`) ... m_è_ta (baliza) ... ... ...
A este signal chamam os francezes grave; e á sua imitação muitos nossos, mas impropriamente, porque nunca se usou nas vogaes que nós chamamos graves similhante signal nem outro algum. Essas vogaes são, por exemplo, as últimas das seguintes palavras:
am_a_, am_e_, ame_i_, am_o_, trib_u_
E aqui chamamos _grave_ o _a_, que chamámos _fechado_, a páginas 11. Veremos a razão disso.
q
que qui = ke ki
fi|que fi|quei
to|que to|quei
a|ta|quei pi|que
a|ta|que pi|quei
du|que lo|que
ba|que ja|que|ta
a|ppli|que
a|ppli|quei
a|que|lle
a|que|lla
a|qui a|qui|llo
qui|e|ta qui|e|to
qual
qua|li|da|de
DECIMA QUINTA LIÇÃO
É evidente que havendo consoantes certas e incertas, n'um methodo, se havia de começar pelas certas. Ora conhecidas e combinadas pelo nosso discipulo essas dez consoantes, que na ordem alfabetica são:
_b . d f . . j k l . . p q . . t v . ._ restam: _. c . . g . . . . m n . . r s . . x z_
Porem que ordem seguiremos agora? Como vimos a páginas 19 e 23, todas estas oito são de dois valores, excepto _s x_, que são de quatro. Ora a última das certas, em que ficámos, foi _q_; ao qual se seguem naturalmente _c g_, não só porque uma tem um valor identico; e a outra, um valor similhante, guttural; mas porque ambas igualmente, com _e i_, offerecem especialidade.
Portanto o logar de _c g_ está marcado. Depois seguir-se-hão _m n_, que teem igualmente dois valores? Não convém; ambas essas consoantes servem muitas vezes de til, o que é duro de explicar; e accresce que _n_ se combina com _h_; podendo-nos portanto servir de transição para as fórmas compostas _lh_, _ph_, _ch_, etc. que devem ser as últimas.
Por outro lado, se advirtirmos que _z_ tem dois valores de _s_, assim como _s_ tem tres valores de _x_; conviremos que estas tres consoantes se devem succeder. Resta _r_, que tendo dois valores, as deve preceder.
Logo a ordem mais conveniente é
_c g, r, z s x, m n_.
Veremos que o _h_ não passa dum accento, quando serve de alguma cousa.
Ora o _c_ tem dous valores; um, sibilante e prolongavel, _ç..._; outro instantaneo guttural, _q_.
Como lhe havemos de chamar? Como o mestre quizer. O discipulo a estas horas está bem no caso de não confundir o nome com os valores: quanto mais que não se admittindo solletração, elle é forçado a empregar valores. Por isso é que já em respeito a _k_ e _q_ deixámos em aberto esse ponto. Todavia é mais racional que chamemos a essas gutturaes o que valem, _q'_; isto é, designal-as pelo seu valor; ou querendo-se-lhes dar nome, derival-o d'esse valor, e chamar, a uma e outra, _qê_. Similhantemente, dos valores de _c_, deriva o nome _cêqe_. Embora a experiencia nos mostre a inutilidade dessas designações formaes, e o methodo aconselhe de preferencia citar-se a letra pelos simples valores, podemos admittir nomes _verdadeiros_, que indiquem as funcções da letra.
Em todo o caso, o essencial é ensinar os valores e as regras. Antes da lição que segue, deve passar-se, entre mestre e discipulo, este ou similhante diálogo:
—_Que letra é esta?_—_Cêqe._
—_Porque se chama _cêqe_?_—_Porque vale _ç..._ e _q_._
—_Quando vale _ç..._?_—_Em vindo com _e_, _i_, ou cedilhado._
—_E em não vindo com _e_, _i_, ou cedilhado?_
—_Vale _q_._
O _ç_ (cedilhado) não confunde o alumno; antes, pela necessidade ou inutilidade da cedilha, como se póde exemplificar em _aço_, _caco_ etc., lhe ajuda a fixar as alternativas d'esta consoante caprichosa.
c
= ç... ce ci
ce|bo ce|bo|la
ce|do cei|a fa|ce
al|fa|ce foi|ce
ba|ci|a ci|da|de
= q
cá cal cal|do
cal|vo cul|pa
ca|co ca|cei
ca|ce cal|cei
ca|ce|ta|da
ç
a|ço bei|ço bu|ço
ca|ça ca|ba|ça
ca|be|ça co|ça
cal|ça cal|ça|da
DECIMA SEXTA LIÇÃO
Segue-se o _g_, igualmente de dois valores, como o _c_, um prolongavel e outro instantaneo: o prolongavel é _j..._; e o instantaneo é _g'_, guttural. D'estes dois valores deriva logicamente o nome _jêg'e_. Isto supposto, dialoguemos com o nosso discipulo:
—_Que letra é esta?_—_Jêg'e._
—_Porque se chama _jêg'e_?_—_Porque vale _j..._ e _g'_._
—_Quando vale _j..._?_—_Em vindo com _e_, _i_._
—_E quando vale _g'_?_—_Em não vindo com _e_, _i_._
—_Mas ha palavras onde soa _g'é_, por exemplo _malagueta_; e ha palavras onde soa _g'i_, por exemplo _guita_._—_Qual é o modo de escrever estas syllabas?_—_E escrevendo _gúé_, e escrevendo _gúi_._
—_E, assim, fica bem escrito?_—_Não; porque o _u_ não se lê; mas entende-se bem a palavra._
—_E se tirassemos o _u_?_—_Era peór; lia-se _malajeta_, lia-se _jita_, que faz mais differença._
Ora os casos em que o _u_ se lê, nestas syllabas _gue_, _gui_, são rarissimos: por isso podemos ensinar a desprezal-o, como fizemos a respeito de _que_ _qui_, numa regra similhante:
—_Visto _gúé gúí_ valer quasi sempre _g'é g'i_, lendo-se d'este modo, quasi sempre se acerta._
Na lição vai uma excepção, _guela_.
Mas deixai tambem o discipulo ler uma ou outra palavra como está escrita, para ver que ainda lendo em rigor, a palavra transparece claramente. Esta certeza desafronta-o dos equívocos em que póde cair.
Vê-se pois que admittimos nomes de letras, conformando-nos com a opinião commum, que tendo tudo nome, tambem as letras o devem ter. Embora; e nesta altura não ha inconveniente para o nosso discipulo: mas seja um nome adequado, e não um nome falso. Chamando ao c _cêqe_, e ao g _jeg'e_ (ou escrevendo como se usa, _gêgue_), conformamo'-nos com aquelle principio, com o costume, e satisfazemos, pelo menos, ás mais imperiosas exigencias do methodo. Comtudo ainda podemos ajustar mais aquellas denominações aos valores das letras, dizendo _ceqe_ _jeg'e_, como diriamos duas vezes a particula _de_: _de_ Francisco, _de_ Pedro: _de_ _de_; _je-g'e_, _ce-qe_.
Dizia-nos um dia o aio dos principes: bom é o methodo, mas de qualquer maneira se aprende a ler.
Intendamo'-nos: de qualquer maneira se _pode_ aprender a ler; _de facto_, não se aprende de qualquer maneira. Dos senhores de si, poucos são os que tentam, e quasi todos esses desistem: os outros... que remedio! A questão é de tempo e de tormento. E essa não é ainda a questão principal.
Todo o estudo involve, afóra a instrucção, educação de espirito; por isso a geometria passa pela melhor das logicas. E no primeiro de todos os estudos, quando o espirito está mais ductil e inconciente, como póde um processo racional, ou insensato, ser indifferente aos habitos da intelligencia?
Voltemos ao nosso caminho. Querendo-se que o discipulo intenda os symbolos, diz-se-lhe que os tres pontos designam o valor prolongavel: a consoante simples, ou com apóstrofo, indica o valor instantaneo. É claro.
g
= j... ge gi
ge|bo gei|to
fo|ge ti|ge|la
vi|gi|a co|llé|gio
= g' gue gui = g'e g'i
jo|gue pa|gue
fol|gue ce|gue
gui|a gui|ta
a|lu|guel gu|e|la
ga|go á|gua
e|gua i|gual
ga|llo gal|go
gol|pe pul|ga
ce|go a|cel|ga
gi|ga ga|gue|ja
DECIMA SETIMA LIÇÃO
Vamos ao _r_, terceira das consoantes incertas e, como as duas primeiras _c_ _g_, igualmente de dois valores, um prolongavel e outro instantaneo.
Ponhamos em diálogo a doutrina:
—_Que letra é esta?_—_Rêr._
—_Porque se chama _rêr_?_—_Porque vale _rr..._ e _r'_._
—_Quando vale _rr..._?_—_Em vindo no princípio ou dobrado._
—_E em não vindo no princípio, ou dobrado, o que vale, ou como se lê?_—_R'._
Não é necessario trazer para aqui as vogaes, como se costuma: isso impõe ao principiante uma distincção inutil, porque tanto vale o _r_ entre vogaes, como entre vogal e consoante. Escusa tambem ensinar as excepções ao discipulo: como o _r_, se profere tocando a lingua no ceo da boca, e o _rr..._ consiste na repetição desse toque (gemendo ou vozeando ao mesmo tempo), a affinidade desses dois valores, e o mesmo estylo da lingua leva o discipulo a reforçar a inflexão, quando lhe destoa proferida simplesmente. Difficuldade acharia elle em o não fazer, por exemplo, em _carne_ e _melro_, ou vice versa em _tenro_ e _arlequim_: pois antes ou depois de _l_, o _r_ é guttural. E o mesmo podemos dizer a respeito de _n_; mas advertindo que, por exemplo em _tenro_, não é necessario que o _n_ sôe como letra (ou inflexão); basta representar de _til_.
Estas observações dirigem-se ao mestre: e ainda ao mestre, á excepção de alguma indicação prática, o mais que deixamos nestas notas não merece especial reparo; nomeadamente as razões de ordem. Chamando a isto methodo, cabe-nos mostrar que o é; mas para fazer breve e commoda jornada por uma estrada recta e plana, não é necessario saber como a traçaram e construiram.