Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura
Part 3
O _r_ guttural é inflexão instantanea porque se reduz em última anályse a um toque de lingua no ceo da bôca; é inflexão prolongavel porque se forma repetindo esse toque indeterminadamente; e é voz porque o gemido (como lhe temos chamado) com que proferimos _v_, _z_, _j_, e de que igualmente depende o _r_ guttural, não é senão o fôlego elevado ao grau de vibração, ao grau de voz. Propriamente fallando, a _voz_ só se emitte de bôca mais ou menos aberta, e sem intervenção sensivel dos orgãos mudos. Mas á parte esta intervenção e a propriedade do termo, n'aquellas quatro inflexões ha _voz_. Tanto assim que bem podemos esboçar distinctamente qualquer melodia, modulando-a n'alguma das inflexões _v_, _z_, _j_, _r_...
Estas são verdadeiramente as letras _semi-vogaes_: não—_aquellas_ cujo nome _começa e acaba por vogal_. O que terá o nome com a cousa!
A letra _r_, pela sua frequencia e pelos seus accidentes de posição e número, merece uma lição com consoantes certas, e outra com consoantes incertas. Em seguida daremos, para desfastio do alumno, um pequeno diálogo. Se o mestre não julgar inutil este exercicio, applique ás palavras _a_, _o_, a regra do _a_, _o_, finaes; e diga que o _e_ simples lê-se _i_. O alumno reconhece as maiusculas, e a pontuação não o embaraça. Appliquem-se as regras conhecidas.
r
rei ru|a rai|o
rai|va ri|jo ra|to
fe|rro ja|rro
te|rra bu|rro
i|ra va|ra fe|ra
fu|ro ju|ra pu|ro
ar ir vir for
flor dar ver
ver|de per|da
par|do per|to
pre|to pra|to
bru|to po|bre
i|rar vi|rar
va|rrer fe|rrar
ra|ro re|ti|ro
rir ro|er ra|tar
re|par|tir
re|ci|bo re|cei|o
ri|co ró|ca ru|ço
ca|rro ga|rra|fa
ga|rra gue|rra
ce|ra ce|rol
ca|ra ca|ra|col
cor|da a|çor|da
ge|ral gô|ro
a|go|ra a|gou|ro
cer|to car|ta
gar|fo gri|to
gri|tar có|rar
ce|ar re|ce|ber
re|ge|dor ro|gar
ce|rrar co|rrer
a|ga|rrar go|rar
ca|rre|gar
re|cor|dar
—Ó Pe|dro, que é do li|vro de ca|pa ver|de, que te deu o a|vô?
—Já o dei ao Jor|ge a guar|dar.
—Vai lá pe|dil|-o.
—Pa|ra quê?
—Pa|ra a ti|a Car|lo|ta ver a gra|vu|ra do ca|ça|dor.
—Ou|ve cá: a pobre da Cla|ra i|a a|brir a por|ta do quar|to, ca|íu, que|brou a ga|rra|fa do pe|tró|leo, e fi|cou fe|ri|da. Vou a|go|ra á bo|ti|ca; le|vo a|qui a re|cei|ta: á tar|de lo|go fa|llo ao Jor|ge, e di|go que t'o dê.
—Pa|la|vra?
—Pa|la|vra, Ju|lio, fi|ca cer|to.
—Vê lá, cui|da|do!
DECIMA OITAVA LIÇÃO
Ao _r_ segue-se o _z_, embora esta consoante seja mais simples: porque o _r_ dobra-se, e tambem se combina com outras consoantes; o que não succede ao _z_: mas as razões de analogia não são menos attendiveis que as de simplicidade.
O _r_ tem dois valores que se reduzem a uma fórmula bastante simples (_no princípio_ e _dobrado_, _rr_). O _x_ tem quatro valores, que se esquivam a regra. É portanto claro que o _r_ devia preceder ao x; mas devendo preceder ao _x_, devia preceder aos caracteres a que o _x_ está associado por identidade de valores.
Na verdade, em _zaz_ vê-se que _z_ vale _z x_ Em _sisudos_ vê-se que _s_ vale _ç z x_ Em _sexo auxilio exilio xale_ vê-se que _x_ vale _kç ç z x_
Valem todas tres _z_, _x_; duas valem mais _ç_; e uma vale ainda mais _kç_. É como uma escada de tres degraus que o methodo, que é todo escada, não podia desmanchar.
Por isso a todas tres precede o _r_; e agora ao _r_, segue-se a mais simples das tres.
A theoria relativa ao _z_, encerra-se nas seguintes perguntas e respostas:
—_Que letra é esta?_—_Zêxe._
—_Porque se chama_ zêxe?—_Porque vale_ z... _e_ x...
—_Quando vale_ z...?—_Em não vindo no fim._
—_E quando vale_ x...?—_Em vindo no fim._
Isto é o bastante.
O discipulo está agora atravessando um terreno escabroso. Por maiór circumspecção com que vamos guiando os seus passos, não o livramos de caír: salvo tecendo-lhe de proposito lições faceis, e desviando-lhe tropeços; mas então o resultado seria um progresso illusorio.
Vistes nas lições do _r_ como por uma escala de combinações chegámos a accumular dentro da mesma palavra muitas dúvidas. Assim convem preparar o discipulo para a leitura usual e prática onde, a cada linha, encontra essas accumulações. A amenidade do methodo não póde levar-se até á esterilidade. Se as lições agora são mais embaraçadas, vá o alumno ensaiando a sua reflexão. Adiante da palavra mais duvidosa, está a prevenção da regra e a advertencia do mestre.
O magisterio é de sua natureza offício de abnegação e de paciencia. O mestre que se ira corrompe o coração do alumno. E se o alumno, pela sua tenra idade, é incapaz de aprender regras e de as applicar, então a sua presença na escola apenas attesta a ignorancia dos paes e a incuria da autoridade. Até aos sete e oito annos de idade todos andamos numa fervorosa elaboração corporal, que só reclama alimento, movimento e somno; assim como andamos nesse profundo e immenso estudo da lingua, e nessa insaciavel investigação do mundo exterior, que absorve totalmente a faisca mais brilhante que possa alumiar uma cabeça infantil. Complicar esse duplo movimento quasi vertiginoso com o ensino primario—leitura, escrita e contas—passa de absurdo a cruel.
Como os valores do _z_ são novos, só podemos indicar nos symbolos em que logar o apresentamos.
z~~~z~~~ z
ze|lei ze|lou
ze|lar a|zi|a
a|zul a|zei|te
a|ze|dar va|zi|a
lu|ziu lu|zir
fa|zer ja|zer
ja|zi|a ja|zi|go
a|zar a|zou|gu|e
~~~z
az faz fiz
fez vez jaz
ju|iz luz diz
puz pôz paz
ca|paz la|puz
quiz giz gaz
a|rroz re|troz
ra|paz fe|roz
traz cruz zaz
DECIMA NONA LIÇÃO
Vamos ao _s_, quinta das consoantes incertas, e segundo degrau da escada, de que fallámos na lição passada.
Esta consoante é frequentissima: nella acabam metade das vozes dos nossos verbos, todos os nossos pluraes de nomes, pronomes, participios, e de quasi todos os adjectivos; não fallando nos infinitos casos em que figura no principio e meio de palavra, já antes, já depois de vogal; e tambem antes e depois de consoante, como em _sciencia_ e _psalmo_.
Póde-se estabelecer a regra que o _s_ no fim de palavra ou syllaba, vale _x..._; por exemplo, _custas_. Mas cumpre advertir que isto, sendo geralmente verdadeiro, não é exacto; porque o _s_ (assim como _z_ e _x_ finaes), vindo no fim de palavra á qual se siga immediatamente vogal, vale _z..._; por exemplo, _os olhos_, que se lê como se estivesse escrito _o_z_olhos_; e seguindo-se-lhe immediatamente consoante, que não seja _ç_, _f_, _p_, _q_, _t_ (ou equivalente de _ç_ e _q_), então vale _j_; por exemplo _as vozes_, que lemos como se estivesse escrito _a_j_ vozes_.
Mas estas advertencias são puramente theoricas ou antes, escusadas no ensino; pois não se trata de ensinar a ler a estrangeiros, e sim a portuguezes mais ou menos práticos na lingua. Pela nossa parte não costumamos prevenir os nossos discipulos, para a lição do _s_, com mais doutrina que a contida no seguinte diálogo:
—_Que letra é esta?_—_Sezêxe_.
—_Porque se chama _sezêxe_?_—_Porque vale_ ç... z... x...
—_Quando vale _ç..._?_—_No princípio e dobrado._
—_Quando vale _z..._?_—_Entre vogaes._
—_E quando vale _x..._?_—_No fim de palavra ou de syllaba._
Com este pouco temos o bastante para o nosso discipulo acertar as mais das vezes, e senão, para o convencermos de que desmentiu a regra, o que em geral nos é tão agradavel como se a observasse, pois nos dá occasião de o fazermos raciocinar.
Por exemplo, trata-se da palavra _uso_, que o discipulo lê _uço_. Em logar de emendarmos sem mais explicações, preferimos questionar.
—Que consoante é essa?—Sezêxe.—Quando vale _ç_?—No princípio e dobrado.—Está no princípio ou dobrado?—Não.—Portanto não é _uço_.
E quando vale _z_?—Entre vogaes.—Está entre vogaes?—Está.
E o discipulo lê _uzo_.
Syllaba é a palavra ou parte da palavra que se diz duma vez, n'um tempo. _É_, _sé_, _seu_, _seus_, são quatro syllabas, embora mais compostas umas que outras. _Qual quer_ são duas syllabas, que podem formar duas palavras; e tambem, só uma. O discipulo adquire práticamente, pelas nossas lições de syllabas alternadas a typo liso e lavrado, uma idéa mais clara de syllaba, do que é facil dar-lhe por definições.
Quanto a vogaes, é melhor fazer-lh'as conhecer pelo valor, exemplificando e comparando, do que simplesmente pelo nome e de memoria.
s
só sa|fa sil|va
pa|sso to|sse
li|so qua|si
bois di|as teus
sou|be|sse
de|su|sa|dos
sós seus su|as
si|so si|su|dos
is|to es|te es|ta
es|tá es|te|ve
vis|to ves|tes
fos|te jus|to
pos|tas bas|ta
pas|tas pes|te
les|te lis|tas
val|sa sal|sa
fal|sos pul|so
so|cio su|cia
ca|so a|ce|sa
fa|ces cis|co
se|ge si|go
se|guir gu|lo|so
gui|sa|dos
so|gro gro|ssa
so|ce|ga|sses
per|se|gui|sses
ser sa|ír sor|te
a|ssar ru|sso
ri|sses ri|sa|da
ro|sa ri|so ra|so
ru|sso gro|ssos
gri|tos gor|dos
sa|gaz fi|ze|sse
zur|zi|sses
rê|zes lu|zi|sse
VIGESIMA LIÇÃO
Assim como do _z_ passámos ao _s_, que contem os dois valores do _z_; passamos agora do _s_ ao _x_, que contém os tres valores do _s_.
Estes valores, a que alludimos, são _ç_... _z_... _x_... Porque é verdade que a paginas 19 attribuímos ao _s_ tambem o valor de _j_...; mas este valor, embora no _s_ se observe muito mais frequentemente, é accidente que soffrem as tres irmãs _z_, _s_, _x_, e não particularidade do _s_. Expliquemo-nos.
Se lermos e escutarmos as seguintes frases:
_fa_z a_gua_, _fa_z p_onto_, _fa_z d_amno_; _a_s a_guas_, _a_s p_ontes_, _a_s d_amas_; _cali_x a_ntigo_, _cali_x p_rateado_, _cali_x d_ourado_:
ver-se-á que _z_, _s_, _x_ de _faz_, _as_, _calix_ valem, primeiro, igualmente _z_...; segundo, igualmente _x_...; terceiro, igualmente _j_...
Examinai e vereis que _z_, _s_, _x_, lendo-se immediatamente antes de vogal, valem _z_...; e immediatamente antes de _ç_, _f_, _p_, _q_, _t_ (ou equivalentes), _j_...: nos outros casos, _x_...
Porém como todos observam isto inconscientemente, e o mesmo ouvido se encarrega de guiar o alumno, é escusado dar taes regras.
Abstrahindo pois daquelle valor commum e tão accidental, _j_..., podemos sem rigorosa mas com bastante verdade chamar áquellas consoantes _zêxe_, _sezêxe_, _kcecezêxe_. Taes nomes designam os valores das letras, e são portanto definições, verdadeiros nomes, verdadeiros e mnemonicos, isto é, bons de fixar pela identidade e gradação de elementos.
O nosso systema não se funda nos nomes das letras: os faceis e notaveis resultados que elle tem dado em nossas mãos, e nas do editor, e que igualmente promette nas de outrem não dependem destas particularidades: mas é a razão que as dicta, e o methodo que as aconselha.
_Xiz_ é um nome apenas insufficiente, não falso nem disparatado; porque do modo que o dizemos (_xix_...), principiando e acabando na inflexão _x_..., até se podia considerar symbolico; pois em princípio e fim de palavra, salvo o que deixamos dito, o _x_ vale _x_... Mas que é dos outros valores? O nome não os indica; e não ha razões de preferencia: nem ha conveniencia alguma em obrigar o principiante a ir buscal-os a explicações avulsas, podendo-os achar no proprio nome da letra.
Vamos ás perguntas e respostas do costume:
—_Como se chama esta letra?_—_Kcecezêxe_.
—_Porque se chama_ Kcecezêxe?—_Porque vale kç... ç... z... x..._
—_Quando vale kç... ç... z...?_—_Não ha regra._
—_E quando vale x...?_—No princípio e fim de palavra.
Este mesmo valor já sabemos quanto é accidental no fim; e tambem não é certo no princípio. Parece pois que muito de proposito escolheram os mathematicos o _x_ para symbolo da incognita... Mas ahi tendes mais uma razão para lhe darmos um nome que offereça por assim dizer, á escolha do principiante valores tão diversos e tão incertos.
x
= kç
fi|xo fi|xa fi|xar
flu|xo de|flu|xo
re|fle|xo se|xo
= ç
au|xi|li|as|te
au|xi|li|ari|as
au|xi|li|a|sses
= z~~~
exis|te e|xis|tir
e|xer|ci|ta|rás
e|xer|ci|ta|sses
e|xer|ce|sses
e|xa|cto
= ~~~z
xa|le lu|xo
bai|xo dei|xar
be|xi|go|sas
ei|xos sei|xos
sex|ta ca|lix
ex|pre|ssar
VIGESIMA PRIMEIRA LIÇÃO
Das oito consoantes incertas faltam-nos duas, _m_, _n_: mas como estas servem tantas ou mais vezes de til que de letras, é chegado o tempo de fallarmos das vogaes nasaes. Ha cinco especies de vogaes: _agudas_, _fechadas_, _abertas_, _graves_, e _nasaes_.
_Agudas_ são as que se proferem como se chamam _á_, _é_, _í_, _ó_, _ú_; ás quaes muitas vezes se applica e muitas mais se deixa de applicar aquelle traço obliquo da direita para a esquerda chamado tambem accento agudo.
Abaixo, por assim dizer, um ponto em força e clareza estão as _fechadas_, que se proferem com a bôca um pouco menos aberta.
O signal destas é o chamado impropria e alatinadamente circumflexo, que a maxima parte das vezes se omitte, mas algumas se emprega onde era necessario como em _dê_; onde convinha como em _rôgo_; onde era desnecessario como em _flôr_ (porque _or_ final vale geralmente _ôr_, e portanto bastava accentuar as excepções como _maiór_, _peór_); e tambem modernamente em palavras, onde não convinha, como _vêmos_, _louvâmos_, que em estylo culto e desaffectado se lêem nasalando as vogaes _e_, _a_; ás quaes portanto mais competia til que accento circumflexo.
É de notar que não ha _u_ nem _i_ fechado; porque o ouvido não distingue voz abaixo de _u_; nem differença de tom, e só de fôrça, dum _i_ a outro _i_, como em _cai_ e _caí_.
_Aberta_, ha só uma vogal assim chamada, o _e_, de que fallamos a paginas 49.
_Graves_ são as vogaes que se proferem mais suavemente, como as ultimas de _ama_, _ame_, _amei_, _amo_, _tribu_; onde, se comparardes, vereis que _o_ e _u_ se confundem para o ouvido.
Quasi o mesmo succede entre _a_ fechado e _a_ grave, que só differem na fôrça; como por exemplo em _câda_. Mas attendendo a que esta differença é quasi inapreciavel, e devendo ser o _tom_ a base desta classificação, póde-se estabelecer que ha só tres vozes graves, _e_, _i_, _u_, representadas em quatro vogaes, _e_, _i_, _o_, _u_; valendo estas duas últimas o mesmo.
_Nasaes_ são as que se proferem, não asperamente fanhosas, como se tivessemos o nariz tapado ou as fizessemos eccoar nas fossas nasaes; mas dirigindo o fôlego como que ao ceo da bôca; podendo-se neste sentido chamar igualmente, e por ventura melhor, palataes.
Resumindo: todas as vogaes podem ser nasaes e todas podem ser agudas. Graves ha quatro _e_, _i_, _o_, _u_, representando tres vozes graves _e_, _i_, _u_. Fechadas ha tres, _â_, _ê_, _ô_. Aberta ha só uma, _è_.
As nasaes assignalam-se com ~, _m_, _n_. Hoje só é applicado o til a duas, _a_, _o_; mas a todas se encontra applicado frequentemente nas edições antigas.
Limitemos a nossa questão ao til.
—_Como se chama este signal?_—_Til._
—_De que serve?_—_De indicar voz nasal._
—Á, é, í, ó, ú _são vozes nasaes?_—_São vozes puras._
—_Como são nasaes?_—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
Puras são todas as vozes não nasaladas, isto é, todas as _agudas_, _fechadas_, _abertas_ e _graves_.
ã
ẽ ĩ õ
ũ
vã lã rã sã
são pão dão
ve|rão se|rão
cão co|ra|ção
ra|zão car|vão
se|zão grão
grãos sãos
cães ca|pi|tães
sa|cris|tães
põi dis|põis
pa|vões fei|jões
fei|ções a|cções
ra|tões ra|zões
va|rões ba|rões
la|drão ra|ções
VIGESIMA SEGUNDA LIÇÃO
Estamos chegados á penultima das consoantes incertas, que é o _m_. Este caracter umas vezes é letra, outras vezes signal nasal, outras vezes nem uma cousa nem outra; e podemos accrescentar que outras vezes é ambas as cousas.
Quando é letra representa um despego de labios similhantissimo aos que representam _b_, _p_; como por exemplo em
_mal_, _mel_, _mil_, _mola_, _mula_.
É impossivel começar a ler estas palavras sem ser de bôca fechada. Os labios despegam-se á primeira voz; vindo portanto o _m_ a representar um facto puramente mecanico, por si só inapreciavel ao ouvido. Não é isto particularidade do _m_, mas qualidade geral de todas as letras que valem inflexões instantaneas.
O _m_ representa esta inflexão labial em tendo vogal adiante.
Quando é signal nasal, vale para a vogal antecedente o mesmo que til. Tanto importa para a leitura escrever:
_am_bos, _em_bora, _im_par, _om_bria, _um_bral; como _ã_bos _ẽ_bora _ĩ_par _õ_bria _ũ_bral:
com a differença que esta orthografia era melhor, mais exacta e, por consequencia, mais elegante.
Por economia de espaço, e conveniencias typograficas, talvez mais que por espirito reformador duma orthografia incoherente, acha-se o til empregado nas edições antigas, frequentissimamente, onde agora pomos _m_ ou _n_. Em boa hora volte e seja universalmente recebida aquella substituição. Mas os antigos, que escreviam (tambem mais logicamente) por exemplo _amárão_; querendo differençar o _ão_ dominante do grave, á falta de signaes convenientes escreviam _amaráõ_, desvirtuando assim ao mesmo tempo os dois signaes agudo e nasal; pois nem o _a_ é agudo, nem o _o_ nasal. Daqui e, provavelmente ainda mais, da costumeira de solletrar _á_, _ó_, _til_, _ão_; parecendo ao principiante (e talvez ao mestre) que o til pertence ao _o_; resulta vermos até na capital grandes letreiros: _Salaõ_, _Repartiçaõ de Instrucçaõ_ etc. (o que diga-se a verdade não é muito airoso para o pintor).
O _m_ tem sempre este valor nasal quando se lhe não segue vogal.
Mas ás vezes não tem valor nenhum, e só se escreve por divisa etymologica, como por exemplo em
_co_m_menda_, _co_m_missão_, _conde_m_nado,_
que se lêem exactamente como se escrevessemos _comenda_ _comissão_ _condenado_.
Estas taes divisas etymologicas, ou estas taes etymologias teem o grande inconveniente de fazer da escrita um privilégio, que nenhum homem liberal supporta sem repugnancia, etc. E ainda se os partidarios [ilegível............]! Mas elles não se entendem uns aos outros, e nem a si mesmos se entendem. Devia acabar esta affectação ridicula.
Continuando, não podemos dizer que _mm_ estão no caso de _bb_, _cc_, _dd_, _ff_, _gg_, etc., que valem sempre assim dobradas o mesmo que simples: porque é tão commum o primeiro _m_ não valer nada como valer de til: por exemplo:
_s_omm_a, g_omm_a, _emm_alar, _emm_assar_ equivale a _s_õm_a, g_õm_a, _ẽm_alar, _ẽm_assar_:
vingando aqui a regra, que _m_ sem vogal adiante vale de til.
Tambem o _am_ final se póde dizer que não offerece nada de extraordinario quanto ao _m_. Ahi o _m_ vale til; é regular: a forma orthografica sim que é viciosa; porque escrevemos _ã_ para lermos _ão_. Nem o _a_ nem o _m_ podem representar o _u_ que soa na leitura. É uma convenção caprichosa, e pouco sustentavel.
Antigamente dizia-se, por exemplo, _amárũ_; depois, com o correr dos tempos, _amárõ_; depois, _amárã_. Foi-se a musica da lingua, por assim dizer, aclarando. Hoje ainda muito povo diz _amárõ_, _fállõ_; mas o estylo correcto e literario é _amárão_, _fállão_.
Nisto devem os mestres não poupar insistencias, porque o tal _õ_ é repugnante. E dizemos: não poupar insistencias, porque é necessario insistir: a maior parte dos alumnos teem esse vício muito arraigado. Mas quem diz _cão_, póde dizer _fícão_: seja a syllaba grave ou dominante, a pronuncia é organicamente a mesma.
Tempo houve que geralmente se escrevia _ão_ no fim. Depois, talvez para evitar equivocos, e poupar accentos (no que sempre nos temos mostrado singularmente economicos), em vez de se progredir empregando, e até inventando os signaes necessarios a bem duma orthografia exacta, retrogradou-se. Quasi todos escrevem actualmente _amam_, _fallam_, _quizeram_, etc.
A dizer a verdade a boa orthografia não depende tanto da logica dos caracteres como da generalidade das regras; e se _am_ final vale sempre o mesmo, embora mal represente o que vale, passe a incoherencia. Melhor orthografia é _fállão_, _fallárão_, _fallarão_, etc. Mas por exemplo _pensão_ é equivoco; e escrever _pénsão_, não é logico; porque não temos na palavra _e_ agudo. A falta dum signal para a vogal dominante, é uma razão a favor do _am_ final: todavia, razão que pouco pode aproveitar aos que seguem (como nós aqui) a orthografia em _am_; pois escrevem sem escrupulo _provém_, _contém_ e até _porém_. Logo que dúvida podiam ter em escrever _pénsão_, _péndão_, _mándão_, etc.? Melhor seria.
Mas dissemos nós que o _m_ vale ás vezes de letra e de til. De facto acha-se uma especie de influencia nasal retroactiva no _m_ (assim como no _n_). Nós lemos _ama_, _temo_, _lima_, _Roma_, _uma_, como se estivesse escrito _ãma_, _tẽmo_, _lĩma_, _Rõma_, _ũma_. _Amamos_, _amemos_; _fazemos_, _façamos_; _vestimos_, _vistamos_; _pomos_, _ponhamos_; nestas e outras vozes similhantes dá-se tambem o caso de nasalarmos a penultima vogal, sem til nem _m_ que lhe pertença.
Mas destas e outras que taes advertencias não precisa o alumno. E limitando-nos ao que importa, na forma costumada:
—_Como se chama esta letra?_—_Metíl._
—_Porque se chama _metíl_?_—_Porque umas vezes vale _m'_, outras vezes vale de _til_._
—_Quando vale _m'_?_—_Com vogal adiante._
—_E quando vale de _til_?_—_Com vogal atraz._
—_Portanto, com_ a, e, i, o, u _atraz, como se lê?_—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
—_Tambem se lê _ã_ no fim de palavra?_—_No fim de palavra não se lê _ã_; accrescenta-se _u_; lê-se _ão_._
m
meu u|mas
mãos li|mões
mo|ças co|mer
a|mi|gas ge|mer
mo|rrer mães
ma|çãs ir|mãos
quei|ma|du|ras
ro|mãs me|xer
am = ~
em im om
um
vim fim sim
a|ssim al|gum
al|guem a|tum
em|fim quem
tam|bem som
com Jo|a|quim
ri|em lim|pem
je|ju|em to|mem
a|fi|em tre|mem
cai|em co|mem
ar|dem fu|mem
te|mem lê|em
com|pa|ra|rem
em|ma|ssa|rem
em|ma|la|rão
~~~am = ão
i|am dur|mam
a|mam te|mam
fi|cam ras|pam
le|vam pu|xam
vi|am zur|zi|am
to|cam ar|mam
li|gam su|mam
em|ma|gre|çam
com|pli|ca|ri|am
VIGESIMA TERCEIRA LIÇÃO
Chegámos finalmente ao _n_, última das consoantes incertas, que á similhança do _m_ umas vezes é letra, representando inflexão; outras vezes é simples signal nasal, valendo de til; outras vezes nem representa inflexão nem vale de til; outras vezes vale de til e representa inflexão; e ainda outras vezes, accentuado ou carregado com o _h_, vale a inflexão conhecida, de que havemos de tratar.
Propriamente um caracter só é letra quando representa um elemento mais ou menos distincto da palavra fallada. Ninguem diz que _vã_ se escreve com tres letras, porque nem a anályse nem o ouvido distinguem senão duas partes nessa palavra. Ora se em _vã_ ha só duas letras, tambem ha só duas letras em _van_. Se chamamos letra a este último caracter, é referindo-nos ao papel que elle muitas vezes representa, e para não estarmos com explicações e rigores desnecessarios: mas fallando com exactidão, aqui o _n_ não passa dum signal.