Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Part 1

Chapter 13,682 wordsPublic domain

*Notas de transcrição:*

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1876.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.

As «syllabas alternadas a typo liso e lavrado» do livro separam-se por |, por exemplo au|xi|lia|ri|as

* * * * *

CARTILHA MATERNAL

OU

ARTE DE LEITURA

POR

JOÃO DE DEUS

Les mères et les institucteurs, voilà ceux qui jettent dans le monde presque toutes les semences du bien et du mal. AMBROISE RENDU (Fils).

_As sementes do bem e do mal, quem as lança no mundo quasi todas, são as mães e os mestres._

PORTO

TYP. DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA _62, Rua da Cancella Velha, 62_

1876

_Este systema funda-se na lingua viva. Não apresenta os seis ou oito abecedarios do costume, senão um, do typo mais frequente, e não todo mas por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se intendam, que se expliquem; de modo que, em vez do principiante apurar a paciencia numa repetição banal, se familiarisa com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras intelligiveis._

_Assim ficamos livres do syllabario, em cuja interminavel serie de combinações mecanicas não ha penetrar uma idéa!_

_Esses longos exercicios de pura intuição visual constituem uma violencia, uma amputação moral contraria á natureza. Seis mezes, um anno e mais de vozes sem sentido basta para imprimir num espirito nascente o sello do idiotismo._

_Porque razão observamos nós a cada passo nos filhos da indigencia meramente abandonados á escola da vida uma irradiação moral, uma viveza rara nos martyres do ensino primario?_

_Ás mães, que do coração professam a religião da adoravel innocencia e até por instincto sabem que em cerebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e violencia póde deixar vestigios indeleveis, offerecemos neste systema profundamente prático o meio de evitar a seus filhos o flagello da cartilha tradicional._

PRIMEIRA LIÇÃO

Consistindo a leitura na combinação das letras, basta ir aprendendo as letras que se podem ir combinando; o mais é confusão; e não podendo haver combinação sem vogal, comecemos pelas vogaes (deixando de fóra o _ypsilon_ para não surprender logo no principio o alumno com duas letras que se leem do mesmo modo, tendo diverso nome e fórma). Chamemos essas letras pelos seus nomes, _á_, _é_, _í_, _ó_, _ú_, que depois iremos determinando os seus diversos valores.

a e

i

o u

Estas letras aprendem-se facilmente: representando a quinta parte do abecedario quanto ao numero, estão fóra de representar a vigesima, quanto aos embaraços; porque são homogeneas, todas se pronunciam com a bôca aberta, e filiam-se naturalmente na voz e na memoria. É por isso tambem que apresentamos todas cinco duma vez.

Ora a verdadeira palavra do homem é a palavra escrita, porque só ella é immortal. Mas emquanto o ensino da palavra fallada é o encanto de mães e filhos, o ensino da palavra escrita é o tormento de mestres e discipulos. Extranha diversidade em coisas tão irmãs!

Deus na sua providencia não o podia determinar assim. Ha-de haver meio facillimo, grato, universalmente accessivel, de espalhar essa arte, ou antes faculdade, sem a qual o homem não passa de um selvagem.

Esse meio ou esse methodo não póde ser essencialmente differente do methodo encantador pelo qual as mães nos ensinam a fallar, que é _fallando_, ensinando-nos palavras vivas, que entreteem o espirito, e não letras e syllabas mortas, como fazem os mestres. Pois apressemo-nos tambem nós a ensinar palavras; e acharemos a mesma amenidade.

Com aquellas cinco letras já se podem formar quatro palavras muito usuaes, e que por uma feliz coincidencia se pronunciam todas do mesmo modo, isto é, carregando na inicial.

Lede-as, e nunca soletreis; que mal sabeis como a soletração confunde o principiante (quando lhe não deprava o raciocinio com sommas falsas). Lede-as acompanhando fielmente com o ponteiro a letra que estais pronunciando; e vereis a facilidade, o gosto e a admiração com que a criança vos segue e vos imita, reconhecendo em sua consciencia a palavra retratada no papel.

Convem deixar estabelecida nesta lição, a proposito da ultima palavra _ia_, a regra que o _a_ no fim vale _â_ (_a_ fechado, igual ao que tantas vezes no dia pronunciamos separadamente: _a_ casa, _a_ mesa, etc.), regra que podemos figurar da fórma seguinte:

~~~a = â

Mas em portuguez as vogaes são quasi tantas como todas as consoantes juntas. Por isso antes de passar a lêr, podeis lisongear o alumno mostrando-lhe em qualquer livro ou pagina de boa letra o muito que elle já sabe. E nesta mesma distracção o acabais de confirmar nesses cinco elementos que são a alma da escrita e da leitura.

ai

ui

eu i|a

SEGUNDA LIÇÃO

Iniciámos no mecanismo da escrita o principiante com grande e justa maravilha sua. Elle percebeu, sentiu mais ou menos lucidamente o engenho do homem, que estudando os sons de que as palavras se compõem, inventou para cada som um signal, e depois, conforme a palavra consta de taes ou taes sons, assim na escrita põe taes ou taes signaes!

Mas aqui vem a proposito admirar como esta arte fundada numa base tão singela tenha sido o martyrio de tantos innocentes e passe ainda na opinião das multidões por uma sciencia ardua!

É verdade que tal correspondencia não é perfeita; mas essa imperfeição pouco embaraça os filhos do paiz sendo bem dirigidos. A criança, acostumada a ler palavras, não lê por exemplo _tódo_ nem _môdo_; lê _tôdo_ e _módo_, como tem dito e ouvido dizer. Assim tambem acha o valor das consoantes caprichosas.

Vamos agora combinar com as vogaes uma das consoantes mais perfeitas que é o _v_; porém não lhe haveis de chamar _ú-consoante_, que é uma falsidade, e vai desmentir todas as combinações. Chamai-lhe, como se usa modernamente, _vê_, ou ainda melhor, e por ora, chamai-lhe o que elle _vale_, simplesmente _v_... pronunciando sem despegar o beiço inferior dos dentes de cima, sem vogal, sem voz, o simples sopro aspero e sonoro.

Ensinai a proferil-o; e depois não tendes mais que ir apontando na palavra successivamente as letras que ides lendo, demorando-vos na pronuncia de cada uma o tempo que quizerdes, porque essa consoante é tão prolongavel como as vogaes.

v

vá vai

vi vi|a viu

vi|vi vi|vi|a

vi|veu vi|va

u|va

vi|u|va

TERCEIRA LIÇÃO

Cada um tem as suas traças de facilitar o ensino, e ajudar o principiante nas difficuldades. Nós temos achado util cobrir e descobrir alternativamente o _v_ nas palavras _vai_, _via_, etc, fazendo ler ora _ai_, ora _vai_ e assim o mais, a fim de certificar o principiante do papel que o _v_ representa na escrita.

Deste ou doutro modo estamos que vos não enfastiou a lição passada, onde pela primeira vez combinámos vogaes e consoantes. Mas que differença haverá entre vogal e consoante, e porque iriamos nós ao fim do abecedario buscar o _v_ para esse primeiro exercicio?

Quando dizemos _á_, soltamos essa voz da garganta; mas se dissermos _má_, soltamos essa voz, despegando os labios; e se dissermos _mal_, despegamos os labios ao soltal-a e no fim damos com a lingua no ceu da bôca.

Donde se vê que as palavras se compõem de _vozes_ e tambem duns _modos_ de começar ou acabar a voz.

As vozes pertencem á garganta, e representam-se nas vogaes; os modos pertencem aos orgãos mudos, como labios, dentes, lingua etc., e representam-se nas outras letras.

Vai uma grande differença da voz, ao modo de começar ou acabar a voz; vai portanto uma grande differença de vogal a consoante.

Mas esses modos, uns consistem num toque ou despego rapido, num simples movimento, numa funcção instantanea que se póde repetir, mas que se não póde prolongar, como succede nas seguintes palavras:

_b_o_c_a_d_o _g_o_l_i_lh_a _m_a_n_i_nh_o _pr_e_t_o (_bqd_, _gl lh_, _mn nh_, _pr t_).

Outros consistem numa disposição em que a gente póde insistir o tempo que quizer, como nas seguintes palavras:

_f_a_v_o _s_i_s_o _ch_á _j_a_rr_o _f...v..._ _ç...z..._ _x...j...rr..._

Ora quando a voz é modificada com aquelles modos instantaneos, de sua natureza improlongaveis, a voz e o modo constituem para o principiante uma somma difficil de reduzir aos seus elementos, e portanto confusa: pelo contrario quando o modo é prolongavel, o principiante demora-se na voz ou no modo o tempo que lhe apraz sem falsear a syllaba, sem desfigurar a palavra; e o papel que a consoante representa na escrita é evidente e distincto. por exemplo, contando os pontos por momentos, podemos levar cinco momentos a pronunciar, _v.....á_, ouvindo-se afinal perfeitamente _vá_. O mesmo não acontece em _dá_, _cá_, _pá_, _lá_, etc.

Logo, por onde haviamos nós de começar, pelas consoantes contínuas ou pelas consoantes instantaneas? É claro que pelas consoantes contínuas, prolongaveis, que deixam ao principiante apreciar melhor os elementos da syllaba.

Ora, dessas consoantes a menos equivoca, ou antes, a inequivoca, a unica que não tem equivalentes, a mais perfeita em summa, é o _v_: começámos pelo _v_.

Mas em que consiste o _v_, como se pronuncia o _v_?

Nós, mesmo com a bôca fechada, podemos fazer uma especie de gemido, respirando pelo nariz; mas se, em logar de respirar pelo nariz, fazendo esse gemido, respiramos por entre o labio inferior unido aos dentes de cima, pronunciamos _v_...

Este som depende do folego emittido com certa força; sem essa força, emittindo o simples folego e conservando a mesma posição de labio e dentes, em logar de _v..._ pronunciamos _f..._

Ora havendo tanta analogia entre estes dois elementos, sendo o _f_ um _v_ abafado, soprado, silencioso, passemos do _v_ ao _f_.

f

fé

fui

fi|a fi|a|va

a|fi|a a|fi|a|va

fa|va

QUARTA LIÇÃO

Os modos de começar e acabar a voz chamam-se ordinariamente _inflexões_ e _articulações_, por serem como uns eixos, umas juntas da voz que lhe dão contorno e melodia. A palavra _lampada_, por exemplo, é muito airosa; mas tirando-lhe a parte que nella tomam a lingua, os beiços e os dentes reduz-se a um vozeio de mudo, monotono e desengraçado: _ãââ_.

Donde se vê que a voz é como a perola que realça no engaste; e que as inflexões, intermeando e recortando a voz, apezar da sua obscuridade não são menos preciosas na palavra que as proprias vozes. Só a voz se canta, só a voz se alteia e expande, segundo o folego e garganta de cada um, a ponto de encher um templo, de retumbar no valle do alto da montanha; pelo contrario as inflexões a poucos passos de distancia somem-se: todavia uma lingua só de vozes seria uma lingua barbara.

Ora nós já sabemos que as inflexões na escrita se representam pelas consoantes; mas em logar de haver tantas consoantes como inflexões, correspondendo a cada inflexão a sua consoante, não succede assim.

Vejamos as inflexões contínuas de quantos modos se escrevem:

_f..._ (fé afflição phoca) f ff ph _v..._ (vai) v _ç..._ (suisso ceo aço maximo) s ss c ç x _z..._ (aza uso existe) z s x _x..._ (eixo chega ais faz) x ch s z _j..._ (ja geme osga) j g s _rr..._ (rua erro rhetorica) r rr rh

Achareis, para representar as sete inflexões continuas, vinte e duas formas que, descontando repetições, se reduzem a dezeseis; mas, destas dezeseis, sete teem diversos valores, a saber:

{ _c_ seu { _ch_ eixo { _ç_ ceo s { _z_ uso x { _z_ existe c { _k_ cai { _x_ triste { _ç_ proximo { ... acto { _j_ tisna { _kç_ sexo

g { _g_elo ch { _x_ chefe z { _z_ zelo r { e_r_a { a_g_ua { _k_ chimica { _x_ fiz { _r_aio

Ora destas formas de valor incerto nenhuma convinha para os primeiros exercicios. Das outras, uma tem valor certo e exclusivo, que é v: as mais não teem valor exclusivo mas teem valor certo, que são f, ff, ph, ç, ss, j, rr, rh; mas embora tenham valor certo, as compostas não seria bom methodo antecipar ás simples; ç é uma letra anomala; ff comprehende-se em f. Isto tudo supposto restam v f j.

Começámos pela mais perfeita, v, que maiuscula ou minuscula conserva a mesma forma, nunca se annulla dobrando-se debalde ou escrevendo-se por amor da etymologia, tem sempre o mesmo valor e só ella tem esse valor, presta-se com as vogaes a muitas combinações familiares, e representa uma inflexão _gemida_, isto é, duplamente apreciavel ao ouvido do principiante pela continuidade e pela intensidade.

Do v passámos ao f, pela analogia da pronuncia. Passamos agora ao j.

Os antigos punham o valor da letra no primeiro elemento do nome que lhe davam; razoavel systema de designações principalmente para as consoantes instantaneas, que mal se podem proferir em separado sem lhes exagerar o valor. _Jota_ e _xiz_ são os nomes que temos n'esse genero (preferiveis a _éfe_ _éle_, etc. onde a inflexão vem encravada em duas vozes dum modo obscuro); mas taes nomes constituem excepção, e impõem a necessidade de fazer distincção entre o nome e o valor, o que o alumno embora perceba facilmente, não deixa por isso de se embaraçar na prática, porque lhe occorrem as duas cousas, nome e valor. Aquellas designações antigas fundadas numa base até certo ponto filosofica, eram nomes geralmente compostos, verdadeiros nomes, com toda a melodia da lingua, sem aquella simplicidade d'algumas denominações nossas como _bê_, _dê_; por isso peores de conciliar com a soletração. Ao _d_, por exemplo, chamavam _daleth_, ao _a_ _aleph_, ao _l_ _lamed_. Em quantos annos chegaria o desgraçado alumno a soletrar (claro está, inconscientemente, de memoria, á força de repetições sem conto) _daleth aleph lamed_, _dal_?!

(_daleth_ _aleph_ _lamed_,

Somma... _dal_)

Em cinco e seis annos como ainda hoje a infancia israelita; com manifesto prejuizo da sua educação logica.

Mas seria mais irracional essa soletração que por exemplo a nossa _cê á_, _ká_? Não! ao menos alli, dada a chave do enigma, descoberto o segredo, achavam-se as parcellas da somma, os elementos da syllaba á frente dos tres nomes das letras. Em _cê á_, _ká_, é impossivel perceber donde veio _k_, a inflexão guttural que soa na syllaba ká.

Todavia ensina-se assim a ler! Não ensinemos nós a ler assim. Chamemos ao _jota j..._

j

já

fu|ja

ve|ja

vi|a|ja vi|a|ja|va

QUINTA LIÇÃO

A leitura, nestas palavras de vogaes e consoantes contínuas, é tão clara, funda-se em elementos tão distinctos, estão os seus passos por assim dizer tão bem marcados, a syllaba constitue sempre uma somma tão evidente, que o principiante, compenetrado da base do systema orthografico e talvez até exagerando a simplicidade da arte, deve-se a estas horas achar disposto a receber as outras consoantes, combinando-as com o mesmo conhecimento de causa.

A experiencia abona esta supposição. É notavel a facilidade e consciencia com que o alumno, em tão poucas lições, começa a ler as syllabas compostas de elementos confusos e quasi inseparaveis.

Mas que ordem havemos de seguir na combinação dos novos elementos? Assim como na lição passada buscámos as formas pelas inflexões, vejamos de quantas formas se escrevem as doze inflexões instantaneas da nossa lingua (que foi nossa intenção mnemonisar nas palavras _bocado golilha maninho preto_; _bkd_, _gl lh_, _mn nh_, _pr t_):

_b_ (boa abbade) b bb

_k_ (kilo qual chimica) k q ch c

_d_ (addido adhesão) d dd dh

_g_ (aggregado) g gg

_l_ (libello) l ll

_lh_ (ilha) lh

{ ~ a_m_bos _m_ (meu m { _m_ _m_eu m { ... co_m_menda)

{ ~ a_n_da _n_ (não n { _n_ _n_ão n { ... a_n_nel)

_nh_ (unha) nh

_p_ (appropriado) p pp

_r_ (ar) r

_t_ (attonito theoria) t tt th

Contando achareis, para representar as doze inflexões instantaneas da nossa lingua, vinte e duas formas (não escogitando muito, pois por exemplo, gu para representar _g_ guttural bem se podia considerar uma nova forma). Destas formas já conheciamos por incertas c, ch, g, r; e conhecemos agora como taes m, n: ora primeiro se hão de apresentar as certas. As formas lh, nh, dh, th são compostas; e primeiro se hão de apresentar as simples. Tiradas incertas e compostas, restam certas mas dobres, isto é, que ás vezes se dobram inutilmente b, d, l, p, t; certas e simples, isto é, que nunca se dobram k, q.

Por aqui haviamos de começar, se com o _q_ não se annullasse muitas vezes o _u_, o que é absurdo; e se tivessemos palavra usual onde apresentar o _k_ sem dependencia de letra desconhecida; mas só temos kilo, onde entra l que, portanto, ha de vir antes.

Mas b, d, p é o mesmo caracter invertido; approximemol-as: d, t, são irmãs na pronuncia.

Disto resulta que podemos ter por boa ordem a seguinte: t, d, b, p, l, k, etc.

Vamos ao t. Explicai, se quizerdes, a sua pronuncia ou simplesmente lêde-o na syllaba: o alumno vos seguirá.

t

tu teu

tu|a ti|a

a|ta a|ta|va

fi|ta fa|ti|a

fa|ti|o|ta

SEXTA LIÇÃO

Quando agrupámos as inflexões contínuas de duas em duas (_f...v..._, _c...z..._, _x...j..._), quizemos indicar o parentesco de cada par; isto é, que a primeira se pronuncía como a segunda, na mesma disposição de orgãos, com a differença que na primeira ha só folego e na segunda ha essa meia voz a que chamámos gemido.

O _j_ é um _x_ mais forte, um _x_ gemido, vozeado.

Mas ahi bem se explica a differença. Agora as inflexões _t_ e _d_ são mais do que parentas, são irmãs. Por isso do t passamos naturalmente ao d.

d

di|a

dó doi

dá deu da|da

da|va de|va

vi|da du|ví|da

i|da i|di|o|ta

ju|di|a ju|deu

a|ju|da

fi|a|da a|fi|a|da

SETIMA LIÇÃO

O leitor havia de notar na lição passada a palavra _duvída_ com accento. Nós temos aos signaes prosodicos uma especie de aversão, chegando os nossos mais esmerados escritores a não accentuarem muitas vezes até as palavras equívocas. Mas esse é o facto. Em theoria ninguem sustenta esse exagero. Donde se segue que podemos, e devemos, por exemplo, escrever sempre _duvída_ ou _dúvida_, e nunca simplesmente _duvida_.

O principio de accentuar só as palavras equívocas é bambo. Tudo é equívoco para quem não sabe. Nada mais equívoco para um extrangeiro, que as tres primeiras vogaes de _cama casa_ e _cada_, identicas na escrita, diversas na pronuncia (ã, á, â). Todavia nunca se accentuaram. Mas sendo essa a prática constante, não se devem dar a ler escritas doutro modo. Porém as palavras equívocas alguns accentuam-nas systematicamente, e muitos, embora sem especial cuidado, teem occasião de as differençar na escrita. Queremos dizer com isto que rejeitando e reprovando nas cartilhas uma accentuação artificial armada a facilitar a leitura, iremos empregando os devidos signaes nas palavras duvidosas, conforme a razão e os bons exemplos.

É inadmissivel a doutrina de escrever as palavras de maneira que, em separado, os mesmos portuguezes não saibam o que ellas são.

Mas, voltando ao nosso caminho, vamos ao b, que se profere despegando os labios, como p, m; e por isso chamam, a estas letras e inflexões, _labiaes_.

b

boi

bo|a

a|ba ba|ba

be|ba

ba|ta ba|ti|a

ba|teu ba|ti|da

bo|ta ba|ta|ta

a|ba|ta a|ba|ti|a

a|ba|ti|da

a|ba|fa a|ba|fa|va

a|ba|fa|da

OITAVA LIÇÃO

Na lição passada figurava em _boi_ e _boa_ a letra _o_ com um valor diverso do que se infere de seu nome. É tempo de admittir essa novidade.

Nós temos julgado inutil dizer que o criterio fundamental da nossa prosodia é—-_ler como se diz_: criterio sofistico, que não resiste á analyse mas que felizmente a criança na sua simplicidade admitte de boamente. A criança folga de rectificar uma leitura fundada no rigor dos dados, pelo que ouve e costuma dizer. Um certo instincto prático, um sentimento de utilidade a leva a achar muito bem fundado aquelle dictame futil. _Bói_ não se diz; _bói_ não é nada, gostosamente corrige e diz _bôi_.

E o caso é que emquanto outros, acostumados a syllabas vãs, naturalmente estropeiam as palavras mais logicamente escritas; o nosso alumno mettido naquelle caminho prático, e habituado a intender sempre o que lê, tende naturalmente a dar sentido e alma ás combinações da orthografia mais duvidosa, achando uma palavra corrente.

Nós reservamos lições especiaes para as grandes variações de valor nas vogaes; mas _ó_ e _ô_ não differem dum modo muito extranho.

Isto posto passemos ao _p_ que é irmão de _b_ no valor, e tambem se póde dizer que na figura.

p

pai

pá pó pé

pu|a pi|a pi|pa

pa|pa pa|pa|va

pa|pa|da

pe|ta pa|ta

pa|ta|da

pi|ta pi|ta|da

to|pa

ta|pa ta|pa|va

ta|pa|da

NONA LIÇÃO

Alguns chamam, ao _e_ de _saude_, mudo. Antes o chamem que o façam, pois se o fazem não fallam portuguez. O _u_ em guerra é mudo, e na maxima parte das palavras onde se escreve _gue_, _gui_, _que_, _qui_: e ainda n'outros casos como havemos de ver. Porem a vogal _e_ representa sempre voz; e não ha vozes mudas. Deviam-lhe chamar _e_ grave, que é já frase recebida, significando baixo, não agudo, que não soa alto, que não soa muito.

Isto supposto, as inflexões instantaneas por onde acabam palavras portuguezas são _l_, _n_, _r_: exemplo, _tal_, _talisman_, _ter_. Estas inflexões, parece que todas se proferem despegando a lingua do céo da bôca: porem, na sua qualidade de instantaneas não teem som proprio, e por isso, vindo no fim, se despegarmos a lingua durante a emissão da voz, em vez de _ter_, diremos _tere_; em vez de _tal_, _tale_, etc.: o que é vicioso.

Ora assim como _saud'_ não é portuguez, tambem o não são taes palavras acabando em _e_ grave, que a consoante não representa nem a inflexão póde comprehender.

A respeito do _l_, uma indicação podeis fazer muito clara e proficua, ao vosso alumno, e é que deixe a lingua pegada ao céo da bôca. Por um dos muitos mysterios da palavra, assim se profere elegantemente o _l_ final, ou posterior á voz.

Não temos apresentado letras dobradas por falta de occasião; não, por systema. É um facto de observação que o principiante não se embaraça com isso, como ides ver.

l

li li|a leu lu|a

lu|va lo|ja lu|ta

la|bu|ta bi|to|la

bo|la be|lla

fa|lla fi|ve|lla

lá ó|lá a|lli

vil fel fi|el tal

fa|tal fa|val

pa|úl pa|pel

al|va al|ta

fal|ta vol|ta

pol|pa a|pal|pa

a|pal|pa|de|lla

DECIMA LIÇÃO

Estas notas são escritas ao correr da impressão; e, recebendo agora do Porto a primeira folha (que em Lisboa nem de graça, como chegámos a offerecer a um editor notavel, demais a mais poeta e prosador, conseguimos a publicação desta curiosidade) vemos nessa folha que na segunda lição, onde se trata da combinação do _v_ com as vogaes, dissemos que vos podieis demorar na leitura de cada letra sem distincção, por serem todas igualmente prolongaveis. Assim é: mas esqueceu-nos advertir que haja cuidado em não separar a inflexão da voz; senão, basta a minima pausa para terdes de as ajuntar depois, o que vem a dar na mesma que soletrar. A advertencia era por ventura escusada.