Part 3
Foi esta a infancia minha; a juventude Fallou-me ao coração:--amemos, disse, Porque amar é viver. E esta era linda, como é linda a aurora No fresco da manhã tingindo as nuvens De rosea côr fagueira; Aquella tinha um quê de anhelos meigos Artifice sublime; Feiticeiro sorrir dos labios della Prendeo-me o coração;--julguei-o ao menos.
Aquella outra sorria tristemente, Como um anjo no exilio, ou como o calix De flôr pendida e murcha e já sem brilho. Humilde flôr tão bella e tão cheirosa, No seo deserto perfumando os ventos. --Eu morrêra feliz, dizia eu d’alma, Se podesse enxertar uma esperança N’aquella alma tão pura e tão formosa, E um alegre sorrir nos labios della.
A fugaz borboleta as flôres todas Elege, e liba e uma e outra, e foge Sempre em novos amores enlevada; N’este meo paraiso fui como ella, Inconstante vagando em mar de amores.
O amor sincero e fundo e firme e eterno, Como o mar em bonança meigo e doce, Do templo como a luz perenne e sancto, Não, nunca o senti;--somente o viço Tão forte dos meos annos, por amores Tão faceis quanto indi’nos fui trocando.
Quanto fui louco, ó Deos!--Em vez do fructo Sasonado e maduro, que eu podia Como em jardim colher, mordi no fructo Putrido e amargo e rebuçado em cinzas, Como infante glotão, que se não senta Á mesa de seos paes.
Dá, meo Deos, que eu possa amar, Dá que eu sinta uma paixão, Torna-me virgem minha alma, E virgem meo coração.
Um dia, em qu’eu sentei-me junto della, Sua voz murmurou nos meos ouvidos, --Eu te amo!--Ó anjo, que não possa eu crer-te! Ella, certo, não é mulher que vive Nas fezes da deshonra, em cujos labios Só mentira e traição eterno habitão. Tem uma alma innocente, um rosto bello, E amor nos olhos...--mas não posso crê-la.
Dá, meo Deos, que eu possa amar, Dá que eu sinta uma paixão; Torna-me virgem minha alma, E virgem meo coração.
Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo Terna voz lhe escutei:--Sonhei comtigo! Ineffavel prazer banhou meo peito, Senti delicias; mas a sós commigo Pensei--talvez!--e já não pude crê-la. Ella tão meiga e tão cheia de encantos, Ella tão nova, tão pura e tão bella... Amar-me!--Eu que sou? Meos olhos enxérgão, em quanto duvída Minha alma sem crença, de força exhaurida, Já farta da vida, Que amor não doirou.
Máo grado meo, crer não posso, Máo grado meo que assim é; Queres ligar-te commigo Sem no amor ter crença e fé?
Antes vai collar teo rosto, Collar teo seio nevado Contra o rosto mudo e frio, Contra o seio d’um finado.
Ou supplíca a Deos commigo Que me dê uma paixão; Que me dê crença á minha alma, E vida ao meo coração.
* * * * *
RECORDAÇÃO.
Nessun maggior dolore.... DANTE.
Quando em meo peito as afflicções rebentão Eivadas de soffrer acerbo e duro; Quando a desgraça o coração me arrocha Em circulos de ferro, com tal força, Que delle o sangue em borbotões golfeja; Quando minha alma de soffrer cançada, Bem que affeita a soffrer, siquer não pode Clamar: Senhor piedade;--e que os meos olhos Rebeldes, uma lagrima não vertem Do mar d’angustias que meo peito opprime:
Volvo aos instantes de ventura, e penso Que a sós comtigo, em pratica serena, Melhor futuro me augurava, as doces Palavras tuas, sofregos, attentos Sorvendo meos ouvidos,--nos teos olhos Lendo os meos olhos tanto amor, que a vida Longa, bem longa, não bastára ainda Porque de os ver me saciasse!... O pranto Então dos olhos meos corre espontaneo, Que não mais te verei.--Em tal pensando De martyrios calar sinto em meo peito Tão grande plenitude, que a minha alma Sente amargo prazer de quanto soffre.
* * * * *
TRISTEZA.
Que leda noite!--Este ar embalsamado, Este silencio harmonico da terra Que sereno prazer n’alma cançada Não expreme, não filtra, não diffunde? A brisa lá susurra na folhagem D’espessas matas, d’arvores robustas, Que velão sempre e sós, que a Deos elevão Mysterioso côro, que do Bardo A crença quasi morta inda alimenta. É esta a hora magica de encantos, Hora d’inspirações dos céos descidas, Que em delirio de amor aos céos remontão.
Aqui da vida as lastimas infindas, Do myrrado egoismo a voz ruidosa Não chegão; nem soluços, risos, festas, --Hilaridade vã de turba incauta, Nescia de ruim futuro; ou queixa amarga Do decrepito velho, enfermo, exangue, Nem do mancebo os ais doídos, preso Ao leito do soffrer na flôr da vida.
Aqui reina o silencio, o religioso, Morno socego, que povôa as ruinas, E o mausoléo soberbo, carcomido, E o templo magestoso, em cuja nave Suspira ainda a nota maviosa, O derradeiro arfar d’orgão solemne.
Em puro céo a lua resplandece, Melancolica e pura, simelhando Gentil viuva que pranteia o extincto, O bello esposo amado, e vem de noite, Vivendo pelo amor, máo grado a morte, Ferventes orações chorar sobre elle.
Eu amo o céo assim, sem uma estrella, Azul sem mancha,--a lua equilibrada N’um céo de nuvens, e o frescor da tarde, E o silencio da noite adormecida, Que imagens vagas de prazer desenha. Amo tudo o que dá no peito e n’alma Tregoas ao recordar, tregoas ao pranto, Á v’hemencia da dôr, á pertinacia Tenaz e acerba de crueis lembranças; Amo estar só com Deos, porque nos homens Achar não pude amor, nem pude ao menos Signal de compaixão achar entre elles.
Menti!--um inda achei; mas este em ocio Feliz descança agora, em quanto aos ventos E ao cru furor das verde-negras ondas Da minha vida a barca aventureira Insano confiei; em céo diverso Luzem com luz diversa estrellas d’ambos. Ai! triste, que houve tempo em que eu julgava As duas uma só,--co’o mesmo brilho Uma e outra nos céos meigas brilhavão! Hoje scintilla a delle, em quanto a minha Entre nuvens, sem luz, se perde agora. Meo Deos, foi bom assim! No immenso pégo Mais uma gota d’amargor que importa? Que importa o fel na taça do absyntho, Ou uma dôr de mais onde outras reinão?
* * * * *
O TROVADOR.
Elle cantava tudo o que merece de ser cantado; o que ha na terra de grande e de sancto--o amor e a virtude.--
N’uma terra antigamente Existia um Trovador; Na Lyra sua innocente Só cantava o seo amor.
Nenhum saráo se acabava Sem a Lyra de marfim, Pois cantar tão alto e doce Nunca alguem ouvira assim.
E quer donzella, quer dona, Que sentira commoção Pular-lhe n’alma, escutando Do Trovador a canção;
De jasmins e de açucenas A fronte sua adornou; Mas só a rosa da amada Na Lyra amante poisou.
E o Trovador conheceo Que era trahido--por fim; Poz-se a andar, e só se ouvia Nos seus labios: ai de mim!
Enlutou de negro fumo A rosa de seo amor, Que meia occulta se via Na gorra do Trovador;
Como virgem bella, morta Da idade na linda flôr, Que parece, o dó trajando, Inda sorrir-se de amor.
No meio do seo caminho Gentil donzella encontrou: Canta--disse; e as cordas d’oiro Vibrando, a triste cantou.
«Teo rosto engraçado e bello «Tem a lindeza da flôr; «Mas é risonho o teo rosto: «Não tens de sentir amor!
«Mas tão bem por esse dia «Que viverás, como a flôr, «Mimosa, engraçada e bella, «Não tens de sentir amor!
«Oh! não queiras, por Deos, homem que tenha «Tingida a larga testa de pallor; «Sente fundo a paixão,--e tu no mundo «Não tens de sentir amor!
«Sorriso jovial te enfeita os labios, «Nas faces de jasmim tens rosea côr; «Fundo amor não se ri, não é corado... «Não tens de sentir amor;
«Mas se queres amar, eu te aconselho, «Que não guerreiro, escolhe um trovador, «Que não tem um punhal, quando é trahido, «Que vingue o seu amor.»
Do Trovador pelo rosto Torva raiva se espalhou, E a Lyra sua, tremendo, Sem cordas d’oiro ficou.
Mais além no seo caminho Donzel garboso encontrou: Canta--disse; e argenteas cordas Pulsando, o triste cantou.
«Aos homens da mulher enganão sempre «O sorriso, o amor; «É este breve, como é breve aquelle «Sorriso enganador.
«Teo peito por amor, Donzel, suspira, «Que é de jovens amar a formosura; «Mas sabe que a mulher, que amor te jura, «Dos lindos labios seos cospe a mentira!
«Já frenetico amor cantei na lyra, «Delicias já sorvi n’um seo sorriso, «Já venturas fruí do paraiso, «Em terna voz de amor, que era mentira!
«O amor é como a aragem que murmura «Da tarde no cahir--pela folhagem; «Não volta o mesmo amor á formosura, «Bem como nunca volta a mesma aragem.
«Não queiras amar, não; pois que a ’sperança «Se arroja além do amor por largo espaço. «Tens, brillando ao sol, a forte lança, «Tens longa espada scintillante d’aço.
«Tens a fina armadura de Milão, «Tens luzente e brillante capacete, «Tens adága e punhal e bracelete «E, qual lúcido espelho, o morrião.
«Tens fogoso corsel todo arreiado, «Que mais veloz que os ventos sorve a terra; «Tens duellos, tens justas, tens torneios, «Que os fracos corações de medo cerra; «Tens pagens, tens varletes e escudeiros «E a marcha afoita, apercebida em guerra «Do luzido esquadrão de mil guerreiros.
«Oh! não queiras amar!--Como entre a neve «O gigante volcão borbulha e ferve «E sulfurea chamma pelos ares lança, «Que após o seo cahir torna-se fria; «Assim tu acharás petrificada, «Bem como a lava ardente do volcão, «A lava que teo peito consumia «No peito da mulher--ou cinza ou nada-- «Não frio mas gelado o coração!»
E o Trovador despeitoso De prata as cordas quebrou, E nas de chumbo seo fado A lastimar começou.
«Que triste que é n’este mundo «O fado d’um Trovador! «Que triste que é!--bem que tenha «Sua Lyra e seu amor.
«Quando em festejos descanta, «Rasgado o peito com dôr, «Mimoso tem de cantar «Na sua Lyra--o amor!
«Como a um servo vil ordena «Um orgulhoso Senhor, «Canta, diz-lhe; quero ouvir-te: «Quero descantes de amor!
«Diz-lhe o guerreiro, que apenas «Lidou em justas de amor: «--Minha dama quer ouvir-te, «Canta, truão trovador!--
«Manda a mulher que nos deixa «De beijos murchada flôr: «--Canta, truão, quero ouvir-te, «Um terno canto de amor!
«Mas se a mulher, que elle adora «Atraiçôa o seo amor; «Embalde busca a seo lado «Um punhal--o Trovador!
«Se escuta palavras della, «Que a outros jurão amor; «Embalde busca a seo lado «Um punhal--o Trovador!
«Se vê luzir de alguns labios «Um sorriso mofador; «Embalde busca a seo lado «Um punhal--o Trovador!
«Que triste que é n’este mundo «O fado d’um Trovador! «Pezar lhe dá sua Lyra, «Dá-lhe pezar seo amor!»
E o Trovador n’este ponto A corda extrema arrancou; E n’um marco do caminho A Lyra sua quebrou: Ninguem mais a voz sentida Do Trovador escutou!
* * * * *
AMOR! DELIRIO--ENGANO.
Y el llanto que en su cólera derrama, La hoguera apaga del antiguo amor! ZORRILLA.
Amor! delirio--engano.... Sobre a terra Amor tão bem fruí; a vida inteira Concentrei n’um só ponto--ama-la, e sempre. Amei!--dedicação, ternura, extremos Scismou meo coração, scismou minha alma, --Minha alma que na taça da ventura Vida breve d’amor sorveo gostosa. Eu e ella, ambos nós, na terra ingrata Oásis, paraiso, eden ou templo Habitámos uma hora; e logo o tempo Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto, Doce encanto que o amor nos fabricára.
E eu sempre a via!... quer nas nuvens d’oiro, Quando ia o sol nas vagas sepultar-se, Ou quer na branca nuvem que velava O circulo da lua,--quer no manto D’alvacenta neblina que baixava Sobre as folhas do bosque, muda e grave, Da tarde no cahir; nos céos, na terra, A ella, a ella só, vião meos olhos.
Seo nome, sua voz--ouvia eu sempre; Ouvia-os no gemer da parda rola, No trepido correr da veia argentea, No respirar da brisa, no susurro Do arvoredo frondoso, na harmonia Dos astros ineffavel;--o seo nome! Nos fugitivos sons de alguma frauta, Que da noite o silencio realçavão, Os ares e a amplidão divinisando, Ouvião meos ouvidos; e de ouvil-o Arfava de prazer meo peito ardente.
Ah! quantas vezes, quantas! junto d’ella Não senti sua mão tremer na minha; Não lhe escutei um languido suspiro, Que vinha lá do peito á flor dos labios Deslisar-se e morrer?! Dos seos cabellos A magica fragrancia respirando, Escutando-lhe a voz doce e pausada, Mil venturas colhi dos labios d’ella, Que instantes de prazer me futuravão. Cada sorriso seo era uma esp’rança, E cada esp’rança enlouquecer de amores. E eu amei tanto!--Oh! não! não hão de os homens Saber que amor, á ingrata, havia eu dado; Que affectos melindrosos, que em meo peito Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte! Oh! não,--morra commigo o meo segredo; Rebelde o coração murmure embora.
Que de vezes, pensando a sós commigo, Não disse eu entre mim:--Anjo formoso, Da minha vida que farei, se acaso Faltar-me o teo amor um só instante; --Eu que só vivo por te amar, que apenas O que sinto por ti a custo exprimo? No mundo que farei, como estrangeiro Pelas vagas crueis á praia inhóspita Exanime arrojado?--Eu, que isto disse, Existo e penso--e não morri,--não morro Do que outr’ora senti, do que ora sinto, De pensar nella, de a revêr em sonhos, Do que fui, do que sou e ser podia!
Existo; e ella de mim jaz esquecida! Esquecida talvez de amor tamanho, Derramando talvez n’outros ouvidos Frases doces de amor, que dos seos labios Tantas vezes ouvi,--que tantas vezes Em extasis divino aos céos me alçárão, --Que dando á terra ingrata o que era terra Minha alma além das nuvens transportárão. Existo! como outr’ora, no meo peito Férvido o coração pular sentindo, Todo o fogo da vida derramando Em queixas mulherís, em molles versos. E ella!... ella talvez nos braços d’outrem Com sua vida alimenta uma outra vida, Com o seo coração o de outro amante, Que mais feliz do que eu, inferno! a goza. Ella, que eu respeitei, que eu venerava Como a reliquia sancta!--a quem meus olhos, Receiando offendel-a, tantas vezes De castos e de humildes se abaixárão! Ella, perante quem sentia eu presa A voz nos labios e a paixão no peito! Ella, idolo meo, a quem o orgulho, A força d’homem, o sentir, vontade Propria e minha dediquei,--sugeita Á voz de alguem que não sou eu,--desperta, Talvez no instante em que de mim se lembra, Por um osculo frio, por caricias Devidas dum esposo!... Oh! não poder-te, Abutre roedor, cruel ciume, Tua funda raiz e a imagem d’ella No peito em sangue espedaçar raivoso!
Mas tu, cruel, que es meo rival, n’uma hora, Em que ella só julgar-se, has de escutar-lhe Um quebrado suspiro do imo peito, Que d’éras ja passadas se recorda. Has de escutal-o, e ver-lhe a côr do rosto Enrubecer-se ao deparar comtigo! Preza serás tambem d’átros cuidados, Terás ciume, e soffrerás qual soffro: Nem menor que o meo mal quero a vingança.
* * * * *
DELIRIO.
Quando dormimos nosso espirito véla. ESCHYLO.
A noite quando durmo, esclarecendo As trevas do meu somno, Uma etherea visão vem assentar-se Junto ao meu leito afflicto! Anjo ou mulher? não sei.--Ah! se não fosse Um qual véo transparente, Como que a alma pura alli se pinta Ao travez do semblante, Eu a crêra mulher...--E tentas, louco, Recordar o passado, Transformando o prazer, que desfructaste, Em lentas agonias?!
Visão, fatal visão, porque derramas Sobre o meo rosto pallido A luz de um longo olhar, que amor exprime E pede compaixão? Porque teo coração exhala uns fundos, Magoados suspiros. Que eu não escuto; mas que vejo e sinto Nos teos labios morrer? Porque esse gesto e morbida postura De macerado espirito, Que vive entre afflicções, que já nem sabe Desfructar um prazer?
Tu fallas! tu que dizes? este accento, Esta voz melindrosa, N’outros tempos ouvi, porém mais leda; Era um hymno d’amor. A voz, que escuto, é magoada e triste, --Harmonia celeste, Que á noite vem nas azas do silencio Humedecer as faces Do que enxerga outra vida além das nuvens. Esta voz não é sua; É accorde talvez d’harpa celeste, Cahido sobre a terra!
Balbucias uns sons, que eu mal percebo, Doridos, compassados, Fracos, mais fracos;--lagrimas despontão Nos teos olhos brilhantes... Choras! tu choras!... Para mim teos braços Por força irresistivel Estendem-se, procurão-me; procuro-te Em delirio afanoso. Fatídico poder entre nós ambos Ergueo alta barreira; Elle te enlaça e prende ... mal resistes... Cédes emfim ... acórdo!
Acórdo do meo sonho tormentoso, E chóro o meo sonhar! E fecho os olhos, e de novo intento O sonho reatar. Embalde! porque a vida me tem preso; E eu sou escravo seo! Acordado ou dormindo, é triste a vida Desque o amor se perdeo. Ha comtudo prazer em nos lembrarmos Da passada ventura, Como o que educa flôres vicejantes Em triste sepultura.
* * * * *
EPICEDIO.
Passa la bella donna e par che dorma. TASSO.
Seo rosto pallido e bello Já não tem vida nem côr! Sobre elle a morte descança, Involta em baço pallor.
Cerrárão-se olhos tão puros, Que tinhão tanto fulgor; Coração que tanto amava Já hoje não sente amor;
Que o anjo bello da morte A par desse anjo baixou! Trocárão brandas palavras, Que Deos sómente escutou.
Ventura, prazer, ledice D’uma outra vida cantou; E o anjo puro da terra Prazer da terra engeitou.
Depois co’as azas candentes O formoso anjo do céo Roçou-lhe a face mimosa, Cubrio-lhe o rosto co’um véo.
Depois o corpo engraçado Deixou a terra sem vida, De tenue pallor coberto, --Verniz de estatua esquecida.
E bella assim, como um lirio Murcho da sésta ao ardor, Teve a innocencia dos anjos, Tendo o viver d’uma flôr.
Foi breve!--mas a desgraça A testa não lhe enrugou, E aos pés do Deos que a creára Alma inda virgem levou.
Sáe da larva a borboleta, Sáe da rocha o diamante, De um cadaver mudo e frio Sáe uma alma radiante.
Não choremos essa morte, Não choremos casos taes; Quando a terra perde um justo, Conta um anjo o céo de mais.
* * * * *
SOFFRIMENTO.
Meo Deos, Senhor meo Deos, o que ha no mundo Que não seja soffrer? O homem nasce, e vive um só instante, E soffre até morrer!
A flôr ao menos, nesse breve espaço Do seo doce viver, Encanta os ares com celeste aroma, Querida até morrer.
É breve o romper d’alva, mas ao menos Traz comsigo prazer; E o homem nasce e vive um só instante: E soffre até morrer!
Meo peito de gemer já está cançado, Meos olhos de chorar; E eu soffro ainda, e já não posso alivio Sequer no pranto achar!
Já farto de viver, em meia vida, Quebrado pela dôr, Meos annos hei passado, uns após outros, Sem paz e sem amor.
O amor que eu tanto amava do imo peito, Que nunca pude achar, Que em balde procurei, na flôr, na planta, No prado, e terra, e mar!
E agora o que sou eu?--Pallido espectro, Que da campa fugiu; Flôr ceifada em botão; imagem triste De um ente que existio...
Não escutes, meo Deos, esta blasfemia; Perdão, Senhor, perdão! Minha alma sinto ainda,--sinto, escuto Bater-me o coração.
Quando roja meo corpo sobre a terra, Quando me afflige a dôr, Minha alma aos céos se eleva, como o incenso, Como o aroma da flôr.
E eu bemdigo o teo nome eterno e sancto, Bemdigo a minha dôr, Que vai além da terra aos céos infindos Prender-me ao creador.
Bemdigo o nome teo, que uma outra vida Me fez descortinar, Uma outra vida, onde não ha só trevas, E nem ha só penar.
* * * * *
VISÕES.
* * * * *
I.
PRODIGIO.
N’aquelle instante em que vacilla a mente Do somno ao despertar, quando pejada Vem doutros mundos de visões ethereas: Quando sobre a manhã surge brilhante A luz da madrugada,--eu vi!... nem sonhos Era a minha visão, real não era; Mas tinha d’ambos o talvez.--Quem sabe? Foi caprixo fallaz da phantasia, Ou foi certo aventar d’eras venturas?
A ira do Senhor baixou tremenda Sobre uma vasta capital!--em pedra Tomou-se a gente impura. Muitos homens As portas ferreas, largas, vi sentados. Melhor do que um pintor ou statuario A morte, que de subito os colhera No ardor, no afan da vida, conservou-lhes A acção--partida em meio, com tal força, Que a mente seo máo grado a completava. Um tinha os labios entre-abertos; outro Parecia sorrir; mais longe aquelle Derramava um segredo, baixo, á medo, Nos ouvidos do amigo; austero o guarda Com rosto carregado e barba hirsuta Nas mãos callosas sopesava a lança. Dos mercadores na comprida rua Passavão muitos compradores;--este Contava montes d’oiro;--á luz aquelle Expunha a seda do Indostão, de Tyro A purpura brilhante, a damasquina Custosa tela entretecida d’oiro. Cortez sorrindo, o mercador gabava As cores vivas, o tecido, o corpo Do estofo que vendia. Nos serralhos Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas Bradava á prece o Muezzin... --N’um largo, Fofo e vasto divan sentado, um velho Os versos lia do Alcorão;--só elle D’entre tanto punir ficára illeso.
* * * * *
II.
A CRUZ.
Era um templo d’arabica structura, Magestoso, elegante;--alem das nuvens Se entranhava nos céos subtil a agulha; Sobre o zimborio retumbante e vasto Ondas e ondas de vapor crescião. Dentro corrião tres compridas naves Sobre dois renques de columnas, onde Baixos relevos da sagrada historia Da base ao capitel se emmaranhavão. Ardia a luz na alampada sagrada; No sagrado instrumento o som dormia.