Cantos

Part 4

Chapter 43,533 wordsPublic domain

Junto á cruz--da fachada egregia pompa-- Muitos homens eu vi de torvo aspecto; Muitos outros, servís, com mão armada Profundos golpes entalhavão nella. Um daquelles no emtanto assim fallava:

«Quando esta humilde cruz rojar por terra; «Levando a crença de Jesus comsigo «Nós outros, da verdade Sacerdotes, «Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros «Que desvendamos a impostura, o erro, «A mentira sagaz, a crença louca, «Entrada facil da razão no templo «Teremos todos; e de então no throno, «Do nescio vulgo imparciaes sob’ranos, «Sanctos juises da verdade sancta, «Pregaremos o justo, a paz, concordia «E os seus deveres que dimanão faceis «Do amor do lucro e do interesse; todos «--Vasallos da razão, nossos vassallos-- «Um eden terreal farão do mundo.»

No emtanto aos crebros golpes do machado A cruz pendia obliqua sobre a terra. Creando novas forças com tal vista, Os operarios mais frequentes golpes Repetem, vibrão, continuão;--sôa Por toda a parte o echo,--o som, mais longe, Retumba, morre--e novamente echôa. Nisto a cruz--geme--estrala; um grito sóbe Unisono e geral!... Como sois grande, Senhor, Senhor meo Deos!--Eu vi, morrendo Os obreiros cahir; e a cruz erguer-se, Como aos raios do sol a flor mimosa Que a raiva do tufão vergára insana.

* * * * *

III.

PASSAMENTO.

Era um quarto espaçoso;--alli se vião Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas, Ricos tapetes multicor bordados, E franjas complicadas d’um céo d’oiro Pendentes,--vastos rases narradores De lenda pia ou de briosos feitos. Mas de tanto luzir, de tanto ornato Ora por mãos aváras depredado O vasto d’área revelava aos olhos, Tendo n’um canto escuro um leito apenas. Do leito alguem rasgára o cortinado. E da curva amação polida e bella Aqui, alli, pendia a seda em fios, Bem como tranças de mulher formosa Por sobre o seio nú.--Alli no leito Jazia um moribundo; em torno os olhos Cheios de pasmo e de terror volvia, Bebendo pelos sofregos ouvidos Mal sentido rumor d’outro aposento. Confusas vozes, altercar ruidoso, E o tinir de metal ouvia apenas! Então por vezes tres no leito afflicto Erguer-se maquinou de raiva insano! Por tres vezes cahio, gemendo, sobre O leito que da queda se sentia.

Da morte o cru torpor nos membros frios Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso Da vida o amor debate-se nas ancias Desse passo fatal... --Eis nisto á porta. Um Padre assoma,--d’entre as mãos erguidas Da hostia sancta resplendor luzia; E palavras de paz, de amor, divinas, Que nos labios do justo Deos entorna, Abundantes soltava. Longos annos De piedoso soffrer o corpo enfermo Alquebrárão por fim; as cãs nevadas Raras tremião sobre a testa, como Tremia na garganta a voz cançada.

Dizia o bom do velho:--«Irmão, nas ancias, «No extremo agonisar da morte amiga «Ergue os olhos ao céo;--do céo te venha «Esse divino amor, que só lá mora, «Que filtra por nossa alma, que nos deixa «Mais celeste prazer, mais doce arroubo, «Do que a terra sóe dar... «Infames, trédos, «Bufarinheiros de palavras, corvos «De negro, feio agoiro, que esvoação «Com grito grasnador por sobre o campo, «Onde a peleja de reinar começa; «Dizes-me tu--a mim! a mim que ao fóro «Caminho inda hoje entre alas de clientes, «Que so me visto de velludo e d’oiro, «Em quanto vives de burel coberto, «Co’os labios sobre o pó mordendo a terra! «Dizes-me tu--a mim!...» Ergueo-se,... e o corpo Cahio de fraco sobre o leito; o velho No emtanto humilde orava, que alma sancta Do mal cabido insulto não se offende.

Jehovah, que entre myriadas Vives de estrellas formosas, Que das flôres melindrosas Da terra--os anjos formaste; Jehovah, que pela agoa Lustrar quizeste o Messias, Que ao beato, ao sancto Elias Nas chammas purificaste;

Jehovah, que a mente apuras No fogo do soffrimento, Que divino, alto portento Déste fazer á Moisés, Quando a negra rocha dura Tocando co’a tenue vara, Rebentou a lympha clara, Lambendo-lhe mansa os pés;

Jehovah, que eterno existes, Cujo ser em si se encerra, Que formaste o céo e a terra, Que te chamas--o que é,[2] --Faz, Senhor d’altos prodigios, Com que a mente empedernida Não se aparte desta vida Sem sentir a sancta fé.

E tu, Christo, que soffreste Martyrios por nosso amor, Tu que foste o Salvador, Salva-o, Senhor, por quem es. Dá que em palavras piedosas Se derrame contristado, Como o rochedo tocado Pela vara de Moisés.

E o confuso rumor do outro aposento Crescia mais e mais.--Do moribundo Os cúpidos herdeiros dividião Por si a vasta herança; os torvos olhos Ião de rosto a rosto, fusilando Ameaças de morte.

No entanto o velho exanime e sem forças Curtia amargos transes, que avarento, E tendo a vida inutil presa a terra Com toda a força d’alma,--agora em ancias Sentia o halito vital fugir-lhe, E a terra abandonal-o.

Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!... Só não chorava, que do pranto a fonte Jazia extincta; mas pensava triste: --Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo Do extremo agonisar.

E a mente, já medrosa, em feio quadro Lhe pintava os seos feitos;--a vingança, Que tão grande prazer lhe tinha sido, Ora em martyrios se tomava; a chusma Dos homicidios seus crescia torva, E no leito o cercava.

Crença infantil! dizia; loucos, cegos Prejuizos do vulgo;--e assim dizendo Os vãos phantasmas repellir buscava. Mas a crença infantil, os prejuizos Do nescio vulgo, rispidos tornavão, Como insecto importuno.

Debalde por não ver cerrava os olhos, Sobre os olhos debalde as mãos crusava, Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão, E mais distinctas se pintavão n’alma --Tão bem molesta, qual se pinta o corpo Do espelho no polido.

E do seo passamento o caso infando Narrava uma após outra, sobre o peito Mostrando o golpe funebre e cruento; Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo Parecia sorrir!... era qual louco Que soffre e um riso finge.

E das visões indo a fugir se arroja De sobre o leito delirante; as sombras Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão. O moribundo a esta, a aquella, a todas Volvo o pavido rosto, no mover-se Progressivo, incessante.

E preso ao duro embate da vertigem. As mestas sombras ao redor com elle Fugir sentia; o pavimento, a casa Rapido rodava; a terra e tudo, Como aos soluços d’um vulcão tremendo, As forças lhe tolhião.

E o orgulhoso que feliz vivera, Movendo a seo bom grado mil escravos, Querendo a terra dominar co’um gesto; Ora mesquinho, solitario e louco, Face a face lutando com seos crimes, Morria impenitente.

* * * * *

IV.

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Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a apparente quietação dos sepulchros. O PRESBYTERO.

O negrume da noite avulta; e cresce Mais feia a escuridão Á luz da sacra pyra que derrama Frouxo e tibio clarão.

Calou-se o canto, a prece,--é mudo o templo; Apenas fraco sôa Da torre o bronze, que a nocturna brisa De rumores povôa.

Mas eis que de um sepulchro a pedra fria S’ergue e sobre outras cáe. Não se escuta rumor!--da campa livre Medroso espectro sáe.

O rosto ossificado em torno volve, Volve a suja caveira; Do liso craneo os longos dedos varrem A funebre poeira.

Mas inda inteiro o coração se via Do peito nas cavernas, Inda sangrento lagrimas chorava De negro sangue eternas.

E caminhando, qual se move a sombra, Ao orgão e assentou! Já não dormem os sons, não dormem echos... --O triste assim cantou:

«Onde estás, meo amor, meos encantos Por quem só me pezava morrer, Doce encanto que a vida me prendes, Que inda em morto me fazes soffrer?

«Doce amor, minha vida no mundo, Desse mundo em que parte serás; Em que scismas, que pensas, que fazes, Onde estás, meo amor, onde estás?

«Ah! debalde na campa gelada Fria morte me poude deitar! Foi debalde,--que eu sinto, que eu ardo; Foi debalde, que eu amo a penar.

«Ah! si eu triste no mundo podesse Como outr’ora viver, respirar.... Não soubera dizer-te os ardores Que o sepulchro não poude apagar.

«Onde estás?--Já da morte o bafejo Por teo rosto divino roçou; Já na campa descanças finada, Que o teo corpo sem vida tragou?

«Mas a morte não poude impiedosa Crua foice vibrar contra ti! Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro Crús ardores quaes sempre soffri.

«E eu não posso o teo nome á noitinha Entre as folhas saudoso cantar, Nem seguir-te nas azas da brisa, Nem teo somno de sonhos doirar.

«Nem lembrar-te os queridos instantes Que a teo lado arroubado passei, Sem cuidados de incerto futuro, Só cuidoso da vida que amei.

«Não te lembras da noite homicida Em que um ferro meo peito varou, Quando a facil conversa de amores Teo marido cioso quebrou?!

«Desde então hei penado sósinho, Verte sangue meo peito--de então; Poude a morte acabar-me a existencia, Mas delir-me não poude a paixão!

«Nosso adultero affecto no mundo Não se acaba;--assim quiz o Senhor! Não se acaba...--qu’importa?--hei gozado Teos encantos gentis, teo amor.

«Por te amar outras fragoas soffrera, Outros transes e dôr e penar; Oh! poder que eu podesse outra vida E outro inferno soffrer por te amar!»

Mas da aurora ja raiava Macio e brando clarão; Macia e branda a canção Do negro espectro soava.

E medroso se collava Ao orgão seo negro véo, Que imiga não se ajuntava Ao seo vulto a luz do céo.

Pouco a pouco se perdia O negro espectro; a canção Pouco a pouco enfraquecia: Do dia ao tenue clarão,

Era o cantar um soído Fraco, incerto e duvidoso; Era o vulto pavoroso D’uma sombra vão tremido.

* * * * *

V.

A MORTE.

Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle. FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo O grato e bello clarão; Eu sonhava! já mais brandos Erão meos sonhos então.

Condensou-se o ar n’um ponto, Cresceo o subtil vapor; Vi formada uma belleza, Cheia de encantos, de amor.

Mas na candura do rosto Não se pintava o carmim; Tinha um quê de cera juncto Á nitidez do marfim.

--Quem es tu, visão celeste, Bello Archanjo do Senhor? Respondeo-me:--Sou a Morte, Cru phantasma de terror!

--Ah! lhe tornei: Es a morte, Tão formosa e tão cruel! --Correndo o mundo sósinha No meo pallido corsel,[3]--

Assim dizia--«Tu julgas Que não tenho coração, Que executo os meos deveres Sem pesar, sem afflicção?

--Que inda em flôr da vida arranco Ao joven, sem compaixão, Á donzella pudibunda Ou ao longévo ancião?

--Oh! não, que eu soffro martyrios Do que faço aos mais soffrer, Soffro dôr de que outros morrem, De que eu não posso morrer;

--Mas em parte a dôr me cura Um pensamento, que é meo,-- Lembro aos humanos que a terra É só passagem pr’a o céo.

--Faço ao triste erguer os olhos Para a celeste mansão; Em labios que nunca orárão Derramo pia oração.

--É meo poder quem apura Os vicios que a mente encerra, Ao fogo da minha dôr; Sou quem prendo aos céos a terra, Sou quem prendo aos céos a terra, Ao ser do seo Creador.

--Mas qu’importa? Sem descanço É-me forçoso marchar, Abater impías frontes, Regias frontes decepar.

--Passar ao travez dos homens Como um vento abrasador; Como entre o feno maduro A foice do segador.

--E prostrar uma após outra Geração e geração, Como peste que só reina Em meio da solidão.»--

Desponta o sol radioso Entre nuvens de carmim; Cessa o canto pesaroso, Como corda aurea de Lyra; Que se parte, que suspira Dando um gemido sem fim.

* * * * *

O VATE.

NO ALBUM DE UM POETA.

Moi ... j’aimerai ta victoire; Pour mon coeur, ami de toute gloire, Les triomphes d’autrui ne sont pas un affront. Poète, j’eus toujours un chant pour les poètes, Et jamais le laurier qui pare d’autres têtes Ne jeta d’ombre sur mon front. V. HUGO.

Vate! vate! que es tu?--Nos seos extremos Fadou-te Deos um coração de amores, Fadou-te uma alma accesa borbulhando Hardidos pensamentos, como a lava Que o gigante Vesuvio arroja ás nuvens.

Vate! vate! que es tu?--Foste no principio Sacerdote e propheta; Erão nos céos teos cantos uma prece, Na terra um vaticinio. E elle cantava então:--Jehovah me disse, Magestoso e terrivel.

«Vês tu Jerusalém como orgulhosa «Campêa entre as nações, como no Libano «Um cedro a cuja sombra a hyssope cresce? «Breve a minha ira transformada em raios «Sobre ella cahirá; «Um fero vencedor dentro em seos muros «Tributaria a fará; «E quando escravos seos filhos, sobre pedra «Pedra não ficará.»

E os reprobos de sacco se vestião; Em pó, em cinza involtos; E collando co’a terra os torpes labios, E açoitando co’as mãos o peito imbelle, Senhor! Senhor!--clamavão.

E o vate emtanto o pallido semblante Meditabundo sobre as mãos firmava, Supplicando ao Senhor do interno d’alma.

Forão sanctos então.--Homero o mundo Creou segunda vez,--o inferno o Dante,-- Milton o paraiso,--forão grandes!

E hoje!... em nosso exilio erramos tristes, Mimosa esp’rança ao infeliz legando, Maldizendo a soberba, o crime, os vicios; E o infeliz se consola, e o grande treme. Damos ao infante aqui do pão que temos, E o manto além ao misero rachitico; Somos hoje Christãos.

* * * * *

Á MORTE PREMATURA DA ILL^{ma} S^{ra} D.....

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes Mesure plus de maux. LAMARTINE.

Perfeita formosura em tenra idade Qual flôr, que anticipada foi colhida, Murchada está da mão da sorte dura. CAMÕES, _Soneto_.

Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena, Gozando a viração das frescas auras, Que do Brazil os bosques brandamente Fazião balançar,--e que espalhavão No ether encantado odor, pureza-- Do que a rosa mais bella,--meiga e casta, Como as virgens do sol, Que de vezes não foi ella pendente Dos braços fraternaes em meigo abraço; Como mimosa flôr presa, enlaçada A tenro arbusto que a vergontea debil Lhe ampara docemente!...

E o Irmão que só n’ella se revia, O Irmão que a adorava, qual se adora Um mimo do Senhor; Que a tinha por pharol, conforto e guia, Os seos dias contava por encantos; E as virtudes co’os dias pleiteavão.

E ella morreo no viço de seos annos!... E a lagem fria e muda dos sepulchros Se fechou sobre o ente esmorecido Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças!...

Campa! campa! que de terror incutes! Quanto esse teo silencio me horrorisa! E quanto se assemelha a tua calma A do cruel malvado que impassivel Contempla a sua victima torcer-se Em convulsões horriveis, desesp’radas; Crúas vascas da morte!... Quem tão má te creou? Tu que tragas o ente que esmorece Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças?!

O pharol se apagou! a luz sumio-se! Como o fugaz clarão do meteóro, Extinguio-se a esperança;--e o mal-fadado Sobre a terra deserta em vão procura Traços d’essa que amou, que tanto o amára; Da joven companheira de seos brincos, Pezares e alegrias. Elle a procura!... o viajor pasmado Nos campos de Pompéia, alonga a vista Pela amplidão do praino, Destroços e ruinas encontrando, Onde esperava movimento e vida.

Não poder eu a troco de meu sangue Poupar-te dessas lagrimas metade! Oh! poder que eu podesse!--e almo sorriso, Que tanto me compraz ver-te nos labios, Inda uma vez brilhasse! E essa existencia, Que tão cara me é, t’a visse eu leda, E feliz como a vida dos Archanjos! Infeliz é quem chora: ella finou-se, Porque os anjos á terra não pertencem; Mas lá dos immortaes sobre os teos dias A suspirada irmã vela incessante.

Vinde, candidas rosas, açucenas, Vinde, roxas saudades; Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas, Que hão de a campa adornar por mim depostas Em holocausto á victima da morte. Innocencia, pudor, belleza e graça Com ella n’essa campa adormecêrão. Anjo no coração, anjo no rosto, Devera o amor chorar sobre o teo seio, Que não grinaldas funebres tecer-te; Devera voz d’esposo acalentar-te O somno da innocencia,--não grosseira Canção de trovador não conhecido.

COIMBRA, Junho de 1841.

* * * * *

A MENDIGA.

Donnez:-- Et quand vous paraîtrez devant le juge austère, Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre, Je puis la demander aux cieux! TURQUETY.

I.

Eu sonhei durante a noite... Que triste foi meo sonhar! Era uma noite medonha, Sem estrellas, sem luar.

E ao travez do manto escuro Das trevas, meos olhos vião Triste mendiga formosa, Qu’infortunios consumião.

Era uma pobre mendiga, Porém candida donzella; Pudibunda, affavel, doce, Amorosa, e casta, e bella.

Vestia rotos andrajos, Que o seo corpo mal cubrião; Por vergonha os olhos d’ella Sobre ella se não volvião.

Pelas costas descobertas Cortador o frio entrava; Tinha fome e sede,--e o pranto Nos seus olhos borbulhava.

E qual vemos dos céos descendo rapido Um fugaz meteóro, vi descendo Um anjo do Senhor;--parou sobre ella, E mudo a contemplava.--Uma tristeza Sympathica, indizivel pouco e pouco Do anjo nas feições se foi pintando: Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova Conhece enferma e chóra.--Ella no peito Menor sentiu a dôr, e humilde orava.

II.

De um vasto edificio nas frias escadas Eu vi-a sentada;--era um templo, dizião Secreto concilio de socios piedosos, Que o bem tinha juntos, que bem só fazião.

Defronte um palacio soberbo se erguia, E d’elle partia confuso rumor: --A dança girava, e a orchestra sonora Cantava alegria, prazeres e amor.

E quando ao palacio um conviva chegava, Rugindo-se abria o ruidoso portão; Effluvios de incenso nos ares corrião Da rua esteirada com vivo clarão.

E a triste mendiga alli ’stava ao relento, Com fome, com frio, com sede e com dôr; E eu vi o seo anjo, mais triste no aspecto, Mais baço, mais turvo da gloria o fulgor.

E á porta do vasto sombrio edificio Um vulto chegou. --Senhor, uma esmola!--bradou-lhe a mendiga: E o vulto parou.

E rude no accento, no aspecto severo, Lhe disse:--O teo nome?-- Tornou-lhe a mendiga:--Senhor, uma esmola, Que eu morro de fome.

--Não dizes teo nome?--lhe torna o soberbo. --Sou orphã, sosinha; Meo nome qu’importa, se eu soffro, se eu gemo, Se eu chóro mesquinha!

Em vís meretrises não cabe esse orgulho, Tornou-lhe o Senhor, Que á noite, nas trevas, contractão no crime, Vendendo o pudor.

E a porta do templo--erguido á piedade Com força batia; Co’o peso do insulto accrescido a crueza A triste gemia.

III.

Ouvi depois um rodar que a todo o instante Mais distincto se ouvia; e logo um forte, Fascinador clarão por toda a rua Se derramou soberbo.--Infindos pagens Ricas librés trajando, mil archotes Nos ares revolvião;--fortes, rapidos, Fumegantes corseis, sorvendo a terra, Tiravão rica sege melindrosa. Sobre a terra saltou airosa e bella A dona, em frente do festivo paço; E a mendiga bradou:--Senhora minha, Dai uma esmola, dai!--Á voz dorida Volveo-se o rosto d’anjo, porém d’anjo Não era o coração;--foi-lhe importuno, Mais que importuno ... da mesquinha o grito! E da mendiga o protector celeste Parecia fallar em favor d’ella; E a rica dona o escutava, como Se ouvisse a interna voz que dentro mora. E eu dizia tambem:--Ó bella Dona, Dai-lhe uma esmola, dai;--de que vos serve Um óbolo mesquinho, que não póde Siquer um diche sem valor comprar-vos? Ah! bella como sois, que vos importão Custosas flôres, com que ornais a fronte? Para a salvar do vortice do crime, O preço d’ellas, de uma só, da coisa, Que sem valor julgardes, é bastante. Sabeis?--Além da vida, além da morte, Quando deixardes o oiropel na campa, Quando subirdes do Senhor ao throno, Sem andrajos siquer, tambem mendiga, Alli tereis as lagrimas do pobre, A benção do affligido, a prece ardente Do que soffrendo vos bemdice,--ó Dona... ........................................ Fechou-se a porta festival sobre ella! E a donzella se ergueo, córou de pejo, Lançando os olhos pela rua escusa, E segura no andar, e firma, á porta Do palacio bateo--entrou--sumio-se.

E o anjo, como afflicto sob um peso, Um gemido soltou; era uma nota Melancolica e triste,--era um suspiro Mavioso de virgem,--um soído Subtil, mimoso, como d’Harpa Eolia, Que a brisa da manhã roçou medrosa.

IV.

Dos muros ao travez meos olhos virão Soberba roda de convivas,--todos Velludos, sedas, e custosas galas Trajavão senhoris.--Reinava o jogo Aváro e grave, leda e viva a dança Em vortices girava, a orchestra doce Cantava occulta; condensados, bastos, Em redor do banquete estavão muitos. A mendiga alli estava,--não trajando Sujos farrapos, mas delgadas telas. Chovião brindes e canções e vivas Á Deosa airosa do banquete; todos Um volver dos seos olhos, um sorriso, Uma voz de ternura, um mimo, um gesto Cubiçavão rivaes;--e alli com ella, Como um raio do sol por entre as nuvens Lá na quadra hibernal penetra a custo Quasi sem vida, sem calor, sem força, Menos brilhante vi seo anjo bello. Nos curtos labios da feliz mendiga Passava rapido um sorriso ás vezes; Outras chorava, no volver do rosto, Na taça do prazer sorvendo o pranto. Encontradas paixões sentia o anjo: Parecia chorar co’o seo sorriso, Parecia sorrir co’o choro della.

* * * * *

A ESCRAVA.

O bien qu’aucun bien ne peut rendre, Patrie, doux nom que l’exil fait comprendre! MARINO FALIERO.