Cantos

Part 2

Chapter 23,423 wordsPublic domain

Desalento 387

A queda de Satanaz 390

Canção da Bug-Jargal 392

Agar no deserto 394

HYMNO.

O meo Sepulchro 404

Saudades á minha Irmã 410

Notas 417

PRIMEIROS CANTOS.

POESIAS AMERICANAS.

Les infortunes d’un obscur habitant des bois auraient-elles moins de droits à nos pleurs que celles des autres hommes? CHATEAUBRIAND.

* * * * *

CANÇÃO DO EXILIO.

Kennst du das Land, wo die Citronen blühn, Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn? Kennst Du es wohl?--Dahin, dahin! Möcht’ ich ... ziehn. GOETHE.

Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorgeião, Não gorgeião como lá.

Nosso céo tem mais estrellas, Nossas varzeas tem mais flores, Nossos bosques tem mais vida, Nossa vida mais amores.

Em scismar, sósinho, á noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores, Que taes não encontro eu cá; Em scismar--sósinho, á noite-- Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Não permitta Deos que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfructe os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.

COIMBRA--Julho 1843.

* * * * *

O CANTO DO GUERREIRO.

I.

Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não gerão escravos, Que estimem a vida Sem guerra e lidar. --Ouvi-me, Guerreiros, --Ouvi meo cantar.

II.

Valente na guerra Quem ha, como eu sou? Quem vibra o tacápe Com mais valentia? Quem golpes daria Fataes, como eu dou? --Guerreiros, ouvi-me; --Quem ha, como eu sou?

III.

Quem guia nos ares A frexa implumada, Ferindo uma preza, Com tanta certeza, Na altura arrojada Onde eu a mandar? --Guerreiros, ouvi-me, --Ouvi meo cantar.

IV.

Quem tantos imigos Em guerras preou? Quem canta seos feitos Com mais energia? Quem golpes daria Fataes, como eu dou? --Guerreiros, ouvi-me: --Quem ha, como eu sou?

V.

Na caça ou na lide, Quem ha que me affronte?! A onça raivosa Meos passos conhece, O imigo estremece, E a ave medrosa Se esconde no céo. --Quem ha mais valente, --Mais dextro do que eu?

VI.

Se as matas estrujo Co’os sons do Boré, Mil arcos se encurvão, Mil setas lá vôão, Mil gritos rebôão, Mil homens de pé Eis surgem, respondem Aos sons do Boré! --Quem é mais valente, --Mais forte quem é?

VII.

Lá vão pelas matas; Não fazem ruido: O vento gemendo E as matas tremendo E o triste carpido D’uma ave a cantar, São elles--guerreiros, Que faço avançar.

VIII.

E o Piaga se ruge No seo Maracá, A morte lá paira Nos ares frexados, Os campos juncados De mortos são já: Mil homens viverão, Mil homens são lá.

IX.

E então se de novo Eu tóco o Boré; Qual fonte que salta De rocha empinada, Que vai marulhosa, Fremente e queixosa, Que a raiva apagada De todo não é, Tal elles se escôão Aos sons do Boré. --Guerreiros, dizei-me, --Tão forte quem é?

* * * * *

O CANTO DO PIAGA.

I.

Ó Guerreiros da Taba sagrada, Ó Guerreiros da tribu Tupi, Fallão Deoses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meos cantos ouvi.

Esta noite--era a lua já morta-- Anhangá me vedava sonhar; Eis na horrivel caverna, que habito, Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso, Manitôs! que prodigios que vi! Arde o páo de resina fumosa, Não fui eu, não fui eu, que o accendi!

Eis rebenta a meos pés um phantasma, Um phantasma d’immensa extensão; Liso craneo repousa a meo lado, Feia cóbra se enrosca no chão.

O meo sangue gelou-se nas veias, Todo inteiro--ossos, carnes--tremi, Frio horror me côou pelos membros, Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo, Ó Guerreiros, o espectro que eu vi. Fallão Deoses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meos cantos ouvi!

II.

Porque dormes, ó Piaga divino? Começou-me a Visão a fallar, Porque dormes? O sacro instrumento De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céos um negrume Toda a face do sol offuscar; Não ouviste a coruja, de dia, Seus estridulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma Sem aragem--vergar-se e gemer, Nem a lua de fogo entre nuvens, Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino! E Anhangá te prohibe sonhar! E tu dormes, ó Piaga, e não sabes, E não pódes augurios cantar?!

Ouve o annuncio do horrendo phantasma, Ouve os sons do fiel Maracá; Manitôs já fugirão da Taba! Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!

III.

Pelas ondas do mar sem limites Basta selva, sem folhas, hi vem; Hartos troncos, robustos, gigantes; Vossas matas taes monstros contêm.

Trás embira dos cimos pendente --Brenha espessa de vario cipó-- Dessas brenhas contêm vossas matas, Taes e quaes, mas com folhas; é só!

Negro monstro os sustenta por baixo, Brancas azas abrindo ao tufão, Como um bando de candidas garças, Que nos ares pairando--lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das aguas, O marinho arcabouço arrancar? Nossas terras demanda, fareja... Esse monstro...--o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem, o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade-- Dons crueis do cruel Anhangá; Vem quebrar-vos a maça valente, Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas, Com que a tribu Tupi vai gemer; Hão de os velhos servirem de escravos, Mesmo o Piaga inda escravo ha de ser!

Fugireis procurando um asilo, Triste asilo por invio sertão; Anhangá de prazer ha de rir-se, Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deoses, ó Piaga, conjura, Susta as iras do fero Anhangá. Manitôs já fugirão da Taba, Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!

* * * * *

O CANTO DO INDIO.

Quando o sol vae dentro d’agoa Seos ardores sepultar, Quando os passaros nos bosques Principião a trinar;

Eu a vi, que se banhava.... Era bella, ó Deoses, bella, Como a fonte cristallina, Como luz de meiga estrella.

Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa, Porque eu te visse assim, como te via, Calcára agros espinhos sem queixar-me, Que antes me dera por feliz de ver-te.

O tacápe fatal em terra estranha Sobre mim sem temor veria erguido; Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto Nas agoas, como a lua, retratado.

Eis que os seos loiros cabellos Pelas agoas se espalhavão, Pelas agoas, que de vel-os Tão loiros se enamoravão.

Ella erguia o collo eburneo, Porque melhor os colhesse; Niveo collo, quem te visse, Que de amores não morresse!

Passára a vida inteira a contemplar-te, Ó Virgem, loira Virgem tão formosa, Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto, Sem que o som do Boré que incita á guerra Me infiltrasse o valor que m’has roubado, Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.

As vezes, quando um sorriso Os labios seos entreabria, Era bella, oh! mais que a aurora Quando a raiar principia.

Outra vez--d’entre os seos labios Uma voz se desprendia; Terna voz, cheia de encantos, Que eu entender não podia.

Que importa? Esse fallar deixou-me n’alma Sentir d’amores tão sereno e fundo, Que a vida me prendeo, vontade e força. Ah! que não queiras tu viver commigo, Ó Virgem dos Christãos, Virgem formosa!

Sobre a areia, já mais tarde, Ella surgio toda núa; Onde ha, ó Virgem, na terra Formosura como a tua?

Bem como gotas de orvalho Nas folhas de flôr mimosa, Do seo corpo a onda em fios Se deslizava amorosa.

Ah! que não queiras tu vir ser rainha Aqui dos meos irmãos, qual sou rei delles! Escuta, ó Virgem dos Christãos formosa. Odeio tanto aos teos, como te adóro; Mas queiras tu ser minha, que eu prometto Vencer por teo amor meo odio antigo, Trocar a maça do poder por ferros E ser, por te gozar, escravo delles.

* * * * *

CACHIAS.

Quanto es bella, ó Cachias!--no deserto, Entre montanhas, derramada em valle De flores perennaes, Es qual tenue vapor que a brisa espalha No frescor da manhã meiga soprando Á flor de manso lago.

Tu es a flor que despontaste livre Por entre os troncos de robustos cédros, Forte--em gleba inculta; Es qual gazella, que o deserto educa, No ardor da sésta debruçada exangue Á margem da corrente.

Em molle seda as graças não escondes, Não cinges d’oiro a fronte que descanças Na base da montanha;

Es bella como a virgem das florestas, Que no espelho das aguas se contempla, Firmada em tronco annoso.

Mas dia inda virá, em que te pejes Dos, que ora trajas, simplices ornatos E amavel desalinho: Da pompa e luxo amiga, hão de cahir-te Aos pés então--da poesia a c’roa E da innocencia o cinto.

* * * * *

DEPRECAÇÃO.

Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto Com denso velamen de pennas gentis; E jazem teos filhos clamando vingança Dos bens que lhes déste da perda infeliz!

Tupan, ó Deos grande! teo rosto descobre: Bastante soffremos com tua vingança! Já lagrimas tristes chorárão teos filhos, Teos filhos que chórão tão grande mudança.

Anhangá impiedoso nos trouxe de longe Os homens que o raio manejão cruentos, Que vivem sem patria, que vagão sem tino Tras do ouro correndo, voraces, sedentos.

E a terra em que pisão, e os campos e os rios Que assaltão, são nossos; tu es nosso Deos: Por que lhes concedes tão alta pujança, Se os raios de morte, que vibrão, são teos?

Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto Com denso velamen de pennas gentis; E jazem teos filhos clamando vingança Dos bens que lhes déste da perda infeliz.

Teos filhos valentes, temidos na guerra, No albor da manhã quão fortes que os vi! A morte pousava nas plumas da frexa, No gume da maça, no arco Tupi!

E hoje em que apenas a enchente do rio Cem vezes hei visto crescer e baixar... Já restão bem poucos dos teos, qu’inda possão Dos seos, que já dormem, os ossos levar.

Teos filhos valentes causavão terror, Teos filhos enchião as bordas do mar, As ondas coalhavão de estreitas igáras, De frexas cobrindo os espaços do ar.

Já hoje não cáção nas matas frondosas A corça ligeira, o trombudo coati... A morte pousava nas plumas da frexa, No gume da maça, no arco Tupi!

O Piaga nos disse que breve seria, A que nos infliges cruel punição; E os teos inda vagão por serras, por valles, Buscando um asilo por invio sertão!

Tupan, ó Deos grande! descobre o teo rosto: Bastante soffremos com tua vingança! Já lagrimas tristes chorárão teos filhos, Teos filhos que chórão tão grande tardança.

Descobre o teo rosto, resurjão os bravos, Que eu vi combatendo no albor da manhã; Conheção-te os feros, confessem vencidos Que es grande e te vingas, qu’es Deos, ó Tupan!

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POESIAS DIVERSAS.

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A LEVIANA.

Souvent femme varie, Bien fol est qui s’y fie. FRANCISCO I.

Es engraçada e formosa Como a rosa, Como a rosa em mez d’Abril; Es como a nuvem doirada Deslisada, Deslisada em céos d’anil.

Tu es vária e melindrosa, Qual formosa Borboleta n’um jardim, Que as flores todas afaga, E divaga Em devaneio sem fim.

Es pura, como uma estrella Doce e bella, Que treme incerta no mar; Mostras nos olhos tua alma Terna e calma, Como a luz d’almo luar.

Tuas formas tão donosas, Tão airosas, Formas da terra não são; Pareces anjo formoso, Vaporoso, Vindo da etherea mansão.

Assim, beijar-te receio, Contra o seio Eu tremo de te apertar; Pois me parece que um beijo É sobejo Para o teo corpo quebrar.

Mas não digas que es so minha! Passa azinha A vida, como a ventura, Que te não vejão brincando, E folgando Sobre a minha sepultura.

Tal os sepulcros colora Bella aurora De fulgores radiante; Tal a vaga maripôsa Brinca e pousa D’um cadaver no semblante.

* * * * *

A MINHA MUSA.

Gratia, Musa, tibi; nam tu solatia praebes. OVIDIO.

Minha Musa não é como nympha Que se eleva das agoas--gentil-- Co’um sorriso nos labios mimosos, Com requebros, com ar senhoril.

Nem lhe pouza nas faces redondas Dos fagueiros anhelos a cor; N’esta terra não tem uma esp’rança, N’esta terra não tem um amor.

Como fada de meigos encantos, Não habita um palacio encantado, Quer em meio de matas sombrias, Quer á beira do mar levantado.

Não tem ella uma senda florida, De perfumes, de flores bem cheia, Onde vague com passos incertos, Quando o céo de luzeiros se arreia.

* * * * *

Não é como a de Horacio a minha Musa; Nos soberbos alpendres dos Senhores Não é que ella reside; Ao banquete do grande em lauta mesa, Onde gira o falerno em taças d’oiro, Não é que ella preside.

Ella ama a solidão, ama o silencio, Ama o prado florido, a selva umbrosa E da rola o carpir. Ella ama a viração da tarde amena, O susurro das agoas, os accentos De profundo sentir.

D’Anacreonte o genio prazenteiro, Que de flores cingia a fronte calva Em brilhante festim, Tomando inspirações á doce amada, Que leda lh’enflorava a eburnea lyra; De que me serve, a mim?

Canções que a turba nutre, inspira, exalta Nas cordas magoadas me não pousão Da lyra de marfim. Correm meos dias, lacrimosos, tristes, Como a noite que estende as negras azas Por céo negro e sem fim.

É triste a minha Musa, como é triste O sincero verter d’amargo pranto D’orfã singela; É triste como o som que a brisa espalha, Que cicia nas folhas do arvoredo Por noite bella.

É triste como o som que o sino ao longe Vai perder na extensão d’ameno prado Da tarde no cahir, Quando nasce o silencio involto em trevas, Quando os astros derramão sobre a terra Merencorio luzir.

Ella então, sem destino, erra por valles, Erra por altos montes, onde a enchada Fundo e fundo cavou; E pára; perto, jovial pastora Cantando passa--e ella scisma ainda Depois que esta passou.

Alem--da chóça humilde s’ergue o fumo Que em risonha spiral se eleva ás nuvens Da noite entre os vapores; Muge solto o rebanho; e lento o passo, Cantando em voz sonora, porém baixa, Vêm andando os pastores.

Outras vezes tambem, no cemiterio, Incerta volve o passo, soletrando Recordações da vida; Roça o negro cipreste, calca o musgo, Que o tempo fez brotar por entre as fendas Da pedra carcomida.

Então corre o meo pranto muito e muito Sobre as humidas cordas da minha Harpa, Que não resôão; Não chóro os mortos, não; chóro os meos dias, Tão sentidos, tão longos, tão amargos, Que em vão se escôão.

Nesse pobre cemiterio Quem já me dera um logar! Esta vida mal vivida Quem já m’a dera acabar!

Tenho inveja ao pegureiro, Da pastora invejo a vida, Invejo o somno dos mortos Sob a lage carcomida.

Se qual pegão tormentoso, O sopro da desventura Vae bater potente á porta De sumida sepultura;

Uma voz não lhe responde, Não lhe responde um gemido, Não lhe responde uma prece, Um ai--do peito sentido.

Já não têm voz com que fallem, Já não têm que padecer; No passar da vida á morte Foi seo extremo soffrer.

Que lh’importa a desventura? Ella passou, qual gemido Da brisa em meio da mata De verde alecrim florido.

Quem me dera ser como elles! Quem me dera descansar! Nesse pobre cemiterio Quem me dera o meo logar, E co’os sons das Harpas d’anjos Da minha Harpa os sons casar!

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DESEJO.

E poi morir. METASTASIO.

Ah! que eu não morra sem provar, ao menos Siquer por um instante, nesta vida Amor igual ao meo! Dá, Senhor Deos, que eu sobre a terra encontre Um anjo, uma mulher, uma obra tua, Que sinta o meo sentir; Uma alma que me entenda, irmã da minha, Que escute o meo silencio, que me siga Dos ares na amplidão! Que em laço estreito unidas, juntas, presas, Deixando a terra e o lodo, aos céos remontem N’um extasis de amor!

* * * * *

SEOS OLHOS.

Oh! rouvre tes grande yeux dont la paupière tremble, Tes yeux pleins de langueur; Leur regard est si beau quand nous sommes ensemble! Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble Que tu fermes ton coeur. TURQUETY.

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, De vivo luzir, Estrellas incertas, que as agoas dormentes Do mar vão ferir;

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Tem meiga expressão, Mais doce que a briza,--mais doce que o nauta De noite cantando,--mais doce que a frauta Quebrando a soidão,

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, De vivo luzir, São meigos infantes, gentis, engraçados Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando Em jogo infantil, Inquietos, travêssos;--causando tormento, Com beijos nos págão a dôr de um momento, Com modo gentil.

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Assim é que são; A vezes luzindo, serenos, tranquillos, As vezes vulcão!

As vezes, oh! sim, derramão tão fraco, Tão frouxo brilhar, Que a mim me parece que o ar lhes fallece, E os olhos tão meigos, que o pranto humedece, Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquillo, Desperta a chorar; E mudo e sisudo, scismando mil coisas, Não pensa--a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante, As vezes do céo Cae doce harmonia d’uma Harpa celeste, Um vago desejo; e a mente se véste De pranto co’um véo.

Quer sejão saudades, quer sejão desejos Da patria melhor; Eu amo seos olhos que chórão sem causa Um pranto sem dôr.

Eu amo seos olhos tão negros, tão puros, De vivo fulgor; Seos olhos que exprimem tão doce harmonia, Que fallão de amores com tanta poesia, Com tanto pudor.

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Assim é que são; Eu amo essos olhos que fallão de amores Com tanta paixão.

* * * * *

INNOCENCIA.

Sans nommer le nom qu’il faut bénir et taire. S. BEUVE.

Ó meo anjo, vem correndo, Vem tremendo Lançar-te nos braços meos; Vem depressa, que a lembrança Da tardança Me aviva os rigores teos.

Do teo rosto, qual marfim, De carmim Tinge um nada a côr mimosa; É bello o pudor, mas chóro, E deploro Que assim sejas tão medrosa.

Por innocente tens medo De tão cedo, De tão cedo ter amor; Mas sabe que a formosura Pouco dura, Pouco dura, como a flôr.

Corre a vida pressurosa, Como a rosa, Como a rosa na corrente. Amanhã terás amor? Como a flôr, Como a flôr fenece a gente.

Hoje ainda es tu donzella Pura e bella, Cheia de meigo pudor; Amanhã menos ardente De repente Talvez sintas meo amor.

* * * * *

PEDIDO.

Hontem no baile Não me attendias! Não me attendias, Quando eu fallava.

De mim bem longe Teo pensamento! Teo pensamento, Bem longe errava.

Eu vi teos olhos Sobre outros olhos! Sobre outros olhos, Que eu odiava.

Tu lhe sorriste Com tal sorriso! Com tal sorriso, Que apunhalava.

Tu lhe fallaste Com voz tão doce! Com voz tão doce, Que me matava.

Oh! não lhe falles, Não lhe sorrias, Se então só qu’rias Exp’rimentar-me.

Oh! não lhe falles, Não lhe sorrias, Não lhe sorrias, Que era matar-me.

* * * * *

O DESENGANO.

Já vigilias passei namorado, Doces horas d’insomnia passei, Já meos olhos, d’amor fascinado, Em vêr só meo amor empreguei.

Meo amor era puro, extremoso, Era amor que meo peito sentia, Erão lavas de um fogo teimoso, Erão notas de meiga harmonia.

Harmonia era ouvir sua voz, Era ver seo sorriso harmonia; E os seos modos e gestos e ditos Erão graças, perfume e magia.

* * * * *

E o que era o teo amor, que me embalava Mais do que meigos sons de meiga lyra? Um dia o decifrou--não mais que um dia-- Fingimento e mentira!

Tão bello o nosso amor!--foi só de um dia, Como uma flôr! Porque tão cedo o talisman quebraste Do nosso amor?

Porque n’um só instante assim partiste Essa annosa cadeia? De bom grado a soffreste! essa lembrança Inda hoje me recreia.

Quão insensato fui!--busquei firmeza, Qual em ondas de areia movediça, Na mulher,--não achei! E da esp’rança, que eu via tão donosa Sorrir dentro em minha alma, as longas azas Doido e nescio cortei!

E tu vás caprixosa proseguindo Essa esteira de amor, que julgas cheia De flôres bem gentis; Pódes ir, que os meos olhos te não vejão; Longe, longe de mim, mas que em minha alma Eu sinta qu’es feliz.

Pódes ir, que é desfeito o nosso laço, Pódes ir, que o teo nome nos meos labios Nunca mais soará! Sim, vai;--mas este amor que me atormenta, Que tão grato me foi, que me é tão duro, Commigo morrerá!

Tão bello o nosso amor!--foi só de um dia Como uma flôr! Oh! que bem cedo o talisman quebraste Do nosso amor!

* * * * *

MINHA VIDA E MEOS AMORES.

Mon Dieu, fais que je puisse aimer! S. BEUVE.

Quando, no albor da vida, fascinado Com tanta luz e brilho e pompa e gallas, Vi o mundo sorrir-me esperançoso: --Meo Deos, disse entre mim, oh! quanto é doce, Quanto é bella esta vida assim vivida!-- Agora, logo, aqui, além, notando Uma pedra, uma flôr, uma lindeza, Um seixo da corrente, uma conxinha A beiramar colhida!