Part 1
COLLECÇÃO DE AUTORES PORTUGUEZES.
Tomo I.
CANTOS.
COLLECÇÃO DE POESIAS
DE
A. GONÇALVES DIAS.
TERCEIRA EDICÇÃO. COM O RETRATO DO AUTOR.
LEIPZIG: F. A. BROCKHAUS. 1860.
AO SEO AMIGO o D^R. G. S. DE CAPANEMA
OFFERECE ESTA EDICÇÃO DOS SEOS CANTOS
O AUTOR.
SIRVA DE PROLOGO.
A collecção de poesias, que agora reimprimo, vae illustrada com algumas linhas de A. Herculano, a que devo a maior satisfação que tenho até hoje experimentado na minha vida litteraria.
Merecer a critica de A. Herculano, já eu consideraria como bastante honroso para mim; uma simples menção do meo primeiro volume, rubricada com o seo nome, desejava-o de certo; mas esperal-o, seria da minha parte demasiada vaidade.
Ora, em vez da critica inflexivel, que eu devera, mas não ousava receiar; em vez da simples noticia do apparecimento de um volume, que não seria de todo ruim, pois que teria merecido occupar a sua attenção; o illustre escriptor poz por alguns momentos de parte a severidade que tem direito de usar para com todos, quando é tão severo para comsigo mesmo,--e, benevolamente indulgente, dirigio me algumas linhas, que me fizerão comprehender quão alto eu reputava a sua gloria, na plenitude de contentamento, de que as suas palavras me deixarão possuido.
O escriptor conhecia-o eu ha muito, mas de nome e pelas suas obras: essas obras que todos nós temos lido, e esse nome que eu sempre ouvira pronunciar com admiração e respeito.
Se pois, n’aquella occasião, me fosse dado escolher auctor para esse artigo, não podia recahir em outro a minha escolha. Hoje, com mais razão. Tive ensejo de o conhecer pessoalmente, e a fortuna de encontrar nelle um d’aquelles poucos, d’alta intelligencia, que não perdem em serem admirados de perto, e cuja amizade se pode ambicionar como um thesouro: fortuna, digo, por que o é de certo, quando se admira o escripto, que se possa ao mesmo tempo estimar o escriptor; e ainda maior fortuna, quando queremos manifestar o nosso reconhecimento, que nos não remorda a consciencia, previnindo-nos, de que ainda quando digamos mais do que a verdade, ficaremos sempre aquem do que devemos.
Ahi vae o artigo tal qual o transcreveo e remetteo-me de Lisboa o meo bom amigo Gomes de Amorim.
Dresde 30 de Março de 1857.
FUTURO LITTERARIO DE PORTUGAL E DO BRAZIL.[1]
POR OCCASIÃO DA LEITURA DOS
PRIMEIROS CANTOS: POESIAS DO S^r A. GONÇALVES DIAS.
Bem como a infancia do homem a infancia das nações é vivida e esperançosa; bem como a velhice humana a velhice dellas é tediosa e melancholica. Separado da mãe patria, menos pela serie de acontecimentos inopinados, a que uma observação superficial lhe atribue a emancipação, do que pela ordem natural do progresso das sociedades, o Brazil, imperio vasto, rico, destinado pela sua situação, pelo favor da natureza, que lhe fadou a opulencia, a representar um grande papel na historia do novo mundo, é a nação infante que sorri: Portugal é o velho aborrido e triste, que se volve dolorosamente no seu leito de decrepidez; que se lamenta de que os raios do sol se tornassem frouxos, de que se encurtassem os horisontes da esperança, de que um crepe funebre vele a face da terra. Perguntae, porêm, ao povo infante, que cresce e se fortifica alem dos mares, que se atira ridente pelo caminho da vida, se é verdade isso que diz o ancião na tristeza do seu vegetar inerte, e que, encostado na borda do tumulto, deplora, pobre tonto, o mundo que vae morrer!
Em Portugal, os espiritos que o antigo poeta designou pelo epitheto de _bem nascidos_; aquelles que ainda tentam esquivar-se no sanctuario da sciencia ou da poesia ao pego da podridão dissolvente que os cerca, no meio dos seus generosos esforços chegam a illudir a Europa com essas aspirações do futuro, que tambem nelles não são mais do que uma illusão. As suas tentativas quasi fazem acreditar que para esta nação moribunda ainda resta uma esperança de regeneração; que nas veias varicosas deste corpo semi cadaver de novo se vae injectar sangue puro; que temos ainda algum destino a cumprir antes de nos amortalhar-mos no estandarte de D. João I. ou na bandeira de Vasco da Gama, e de irmos emfim repousar no cemiterio da historia. O desengano chega, porêm, em breve. O talento que forcejava por fugir do lethargo febril que nos consome, retrocede ao entrar no templo, e volve ao lodaçal onde agonisamos. É que a turba que ahi se debate, ou o apupa, ou lhe arroja adiante tropeços, ou o corrompe com dadivas e promessas; e fallando-lhe ás paixões más, ás ambições insensatas, lhe clama: vem refocilar-te no lodo. E, desanimado ou tentado, o talento despenha-se, e attufando-se no charco, acceita as lisonjas ou o oiro immundo, que lhe atiram, embriaga-se com os outros perdidos, e renega da missão sacrosanta, que se lhe destinára no ceu.
Que é feito de tantos engenhos que despontaram nesta nossa terra desde que a imprensa libertada chamou os que sentiam chamejar em si um espirito não vulgar ao convivio das intelligencias? Que é feito dessas tres ou quatro épochas em que, nos ultimos quinze annos, a mocidade parecia querer deixar inteiramente aos pequeninos homens grandes do paiz o agitarem-se, o morderem-se, o devorarem-se acerca dos graves interesses, das profundas questões das bolhas de sabão politicas? Que é feito dessa phalange ardente, ambiciosa de uma gloria pura, que principiava a exercitar-se nas lides do entendimento? De tudo isso; de toda essa mocidade brilhante e esperançosa que resta? Algum crente solitario, que deplora em silencio a queda de tantos archanjos. Os outros sacerdotes, apostatando da religião das lettras, attiraram-se á arena das facções, e manchados pela baba dos odios civis, cobertos da lama das praças, arroxeados e sangrentos pelas punhadas do pugilato politico, desbaratando em esforços estereis a seiva interior, la vão disputando no meio de homens, gastos como a effigie de velha moeda, sobre qual ha de ser a forma do ataúde, e como se talhará a mortalha, em que o cadaver de Portugal deve descer á sepultura. Que outra coisa, de feito, ha ahi sobre que se dispute ainda?
Por isso, quando vejo começar a surgir entre nós um novo poeta; quando oiço a primeira harmonia que sussurra nas cordas de lyra noviça, quizera poder chegar-me escondidamente ao descuidado e inexperiente cantor, e dizer-lhe ao ouvido: Cala-te, alma virgem e bella; cala-te, que estás n’um prostibulo! Olha que _elles_ não te ouçam! Se o teu hymno reboar por essas torpes alcovas, sabe que pouco tardará a hora de te prostituires.
O poeta portuguez d’hoje é a avezinha que enlevada nos seus gorgeios se balança depois do pôr do sol no ramo do ulmeiro pendente sobre o rio. As outras voaram para os seus ninhos, e ella deixou vir a noite, e ficou alli, triste, só, desconsolada, soltando a espaços um doloroso pio.
Poeta, n’esta terra é noite! Por que não te acolheste ao teu ninho? Agora o que te resta é morrer. Vae abrigar-te entre os orbes; vae derramar em canções a tua alma no seio immenso de Deos. Ahi é que sempre é dia.
Nós somos hoje o hilota embriagado, que se punha defronte da meza nas philitias de Sparta, para servir de licção de sobriedade aos mancebos. O Brazil é a moderna Sparta, de que Portugal é a moderna Helos.
Estas amarguradas cogitações surgiram-me na alma, com a leitura de um livro impresso o anno passado no Rio de Janeiro, e intitulado: _Primeiros Cantos: Poesias por A. Gonçalves Dias._ N’aquelle paiz de esperanças, cheio de viço e de vida, ha um ruido de lavor intimo, que sôa tristemente cá, n’esta terra onde tudo acaba. A mocidade, despregando o estandarte da civilisação, prepara-se para os seus graves destinos pela cultura das lettras; arroteia os campos da intelligencia; aspira as harmonias dessa natureza possante que a cerca; concentra n’um foco todos os raios vivificantes do formoso ceu, que a allumina; prova forças emfim para algum dia renovar pelas ideias a sociedade, quando passar a geração dos homens _praticos e positivos_, raça que lá deve predominar ainda; por que a sociedade brazileira, vergontea separada ha tão pouco da carcomida arvore portugueza, ainda necessariamente conserva uma parte do velho cepo. Possa o renovo dessa vergontea, transplantada da Europa para entre os tropicos, prosperar e viver uma bem longa vida, e não decahir tão cedo como nós decahimos!
É geralmente sabido que o jovem imperador do Brazil dedica todos os momentos que pode salvar das occupações materiaes de chefe do Estado ao culto das lettras. Mancebo, prende-se á mocidade, aos homens do futuro, por laços que de certo as revoluções não hão de quebrar; porque o progresso social não virá accomettel-o inopinadamente nas suas crenças e habitos. Quando a ideia se encarnar na realidade, o seu espirito como as outras intelligencias que o rodeiam, ter-se-ha alimentado della, e saudará como os seus mais alumiados subditos o pensamento progressivo. Não notaes n’estas tendencias do moço principe um symbolo do presente, e uma prophecia consoladora acerca do porvir do Brazil?
A imprensa na antiga America portugueza, balbuciante ha dois dias, já ultrapassa a imprensa da terra que foi metropole. Ás publicações periodicas, primeira expressão de uma cultura intellectual que se desinvolve, começam a associar-se as composições de mais alento--os livros. Ajuncte-se a este facto outro, o ser o Brazil o mercado principal do pouco que entre nós se imprime, e será facil conjecturar que no dominio das lettras, como em importancia e prosperidade, as nossas emancipadas colonias nos vão levando rapidamente de vencida.
Por si sós esses factos provariam antes a nossa decadencia, que o progresso litterario do Brazil. É um mancebo vigoroso que derriba um velho cachetico, demente e paralitico. O que completa, porêm, a prova é o exame não comparativo, mas absoluto, de algumas das modernas publicações brazileiras.
Os _Primeiros Cantos_ são um bello livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Sancta Cruz que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um illustre filho.
O auctor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escriptor ainda pouco amestrado pela experiencia: imperfeições de lingua, de metrificação, de estylo. Que importa? O tempo apagará essas maculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas paginas deste formoso livro.
Quizeramos que as _Poesias Americanas_ que são como o portico do edificio occupassem nelle maior espaço. Nos poetas transatlanticos ha por via de regra demasiadas reminiscencias da Europa. Esse Novo Mundo que deu tanta poesia a Saint-Pierre e a Chateaubriand é assaz rico para inspirar e nutrir os poetas que crescerem á sombra das suas selvas primitivas.
Como argumento disso, como exemplo da verdadeira poesia nacional do Brazil citarei aqui dous trechos das _Poesias Americanas_: o Canto do Guerreiro e um fragmento _Morro do Alecrim_.
(Aqui vem transcripta por inteiro a poesia intitulada «O canto do Guerreiro» (pag. 4) e as ultimas strophes do «Morro do Alecrim».)
Abstendo-me de outras citações, que occupariam demasiado espaço, não posso resistir a tentação de transcrever das _Poesias Diversas_ uma das mais mimosas composições lyricas, que tenho lido na minha vida.
(Aqui vem transcripta a poesia intitulada «Seos olhos». Veja-se pag. 19.)
Se estas poucas linhas, escriptas de abundancia de coração, passarem os mares, receba o auctor dos _Primeiros Cantos_ o testemunho sincero de sympathia, que a leitura do seu livro arrancou a um homem, que o não conhece, que provavelmente não o conhecerá nunca, e que não costuma nem dirigir aos outros elegios _encommendados_, nem pedil-os para si.
Lisboa (Ajuda) 30 de Novembro de 1847.
A. HERCULANO.
PRIMEIROS CANTOS.
PROLOGO DA PRIMEIRA EDICÇÃO.
Dei o nome de “_Primeiros Cantos_” ás poesias que agora publíco, porque espero que não serão as ultimas.
Muitas dellas não tem uniformidade nas strophes, porque menospreço regras de mera convenção; adoptei todos os rhythmos da metrificação portugueza, e usei delles como me parecérão quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não tem unidade de pensamento entre si, porque forão compostas em epochas diversas--debaixo de céo diverso--e sob a influencia de impressões momentaneas. Forão compostas nas margens viçosas do Mondego e nos pincaros ennegrecidos do Gerez--no Doiro e no Tejo--sobre as vagas do Atlantico, e nas florestas virgens da America. Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-hei, se agradarem; e se não ... é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena politica para lêr em minha alma, reduzindo á lingoagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéas que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano--o aspecto emfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento--o coração com o entendimento--a idéa com a paixão--colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia--a Poesia grande e sancta--a Poesia como eu a comprehendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço--ainda vão--para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Publico o julgará; tanto melhor se elle o despreza, porque o Auctor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.
Rio de Janeiro--Julho de 1846.
INDICE.
Pag. Sirva de Prologo vii
Futuro litterario de Portugal e do Brazil, artigo do Sr. A. Herculano ix
Prologo da primeira edicção dos Primeiros Cantos xv
PRIMEIROS CANTOS.
POESIAS AMERICANAS.
Canção do Exilio 3
O Canto do Guerreiro 4
O Canto do Piaga 7
O Canto do Indio 9
Cachias 11
Deprecação 12
POESIAS DIVERSAS.
A Leviana 14
A minha Musa 15
Desejo 19
Seos olhos 19
Innocencia 21
Pedido 22
O Desengano 23
Minha vida e meos amores 24
Recordação 27
Tristeza 28
O Trovador 30
Amor! delirio--engano 34
Delirio 37
Epicedio 39
Soffrimento 41
VISÕES.
I. Prodigio 43
II. A Cruz 44
III. Passamento 46
IV. ---- 50
V. A Morte 53
O Vate 55
A morte prematura da Ill^{ma} S^{ra} D..... 57
A Mendiga 59
A Escrava 63
Ao Dr. J. D. Lisboa Serra 66
O Desterro de um pobre velho 68
O Orgulhoso 71
O Cometa 72
O Oiro 73
A um Menino 74
O Pirata 77
A Villa Maldicta 81
Quadras da minha vida. Recordação e desejo 87
HYMNOS.
O Mar 95
Ideia de Deos 97
O romper d’alva 100
A tarde 103
O Templo 107
Te Deum 109
Adeos aos meos Amigos do Maranhão 110
SEGUNDOS CANTOS.
Consolação nas lagrimas 115
Canção 116
Lyra 117
Agora e sempre 118
A Virgem 119
Rosa no mar! 121
O Amor 123
Sempre ella 124
Mimosa e bella 126
As duas amigas 128
Sonho 130
Solidão 131
A um Poeta exilado 134
Palinodia 135
Os suspiros 139
Queixumes 141
Ao Anniversario de um casamento 145
Canto inaugural.--A memoria do Conego J. de C. Barbosa 146
Tabyra. Aos Pernambucanos 149
Tabyra (Poesia Americana) 150
A Lua 157
A Noite 160
A Tempestade 162
NOVOS CANTOS.
O homem forte 169
Dies irae 170
Espera! 172
A Saudade 174
Não me deixes! 176
Zulmira 177
A uma Poetiza 178
Angelina 178
Rola 180
Ainda uma vez--adeos! 181
O Somno 186
Se eu fosse querido! 186
A flôr do amor 187
A sua voz 190
Se se morre de amor! 191
A morte é vária 193
SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.
Loa da Princeza Sancta 196
Gulnare e Mustaphá 211
Soláo do Senhor Rey Dom João 240
Soláo de Gonçalo Hermiguez 251
ULTIMOS CANTOS.
Dedicatoria ao meo amigo A. T. de Carvalho Leal 271
POESIAS AMERICANAS.
I. O Gigante de pedra 275
II. Leito de folhas verdes 280
III. Y-juca-pyrama 281
IV. Marabá 296
V. Canção do Tamoyo 298
VI. A Mangueira 301
VII. A Mãe d’agua 302
POESIAS DIVERSAS.
Nenia á morte sentidissima do Serenissimo Principe Imperial, o Senhor D. Pedro 310
Olhos verdes 314
Cumprimento de um voto 316
Lyra quebrada 318
A Pastora 319
A Infancia 322
Urge o tempo 325
Sobre o tumulo de um menino 326
Menina e moça 326
Como eu te amo 327
As duas corôas 330
Harpejos 333
Triste do Trovador 335
Velhice e mocidade 336
As flores 341
O que mais dóe na vida 344
Flôr de belleza 346
O Anjo da harmonia 348
A Historia 349
A concha e a virgem 350
Sei amar 351
Amanhã 352
Por um ai 353
Protesto--(Imitação de uma poesia javaneza) 355
Fadario 357
O assassino 359
A uns annos 361
Quando nas horas 362
Retractação 366
Anhelo 369
Que me pedes 370
O Ciume 370
A Nuvem doirada 373
Sonho de virgem 374
Meo anjo, escuta 378
Os beijos 379
Desesperança 381
Se queres que eu sonhe 383
O Baile 385