Part 10
Tudo porêm conserva o mesmo aspecto: O sol gyrando, e na apparencia o mesmo, Do anno as quadras compassado alterna; E os astros, seos irmãos, gravitão sempre D’abobada celeste. A terra é a mesma; As aguas pelos valles se deslisão, Ou d’alpestres montanhas se despenhão Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas Inda conversão nos soturnos bosques; A mulher, a mais bella creatura, Nas suas proprias perfeições compraz-se, Como quando, no Eden, as pulchras formas Pasmou de ver representadas n’agua, E de as ver se ufanou. Inda conserva O mesmo orgulho e intelligencia o homem, O rei da creação, o deos creado, De quando vinhão, por pedir-lhe os nomes, Cetaceos, aves e os reptis e aquellas Creaturas-montanhas, que passárão Entre Adão e Noé á flor da terra!
Tudo o mesmo se mostra; mas a alma, Esse mundo interior, esse outro templo, Onde gravára o proprio Deos seo nome, Como os templos de pedra, jaz sem lume, Jaz como o predio a desfazer-se em ruinas, Onde um guarda solicito não móra, E entregue as aves más, que em chilros pregão, Que alli na ausencia do senhor imperão.
Da divina bondade cheio o vaso Já transborda de cholera e justiça E o largo rio do perdão saudavel, Que mais não corra, impece: Sanctas aguas Por cuja causa os seculos já virão, Sem justa punição, offensas graves; Que o Senhor consentisse persistirem Os máos no mal, á espera d’emmendal-os; Que triumphasse a malvadeza; e o crime, Vexando os bons, senhoreasse a terra.
Mas Deos, que fôra outrora pae clemente, Dando começo ao reino da justiça, Em austero juiz se ha convertido. Como um carro, que vae d’encontro ao abysmo, Perfaz o sol precipite o seo gyro, Indo a tocar a temerosa méta Prevista dos prophetas. Um archanjo Com mão robusta inda retem os élos Da cadeia do tempo, em quanto a outra Da vida o livro volumoso sélla Com sete bronzeos sellos. Deos offeso Tira os olhos do mundo, e o mundo ha sido! Quem podera pintar as discordancias Em que labora a natureza! Crescem Da terra igneos vapores, suffocando O que respira, o que tem vida: os montes Em crateras se rásgão, que vomitão Fumo e lava incessante; o mar s’empola E em furia ardendo, arroja aos altos cimos Crusados vagalhões, qual se tentára Sôvertel-os: os ventos se contrastão! Novos prodigios, novos monstros surgem! O mar se torna em sangue, o sol em fogo, O Universo em mansão d’afflictas dores, O homem soffre, blasphema e desespera, E vendo os mundos desabar precipites, Um grito sólta d’horroroso transe, Como de náo, que em alto mar s’afunda E rola os restos n’amplidão das aguas.
Satisfez-se o Senhor. Que resta?--O cháos, O horror, a confusão, o vulto enorme Do tempo, que escurece o fundo abysmo, Onde por todo o sempre jaz captivo; E da morte o cadaver gigantesco Quasi occupando a superficie inteira D’um mar de chumbo, escuro e sem rumores. Da gloria do Senhor um raio apenas, Lá dos confins do espaço despedido, Fere da morte o rosto macilento De tudo quanto foi, e quanto existe!
* * * * *
ESPERA!
Quem ha no mundo que afflicções não passe, Que dores não supporte? Mais ou menos d’angustias cabe a todos, A todos cabe a morte.
A vida é um o negro d’amarguras E de longo soffrer; Simelha a noite; mas fagueiros sonhos Podem de noite haver.
Por que então maldiremos este mundo E a vida que vivemos, Se nos tornamos do Senhor mais dignos, Quanto mais dôr soffremos?
Quantos cabellos temos, elle o sabe; Elle póde contar As folhas que ha no bosque, os grãos d’areia Que sustentão o mar.
Como pois não será elle comnosco No dia da afflicção? Como não ha de computar as dores Do nosso coração?
Como ha de ver-nos, sem piedade, o rosto Coberto d’amargura; Elle, senhor e pae, conforto e guia Da humana creatura?
Se o vento sopra, se se move a terra, Se iroso o mar fluctúa; Se o sol rutila, se as estrellas brilhão, Se gyra a branca lúa;
Deos o quiz, Deos que mede a intensidade Da dôr e da alegria, Que cada ser comporta--n’um momento D’arroubo ou d’agonia!
Embora pois a nossa vida corra Alheia da ventura! Alem da terra ha céos, e Deos protege A toda creatura!
Viajor perdido na floresta á noite, Assim vago na vida; Mas sinto a voz que me dirige os passos E a luz que me convida.
* * * * *
A SAUDADE.
Saudade, ó bella flor, quando te faltem Coração ou jardim, onde tu cresças; Vem, vem ter commigo; Deixa os que te não seguem, Terás em peito amigo Lagrimas, que te reguem, Espaço, em que floresças.
Das pegadas da ausencia tu despontas, Entre as memorias cresces do passado, Quando um objecto amado Quando um logar distante, Noite e dia, Nos enluta e apouquenta a fantasia. Vem, ó Saudade, vem A mim tambem Consolar de gemidos suspirosos E de partidos ais! Oh! seja a punição dos insensiveis Não te sentir jamais!
Propicia Deosa, e se não fosse a esperança, Deosa melhor da vida; qu’insensato, A quem mitigas turbidos pezares Haverá tão ingrato Que te não queime incenso em teos altares? O _presente_ o que é?--Breve momento D’incommodo ou desgraça Ou de prazer, que passa Mais veloz que o ligeiro pensamento. Véo escuro, Que nem sempre a illusão nos adelgaça, Nos encobre os caminhos do futuro. O que nos resta pois?--Resta a saudade, Que dos passados dias De magoas e alegrias Balsamo sancto extrahe consolador! Resta a saudade, que alimenta a vida Á luz do facho que adormenta a dôr!
Hera do coração, memoria delle, Ó Saudade, ó rainha do passado, Simelhas a romantica donzella De roupas alvejantes Nas ruinas de castello levantado: Grinaldas fluctuantes, Que das fendas brotarão, Movem-se do nordeste Ao sopro agudo e frio; Em quanto vendo-o ao longe o senhorio, De posses decahido, D’invernos alquebrado, Recorda triste os annos que passarão!
Em que plagas inhospitas e duras Não me tens sido companheira e amiga? Em que hora, em que instante De folga ou de fadiga Já deixei de sentir o penetrante Espinho teo, a repassar-me todo D’um prazer melancholico e suave?
Pois nasces nos desertos da tristeza, Ó Saudade, ó rainha do passado! Quando te falte gleba, onde tu cresças, Vem, vem ter commigo; Deixa os que te não seguem, Terás em peito amigo Lagrimas, que te reguem, Espaço, em que floresças!
Entra em meo coração, occupa-o todo, Fibra por fibra enlaça-te com elle, Desce com elle á sepultura; e quando Jazer eu na eternidade, Minha flôr, minha saudade, Tu procura a aura celeste, Rompe a terra, transforma-te em cypreste, Qu’enlute o meo jazigo; E ao meneio das ramas funerarias, Meo derradeiro amigo, Descance morto quem viveo comtigo.
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NÃO ME DEIXES!
Debruçada nas aguas d’um regato A flôr dizia em vão Á corrente, onde bella se mirava.... «Ai, não me deixes, não!
«Commigo fica ou leva-me comtigo «Dos mares á amplidão, «Limpido ou turvo, te amarei constante; «Mas não me deixes, não!»
E a corrente passava; novas aguas Após as outras vão; E a flôr sempre a dizer curva na fonte: «Ai, não me deixes, não!»
E das aguas que fogem incessantes Á eterna successão Dizia sempre a flôr, e sempre embalde: «Ai, não me deixes, não!»
Por fim desfallecida e a côr murchada, Quasi a lamber o chão, Buscava inda a corrente por dizer-lhe Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flôr enleia, Leva-a do seo torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: «Não me deixaste, não!»
* * * * *
ZULMIRA.
Sonhara-te eu na veiga de Granada, Tapetada de flores e verdura, Onde o Darro e Xenil no lento gyro Volvem a lympha pura.
Alli te vejo em leda comitiva Dos gentis cavalleiros do oriente, Quando, deposta a malha do combate, Vestem da paz a seda reluzente.
Alli te vejo n’um balcão sentada, Grande preço da maura architectura, Pejando as azas das nocturnas brisas D’um canto de ternura.
Alli te vejo, sim; mas mais me agrada O que se m’afigura n’outro instante, Ver-te em vistosa tenda d’ouro e sedas, Levantada no dorso do elefante.
E em roda, ao largo, o sequito pomposo D’eunuchos a teo gesto vacillantes Em cujas frontes negras se destacão Alvissimos turbantes.
E pergunto quem es?--Então me dizem Ciosos de guardar o seo thesouro, Nome tão doce aos labios, que parece Escrever-se em setim com letras d’ouro.
* * * * *
A UMA POETIZA.
--Donde vens, viajor?-- --De longe venho. --Que viste? --Muitas terras. --E qual dellas Mais te soube agradar? --São todas bellas; Fundas recordações de todas tenho.
E admiraste o que? --Ah! onde as flores Cada vez a manhã tornão mais linda, Onde gemeo Paraguassú de amores E os echos fallão de Moema ainda;
Alli, Sapho christã, virgem formosa, A vida aos sons da lyra dulcifica: D’escutar a sereia harmoniosa Ou de vel-a, a vontade presa fica!
BAHIA--1852.
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ANGELINA.
É gentil e linda e bella, E eu sei que m’arrouba o vel-a Tão divina: A lyra seos cantos cesse; Mas minha alma não s’esquece D’Angelina!
Outro louve os seos cabellos, Cante a luz dos olhos bellos Que fascina; E o leve sorrir donoso Que irradia o rosto airoso D’Angelina!
Os dotes diga que apura, Quando em languida postura Se reclina; Que s’ergue, se acaso passa, Susurro que applaude a graça D’Angelina!
Que de amor quando suspira O bardo quebrara a lyra, De mofina; Que jamais poderão cantos Pintar ao vivo os encantos D’Angelina.
Que da sua alma a pureza Equipara-se á belleza Peregrina; Que amor seo throno tem posto N’alma, no talhe e no rosto D’Angelina.
Eu que não sei descrevel-a, Só sei que me arroubo ao vel-a Tão divina; A lyra seos cantos cesse, Mas minha alma não s’esquece D’Angelina!
* * * * *
ROLA.
Desque amor me deo que eu lêsse Nos teos olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeo! Seja noite ou seja dia, Eu te procuro constante: Vem, oh! vem, ó meo amante, Tua sou e tu és meo!
Vem, oh vem, que por ti clamo; Vem contentar meos desejos, Vem fartar-me com teos beijos, Vem saciar-me de amor! Amo-te, quero-te, adoro-te, Abraso-me quando em ti penso, E em fogo voraz, intenso, Anceio louca de amor!
Vem, que te chamo e te aguardo, Vem apertar-me em teos braços, Extreitar-me em doces laços, Vem pousar no peito meo! Que, se amor me deo que eu lêsse Nos teos olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeo.
* * * * *
AINDA UMA VEZ--ADEOS!--
I.
Enfim te vejo!--enfim posso, Curvado a teos pés, dizer-te, Que não cessei de querer-te, Pezar de quanto soffri. Muito penei! Crúas ancias, Dos teos olhos afastado, Houverão-me acabrunhado, A não lembrar-me de ti!
II.
D’um mundo a outro impellido, Derramei os meos lamentos Nas surdas azas dos ventos, Do mar na crespa cerviz! Baldão, ludibrio da sorte Em terra estranha, entre gente, Que alheios males não sente, Nem se condóe do infeliz!
III.
Louco, afflicto, a saciar-me D’aggravar minha ferida, Tomou-me tedio da vida, Passos da morte senti; Mas quasi no passo extremo, No ultimo arcar da esp’rança, Tu me vieste á lembrança: Quiz viver mais e vivi!
IV.
Vivi; pois Deos me guardava Para este logar e hora! Depois de tanto, senhora, Ver-te e fallar-te outra vez; Rever-me em teo rosto amigo, Pensar em quanto hei perdido, E este pranto dolorido Deixar correr a teos pés.
V.
Mas que tens? Não me conheces? De mim afastas teo rosto? Pois tanto pôde o desgosto Transformar o rosto meo? Sei a afflicção quanto póde, Sei quanto ella desfigura, E eu não vivi na ventura.... Olha-me bem, que sou eu!
VI.
Nenhuma voz me diriges!... Julgas-te acaso offendida? Déste-me amor, e a vida Que m’a darias--bem sei; Mas lembrem-te aquelles feros Corações, que se metterão Entre nós, e se vencerão, Mal sabes quanto lutei!
VII.
Oh! se lutei!... mas devera Expôr-te em publica praça, Como um alvo á populaça, Um alvo aos dicterios seos! Devera, podia acaso Tal sacrificio acceitar-te Para no cabo pagar-te, Meos dias unindo aos teos?
VIII.
Devera, sim; mas pensava, Que de mim t’esquecerias, Que, sem mim, alegres dias T’esperavão; e em favor De minhas preces, contava Que o bom Deos me acceitaria O meo quinhão de alegria Pelo teo quinhão de dôr!
IX.
Que me enganei, ora o vejo; Nadão-te os olhos em pranto, Arfa-te o peito, e no entanto Nem me podes encarar; Erro foi, mas não foi crime, Não te esqueci, eu t’o juro: Sacrifiquei meo futuro, Vida e gloria por te amar!
X.
Tudo, tudo; e na miseria D’um martyrio prolongado, Lento, cruel, disfarçado, Que eu nem a ti confiei; «Ella é feliz (me dizia) «Seo descanço é obra minha.» Negou-m’o a sorte mesquinha... Perdôa, que me enganei!
XI.
Tantos encantos me tinhão, Tanta illusão me afagava De noite, quando acordava, De dia em sonhos talvez! Tudo isso agora onde para? Onde a illusão dos meos sonhos? Tantos projectos risonhos, Tudo esse engano desfez!
XII.
Enganei-me!...--Horrendo cháos Nessas palavras se encerra, Quando do engano, quem erra, Não póde vóltar atraz! Amarga irrisão! reflecte: Quando eu gozar-te pudera, Martyr quiz ser, cuidei qu’era... E um louco fui, nada mais!
XIII.
Louco, julguei adornar-me Com palmas d’alta virtude! Que tinha eu bronco e rude Co’o que se chama ideal? O meo eras tu, não outro; Estava em deixar minha vida Correr por ti conduzida, Pura, na ausencia do mal.
XIV.
Pensar eu que o teu destino Ligado ao meo, outro fôra, Pensar que te vejo agora, Por culpa minha, infeliz; Pensar que a tua ventura Deos _ab eterno_ a fizera, No meo caminho a puzera... E eu! eu fui que a não quiz!
XV.
Es d’outro agora, e p’ra sempre! Eu a misero desterro Volto, chorando o meo erro, Quasi descrendo dos céos! Dóe-te de mim, pois me encontras Em tanta miseria posto, Que a expressão deste desgosto Será um crime ante Deos!
XVI.
Dóe-te de mim, que t’imploro Perdão, a teos pés curvado; Perdão!... de não ter ousado Viver contente e feliz! Perdão da minha miseria, Da dôr que me rala o peito, E se do mal que te hei feito, Tambem do mal que me fiz!
XVII.
Adeos qu’eu parto, senhora; Negou-me o fado inimigo Passar a vida comtigo, Ter sepultura entre os meos; Negou-me nesta hora extrema, Por extrema despedida, Ouvir-te a voz commovida Soluçar um breve Adeos!
XVIII.
Lerás porêm algum dia Meos versos, d’alma arrancados, D’amargo pranto banhados, Com sangue escriptos;--e então Confio que te commovas, Que a minha dôr te apiade, Que chores, não de saudade, Nem de amor,--de compaixão.
* * * * *
O SOMNO.
Nas horas da noite, se junto a meo leito Houveres acaso, meo bem, de chegar, Verás de repente que aspecto risonho Que toma o meo sonho, Se o vens bafejar!
O anjo, que ao somno preside tranquillo, Ao anjo da terra não ceda o logar; Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meo leito, Unir-me a seo peito, D’amor offegar.
As notas que exhalão as harpas celestes, Os gozos, que os anjos só podem gozar, Talvez tambem frúa, se ao meo peito unida T’encontro, ó querida, No meo acordar!
* * * * *
SE EU FOSSE QUERIDO!
Se eu fosse querido d’um rosto formoso, Se um peito extremoso--podesse encontrar, E uns labios macios, que expirão amores E abrandão as dores--de alheio penar;
A tantos encantos minha alma rendida, Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar: Constante a seo lado, seos sonhos divinos Aos sons dos meos hymnos--quizera embalar.
Depois, quando a morte viesse impiedosa Da amante extremosa--meos dias privar, De funda saudade minha alma rendida Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar.
* * * * *
A FLÔR DO AMOR.
Já lento o passo, no cahir da tarde, Lá nos desertos d’abrasada areia, Que o vento agita, porêm não recreia, Da caravana o conductor parou. Armão-se ápressa tendas alvejantes, Rumina placido o frugal camêlo; Porêm a nuvem d’arabes errantes Se achega á presa, que de longe olhou.
E já, tomada a refeição nocturna, Junto a fogueira, que derrama vida, Descanção todos da penosa lida Á voz canora, que o cantor alçou! Confuso o ouvido um borborinho alcança, As armas toma o arabe prudente; Mas logo pensa, regeitando a lança: «Foi o grunhido que o chacal soltou.»
Ouvidos todo e curioso enlevo, Toma de novo a retomar seo posto; Pela fogueira alumiado o rosto, Bebendo as vozes que o cantor soltou; Simelha a terra, quando aberta em fendas Da noite o orvalho sequiosa espera; E o corsel arabe encostado ás tendas Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.
«Algures cresce (o trovador cantava) Sempre fresca e virente e sempre bella, Por influxo e poder de maga estrella, Mimosa, pura e delicada flôr! Jazendo em sitio escuso e solitario, Esforços é mister p’ra conhecel-a, Que diz a forte lei do seo fadario Que a não descubra acaso o viajor.
«Alva do albor dos lirios odorosos, Tem a modestia da violeta esquiva, E o prompto retrahir da sensitiva, Que parece vestir-se de pudor! Assim, á luz da cambiante aurora, Mudando um pouco a resplendente alvura, De uns toques de carmim s’esmalta e córa A graciosa e pudibunda flôr.
«Faz-se mais puro o ar, mais brando o clima, Onde cresce; amenisão-se os logares, Tornão se menos agros os pezares E menos viva, e quasi nulla a dôr; Fresca e branda alcatifa o chão matisa, Com doce murmurio as aguas correm, E o leve sopro do correr da brisa Volupia embebe em magico frescor!
«Feliz aquelle que a encontrou na vida, Que onde ella nasce timida e fagueira Não s’ennovela a mó d’atra poeira, Tangida pelo súmiu’ abrasador! Alli sorri-se oasis venturoso, Qu’entre deleites o viver matisa, E ao que vai triste, afflicto e sem repouso Chama a descanço do comprido error!
«Feliz e mais que se, perdido, achára Conforto e auxilio no kathá, seo guia, Que o leva a fonte perennal e fria Onde se apaga o sitibundo ardor. Tão feliz, qual talvez se o precedesse Nos desertos a benção do propheta, Que por fanal nocturno lhe accendesse Maga estrella de limpido fulgor.
«Ai! porêm do que a vê, e a não conhece, Do que a suspira em vão, e a em vão procura, Ou que achando-a, desiste da ventura Por não entrar no oasis seductor. Essa flôr descoberta por acerto Nunca mais a verás! colhe, insensato, Colhe abrolhos da vida no deserto; Pois despresaste a que produz o amor!»
Assim cantava o trovador; e todos Ouvem-no com prazer de dôr travado, Que mais do que um talvez terá deixado Atraz de si a pudibunda flôr! No emtanto a nuvem d’arabes errantes Chega-se á presa, que avistou de longe; E dos corseis, que alentão offegantes, Precede a marcha turbido pavor!
E, nado o sol, aquelle que passava Pelos desertos d’abrasada areia, Que o rubro sangue de cruor rocheia, A um lado o rosto, pallido, voltou! Ninguem as mortes lastimaveis chora, Ninguem recolhe os restos insepultos, E o mesmo orvalho, que goteja a aurora, Sem borrifal-os, no areial ficou!
Quem saberá do seo destino agora? Ninguem! Somente em climas apartados Miseranda mulher lastima os fados De filho ou esposo, que jamais tornou! Talvez porêm, traz de montões d’areia, Nobre corsel sem cavalleiro assoma, E alonga a vista, de pezares cheia, Té onde a vida seo senhor deixou!
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A SUA VOZ.
Por que ficasse a vida Por o mundo em pedaços repartida. CAMÕES CANÇ. X.
Ouvi-a! A sua voz me despertava Tudo quanto de bom conservo n’alma. Retratado o pudor no rosto, E um suave dizer, um timbre doce De voz, uma piedade extreme e sancta, Que as mais profundas chagas animava, D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.
Ouvi-a! A sua voz era mais branda, Mais impressiva que o cantar das aves! A aragem qu’entre flores se deslisa E mal remeche a timida folhagem, A veia de chrystal que triste sôa, O saudoso arrulhar de mansas pombas, As proprias notas d’um cantar longinquo Ou de instrumento a conversar co’a noite, Menos que a sua voz impressionavão!
Menos que a sua voz!--Os dois mais fortes, Os dois mais puros sentimentos nossos --A saudade e o amor,--as mais profundas Das merencorias solidões da terra --As florestas e o mar,--um scismar vago, Um devaneio, uns extasis sem termo D’alma perdida por um céo de amores, Tanto como a sua voz não arroubavão!
Tanto como a sua voz!--somente o forão Dulces notas de mysticos salterios Té nós de um astro em outro repetidas. Foi isto o que senti, quando a escutava, Fluente, armoniosa, discorrendo Em pratica singela, sobre assumptos Diversos, sobre flores, menos bellas Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros. Mas quem n’a ouvira conversar de amores Trouxera n’alma como uma harpa eolia, Dia e noite vibrando, Como um cantar dos anjos Do coração a estremecer-lhe as fibras!
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SE SE MORRE DE AMOR!
Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liebenden--aber die Seelen versetzen sich aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe. SCHILLER. _Die Räuber._
Se se morre de amor!--Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surprende De ruidoso saráu entre os festejos; Quando luzes, calor, orchestra e flores Assomos de prazer nos raião n’alma, Que embellezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança!
Sympathicas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabellos, Um quê mal definido, acaso podem N’um engano d’amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delirio, Devaneio, illusão, que se esvaece Ao som final da orchestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamão, D’amor igual ninguem succumbe á perda.