Part 9
E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe, Inda a vejo pendente, sobre os paginas Da patria historia, onde gravou seo nome Tarjado em letras d’oiro.
Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida Talvez quadro maior lhe affigurava Que a luta acerba do Titan brioso, Ultima prole de Saturno.
Inveja Claudiano pincel valido, Que nos retrata o cataclysmo horrendo, Que elle--poeta--não achou nos combros Da ignivoma Tessalia!
Inveja!... mas ás formas do Gigante Sorri-se o grande Homero;--e o cego Bardo Da verde Erin, entre os heróes famosos Prazenteiro o recebe!
* * * * *
Dorme, ó lutador, que assaz lutaste! Dorme agora no gelido sudario; Foi duro o afan, asperrima a contenda, Será fundo o descanço.
Dorme, ó lutador, teo somno eterno; Mas sobre a lousa do sepulchro humilde, Como na vida foi, surja o teo busto Austero e glorioso.
Columna inteira em combros derrocados, Rolo encerado, que já beija as praias Do remoto porvir,--seguro e salvo Dos naufragios d’um seculo;
Dorme!--não serei eu quem te desperte, Meos versos ... não serão:--palmas sem graça, Ou pobre ramo d’arvore funerea, Pyramidal cypreste.
São flôres que desfolha sobre um tumulo Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro, Piedosa mão de peregrino extranho, Que alli passou acaso!
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TABYRA.
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DEDICATORIA
AOS PERNAMBUCANOS.
Salve, terra formosa, ó Pernambuco, Veneza Americana, transportada Boiante sobre as agoas! Amigo genio te formou na Europa, Genio melhor te despertou sorrindo Á sombra dos coqueiros.
Salve, risonha terra! são teos montes Arrelvados, innumeros teos valles, Cujas veias são rios! Doces teos prados, tuas varzeas ferteis, Onde reluz o fructo sasonado Entre o matiz das flores!
Outros, patria d’heroes, teos feitos cantem, E a bella historia de colonia exaltem, E os nomes forasteiros; Não eu, que nada almejo senão ver-vos, Tu e Olinda, ambas vós, co’os olhos longos, Expraiados no mar!
Ambas vós, sobre tudo americanas, Doces flores dos mares de Colombo, Filhas do norte ardente! Virgens irmãs, que vão de mãos travadas Sorrirem d’innocencia á propria imagem, Que luz em claro arroyo.
Andei, por vós somente, em vossas matas, Colhendo agrestes flores na floresta, Não respiradas nunca, Singelas, como vós,--como vós, bellas, Ennastrei-as em forma de grinalda Fino, extremoso amante!
Não vivem muito as flores: são meos versos Ephemeros como ellas; côr sem brilho, Ou perfume apagado, Ou trino fraco d’ave matutina, Ou echo de um baixel que passa ao longe Com descante saudoso.
* * * * *
TABYRA.
(POESIA AMERICANA.)
Les _peaux rouges_, plus nobles, mais plus infortunées que les _peaux noires_, qui arriveront un jour á la liberté par l’esclavage, n’ont d’autre recours que la mort, parce que leur nature se refuse à la servitude. * * *
I.
É Tabyra guerreiro valente, Cumpre as partes de chefe e soldado; É caudilho de tribu potente, --Tobajaras--o povo senhor; Ninguem mais observa o tratado, Ninguem menos de p’rigos se aterra, Ninguem corre aos acenos da guerra Mais depressa que o bom lidador!
II.
Seo viver é batalha aturada, Dos contrarios a traça aventando; É dispor a cilada arriscada, Onde o imigo se venha metter! Levão noites com elle sonhando Potiguares, que o virão de perto; Potiguares, que assellão por certo Que Tabyra só sabe vencer!
III.
Mil enganos lhe têm já tecido, Mil ciladas lhe têm preparado; Mas Tabyra, fatal, destemido, Tem feitiço, ou encanto, ou condão! Sempre o plano da guerra é frustrado, Sempre bravo fronteiro apparece, Que os enganos crueis lhes destece, Face a face, arco e setas na mão.
IV.
Já dos Luzos o troço apoucado, Paz firmando com elle traidora, Dorme illeso na fé do tratado, Que Tabyra é valente e leal. Sem Tabyra dos Luzos que fôra? Sem Tabyra que os guarda e defende, Que das pazes talvez se arrepende Já feridas outr’ora em seo mal!
V.
Chefe stulto d’um povo de bravos, Mas que os piagas victorias te fadem, Hão de os teos, miserandos escravos, Taes triunfos um dia chorar! Caraibas taes feitos applaudem, Mas sorrindo vos forjão cadeias, E pesadas algemas, e peias, Que traidores vos hão de lançar!
VI.
Chefe stolido, insano, imprudente, Sangue e vida dos teos malbaratas?! Mingua as forças da tribu potente, Vencedora da raça Tupi! Hão de os teca, acoçados nas matas Mal feridos, sangrentos, ignavos, Não podendo viver como escravos, Dar o resto do sangue por ti!
VII.
Vivem homens de pel’ côr da noite Neste solo, que a vida embelleza; Podem, servos, debaixo do açoite, Nenias tristes da patria cantar! Mas o indio que a vida só preza Por amor dos combates, e festas Dos triunfos sangrentos, e sestas Resguardadas do sol no palmar;
VIII.
Ocioso, indolente, vadio, Ou activo, incançavel, fragueiro; Já nas matas, no bosque erradio, Já disposto a lutar, a vencer; Ama as selvas, e o vento palreiro, Ama a gloria, ama a vida; mas antes Que viver amargados instantes, Quer e pode e bem sabe morrer!
IX.
Eis, avante! ó caudilho valente! Potiguares lá vêm denodados; Tão cerrado concurso de gente, Ninguem vio nestas partes assim! Poucos são, mas briosos soldados; Não são homens de aspecto jocundo! Restos são, mas são restos d’um mundo; Poucos são, mas soldados por fim!
X.
Os seos velhos disserão comsigo, Discutindo os motivos da guerra: «É Tabyra--cruel, inimigo, Já nem crê, renegado, em Tupan!» Pés robustos lá batem na terra, Pó ligeiro se expande nos ares: Era noite! milhar de milhares São armados, mal rompe a manhã.
XI.
Vêm soberbos,--o sol luz apenas! Confiados, galhardos, lustrosos, Vêm bizarros nas armas, nas pennas, Atrevidos no accento e na voz! Um d’entre elles, dos mais orgulhosos, Sóbe á pressa nas aspas d’um monte: Dalli brada, postado defronte De Tabyra--com geito feroz:
XII.
«Ó Tabyra, Tabyra! aqui somos A provar nossas forças comtigo; Dizes tu que vencidos já fomos! Dil’-o tu, não n’o diz mais ninguem. Ora eu só a vós todos vos digo: Sois cobardes, irmãos de Tabyra! Propagastes solemne mentira, Que vencer não sabemos tão bem.
XIII.
«Para o vosso terreiro vos chamo, Contra mim vinde todos,--sou forte: Occorrei ao meo nobre reclamo! Aqui sou, nem me parto daqui! Vinde todos em densa cohorte: Travaremos combate sangrento, Mas por fim do triunfo cruento Direis vós, se fui eu quem menti.»
XIV.
Disse o arauto: eis a turba ufanosa Lhe responde, arco e setas brandindo, Pés batidos, voz alta e ruidosa: --Bem fallado, ó guerreiro, mui bem! Assim é; mas Tabyra rugindo, Resentido de offensas tamanhas, O rancor mal encobre das sanhas, Que não lava no sangue de alguem.
XV.
Raso outeiro alli perto se off’rece: Vinga-o prestes, hardido, açodado!... Como leiva de pallida messe, Já madura, tremendo no pé; Todo o campo descobre occupado Por guerreiros,--no extremo horisonte Não destingue nas faldas do monte, O que é gente, o que gente não é.
XVI.
Não se abala o preclaro guerreiro, Do que vê seo valor não fraqueia; Diz comsigo: «Um só golpe certeiro Vai de todo esta raça apagar! Juntos são, mas são meos!»--Já vozeia; Logo os seos lhe respondem gritando, Taes rugidos, taes roncos soltando Que aos seus proprios deverão turbar!
XVII.
Diz a fama que então de assustadas Muitas aves que o espaço crusavão, De pavor subitaneo tomadas, Descahião pasmadas no chão: Já com silvos e atitos voavão Muitas outras, que o triste gemido No conflicto, abafado e sumido, Talvez darão,--mas fraco, mas vão!
XVIII.
Eis que os arcos de longe se encurvão, Eis que as setas aladas já voão, Eis que os ares se cobrem, se turvão, De frexados, de surdos que são. Novos gritos mais altos reboão, Entre as hostes se apaga o terreno, Já tornado apoucado e pequeno, Já coberto de mortos o chão!
XIX.
Peito a peito encontrados afoutos, Braço a braço travados briosos, Fervem todos inquietos, revoltos, Qu’indicisa a victoria inda está. Todos movem tacápes pesados; Qual resvala, qual todo se enterra No imigo que morde na terra, Que sepulcro talvez lhe será.
XX.
«Mas Tabyra! Tabyra! que é delle? «Onde agora se esconde o pujante?» --Não n’o vedes?!--Tabyra é aquelle --Que sangrento, impiedoso la vai! --Vel-o-heis andar sempre adiante, --Larga esteira de mortos deixando --Traz de si, como o raio cortando --Ramos, troncos do bosque, onde cai.--
XXI.
«Foge! foge! leal Tobajara; «Quantos arcos que em ti fazem mira?!» --Muitos são; porém medos encara --Face a face, quem é como eu sou!-- Muitas setas cravejão Tabyra: Bello quadro!--mas vel-o era horrivel! Porco-espim que sangrado e terrivel Duras cerdas raivando espetou!
XXII.
Tem um olho d’um tiro frexado! Quebra as setas que os passos lh’impedem, E do rosto, em seo sangue lavado, Frexa e olho arrebata sem do! E aos imigos que o campo não cedem, Olho e frexa mostrando extorquidos Diz, em voz que mais erão rugidos: --Basta, vis, por vencer-vos um só!
XXIII.
E com furia tão grande arremettem, Com despego tão nobre da vida; Tantos golpes, tão fundos repetem, Que senhores do campo já são! Potiguares lá vão de fugida, Inda á fera mais torva e bravia Disputando guarida d’um dia No mais fundo do vasto sertão!
XXIV.
Potiguares, que a aurora risonha Vio nação numerosa e potente, Não já povo na tarde medonha, Mas só restos d’um povo infeliz! Insepultos na terra inclemente Muitos dormem; mas ha quem lh’inveja Essa morte do bravo em peleja, Quem a vida do escravo maldiz!
XXV.
«Este o conto que os Indios contavão, «A deshoras, na triste senzalla; «Outros homens alli descançavão, «Negra pel’; mas escravos tão bem. «Não choravão; somente na falla «Era um quê da tristeza que mora «Dentro d’alma do homem que chora «O passado e o presente que tem!»
* * * * *
HYMNOS.
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A LUA.
Figlia del ciel, sei bella! Ma verrà notte ancor, che tu, tu stessa Cadrai per sempre, e lascierai nel cielo Il tuo azzurro sentier! CESAROTTI.
Salve, ó Lua candida, Que traz dos altos montes Erguendo a fronte pallida, Dos negros horisontes As sombras melancolicas Vens ora afugentar! Salve, ó astro fulgido, Que brilhas docemente, Melhor que o lume tremulo D’estrella inquieta, ardente, Melhor que o brilho esplendido Do sol ferindo o mar!
Salve, ó reflexo tenue Da eterna luz preclara Nas nossas noites horridas; Qual sol que em lympha clara Desponta os raios vividos, Em tarja multicor; Es como a virgem púdica, Que amor no peito encerra; Mas só, mas solitaria, Vagando aqui na terra, Treplíca o sello mystico Do não sabido amor!
Eu te amo, ó Lua candida, No gyro somnolento, E o teo cortejo madido De estrellas, e do vento O sopro merencorio, Que á noite dá frescor. Por teos influxos magicos Minha alma aos sons do canto Revive; e os olhos humidos Gotejão triste pranto, Que orvalha a chaga tepido, Que mingua a antiga dôr!
Em gelido sudario De neve alvi-nitente, Por terras vi longinquas, Durante a noite algente, A tua luz benfica Luzir meiga do céo. Nos mares solitarios Tão bem a vi!--nas vagas Brincava o lume argenteo, Cantava o nauta as magas Canções, no voluntario, Cançado exilio seo!
Tão bem a vi na limpida Corrente vagarosa; Tão bem nas densas arvores De selva magestosa, Coando os raios lubricos No lobrego palmar. E eu só e melancolico Sentado ao pé da veia, Que a deslisar-se timida Beijava a branca areia; Ou já na sombra tetrica Da mata secular;
Em devaneio placido Velava, em quanto via Ao longe--os altos pincaros Da negra serrania, --Disformes atalaias, Que sempre alli serão! No rórido silencio Minha alma se exaltava; E das visões phantasticas, Que a lua desenhava, Seguia os traços aureos, Tremendo em negro chão!
Pensava ledo, improvido, Até que de repente Da minha vida misera Se me antolhava á mente A quadra breve e rapida Do malfadado amor. Então fugia attonito O bosque, a selva, a fonte, E as sombras, e o silencio; Bem como o cervo insonte, Que ás setas foge pavido Do fero caçador!
Salve, ó astro fulgido, Que brilhas docemente, Melhor que o lume tremulo D’estrella inquieta, ardente, Melhor que o brilho esplendido Do sol ferindo o mar. Eu te amo, ó Lua pallida, Vagando em noite bella, Rompendo as nuvens turbidas Da rispida procella; Eu te amo até nas lagrimas Que faces derramar.
* * * * *
A NOITE.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama! Quem não vive mais brando em teo regaço! FILINTO.
Eu amo a noite solitaria e muda, Quando no vasto céo fitando os olhos, Alem do escuro, que lhe tinge a face, Alcanço deslumbrado Milhões de sóes a divagar no espaço, Como em salas de esplendido banquete Mil tochas aromaticas ardendo Entre nuvens d’incenso!
Eu amo a noite taciturna e quêda! Amo a doce mudez que ella derrama, E a fresca aragem pelas densas folhas Do bosque murmurando: Então, máo grado o véo que involve a terra, A vista do que vela enxerga mundos, E apezar do silencio, o ouvido escuta Notas de ethereas harpas.
Eu amo a noite taciturna e quêda! Então parece que da vida as fontes Mais faceis correm, mais sonoras soão, Mais fundas se abrem; Então parece que mais pura a brisa Corre,--que então mais funda e leve a fonte Mana,--e que os sons então mais doce e triste Da musica se espargem.
O peito aspira sofrego ar de vida, Que da terra não é; qual flôr nocturna, Que bebe orvalho, elle se embebe e ensopa Em extasis de amor: Mais direitas então, mais puras devem, Calada a natureza, a terra e os homens, Subir as orações aos pés do Eterno Para afagar-lhe o throno!
Assim é que no templo magestoso Rebôa pela nave o som mais alto, Quando o sacro instrumento quebra a augusta Mudez do sanctuario: Assim é que o incenso mais direito Se eleva na capella que o resguarda, E na chave da abobada topando, Como um docel, se expraia.
Eu amo a noite solitaria e muda; Como formosa dona em regios paços, Trajando ao mesmo tempo luto e galas Magestosa e sentida; Se no dó attentais, de que se enluta, Certo sentis pezar de a ver tão triste; Se o rosto lhe fitais, sentis deleite De a ver tão bella e grave!
Considerai porêm o nobre aspecto, E o pórte, e o garbo senhoril e altivo, E as fallas poucas, e o olhar sob’rano, E a fronte levantada: No silencio que a véste, adorna e honra, Conhecendo por fim quanto ella é grande, Com voz humilde a saudareis rainha, Curvado e respeitoso.
Eu amo a noite solitaria e muda, Quando, bem como em salas de banquete Mil tochas aromaticas ardendo, Girão fúlgidos astros! Eu amo o leve odor que ella diffunde, E o rorante frescor cahindo em per’las, E a magica mudez que tanto falla, E as sombras transparentes!
Oh! quando sobre a terra ella se estende, Como em praia arenosa mansa vaga; Ou quando, como a flôr d’entre o seo musgo, A aurora desabrocha; Mais forte e pura a voz humana sôa, E mais se accórda ao hymno harmonioso, Que a natureza sem cessar repete, E Deos gostoso escuta.
* * * * *
A TEMPESTADE.
Fervescere faciet, quasi ollam, profundum mare. JOB 41, 42.
I.
De côr azul brilhante o espaço immenso Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo Do bosque a verde coma esmalta e doira, E na corrente dardejando á prumo Scintilla e fulge em laminas doiradas. Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores! Nos céos um ponto só negreja escuro!
Eis que das partes, onde o sol se esconde, Brilha um clarão fugaz pallido e breve: Outro vem apoz elle, inda outro, muitos; Succedem-se frequentes,--mais frequentes, Assumem côr mais viva,--inda mais viva, E em breve espaço conquistando os ares Os horisontes co’o fulgir roxeião.
Qual mancha d’oleo em tela assetinada Que os fios todos lhe repassa e embebe; Ou qual abutre do palacio aereo Tombando acinte,--no descer sem azas Um ponto só,--até que em meia altura Abrindo-as, paira magestoso e horrendo: Assim o negro ponto avulta e cresce, E a cupola dos céos de côr medonha Tinge, e os céos alastra, e o espaço occupa. A abobada de trevas fabricada Descança em capiteis de fogo ardente!
De quando em quando o vento na floresta Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe Rouqueja, e brama, e cava-se empolado, E aos pincaros da rocha ennegrecida De iroso e mal soffrido a espuma arroja! Raivoso turbilhão comsigo arrastra O argueiro, a folha em vortice espantoso; No valle arranca a flôr, sacode os troncos, Na serra abala a rocha, e move as pedras, No mar os vagalhões incita e crusa.
II.
Os sons da tempestade ao longe escuto! Concentra a natureza os seos esforços Primeiro que entre em luta; não lampeja Invio fogo nos céos; não sopra o vento: É tudo escuridão, silencio e trevas! Somente o mar de soluçar não cessa, Nem de rugir as ramas buliçosas, Nem de soar confuso borborinho, Incompr’ensivel, como que sem causa, Immenso como o echo de mil vozes No céo de extensa gruta repulsando.
Silencio! perto vem a tempestade! Gravidas nuvens de fataes coriscos, Sem rumo, como náo em mar desfeito, Em muda escuridão negros phantasmas, Indistinctos, sem forma,--ondulão, jogão. Logo poder occulto impelle as nuvens, Attrahem-se os castellos tenebrosos, Embatem-se nos ares,--brilha o raio, E o ronco do trovão após rimbomba!
III.
Ruge e brame, sublime tempestade! Desprende as azas do tufão que enfreias, Despega os élos do veloz corisco E as nuvens rasga em rubidas crateras. Os fuzis da cadeia temerosa Desfaz e quebra; e o espaço e as nuvens Do teo açoite aos lategos bramindo, Occupem de pavor os céos e a terra. Ruge, e o teo poder mostra rugindo; Que assim por teos influxos me commoves, Que todo me electrisas e me arroubas!
Qual foi Mazeppa no veloz ginete Por desertos, por syrtes arenosas Jungido e preso e attonito levado; Assim minha alma sobe e vai comtigo, E vinga os teos palacios mais subidos, Contempla os teos horrores, e dos astros No prazer, que lhe dás, toda embebida, Máo grado teo horror, folga comtigo! Parece que alli tem a regia c’roa Que o feliz condemnado achou na Ukraina. Ruge, ruge embora, ó tempestade!
IV.
Emfim descendo a chuva copiosa Nuvens, bulcões desfaz; os rios crescem, De perolas a relva se matisa, O céo de puro azul todo se arreia, Sorri-se a natureza, e o sol rutila!
V.
Assim, meo Deos, assim será no dia Do final julgamento, quando o anjo Soprar a tromba que desfez os muros De Jerichó soberba!
O mar sobrepujando os seos limites, Com roncos temerosos, nunca ouvidos, Virá para sorver, com furia brava, Ilhas e continentes.
O sol, perdendo o brilho e a natureza, Não luz, mas puro fogo, ha de accender-se, Como o fogo sagrado, que se prende Nas cortinas do templo.
Os orbes dos seos eixos desmontados, No abysmo hão de cahir com grande estrondo, E, redomas de vidro, hão de partir-se Em pedaços sem conto.
Do abysmo as solidões hão de acordar-se! Flammivomos vapores condensados, Té nós, e alem de nós, hão de elevar-se Em pavoroso incendio.
O ar ha de accender-se, a terra em fogo Tornar-se, como o ferro ardendo em fragoa. Coalhar-se o mar e em aspera seccura Converterem-se as ondas.
E nesta confusão de fumo e chammas, Neste cháos, que a mente mal alcança, Quando nada existir de quanto existe, Será vencida a morte.
Logo, á um só dizer do Omnipotente, O pó segunda vez ha de animar-se, E os mortos, mal soffrendo a luz da vida, Attonitos, pasmados;
Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos, E como Adão, a tatear os membros, Estranhos a existencia já vivida, Perguntarão: Quem somos?
Então, Senhor, então,--tu o disseste-- Virás cheio de gloria e magestade, Em solio de luzeiros resplendente, E em celeste cortejo!
Virás, sol da justiça, em fins do mundo Acalmar a procella, e quando aos mortos Disseres tu, quem es,--lembrar-nos-hemos, Senhor, do que já fomos.
Feliz então quem só viveo comtigo, Quem n’ancora da fé prendeu sua alma, Quem só em ti fundou sua esperança, Pequeno e humilde!
Feliz então quem tua lei guardando, Seos passos graduou nos teos caminhos; Quem dia e noite revolveo comsigo, Como aplacar-te.
* * * * *
NOVOS CANTOS.
* * * * *
O HOMEM FORTE.
Impavidum ferient... HORAT.
O modesto varão constante e justo Pensa e medita nas licções dos sabios E nos caminhos da justiça eterna Gradúa firme os passos.
O brilho da sua alma não mareia A luz do sol, nem do carvão se tisna; Morre pelo dever, austero e crente, Confessando a virtude.
Pode a calumnia denegrir seos feitos, Negar-lhe a inveja o merito subido; Pode em seo damno conspirar-se o mundo E renegal-o a patria!
Tão modesto nos paços de Locullo, Como encerrado no tonel do Grego, Nem o transtorna a aragem da ventura, Nem a desgraça o abate.
A tyrannos preceitos não se humilha, Ante o ferro do algoz não curva a fronte, Não faz callar da consciencia o grito, Não nega os seus principios.
Antes, seguro e firme e confiado No tempo, vingador das injustiças, Co’os pés no cadafalso e a vista erguida Se mostra imperturbavel.
Soffre martyr e expira! A patria emtorno Do seo sepulchro o chora, onde a virtude, Affeita ao luto e á dor, de novo carpe Do justo a flebil morte!
* * * * *
DIES IRAE.
Jaz o mundo corrupto!--a terra ingrata Fructos de maldicção produz somente; E em quanto os homens ao mercado affluem, Vazio o templo do Senhor se enluta, Empoeira-se o altar, e pelas naves, Gretadas, rotas pela mão do tempo, De canticos e preces deslembradas, A voz de Deos já não rebôa immensa!