Part 11
Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração--abertos Ao grande, ao bello; é ser capaz d’extremos, D’altas virtudes, té capaz de crimes! Compr’hender o infinito, a immensidade, E a natureza e Deos; gostar dos campos, D’aves, flores, murmurios solitarios; Buscar tristeza, a soledade, o ermo, E ter o coração em riso e festa; E á branda festa, ao riso da nossa alma Fontes de pranto intercalar sem custo; Conhecer o prazer e a desventura No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto O ditoso, o miserrimo dos entes: Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, e não saber, não ter coragem Para dizer que amor que em nós sentimos; Temer qu’olhos profanos nos devassem O templo, onde a melhor porção da vida Se concentra; onde avaros recatamos Essa fonte de amor, esses thesouros Inexgotaveis, d’illusões floridas; Sentir, sem que se veja, a quem se adora, Compr’hender, sem lhe ouvir, seos pensamentos, Seguil-a, sem poder fitar seos olhos, Amal-a, sem ousar dizer que amamos, E, temendo roçar os seos vestidos, Arder por afogal-a em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre!
Se tal paixão porêm emfim transborda, Se tem na terra o galardão devido Em reciproco affecto; e unidas, uma, Dois seres, duas vidas se procurão, Entendem-se, confundem-se e penetrão Juntas--em puro céo d’extasis puros: Se logo a mão do fado as torna extranhas, Se os duplíca e separa, quando unidos A mesma vida circulava em ambos; Que será do que fica, e do que longe Serve ás borrascas de ludibrio e escarneo? Póde o raio n’um pincaro cahindo, Tornal-o dois, e o mar correr entre ambos; Póde rachar o tronco levantado E dois cimos depois verem-se erguidos, Signaes mostrando da alliança antiga; Dois corações porêm, que juntos batem, Que juntos vivem,--se os separão, morrem; Ou se entre o proprio estrago inda vegetão, Se apparencia de vida, em mal, conservão; Ancias crúas resumem do proscripto, Que busca achar no berço a sepultura!
Esse, que sobrevive a propria ruina, Ao seo viver do coração,--ás gratas Illusões, quando em leito solitario, Entre as sombras da noite, em larga insomnia, Devaneiando, a futurar venturas, Mostra-se e brinca a apetecida imagem; Esse, que á dôr tamanha não succumbe, Inveja a quem na sepultura encontra Dos males seos o desejado termo!
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A MORTE É VÁRIA.
(TRADUCÇÃO.)
A morte é vária e multiforme, e múda De trajes e de mascaras mais vezes Qu’uma cançada actriz; Nem sempre é, qual se pinta, o negro espectro D’ironico sorriso e brancos dentes, E d’horrido cariz.
Nem todos seus vasallos são poeira No resalto de pedra adormecidos Por sob as arcarias; A pallida libré nem todos vestem, Nem sobre todos jaz murada a porta Nas cryptas sombrias!
Diversa a natureza é d’outros mortos: Nestes que a sanie e podridão consomem, Vê-se o nada palpavel; Vê se o enojo, o horror, a sombra espessa E o esfaimado esquife, abrindo as fauces, Qual monstro insaciavel!
Cabe a outros porêm que sem dôr vemos Passar, gyrar no turbilhão dos vivos, De carne inda vestidos, O nada inda encuberto; cabe a interna Morte, que ninguem sabe, nem chóra, Nem mesmo os mais queridos!
Pois, se vamos a ver nos cymiterios As campas, ou illustres ou sem nome, De marmore ou torrão; Ou tenhamos alli amiga palpebra, Ou não,--do teixo á sombra descançada, Quer choremos, quer não!
«Jazem» dizemos. Os nomes desparecem Sob a relva; o verme nesses olhos Enréda a teia crúa! Por entre as pranchas do caixão despontão Hirtos cabellos, e em pó funereo envolta Branqueja a ossada núa.
Os herdeiros não temem que mais vólte; Esquecerão-n’o já: seos cães se lembrão, Soltando uivos de dôr! Acama-se a poeira em seos retractos: Já não tem mais rivaes, não tem amigos, Nem odios, nem amor!
Da morte o anjo, em lagrimas de pedra Vemos sosinho e mudo a pranteal-o, Estatua da afflicção: A cova toma o corpo, o olvido o nome, Tem por lençóes seis pés d’humida terra.... Mortos, bem mortos são!
E dos olhos talvez se vos deslise O pranto sobre a relva, pelo orvalho E chuva humedecida; Que na triste mansão os regozije, E por essa oblação enternecidos Um resto achem de vida.
Mortos do coração ninguem os chóra, Ninguem, se a um destes vê, lhe diz piedoso: «Seja o Senhor comtigo.» Curão do morto, lavão-lhe as feridas; Mas a alma estala sem que alguem se dôa, Nem mesmo o mais amigo!
Ha comtudo pungentes agonias Nunca sabidas, dores horrorosas Mais do que se não crê; Almas ha que tem cruz e passamento, Sem aureola d’oiro e a mulher pallida E desgrenhada--ao pé.
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SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.
J’ai fait de ma chambre la cellule d’un cloître, j’ai béni et sanctifié ma vie et ma pensée; j’ai raccourci ma vue et j’ai éteint devant mas yeux les lumières de notre âge: j’ai fait mon coeur plus simple, et l’ai baigné dans le bénitier de la foi catholique; je me suis appris le parler enfantin du vieux temps: et j’ai écrit!... STELLO.
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LOA DA PRINCEZA SANCTA.
Bom tempo foy o d’outr’ora Quando o reyno era christão, Quando nas guerras de mouros Era o rey nosso pendão, Quando as donas consumião Seos teres em devação.
Dava o rey huma batalha, Deos lhe acudia do céo; Quantas terras que ganhava, Dava ao Senhor que lhas deo, E só em fazer mosteyros Gastava muito do seo.
Se havia muitos Iffantes, Torneyo não se fazia; He esse o estilo de Frandres, Onde anda muita heregia: Para os armar cavalleiros A armada se apercebia.
Chamava el-rey seos vassallos E em côrtes logo os reunia: Vinha o povo attencioso, Vinha muita cleregia, Vinha a nobreza do reyno, Gente de muita valia.
Quando o rey tinha-los juntos Começava a discursar: «Os Iffantes já são homens, Vou-me ás terras d’alem-mar Armal-os hy cavalleiros; Deos Senhor m’ha de ajudar.»
Não concluia o pujante Rey--de assi lhes propor, Clamavão todos em grita Com vozes de muito ardor: «Seremos nessa folgança, Honra de nosso Senhor!»
E logo todos em sembra, Todos gente mui de bem, Na armada se agazalhavão, Sem se pezar de ninguem; E os Padres de Sam Domingos Hião com elles tambem.
Hião, si, os bentos Padres: E que assi fosse, he rezão, Que o sancto em guerras d’Igreja Foy hum bom sancto christão: Queimou a muitos hereges No fogo da expiação!
Quando depois se tomava Toda a frota pera cá, Primeiro se perguntava, «Que terras temos por lá?» Quem em Deos tanto confia, Sempre Deos por si terá.
El-rei tornava benino, Como coisa natural: «Temos Ceita, Arzilla ou Tangere, «Conquistas de Portugal!» E todos, a voz em grita, Clamavão: real! real!
Bom tempo foy o d’outr’ora Quando o reyno era christão; Os moços davão-se á guerra, As moças á devação: Aquella terra de mouros Vivia em muita afflicção.
Deo-nos Deos tantas victorias, E tanto pera louvar, Que os Padres de Sam Domingos Ja não sabião rezar; Todo-lo tempo era pouco Pera louvores cantar!
Sendo tantas as batalhas, Nem recontro se perdeo! Aquelles Padres coitados Não tinhão tempo de seo; Levavão todo cantando Louvores ao pay do céo.
Louvores ao pay do céo, Que eu inda possa trovar, Quando não vejo nos mares Nossas quinas tremolar; Mas somente o templo mudo, Sem guarnimentos o altar!
Vejo os sinos apeados Dos campanarios subtiz, E a prata das sacristias, Servida em misteres vis, E ante os leões de Castella Dobrada a Luza cerviz!
Cant’eu, em bem que sou Padre, Diga que sou Portuguez: Arço de ver nossas coizas Hirem todas ao revez, Arço de ver nossa gente Andar comnosco ao envez.
Mercê de Deos! minha vida He vida de muita dura! Vivo esquecido dos vivos Na terra da desventura; Vivo escrevendo e penando N’um canto de cella escura.
Do meo velho breviario Só deixarei a leitura Pera escrever estes carmes, Remedio á nossa amargura; O corpo tenho alquebrado, Vive minha alma em tristura.
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Que armada de tantas velas, Que armada he essa qu’hy vem? Vem subindo Tejo acima, Que fermosura que tem! Nas praias se apinha o povo, E as cobre todas porêm.
Dão signays as fortalezas, Respondem signays de lá: Vem el-rey victorioso! Quem de gaudio se terá? O mar he todo bonança, O céo mui sereno está!
Ôco bronze fumo e fogo Já começa a despejar; Acordão alegres echos Os sinos a repicar; Grita e folgança na terra, Celeuma e grita no mar!
Vinde embora mui depressa Senhores da capital! Vinde ver Affonso quinto, Rey, senhor de Portugal; Vem das terras africanas Dar-vos festança real.
Nossos reys forão outr’ora Fragueiros de condição; Dormião quasi vestidos, Espada nua na mão; Nem repoisavão de noite Sem fazer sua oração.
Empresa não commettião Sem primeiro commungar, Sem fazer voto á algum sancto De tenção particular; Porêm victorias houverão, Que são muito de espantar!
Os vindouros esquecidos Da protecção divinal, Conhecerão os poderes Da benção celestial, Se contarem os mosteyros Das terras de Portugal!
Nossas capellas que temos, Nossos mosteyros custosos, São obras sanctas de Sanctos, Obras de reys mui piedosos; São brados de pedra viva, Que prégão feitos briosos.
Alguns já agora escarnecem Dos templos edificados; Dizem que foram mal gastos Os bens com elles gastados: Eu creio (Deos me perdôe) Que são incréos disfarçados!
E mais prasmão dos feitios De pedra, que Memphis tem, Sem ter olhos pera Mafra, Pera Batalha ou Belem! Oh! se a estes conheceras, Meo Frey Gil de Santarem!
N’aquella villa deserta Ainda se me afigura Ver elevar-se nas sombras Tua válida estatura, E ouvir a voz que intimava Ao rey a sentença dura!
E mais a tacha que tinha Era ser fraco, e não mais! Tu, meo Sancto, que fizeras, Se ouviras a estes tais, Que nos assacão motejos Ás nossas obras reais!
Mas vós, quem quer qu’isto lerdes Relevai-me esta tardança; São achaques da velhice: Vivemos de remembrança E em longas fallas fazemos De tudo commemorança.
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Já el-rey Affonso quinto Nas suas terras pojou: Alegre o povo o recebe, Alegre el-rey se mostrou; Abrio-se em alas vistosas, El-rey entre ellas passou.
Vem os muzicos troando Nos atabales guerreiros, Tangem outros istromentos Desses climas forasteiros, E traz elles vêm marchando, Passo a passo, os prisioneiros.
São elles mouros gigantes De bigodes retorcidos, Caminhão a passos lentos, Com sembrantes de atrevidos. Causa medo vêl-os tantos, Tam membrudos, tam crescidos!
São homens de fero aspeito, Homens de má condição, Que vivem na lei nojenta Do seo nojento alkorão, Que--vinho? nem querem vê-lo, Só por que o bebe um christão!
Vêm as moiras depois delles, Rostos cobertos com véos; Bem que filhas d’Agarenos, São tambem filhas de Deos; Se forão christans ou freiras, Serião anjos dos céos.
Luzião os olhos dellas Como pedras muito finas; Devião ser nas bruxas, Inda qu’erão bem meninas, Que estas moiras da mourama Nascem já bruxas cadimas
Huma dellas que lá vinha Olhou-me á travez do véo!... Foy aquillo obra do demo, Quasi, quasi me rendeo! Pensei nella muitas vezes, Valerão-me anjos do céo!
Via as largas pantalonas, E o pesinho delicado... Como póde pensar nisto Hum pobre frade cançado, Hum padre da Observancia, Que sempre come pescado?!
Emfim, dizer quanto vimos Não cabe neste papel; Vinhão muitas alimarias, Como achadas a granel; Vinha o infante brioso, Montado no seo corsel.
Vinhão pagens e varletes, Vinhão muitos escudeiros, Vinhão do sol abrazados Nossos robustos guerreiros; Vinha muita e boa gente, Muitos e bons cavalleiros!
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A Princesa Dona Joanna Sahio dos Paços reais; Era moça, e muito airosa, E dona de partes tais, Que todos lhe qu’rião muito, Estranhos e naturais!
Foy requerida de muitos E muito grandes senhores, Por fama que della tinhão, E por copia de pintores, Que muitos vinhão de fóra Ao cheiro de seos louvores.
E diz-se d’hum rey de França, Ludovico, creio eu: Hum pobre frade mesquinho Só trata em coisas do céo; Sabe elle que muito sabe, Se a bem morrer aprendeo.
Pois diz-se do rey de França, O onzeno do nome seo, Que vendo hum retrato destes Pera si logo entendeo, Qu’era prodigio na terra Quem tanto tinha do céo.
E logo sem mais tardança Cahio, giolhos no chão, No feltro traz arreliquias, Assi uza hum rey cristão; O seo feltro poz diante, E fez hy sua oração!
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Sahio a real Princeza, Sahio dos Paços reais Nos pulsos ricas pulseiras, Na fronte finos ramais; De longe seguem-lhe a trilha Muitos bons homens segrais.
Traçava hum mantéo vistoso Sobolas suas espaldas, E as largas roupas na cinta Prendia em muitas laçadas; Seos olhos valião tanto Como duas esmeraldas.
Tinha elevada estatura E meneyo concertado, Solto o cabello em madeixas, Pelas costas debruçado: Cadeixo de fios d’oiro, Franjas de templo sagrado.
Vinha assi a regia Dona, Vinha muito pera ver: O povo em si não cabia, Quando a via, de prazer; Era ella sancta ás occultas E anjo no parecer!
Debaixo das telas finas E dos brocados luzidos, Trazia á raiz das carnes Duros cilicios cozidos E humas crinas muito agras, Tudo extremos mui subidos.
Passava noites inteiras No oratorio a rezar, Dormia despois na pedra Sem ninguem o suspeitar: Extremos tais em princeza Quem n’os ha de acreditar?
No dia de lava-pés Ordenava ao seo Vedor, Trazer-lhe doze mulheres; E depois, com muita dôr, Chorando os pés lhes lavava, Honra de nosso Senhor!
E depois de os ter lavado, Não perdia a occasião, Despedia a todas juntas Com sua esmola na mão: Dizia que era humildade, E obra de devação.
E as mendigas prasmadas Sahião de tal saber, E perguntavão, quem era Aquella sancta mulher?! Máos peccados que ella tinha Só pera assi proceder!
O mesmo Vedor foy quem Isto despois revelou, Quando aquella humanidade Em o Senhor descançou; Dona Joanna era já morta, Elle porêm m’o contou.
Mas sendo tanto o resguardo Que guardava em coisas tais, Sabião algo os estranhos Por muitos certos signais, Que o ar he todo perfume, Se a terra he toda rosais.
He coisa de maravilha Que me faz scismar a mi, Que as donas d’hoje pareção Huns camafêos d’alfim, Não donas de carne e osso; As donas d’outr’ora--si.
Hoje leigos de nonnada (He lhes o demo caudel) Praguejão a meza escaça E as arestas do burel; Querem mimos e regalos, E jejuns a leite e mel.
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Lá caminha Dona Joanna, Regente de Portugal; Traz sobre si muitas joias Do thesouro paternal; Deos lhe pôz graça divina Sobre a graça natural.
«Acostou-se a comitiva, Muito senhora de si: Perante el-rey se agiolha, Disse-lhe el-rey: não assi! E ao peito a cinge dizendo: Não a meos pés, mas aqui!»
«Sois hum bom pay, Senhor rey, Tomou-lhe a sancta Princeza: Eu que sou vassalla vossa E filha por natureza, Peço mercê como aquella, Como esta peço fineza.»
Ficarão logo suspensos Todolos que erão aly, Ficarão como enleiados, Enleio tal nunca vi! Eis que a Princeza medrosa Começa a propor assi.
El-rey não lhe respondera; Que lhe havia responder? Boa filha Deos lhe dera. Que lhe havia defender? Sorrio-se, o bom rey quizera Muito por ella fazer.
A Princeza disse entonces: «De alguns capitães antigos Tenho lido, Senhor rey, Que, vencidos os imigos, Tornavão, a Deos fazendo Sacrificios mui subidos.
«Vião as coisas melhores Que dos seos reynos havião, E logo lh’as offertavão; E mercês tambem fazião, No dia do seo triunfo A los que justas pedião.
«Deslembrar a usança antiga Fôra de grande estranheza; Agora sobre maneira, Perfeita tamanha empreza, De tanto lustre aos do reyno, De tal honra a vossa Alteza.
«Digo pois a vossa Alteza, E digo com muita fé, Deve a offerta ser tamanha Quammanha foy a mercê, Não do nobre rey pujante, Mas do sancto rey qual he.
«A offerta que vos fizerdes, Será mercê paternal: Se quereis que corresponda Ao favor celestial, Deve ser coisa mui alta, Deve ser coisa real.
«Ao Deos que vence as batalhas Dai-lhe a filha muito amada; Dai-lhe a só filha que tendes Em tantos mimos criada: Será a offerta bem quista E do Senhor acceitada.
«E eu a quem mais custou De medos, esta jornada, Que muitas noitas orando Passei em pranto banhada, Sou eu, Senhor, quem vos peço Ser a hostia a Deos votada.»
Que sancta que era a Princeza, Que extremos de devação! Nos sembrantes dos presentes Vio-se, e não era razão, Que a nenhum delles prazia Deferir tal petição.
Sobr’esteve um pouco e mudo, El-rey, por que muito a amava: Aquelle dizer da filha Todo o prazer lhe aguava, Aquelle pedir sem dó Todo o ser lhe transtornava.
Encostou-se ao hombro della O pobre velho cançado, Chorou o triunfo breve E o prazer mal rematado, Não como rey valeroso, Mas como pay anojado.
El-rey despois mais tranquillo Rompeo o silencio alfi’; E entre afflicto e satisfeito Disse á filha: Seja assi!... Velhos guerreiros vi eu Chorarem tambem aly.
Cant’eu perdido entre o vulgo Não sei que tempo gastei, Nem sei de mim que fizerão, Nem tam pouco se chorei; Foi traça da providencia: Nisto commigo assentei.
Foy Jephté corajoso, O forte rey de Judá; Volta coberto de loiros, Quem primeiro encontrará? Sente a filha, torce o rosto... Nada ao triste valerá.
Qual d’estes dois sacrificios Soube a Deos mais agradar? Vai a Hebrea constrangida Depor o collo no altar, Vai a christã jubilosa! São ambas pera pasmar.
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Depois n’hum dia formoso, Era no mez de Janeiro, Houve huma scena vistosa Dentro de hum pobre mosteyro; Fundou-o Brites Leytoa, Dona mui nobre d’Aveiro.
Huma princeza jurada, Sobrinha d’altos Iffantes, Filha de reys soberanos, Senhora das mais pujantes, Era a primeira figura, Espantava os circunstantes.
Aly humilde e curvada, Pezar de todos os seos, Giolhos sobre o ladrilho E as mãos erguidas aos céos, Ouvi--exigua mortalha Pedir polo amor de Deos.
Cantemos todos louvores, Louvores ao Senhor Deos: Os anjos digão seo nome, Rostos cobertos com véos; Leião-n’o os homens escripto No liso campo dos céos.
Bom tempo foy o d’outrora Quando o reyno era christão, Quando nas guerras mouriscas Era o rey nosso pendão, Quando as donas consumião Seos teres em devação.
«Isto escreveo Frei Antão De vida mui alongada, Nossa Senhora da Escada O teve por Capellão.»
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GULNARE E MUSTAPHÁ.
Deos Senhor foy quem nos céos Pendurou milhões de estrellas, Foy quem matisou a terra De froles varias e bellas, Quem ao mar por ser pujante Areias deo por cancellas.
Mandou mais qu’arvoles fortes Das sementes germinassem, Que déssem froles mimosas, Que perfumes trescalassem, E mais fez que em tempo azado As froles fructificassem.
Pois aquelle anjo das trevas, Imigo da humanidade, Nas arvoles poz carcoma, Poz na frol muita ruindade, Poz nos céos a nuvem negra, Poz no mar a tempestade.
Nem só nas coisas terrenas Damna, e faz mal o tredor, A alma tambem por mil modos Tenta com geito e sabor, Que troca o prazer celeste Em penas d’eterna dôr!
Mas não foy jamais que Deos Em tal feito consentisse, Senão porque suas posses O homem bem claro visse; Que sem elle fôra o mundo Maldade só e sandice.
Mas que mal ha hy na terra Que não venha pera bem? Os d’aqui desta amargura Dão coyta, e gloria porêm; Dos outros que traz o demo Deos o remedio lá tem.
Do mal que me foy commigo Acontecido, al não sei, Senão que por amor delle Muito má vida levei, Que me dá coyta mui grave Do mal que me comportei.
Como já fiz penitencia, Ora farei confissão; Tal será, qual foy o escand’lo De que fui occasião: Não me tomem por modelo, Mas tomem de mi licção.
Não he pera honra minha, Mas pera honra dos céos, Que eu direi publicamente Os feios peccados meos; Toda a vergonha foy minha, Toda a honra cabe a Deos.
He uso assi na milicia Celeste, e mais na d’aqui: Dá batalha o cabo experto, Desses muitos que ha per hy; Toda a preza aos seos concede, Só lôa quer pera si.
* * * * *
A Princeza Dona Joanna Já vive dentro d’Aveiro; Comsigo trouxe os escravos, Que lhe trouxe o rey fragueiro; O que ás terras africanas Passou, e voltou primeiro.
Vierão aquelles feios Netos d’Agar, inda mal! Traçando vastas roupagens Á maneira oriental; Larga faxa na cintura, Na faxa largo punhal.
Era pasmo vel-os juntos Polas ruas passear, Passo á passo--graves, mudos, Com doairos d’espantar, Profundas rugas na fronte Rugas de máo meditar.
Levar traz si tanta gente Nunca a ninguem vi assi; Nem folias, nem cantares Vi com tal cauda apoz si, Bôdo, nem festa d’orago, Bufão, e nem bolati’.
Mas quem vio acaso as turbas Correrem traz algum bem? Vão todas apoz engodos, Apoz maldades tambem; Mas seguir a Deos por gosto Nem as vi, nem vio ninguem.
Com estes mouros descridos Vierão tambem aquellas Moiras, filhas da Mourama, Donas, creio, muito bellas; No trato e no galanteio Outras que tais Magdanellas.
Vinha tambem a menina, Aquella moira fatal, Que nas ruas de Lisboa Vi no cortejo real: Cortejo del-rey Affonso Vi-o eu, só por meo mal!
Quantas coisas que trazia, Nulla rem lhe estava mal; Dizião que tudo nella Tinha graça natural, Era coisa preciosa, Como coisa oriental.